Nos primórdios da colonização, o corpo do negro representava o pecado, nascia pecador99. O negro foi amaldiçoado pelo seu deus Javé. Esse episódio foi narrado em duas histórias bíblicas. A primeira relativa aos irmãos Caim e Abel e a outra a respeito de Noé e seus três filhos Sem, Cam e Jafé. Na primeira história, Caim e Abel eram os filhos de Adão e Eva, os primeiros humanos a povoar o Planeta. Abel era o filho preferido pelos pais e por Javé, isso estimulou os ciúmes de Caim. O sentimento foi tão intenso que o levou a matar o irmão. Em virtude do crime chocante, Javé questionou Caim, que se fez de desentendido.
Porém, Javé disse que podia ouvir o clamor do sangue do seu irmão e, em seguida, o expulsou do Paraíso. Antes de bani-lo, condenou toda sua descendência a se tornar escravo da descendência do irmão assassinado. Javé colocou uma marca em Caim para que sua linhagem fosse identificada (A BÍBLIA, 2001, Gen Cap. 4, p. 37). Essa a marca seria o corpo negro, e o território em que os descendentes de Caim foram habitar seria a África (Bosi, 1992).
Em virtude disso, os ideólogos cristãos justificaram a escravidão africana do seguinte modo: os europeus seriam descendentes de Abel e os africanos seriam descendentes de Caim.
A escravidão do africano justifica-se por causa da maldição jogada pelo próprio deus (universal, logo, supostamente de todos). Maldição destinada aos descendentes daquele que praticou o primeiro crime da humanidade. Significa isso que o negro é um ente amaldiçoado pelo deus Javé, deus judaico-cristão.
Pela lógica, no que diz respeito a Abel, tratava-se de um personagem branco, branco que permaneceu branco, pois não foi amaldiçoado, não enegreceu. Abel seria branco como o pai Adão e a mãe Eva100. Seria branco como Javé, a imagem do deus judaico-cristão. “O deus
99 Diferente do branco e de todos os outros grupos que na medida em que aceitasse Jesus Cristo como o “senhor”
filho de Javé pelos rituais do batismo, catecismo e crisma, além de frequentar a Igreja Católica frequentemente, confessando seus pecados, diante de tudo isso se livraria do pecado. O primeiro passo era o batismo que pode ser em terna idade.
100 A imagem dos personagens bíblicos como Javé, Adão, Eva, Maria, Jesus Cristo, etc. representados como brancos eurocêntricos ganham força no Renascimento através das obras de artistas renomados como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Rafael Sanzio, Sandro Botticelli e outros. No entanto, são personagens que pelo espaço
que criou o homem a sua imagem e semelhança” (A BÍBLIA, 2001). Assim, o primeiro crime da história da humanidade foi o assassinato de um branco praticado por outro branco. Seu ato foi tão terrível que deus o castigou, o tornando negro e escravo. Portanto, podemos intuir, a partir do Gênesis, o significado da identidade branca “na origem de tudo”. Ser branco significa ser semelhante ao deus Javé, logo, perfeito, graça. O negro, em consequência, significa o contrário, dessemelhante de deus, portanto, imperfeito, desgraça, maldito, escravo101.
Com base na mitologia bíblica, em termos geográficos, no princípio o branco localiza- se no Éden, depois de expulso funda a Europa. Enquanto o negro, o “ex-branco” expulso do Paraíso torna-se negro e fundará a África. Essas informações e, outras, podemos interpretá-las (extraí-las) dos versículos bíblicos. No entanto, há outro episódio de amaldiçoamento do negro, faço menção à história de Noé e seus três filhos Cam, Sem e Jafé.
Certa vez, Noé embebedou-se e ficou nu. Seu filho Cam ao encontrá-lo em situação vexatória fez com que ele soubesse, isto é, o desrespeitou. Os outros dois filhos, Jafé e Sem, quando viram o pai em situação vergonhosa, tratou de cobri-lo, com o cuidado de não observá-lo. Na manhã seguinte, ao saber do ocorrido, o patriarca ficou irado com a atitude de Cam e o amaldiçoou. Ele o condenou e a seus descendentes a serem escravos dos descendentes de Sem e de Jafé (A BÍBLIA, 2001, Gen Cap. 9). Os amaldiçoados, os descendentes de Cam seriam os africanos. Logo, seria justificável a escravidão dos africanos praticada pelos europeus, já que os europeus eram descendentes de Jafé.
O episódio bíblico sobre a maldição de Noé reforça a ideia do negro como amaldiçoado. Maldição que justifica a escravização do africano pelo europeu, e legitima a escravidão do negro pelo branco. Diante disso, é possível intuir que a escravização do africano seria culpa do próprio africano, por causa do desrespeito do seu “patriarca da raça”, o personagem bíblico Cam. O europeu, ao escravizar o africano, não estaria praticando um ato maléfico, condenável, “diabólico”, simplesmente, cumpria sua missão divina.
Logo, ser europeu, ser branco significou ser escravizador. E escravizar, não seria um ato condenável, pois o escravizador estaria cumprindo uma missão divina. O europeu é um descendente de Jafé, um dos três filhos de Noé que agiu de forma digna para com o seu pai. O europeu, o branco ibérico e o branco anglo-saxão, no período colonial, cumpriu sua missão geográfico de origem, caso de Maria e Jesus Cristo poderíamos classificá-los como orientais, portanto, não- brancos, porém, a cultura ocidental embranqueceu esses personagens.
101 Dagoberto José Fonseca aponta que na visão de mundo do Candomblé podemos encontrar uma concepção contrária a judaico-cristã, nela a cor branca pode ser entendida como uma “deficiência”, não como dádiva de Javé. O autor irá concluir que será com base “em sua cultura, religião, história e ideologia que o homem conceitua o outro” (Fonseca, 2012, p. 72-73).
divina ao escravizar o negro africano. Realizou uma tarefa árdua, violenta, sofrível um
“fardo”; o “fardo do homem branco” (Santos, 2006b).
Diante disso, o branco é o humano; o negro, um fardo. Um “fardo-herança”, que o branco teve que carregar durante a colonização, por causa da atitude do seu “patriarca da raça”, Caim ou Cam. Um fato que ocorreu no longínquo passado bíblico. Daqui se extrai a ideia de que ser branco significa “ser o carregador”, deixando-nos a seguinte indagação: Até quando o branco deveria carregar o fardo? O fardo que é o negro? Ad infinitim102? Até Javé dizer que basta?
Por outro lado, o negro, é “o peso”; “o peso vivo”. “O peso humano objetificado”.
Portanto, desumanizado. Se humano? É um humano num nível hierárquico inferior. O negro é
“um peso ao branco com pés indolentes”. Os pés do negro estariam preguiçosos por viverem nas costas do branco. Portanto, o branco transgressor em sua relação com o negro será aquele que joga o negro no chão, obrigando-o a andar com os próprios pés. Livrar-se do “peso vivo”
é primeiro passo do branco para se libertar da insana relação de co-dependência: branco-negro (Fanon, 1975). Os negros são as mãos dos “brancos coloniais” (“brancos de mentes colonizadas”). O negro simboliza as mãos que prepara a comida, as mãos que executam os serviços domésticos da Casa-Grande, as tarefas da lavoura, minério, tantas outras funções, ourives, carregadores, quituteiros103. E na sociedade moderna, muitos negros ainda persistem em funções subalternas.
Diante dessa metáfora de “negro fardo” ao cair no chão, “o negro de mente colonizada” que vive nas costas do branco “de mente colonizada” ao ir ao chão inicia o processo de sua autonomia. Depois do impacto inicial, ao se levantar, ao superar o formigamento de suas pernas indolentes, ao ousar os primeiros passos, ao enfrentar o mundo hostil, ele proprietário somente do corpo e da sua mente marcada pela escravidão, ao se levantar, ao enfrentar as adversidades do mundo caminha em direção a sua liberdade (Sartre, 2002; 2013). Dessa forma, deixa de ser “peso vivo”, deixa de ser um humano objetificado para se tornar pessoa. A relação de “co-dependência” branco-negro é produto da mentalidade colonial (Fanon, 1971). O caminho para emancipação do branco e do negro é diferente. O branco e o negro para se tornarem pessoas, compete à tarefa de se livrar das amarras mentais fruto do colonialismo. Refiro-me ao colonialismo mental que persiste na ideia de branco e na ideia de negro, na branquitude e na negritude.
102 Até o infinito?
103 et al.