PARTE II VOSSA EXCELÊNCIA O BRANCO
6. O branco-Narciso e a beleza como concessão
seguinte descreve a capoeira como exemplo para que o branco e o negro26 aprendam a valorizar a contribuição negra para sociedade brasileira.
Lourenço: Existe o projeto Capoeira nas escolas?
Mara: Eu já tive, existem municípios que aprovaram o projeto capoeira na escola, entendeu? Mas, esta capoeira não é para a criança sair da escola um capoeirista. Esta capoeira na escola é um projeto para que as crianças saibam o que é capoeira, o que tem dentro da capoeira, conhecer o mestre Bimba, o mestre Pastinha. Se a criança depois que sair da escola e quiser, ou durante a escola, sei lá, virar um capoeirista ela vai saber o caminho. Ela já vai saber que existe, a maneira que funciona mais ou menos e tal, agora não é para formar capoeirista. Quando ensina candomblé dentro da escola não é para formar candomblecista, quando ensina jongo dentro da escola não e para formar jongueiro, é para a pessoa saiba que existe. As pessoas têm que saber qual é a historia. Saber que existe. Conhecer os personagens marcantes, conhecer como as coisas aconteceram. Acho, que neste sentido, muda muito a vida das pessoas, muda muito para os brancos que só tinham Tiradentes, Pedro Álvares Cabral. Existe um monte de referência branca na história do Brasil e pouco conhecemos de Zumbi que aparece uma vez no ano lá na escola.
A Mara detalha a importância de outras referências além de brancos, ou Zumbi dos Palmares, num único mês. A capoeira, o candomblé são conhecimentos e saberes fundamentais para que a criança branca obtenha uma visão de mundo mais ampla e desconstrua a ideia de superioridade atrelada a sua branquitude (Schucman, 2012).
medo ou repulsa, mesmo que ainda não possua uma explicação do porquê sente tal sensação.
Há que se considerar o elemento da cultura e da História. Existem coisas e seres que tantas gerações nos causam repulsa que perdemos o lastro do motivo profundo. Enfim, por que alguns animais são feios, alguns insetos são feios e outros são bonitos, o humano define com base em sua cultura e história.
Quanto ao humano não-branco, por que é feio? (Ramos 1995[1957]a) Ou no máximo menos feio? De acordo com Umberto Eco uma das primeiras razões foi o medo (Eco, 2007).
Eu temo o Outro assim transformo-o em feio. O Outro é feio, diga-se de passagem, porque é diferente de mim, ou seja, o Narciso. Além disso, também há de se considerar que o embelezamento branco de forma restrita é uma de suas características narcísicas (Bento, 2002b). O branco como padrão normativo único é um espaço onde somente ele cabe. Ao considerar o não-branco como belo, mesmo que menos belo, trata-se de uma concessão da branquitude. Umberto Eco também dirá que, especialmente, na modernidade a concepção do que é belo e feio se misturam (Eco, 2007). Isto pode ser visto nas expressões artísticas modernas e contemporâneas (Schwanitz, 2006).
Na perspectiva narcísica da cultura ocidental (Bento, loc. cit), o feio como belo ou considerar o “feio27” belo é um alargamento da concepção de beleza restritiva. Isso significa que é possível encontrar o belo no Outro. Porém, não deixarão de ser “belezas inferiores”, caso possam realmente ser considerados como belos. Na hierarquia da beleza, os Outros grupos humanos mais belos serão aqueles que se aproximarem da brancura, nos termos culturais da ocidentalidade (Guenée, 1981; Said, 2004). Quanto ao feio nunca deixará de existir, mesmo com todo o alargamento do conceito de belo. Se o branco é padrão do que é belo, o negro será o modelo do que é feio. A Nathália contribui com esse assunto de estética e o branco no trecho subsequente.
(o padrão de beleza)
Nathália: Bom evidente, como eu já disse, anteriormente, o padrão de beleza é estabelecido a partir da mulher branca, e não da mulher negra. O cabelo, a cor da pele, etc. e tal. Como me vejo como branca e a maioria das pessoas me vêem assim torna a vida mais fácil, é confortável você se sentir bem consigo. Diferente daquilo que acontece com a negra, o tempo todo existe alguém falando que o seu cabelo não é bonito, que a sua pele não é bonita, que o seu nariz não é bonito, que os seus traços não são bonitos. Acho que a mulher branca tem esta vantagem, ela não precisa se esforçar para se encaixar neste padrão de beleza. Enquanto que a mulher negra para se encaixar neste padrão de beleza, ela tem que alisar o cabelo, tem que usar uma maquiagem para alterar os traços do rosto, tem que esconder o tamanho do quadril ou disfarçar o volume dos seios, etc. e tal.
27 Neste caso “feio” entenda-se como não-ocidental e não-branco.
A Nathália irá pontuar que o padrão de beleza, realmente belo, é o do branco. No caso da mulher branca ela recebe elogios pela sua brancura, enquanto a mulher negra é apontada o tempo todo como feia. Nisto ela pode procurar “ajustar” sua corporeidade ao padrão do corpo branco. A possibilidade de se sentir bem consigo mesma com o incentivo social é algo comum ao branco, considerado bonito, e terá que ser reivindicado pelo não branco. No que se refere à uma comparação entre as brancuras. Agora, a Alice contribui com o assunto.
(A hierarquia da beleza)
Lourenço: Podemos dizer que existem hierarquias entre os próprios brancos?
Alice: Sim, com certeza existem, bom aqui28 existe hierarquia quanto a sua descendência, se você é descendente de alemão ou se você é descendente de italiano isso já hierarquiza. Também existe a questão do tipo de branco que você é, eu, por exemplo, sou branca demais entre os meus familiares brancos, no meio branco onde eu vivo. Inclusive, já ocorreu bullying infantil na escola, eu sofria por ser branca demais e não estava no padrão da branquitude, digo, de cor da pele ideal para uma pessoa branca.
Lourenço: Sua cor da pele era branca demais?
Alice: Sim, branca demais, então sofria o bullying na escola por ser branca demais, eu não estava no padrão de brancura ideal.
Lourenço: Você não pode ser branca demais, que não é o seu caso, mas, branco em excesso é considerado branco demais, ele é chamado de “branquelo”? Não é o seu caso?
Alice: Todos os apelidos “branquelo”, “farinha”.
Lourenço: Quando você era criança era o seu caso?
Alice: Era o meu caso por ser “branca demais”, mas quando a gente cresce, as pessoas falam que é sempre bom ser branquinha “e não sei o quê”? Quando eu pego um torrão de Sol, ou alguma coisa assim, fico vermelha e reclamo, dai sempre tem alguém que vem e diz: ah, mas é muito melhor você ser branquinha assim, como se o fato de ser branca fosse mais do que os Outros.
Lourenço: Cabelo loiro é mais branco?
Alice: É.
Lourenço: Cabelo loiro é ser mais branco do que ter cabelo preto?
Alice: Ser loira é melhor. Lembro das minhas primas me perseguindo, porque elas eram loiras e eu não. Como elas entendiam que elas eram melhores por serem loiras, por terem olho azul, por exemplo.
Lourenço: Existem vários detalhes, questão do corpo, olho azul, cabelo loiro.
28 Refere-se à Santa Catarina.
Alice: Loiro, se o cabelo é liso, se é loira de olho azul e liso, nossa, esse é o “top” da brancura.
Lourenço: É o padrão ideal?
Alice: Sim, padrão ideal.
Lourenço: Tanto para o homem quanto para a mulher?
Alice: Sim.
A Alice trata de muitos detalhes do que seria o branco ideal, o branco belo. No entanto, chama a atenção de que ser branco demais, principalmente, quando criança entre os próprios brancos torna-se “feio”,“etnia”; “nova etnia”, ou mais propriamente, “branquelo”.
Contudo, por maiores que sejam alguns estorvos que o “branquelo” possa encontrar, especialmente, quando criança e adolescente no ambiente escolar. Ao crescer, a sociedade vai lhe dizer que é bom ser branco, no sentido de que é ser melhor do que ser não-branco. Por fim, em termos de brancura, “o branco mais belo” entre “os belos brancos” será o homem louro, alto magro de olhos azuis e depois mulher com essas mesmas características. O padrão de beleza não deixa de ser uma cobrança que atingirá de forma diferente a mulher e o homem branco. A Nathália exprime mais a respeito:
(A mulher e o homem branco e a beleza)
Nathália: A mulher é muito mais cobrada, uma consequência de um pensamento extremamente machista pelo qual a nossa sociedade foi erigida. A mulher sempre é colocada como um objeto. No caso, a beleza é fundamental, ela tem que ser bonita para ser bem vista, para ser aceita. Uma necessidade que não é tão imposta ao homem. Evidentemente, que também existe uma cobrança de que homem esteja bem-apessoado. Mas, não é uma cobrança tão grande quanto em relação à mulher.
Ela tem a obrigação de estar constantemente bonita porque é um objeto de consumo.
Então ela tem que estar sempre pronta ao consumo, é como se ela sempre tivesse numa vitrine.
A Nathália pontuou muito bem a relação da mulher branca, neste caso, também não- branca. Ela tem por “obrigação” estar sempre “bonita”, “sempre apta ao consumo”, por causa de nossa sociedade machista (Brah, 2006). Os homens não vivem sob essa pressão. No entanto, a beleza numa comparação entre a mulher e o homem branco e o não-branco. Eles sempre obterão maior vantagem na busca pelo emprego por causa da branquitude. Assim como trata a Elis.
(O branco, a beleza e o emprego)
Lourenço: Em que momento ser branco é desvantagem?
Elis: Bom, às vantagens são no sentido de maior visibilidade, de maior possibilidade de encontrar maior representatividade na mídia, em todos os espaços que a gente frequenta, isso é inegável. Eu não tenho como negar os benefícios ou vantagens que
o branco encontra, ele adquire maior oportunidade. Consigo vislumbrar muitas vantagens que consigo por ser branca, por causa desse padrão, “dessa carinha bonitinha”. Existe a questão do emprego, da exigência de boa aparência. A minha aparência é aquela que desejam quando vou procurar serviço, quando estou num banco escolar. Sou o padrão que a escola também quer, ou seja, eu não conseguiria enxergar as desvantagens de ser branca. Eu só consigo enxergar as vantagens que já apontei. O branco foi construído como padrão mais bonito, mais inteligente ou adequado para assumir emprego, para assumir espaços públicos, enfim.
Eu perguntei, e a Elis não conseguiu encontrar uma desvantagem em ser branco. Além do mais, pontuou pontos de vantagens como a representatividade na mídia e nos outros espaços de poder. No que se refere à beleza, ser branco significa ter boa aparência, e esta é a vantagem que o branco possui, simplesmente, por causa de sua corporeidade em relação aos Outros, em particular, o negro. Logo, ser branco, quando considerado como “belo branco”
possui vantagens concretas de sobrevivência na concorrência do mercado de trabalho. A próxima pessoa a ser citada, o Clayton tratará de outro tema a respeito de branquitude e estética
(A valorização da estética do Outro)
Clayton: A geração da década de oitenta, acho que a nova geração da década de noventa, já começa a ter um contato com as artes africanas, assim, ela não precisa achar que a arte africana é igual à arte afro-brasileira, existe uma diferença enorme.
Acredito que a cultura, a arte, tem um papel importante para quebrar esses estereótipos. E a aceitação do Outro passa necessariamente pela aceitação da sua estética.
O Clayton destaca que a valorização do Outro passa pela “aceitação de sua estética”.
Uma receptividade que não deve se enquadrar na ideia de “menos bela”, “exótica”. E sim, ser bela, simplesmente bela. Não beleza inferior a qualquer outra cultura ou sociedade. Todavia, isso ainda nem sempre acontece. Assim como nos revela a Mara.
(O branco numa estética negra)
Lourenço: Como explicar a “super-visibilização” do negro e ao mesmo tempo a invisibilização do branco na teoria e discussão sobre relação racial no Brasil?
Mara: Quando eu era mais jovem, não refletia sobre estas coisas. Não percebia desta forma, mas, é uma supervalorização, neste sentido, eu sou ousada. Ao entrar na capoeira eu achava a estética de dreads muito legal. E tive dreads durante seis anos e foi uma das experiências mais marcantes em termos de identidade, de pensar minha branquitude. Foi marcante, principalmente, pelos episódios negativos, refiro a quando fiz dreads que é uma estética ligada mais a cultura “afro”, por isso houve a resistência da minha família a este visual que adotei. Minha família, pai, mãe foi um pouco difícil, mas, depois me afirmei com eles, no entanto, na família mais estendida teve várias reações adversas, difíceis. Houve casos de pessoas, muito queridas, que eu considerava que me amavam do jeito deles, no entanto, eles passaram a não me abraçar direito, passaram a tirar “onda do meu cabelo”, passaram a me tratar de uma forma completamente estranha só porque eu estava com os dreads. E na rua com os dreads, quando eu entrava nos restaurantes havia os olhares. Então você começa a perceber. Eu que sempre fui “super-valorizada” passo
a ser estranhada, tive essa experiência durante seis anos de ser uma estranha, uma loira de dreads. Na época não tinha muitas mulheres de dreads, quanto menos loira, dos olhos verdes, branquinha. Quando eu ia por exemplo, a Salvador, Bahia ninguém achava que eu era brasileira, todo mundo achava que eu era “gringa”
porque jamais uma mulher branca iria fazer dreads, uma mulher branca, brasileira?
Não, não é?
O depoimento da Mara coloca, com muita propriedade, que a estética negra ainda é desvalorizada. Nas circunstâncias, por ela descrita, a estética negra não seria considerada nem menos bela, “outra beleza”, “beleza exótica”. Ela seria realmente feia. Para as pessoas as quais citou, na mentalidade racista é perfeitamente compreensível que um negro, ou negra, procure se enquadrar na estética branca. Ao alisar os cabelos, por exemplo. Entretanto, é incompreensível o branco querer se aproximar do padrão de corporeidade negra, da negrura.
A Mara ao decidir-se trançar seus cabelos, usar dreads causou esse estranhamento. Ela enquanto branca loura, uma branca no patamar mais elevado da hierarquia da branquitude entre os próprios brancos, optou por regredir, “enfeiar” sua corporeidade devido sua identificação com estética e cultura negra (a capoeira). Diante de sua ousadia, ou falta de senso, enfrentou a pressão para voltar ser bela, ou mais bela. A começar pelos membros próximos da família, a família estendida e depois pelas ruas. Enfim, todos aqueles que não entendem como um branco belo pode considerar belo o que não é o espelho.