• Nenhum resultado encontrado

Nas malhas da captura, eis os suspeitáveis

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 33-43)

1.1 Mapeando paisagens, compartilhando histórias: a tessitura de um trabalho

1.1.1 Nas malhas da captura, eis os suspeitáveis

Eu me formei suspeito profissional Bacharel pós-graduado em tomar geral.

Racionais MC’s, 1997

Um dos principais componentes do policiamento ostensivo é a possibilidade de uma ação que se faça preventiva e permita a antecipação dos agentes de segurança pública à prática da atividade ilícita, de maneira que seja viável identificar e neutralizar o sujeito em vias do cometimento delituoso. As abordagens policiais, forma coloquial de nomear a figura jurídica da busca pessoal, são situações cotidianas entre parte da população e a Polícia Militar na cidade do Rio de Janeiro. No encontro diário com as inúmeras pessoas que cortam as ruas e as avenidas da cidade – e, portanto, também o seu campo de visão –, ao agente policial militar, é demandado o reconhecimento, quase que imediato, de qualquer indício que sua experiência entender destoante da manutenção da ordem na dinâmica dos espaços públicos (RIBEIRO, 2009).

É o poder de polícia o dispositivo jurídico-constitucional responsável por autorizar a limitação dos direitos individuais, quando pela autoridade policial, reconhecidamente nocivos à manutenção do interesse conjunto. Os órgãos policiais inscritos no sistema de segurança pública fazem uso deste poder para desempenhar suas missões constitucionais. Dado que cabe ao Estado garantir direitos, dispõe-se do poder de polícia como instrumento de autoridade financiada pelo interesse coletivo e nas disposições legais, de modo a prevenir e reprimir ilícitos e assegurar a ordem (BONI, 2006). Nesta perspectiva, o poder de polícia, é apreendido como ato discricionário, legal e legítimo inerente à atividade policial cotidiana, que se desdobra na análise do equilíbrio entre os princípios de liberdade e autoridade, estes, por sua vez, orientados pelo interesse público, ou seja, a partir dos interesses dos cidadãos.

A definição atribuída no texto legal da Seção II, do Capítulo V do Código Tributário Nacional18 (CTN) faz saber que:

Art. 78. Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais e coletivos.

18 Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (BRASIL. Código Tributário, 2012).

Parágrafo único: Considera-se regular o exercício do poder de polícia quando desempenhado pelo órgão competente nos limites da lei aplicável, com observância do processo legal e, tratando-se de atividade que a lei tenha como discricionária, sem abuso ou desvio de poder.

Admitindo, portanto, que a razão do poder de polícia – agência não exclusiva aos policiais encarregados, mas passível de ser operada de diversas maneiras e por vários atores – é o interesse social, tem-se que a discricionariedade é um dos atributos específicos de seu exercício. Diante disso, a legislação outorga à autoridade policial elementos discricionários (e não arbitrários) para a análise da oportunidade de aplicação da medida nas intervenções junto à sociedade. Assim, de maneira legítima, os policiais estão autorizados a abordar pessoas que, em seus entendimentos, despertem suspeita de que possam vir a transgredir ou já tenham transgredido alguma norma legal (PINC, 2006). São, ainda, atributos do poder de polícia a autoexecutoriedade e a coercibilidade que indicam, respectivamente: a faculdade da administração de decidir e executar o ato de polícia por meios próprios e diretos e, portanto, sob a dispensa da intervenção do judiciário e o caráter de imposição coercitiva da ação de polícia, inclusive com o emprego legítimo da força física em caso de resistência do abordado (RIBEIRO, 2009).

Neste sentido, a “fundada suspeita” é a condição primeira para que o policial militar realize uma determinada ação de abordagem. Ainda em razão da “fundada suspeita”, o texto legal inscrito no Art. 244 do Código de Processo Penal (2017, p. 488) atesta sobre a execução da revista pessoal:

A busca pessoal independerá de mandado, no caso de prisão ou quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito, ou quando a medida for determinada no curso de busca domiciliar [grifo nosso].

Importante, ainda, para a contextualização da “fundada suspeita” de acordo com a lei penal, é o que pode ser verificado no Art. 239 do mesmo código: “considera-se indício a circunstância conhecida e provada, que, tendo relação com o fato, autoriza, por indução, concluir-se a existência de outra ou outras circunstâncias”. E, mais: em seu Art. 240 § 1º, tais objetos delituosos são identificados como coisas achadas ou obtidas por meios criminosos;

instrumentos de falsificação ou de contrafação e objetos falsificados ou contrafeitos; objetos necessários à prova de infração; cartas, abertas ou não, destinadas ao acusado de cometer o ilícito ou em seu poder, quando haja suspeita de que o conhecimento do seu conteúdo possa ser útil à elucidação do fato; e qualquer elemento de convicção (BRASIL. Código de Processo Penal, 2017).

Consoante às diretivas da Secretaria Nacional de Segurança Pública (2013, p. 17), a aplicação da revista, ou seja, do “ato de inspecionar corpo e vestes de uma pessoa com o intuito de encontrar algo que configure ilícito penal19”, deve ser considerada prática inconteste de coibição a crimes cuja função central é, portanto, garantir a ordem pública e a segurança da sociedade por agentes operadores do Estado. Nesta perspectiva, seguindo as modalidades de policiamento ostensivo definidas e reguladas pela Seção III da Diretriz Geral de Operações (DGO)20, publicada em Boletim Reservado, no ano de 1983, é passível de ação policial todo e qualquer cidadão presente em território brasileiro. Em vista disso, tomando os critérios formalizados no referido documento, as ações de policiamento devem ser divididas em três grandes categorias, assim representadas: ordinária, complementar e extraordinária (RAMOS;

MUSUMECI, 2005).

De maneira geral, sob a inscrição da DGO, entende-se por Policiamento Ostensivo Ordinário (POO) as práticas de responsabilidade das unidades operacionais da PM com circulação territorial, isto é, os batalhões (BPMs) e as companhias independentes (CIPMs), incluindo as modalidades de serviços a pé e a cavalo, patrulhamento motorizado ou fixo em cabinas, destacamentos e postos comunitários, policiamento de guarda ou, ainda, patrulha de trânsito urbano. Por sua vez, o Policiamento Ostensivo Complementar (POC) são as atividades que englobam operações planejadas com finalidade preventiva ou repressiva, visando trazer certo dinamismo ao POO. Cabe salientar que, quanto ao caráter preventivo, destacam-se tanto as ações de prevenção (A-Prev) pela intensificação da presença policial em locais, dias ou horários críticos – eventos de massa, proximidade de datas expressivas etc., com o objetivo de desestimular a prática de delitos e infundir uma sensação de segurança na população – quanto às operações intensificadas de orientação do trânsito urbano, sendo estas, ações especiais – festas populares, manifestações de rua e demais circunstâncias em que a circulação de veículos exceda o policiamento de trânsito regular (RAMOS; MUSUMECI, 2005; OBERLING, 2011).

Já o aspecto repressivo contempla, principalmente, as operações de ação repressiva (A- Rep), que se subdividem também em outras quatro categorias21: vasculhamento (A-Rep1),

19 Destaca-se a restrição contida no Art. 249 do CPP: "a busca em mulher será feita por outra mulher, se não importar retardamento ou prejuízo da diligência” (BRASIL, Código de Processo Penal, 2017). Devido ao recorte de gênero adotado na pesquisa, esta nota insere-se a título de ressalva não sendo, pois, intuito do trabalho avançar nesta discussão, decerto, importante.

20 Em razão do que consta em seu Art. 1º, a Diretriz Geral de Operações “tem por finalidade proporcionar aos diversos escalões da PMERJ os princípios para o planejamento de emprego do efetivo policial-militar nos diferentes tipos de policiamento, em conformidade com a destinação da corporação, fixada na legislação específica e mencionada nas bases doutrinárias para emprego da PMERJ” (Diretriz Geral de Operações apud OBERLING, 2011, p. 106).

21 São categorias de ação repressiva (A- Rep): A-Rep1 (vasculhamento): ação genérica de revista de pessoas e lugares suspeitos executada em áreas de grade densidade demográfica onde se suponha que haja incidência de

busca e captura (A-Rep 2), revista (A-Rep 3) e cerco (A-Rep 4), sobre as quais, devido às pistas produzidas no campo, me debruçarei com maior afinco neste trabalho. E, por último, a modalidade de Policiamento Ostensivo Extraordinário (POE), que diz respeito à preservação da ordem e da segurança em eventos especiais – partidas esportivas, desfiles cívicos, festas carnavalescas e outros eventos mais que envolvam grande aglomeração de pessoas (RAMOS;

MUSUMECI, 2005; OBERLING, 2011).

Conforme já referenciada, a Secretaria Nacional de Segurança Pública, órgão federal atualmente vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) lançou, no ano de 2013, a segunda edição da cartilha “Atuação Policial na Proteção dos Direitos Humanos de Pessoas em Situação de Vulnerabilidade”, elaborada por profissionais colaboradores pertencentes ao então Ministério da Justiça (MJ). De acordo com o próprio (à época) MJ, a cartilha, destinada a profissionais da área de segurança pública, é uma alternativa pedagógica que visa à qualificação da atividade policial quando do contato direto com a população, por meio do fornecimento de subsídios teóricos interessados no efetivo alinhamento entre as perspectivas garantidoras de direitos humanos e a aplicação da lei. Sobre as fundamentações da prática de abordagem, o documento não deixa sequer margem para dúvidas: “a decisão de realizar uma abordagem e o procedimento adotado não devem ser motivados por desconfianças baseadas no pertencimento da pessoa a um determinado grupo social” (Senasp, 2013, p. 15).

Ocorre, no entanto, que o conceito de “fundada suspeita” carece de conteúdo definidor preciso fomentando, assim, um complexo (e importante) debate no país. Da inexistência de parâmetros concretos, seja na legislação ou na formação policial, é o saber prático, quando das atividades de policiamento, que lhe atribuirá significados aplicáveis (SCHLITTLER, 2016).

Neste sentido, a ausência de definição legal parece ensejar que tais ações, a depender das circunstâncias, sejam orientadas por autorizações prévias relacionadas a uma gama de fatores determinantes da cultura vigilante, punitiva e (re)produtora da lógica de combate ao inimigo perpetrada por aqueles que detêm o poder – e também por aqueles que não se dão conta do poder que têm.

Das devidas previsões legais, Souza e Reis (2014) apontam que discussões sobre as possibilidades e os limites do uso da concepção de “fundada suspeita” como critério justificável

atividade criminal; A-Rep 2 (busca e captura): designa-se à repressão de crimes ou contravenções específicas, mediante à prisão de indivíduos com conduta desviante e a apreensão de materiais utilizados para a prática de delitos; A-Rep 3 (revista): ação inopinada em locais estratégicos, de revista a veículos particulares, coletivos e/ou carga, com a dupla finalidade de confiscar armamentos, entorpecentes ou outros materiais associados a crimes ou contravenções e de reprimir o roubo e o furto de veículos; A-Rep 4 (cerco): combinação de operações simultâneas de revista, com a função de coibir a fuga de criminosos em situação de delitos que envolvam múltiplos autores armados e motorizados (RAMOS; MUSUMECI, 2005).

às ações de abordagem e busca pessoal pela polícia já foi, inclusive, objeto posto em apreciação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por mais de uma vez:

A “fundada suspeita”, prevista no art. 244 do CPP, não pode fundar-se em parâmetros unicamente subjetivos, exigindo elementos concretos que indiquem a necessidade da revista, em face do constrangimento que causa. Ausência, no caso, de elementos dessa natureza, que não se pode ter por configurados na alegação de que trajava, o paciente, um “blusão” suscetível de esconder uma arma, sob risco de referendo a condutas arbitrárias ofensivas a direitos e garantias individuais e caracterizadoras de abuso de poder. Habeas corpus deferido para determinar-se o arquivamento do Termo (HC 81305, Relator (a): Min. ILMAR GALVÃO, Primeira Turma, julgado em 13/11/2001).

Em resumo, a abordagem policial, de acordo com o STF, causa constrangimento. Para ser justa deve ocorrer como meio de prova quando houver “fundada suspeita” de que a pessoa possui sob custódia coisa obtida por meios ilícitos. Valendo-se desta problemática, Ribeiro (2009) propõe algumas perguntas a serem colocadas em análise: “como trabalhar com a reconhecida questão do constrangimento que a abordagem causa”? Sua indagação reflete a complexidade que se inscreve quando tomamos em exclusivo o que denota a letra da lei. Neste caso, embora venha ferir a dignidade da pessoa humana na circunstância da abordagem – e não estamos falando aqui em termos de abuso de poder –, como então avaliar a ilegalidade do constrangimento se sua aplicação prática estiver ancorada no reconhecimento do interesse público? Do que completa o autor:

Como se vê, na perspectiva jurídica a abordagem pode ser legal desde que relacionada ao cometimento de crime. Mas, e nos casos em que não há crime? Não é missão constitucional da Polícia Militar a prevenção da ocorrência de delitos? Como atuar preventivamente se não for possível suspeitar da atitude de uma pessoa? (RIBEIRO, 2009, p. 38)22.

Para Bicalho (2005), a lei não garante a prática porque estes são instrumentos comprometidos com questões inscritas no campo da produção de subjetividades e não somente de ordem jurídico-legal – sobremaneira, quando colocamos em análise quem são hoje os suspeitos em um contexto que a própria polícia, cada vez mais, tem também se firmado como suspeita para a população. Assim, neste processo de construção, seja em ações de abordagem ou não, mais do que um fator de estrita intencionalidade, o que parece estar em jogo e atuar como força enunciadora na fabricação de “sujeitos (in)suspeitáveis” é a dimensão coletiva que constitui e opera a todos nós.

22 Quanto às atribuições das polícias militares, o Art. 144 da Constituição Federal (1988) assevera em seu § 5º:

“às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil” (BRASIL, Constituição Federal, 2012). As atribuições da Polícia Militar e outros aspectos relacionados à temática voltarão a ser tratados mais adiante.

Destarte, sob a aposta de que a relação se dá no encontro e imbuída do desejo de tomar meus interlocutores como parceiros no processo de construção do conhecimento lanço mão do dispositivo da entrevista como ferramenta voltada à produção e coletivização das questões do campo. Opto, pois, por sua dispensa ao nível da instrumentalização diretiva, à medida que não almejo utilizá-lo como recurso que se pretende aplicado à dimensão do saber irrestrito do entrevistador. Desta maneira, mais do que perseguir respostas fechadas a questões pré-definidas anseio, a partir de perguntas disparadoras e uma atitude sensível também ao que emerge nas singularidades dos diálogos – um saber que não está dado de antemão –, intervir e cultivar a experiência compartilhada, de modo que seja possível provocar a criação de novos sentidos.

Neste contexto, a entrevista como ferramenta de investigação não se constitui, aqui, como “a representação de um dado; ela acompanha a experiência na fala e não a fala sobre uma experiência” (SADE et al., 2013, p. 2817). Ainda segundo os mesmos autores:

Se a entrevista é não diretiva (pois seu desenrolar não é controlado pelo entrevistador) e faz surgir entrevistado e entrevistador de um novo modo, é porque a experiência a que ela dá lugar não se confunde com os fenômenos subjetivos de cada um dos participantes, vividos de modo estritamente individual ou privado. A experiência da entrevista permite com que os participantes surjam [...] de modo singular. Este surgimento coetâneo de si e de mundo acontece a todo momento, mas na entrevista ele pode ser contemplado como tal. Quem observa pode, então, reconhecer-se como corresponsável por aquilo que é observado, assumindo uma posição implicada frente ao que lhe aparece. No mesmo movimento, quem é observado pode sair da posição passiva de quem apenas fornece dados, também se corresponsabilizando com o conhecimento produzido (SADE et al., 2013, p. 2817).

Importante salientar que não almejo fazer um comparativo das vivências, mas pensar que/como arranjos, multiplicidades, afastamentos e aproximações são atualizados no exame do traçado das experiências em ações de abordagem. Recorro, portanto, às entrevistas como recurso à produção de um plano comum em que coexistam diferenças e seja composto por colorações e entoações diversas em um mesmo território a ser partilhado. Apreendemos, com isto, que “o plano comum não é apenas um pressuposto da entrevista, mas também seu efeito.

Acessar o plano é também traçá-lo. Não se trata de explicar sentidos prontos, já dados, mas de traçar as condições coletivas para diferir de si” (SADE et al., 2013, p. 2822).

Apesar da proposta cartográfica incluir a entrevista como dispositivo de investigação, nós, pesquisadores/as afinados/as com esta metodologia de pesquisa, não acreditamos que o pensamento de cada um, em sua totalidade, possa ser capturado no processo de coleta de dados.

Parece mais interessante, entretanto, o emprego do termo “colheita de dados” – dos porquês que cedem lugar ao como (PASSOS; KASTRUP; 2013). Uma vez que partilhamos da ideia de que entrevistar é intervir, compreendemos que neste processo mais do que a representação de

um mundo conhecido, interessa-nos o seu caráter produtor de sentidos, ou seja, de uma tradução tanto mais próxima quanto possível das experiências fabricadas e acompanhadas no campo, não visando exatamente à produção de histórias, mas o traçado de uma cartografia (DELEUZE;

PARNET, 2004).

Traduzir é realizar a passagem de uma língua a outra, sem que haja uma língua por trás, que pudesse funcionar como um ponto de vista externo, garantido ou afastado.

Estamos sempre numa língua ou noutra, não há uma língua por trás que constitua um solo seguro que garanta a passagem de uma a outra. Se não há correspondência de princípio, como conceber a passagem? Não podemos contar com invariantes que nos abririam para uma universalidade supostamente dada. Temos, ao contrário, que encontrar ou produzir equivalentes. Nos termos da pesquisa cartográfica, a equivalência produzida não é sinônimo de correspondência, mas se dá como sintonia no plano das forças [...] De todo modo, temos de estar convictos de que não há nem jamais haverá continuidade entre as línguas, subsistindo sempre um hiato irredutível (KASTRUP; PASSOS, 2013, p. 274-275).

Nas páginas que se seguem, considerando a complexidade que se inscreve no campo da segurança pública, faz-se necessário articular em seu desenho metodológico procedimentos quantitativos e qualitativos de maneira que seja possível ampliar a produção das múltiplas entradas sobre as questões em análise. “Não se trata de medir para entender, explicar ou reconhecer um mundo dado. Trata-se de acessar o plano das forças para avaliar os efeitos das relações, e como fazem vibrar o mundo” (CESAR; SILVA; BICALHO, 2013, p. 369-370).

Assim, além do uso de indicadores numéricos como recurso facilitador de acesso àquilo que foi examinado no campo, tentarei recolocar em escrita o que se deu também na ordem do vivido, isto é, o que pude experienciar quando do encontro com 24 homens que participaram de abordagens, dos quais: 10 jovens civis e 14 policiais militares. Homens que confiaram a mim suas histórias e fazem parte, portanto, da autoria deste trabalho de pesquisa.

Preservado o anonimato dos envolvidos, todos autorizaram que suas histórias fossem aqui compartilhadas. Da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), apenas um pequeno grupo de policiais solicitou que não fosse utilizado o recurso de gravação de áudio durante a nossa conversa. Neste caso, em alguns momentos as principais anotações foram feitas no desenrolar da entrevista ou imediatamente após o seu fim. Como estratégia de reafirmação política contrária a um sistema de segurança ditado pela guerra os nomes dos entrevistados foram substituídos pelos daqueles que, a serviço do Estado ou na condição de civis, em 2018, perderam suas vidas em decorrência de um projeto insano que há décadas assola a cidade do Rio de Janeiro.

Portanto, à medida que os entrevistados forem aparecendo pela primeira vez ao longo do texto, serão também apresentados em notas de rodapé outros vinte e quatro homens civis e

policiais militares a partir das chamadas veiculadas por meios de comunicação impressos e plataformas digitais que noticiaram suas mortes, de maneira que, em suas ausências, façam-se presentes em nome de tantos outros incitando-nos a recordar os custos da guerra. Cabe salientar que as demais informações – idade, cor/raça, local de moradia circunscrito por suas respectivas zonas geográficas (quando civis), além da posição hierárquica institucional representada pelo posto ou graduação correspondente (quando agentes policiais) – serão condizentes ao referido pelos próprios entrevistados.

Destarte, alguns números importantes de serem registrados: segundo matéria publicada pelo Jornal Extra23, no penúltimo dia do ano, tendo como base dados internos divulgados pela PMERJ, ainda que da diminuição dos índices em relação aos últimos anos, em 2018, foram assassinados, no Rio de Janeiro, 92 policiais militares. Do registro total, mais da metade das mortes ocorreu enquanto os agentes gozavam de seus dias de folga. Nesta mesma direção, segundo dados ofertados pelo Observatório da Intervenção24, foram contabilizadas no decurso da intervenção federal na segurança 1287 civis mortos em ações da polícia, um aumento de mais de 30% em relação ao mesmo período no ano anterior.

Vale sublinhar que ao longo do ano de 2017, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou diversas evidências sobre o drama da violência no Brasil e chamou atenção para o fato de que ela é racialmente concentrada, ou seja, faz de suas vítimas principais negros e negras.

Intentando conferir destaque ao dia da consciência negra, a organização compilou e publicou informações que oferecem uma amostra desta desigual realidade. Dos números divulgados, foi possível evidenciar que a cada 100 vítimas de homicídio, 71 delas eram negras. Dos mortos em intervenções policiais entre 2015 e 2016, correspondem a homens negros 76% do número total, enquanto que dos policiais que perderam a vida em razão dos crimes de homicídio no mesmo período, 56 % deles eram homens negros.

Nesta esteira, sobre os jovens civis, o processo de eleição dos entrevistados aconteceu de maneira gradual, quase sempre por intermédio de um participante que eu já conhecia e que, por sua vez, indicou algum amigo ou familiar abordado pela polícia ao menos uma vez. Com

23 Matéria publicada pelo Jornal Extra, em 30/12/2018.

24 Esta e outras informações estão presentes no relatório “A intervenção acabou. Quanto custou”? Material produzido e disponibilizado pelo Observatório da Intervenção ao término da política de segurança que vinha sendo empregada no Rio de Janeiro e que chegou ao fim após dez meses devido à posse do novo Presidente da República, Jair Bolsonaro, no primeiro dia do novo ano. Em fevereiro de 2018, foi assinado pelo presidente em exercício, Michel Temer, um decreto que autorizava a intervenção das Forças Armadas do Exército no Rio de Janeiro, determinando sua execução até o fim de seu mandato na Presidência da República sob justificativas, em pronunciamento televisionado, de que “o crime organizado quase tomou conta do estado do Rio de Janeiro.

É uma metástase que se espalha pelo país e ameaça a tranquilidade do nosso povo” (TEMER, 2018). Este assunto será revisitado e discutido na próxima seção.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 33-43)