O sociólogo Gilberto Freyre, em Casa-Grande e Senzala, defende que o principal antagonismo do período colonial ocorre entre o colonizador português e o colonizado africano (Freyre, 2001, p. 125). Oposição também evidenciada nas obras de Albert Memmi Retrato do Colonizado e Retrato do Colonizador (Memmi, 1989) e de Frantz Fanon em Os Condenados da Terra (Fanon, 1979). O encontro entre os diferentes forjou indivíduos, sociedades, povos, nações, Estados. Restringindo-me à dualidade “Eu” e o “Outro”, o encontro entre os “dois mundos” levou a oposição binária colonizador e colonizado, consecutivamente, escravizador e escravizado, europeu e africano, finalmente, cidadão branco livre e cidadão negro livre (ou subcidadão negro livre).
De nossa tríade matriz (índio, branco e negro), o indígena foi “escanteado”93,
“isolado”, “deixado de lado”, “invisibilizado”, tornando nossa tríade matriz originária numa díade matriz (Lesser, 2001, p. 30-31). A díade matriz colonial e escravista é o antagonismo essencial do nosso modo de pensar da razão dual racial. O modo de pensar fruto da história colonial e escravista moderna (relação europeu-africana) é o pensamento fruto do conflito em que o europeu sagrou-se “o vencedor” militar. Dessa forma, coroou-se como proprietário de corpos e de terra, “proprietário de tudo”, isto é, o colonizador. O colonizador tornou pessoas livres em escravizadas, tornou pessoas escravizadas em “escravizadas racializadas”. O que equivale a dizer, transformou o africano quando escravizado pela lógica e cultura das populações africanas em subumano escravizado pela lógica e cultura europeia. A escravidão moderna se vinculou à ideia de raça. Dessa maneira, construiu socialmente o Outro como inferior, africano, escravizado, negro.
A construção do Outro como colonizado, praticada pelo colonizador, foi violenta (Fanon, 1979, p. 40). A violência ocorreu de forma explícita e dissimulada, isto é, violência com roupagens de delicadeza, paternalismo, “proteção”. Refiro-me ao ato “paternalista”
93 Assim como mencionei no Capítulo 1 no item O branco brasileiro ser não-hifenizado.
praticado pelo “opressor bondoso”, quando “defende” o “humano”, o “subumano”, a “coisa”, o “objeto” que lhe pertence. É provável que nutra simpatia pelo seu “colonizado”, seu
“negro”, sentimento semelhante aquele destinado a um animal de estimação, ou menor, afeição destinada a uma planta, um chapéu. A maior façanha do colonizador será convencer o colonizado de que a opressão e a exploração que vivencia é produto da natureza, de deus, da ciência94.
Frantz Fanon e Albert Memmi nos mostram que a construção do Outro é a própria construção de si. “O retrato do colonizado é precedido pelo retrato do colonizador” (Memmi, 1989; Fanon, 1975, p. 23-30). É um jogo de espelho em que os contrários apresentam-se como opostos perfeitos. O jogo ocorre entre “o perfeito desejo” [o europeu] versus a “perfeita repulsa” [o africano]. O jogo de espelho que leva a desumanização, a insanidade. O complexo de superioridade versus complexo de inferioridade (op. cit, p. 72). A oposição binária: Eu e o Outro se constroem95 mutuamente de forma maniqueísta, como a ideia de Deus e o Diabo.
A existência de um somente se afirma com a existência do outro. Por outro lado, a dualidade Deus e o Diabo para comparar com o binarismo: branco e negro não é adequada, pois Deus não escravizou o Diabo. Além do mais, o Diabo pode ser considerado “símbolo de rebeldia”, “transgressão” de oposição ao Deus judaico-cristão, entidade pré-existente que se coloca como um “sistema perfeito”, como “ideal de perfeição”. Quanto à transgressão,
“característica diabólica”, segundo a ilustração apresentada, o colonizador procurou minimizar o espírito transgressor do colonizado. Utilizou-se de uma “pedagogia da opressão”, cujo objetivo era convencer o colonizado e a si mesmo de que a opressão que vivia era natural, não produto sociocultural, histórico-econômico e filosófico.
Para assegurar o funcionamento da fábrica, porém, não basta ao colonizador a superioridade militar e tecnológica, deve além disso legitimar o empreendimento, aos olhos do colonizado e aos seus próprios olhos Deve, pois, fabricar a ideologia do colonialismo, tentativa de justificação a posteriori em termos racionais, do domínio e da espoliação a que submete o povo conquistado. E, qual poderá ser o conteúdo dessa ideologia? Só poderá ser uma superioridade do colonizador, que implica obviamente, como contrapartida, a inferioridade do colonizado (Corbisier, 1989, p.
7).
Portanto, a construção de “si” e do Outro, no período da “colonização”, possui como fio indutor muito mais do que a violência física e psicológica ou outras formas de constrangimentos. O colonialismo utiliza do argumento que é sua própria cultura, coloca-se como padrão normativo para persuadir, “educar” (domesticar) o Outro. Nisto, faz uso da
94 et al.
95 Construto sociocultural, histórico e econômico.
“força” “bélica” e “simbólica” de sua suposta cultura superior. A cultura branca, cultura ocidental, cultura civilizada; cultura bela; cultura inteligente; cultura superior. O oprimido é inserido na cultura numa hierarquia inferior. No decorrer do tempo, o colonizado, o escravizado, o oprimido passa a considerar-se “inferior-dependente” do superior. Um ser que é “um nada nesta vida”, uma “Macabéia” (Lispector, 1998), uma Clara dos Anjos (Barreto, 2012). A partir da mentalidade, da autoimagem com complexo de inferioridade (Fanon, 1975, p. 72), o oprimido contribui com o giro da roda viva autodepreciativa. Ele passa a se considerar “o mais feio entre os feios”, assim contribui com a construção sociocultural histórico-econômica e filosófica “do branco como o mais belo entre os belos”.
Diante de tudo disso, é fácil compreender a razão que leva muitos não-brancos desejarem ser branco, ou ser menos negro. O mestiço, quando mulato, quando o fenótipo permite, até quando não permite, deseja ser bonito. Deseja deixar de ser feio, tão feio! Deixar de ser negro, deixar de ser mulato. Deseja deixar de ser repulsa para se tornar desejo. Ele ambiciona tornar-se “desejo” não apenas em termos estéticos. Objetiva tornar-se desejo em todos os termos valorizados pela cultura branca (Mignolo, 2003, p. 648). Ele objetiva torna-se desejo no sentido de inteligente, culto, educado96 nos padrões eurocêntricos (Schwanitz, 2006, p. 343-361).
Em suma, no conflito racial, o branco, no primeiro momento, possui a força para construir-SE e construir o OUTRO. Ele como superior; o Outro como inferior. Ele como ser desejável; o Outro como ser repulsivo. No segundo momento, o próprio oprimido introjeta e repete as ideias depreciativas ao seu respeito e elogiáveis a respeito do opressor. Neste instante, a opressão torna-se mais eficiente, trata-se do fenômeno que Albert Memmi define como “ideologia colonial” (Corbisier, 1989, p. 7). Frantz Fanon define como complexo de inferioridade, diga-se de passagem, que o complexo de inferioridade do negro somente existe no jogo de espelho ao complexo de superioridade do branco. Portanto, é uma dupla insanidade para Frantz Fanon (op. cit, p. 72).
Portanto, a oposição binária: branco-negro leva a construção social do opressor como ser desejável e do oprimido como ser repulsivo, por causa da ideia de raça atrelada ao racismo. Diante disso, poderia dizer que o próprio negro, além do branco evidentemente, reconstrói, realimenta o estereótipo, a ideia de que é um ser repulsivo e a do branco como um ser desejável. Trata-se de uma das construções sociais da ideia de branco e de negro originária do conflito racial, a base dual racial de nossa forma de pensar da razão dual racial.
96 et al.