Karina Sartori Flores
não apenas a existência de novos tipos, mas a manutenção dos direitos e liberdades já garantidos, sob pena de declinar de direi- tos essenciais por fundamento em sentimentos de insegurança, muitas vezes ressaltados pelo interesse midiático de instalar o caos e o medo na sociedade, pois recuados, os cidadãos cedem aos reais interesses dessa sociedade eminentemente centrada em interesses econômicos e não sociais.
A ilusão da sociedade de risco alimentada pelo Direito Penal Simbólico
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Penha Maia Fernandes, vítima de tentativa de homicídio do seu então esposo” (BAKER, p. 162).
Recebendo a denúncia, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) solicitou informações ao Estado bra- sileiro, no intuito de esclarecer sobre as fidedignas informações prestadas pelos denunciantes, sem a obtenção de respostas, presumindo a veracidade dos relatos, e concedendo o prazo de dois meses para a observância das recomendações inter- nacionalmente formuladas e aceitas (SOUZA, p. 22), houve a responsabilização do Estado brasileiro pela negligência demons- trada ao enfrentar proposituras de violência contra as mulheres;
a sua omissão em perpetuar o processo sem o devido cumpri- mento da celeridade e efetividade de atuação; e sua tolerância aos atos de violência praticados indiscriminadamente, sem que houvesse qualquer prática política ou criminal no sentido de prevenir e erradicar tais delitos. “O relatório indicou que ficou demonstrado que o Estado Brasileiro não foi capaz de organi- zar sua estrutura para garantir os direitos humanos e que foram violados os artigos 1º, 8º e 25 da Convenção Interamericana de Direitos Humanos” (BAKER, p. 221).
Sendo assim, em um cenário de aviltamento da legislação brasileira, e por meio de pressões internacionais e internas, em março de 2004, foi apresentado um anteprojeto de lei à Secre- taria Especial de Políticas para as mulheres (SEPM), que visava à elaboração de medida legislativa que auxiliasse a coibir a ocorrência de delitos de violência doméstica e familiar contra a mulher. O Projeto de Lei n° 4.559/2004 foi apresentado no Congresso Nacional pela SEPM, passando por uma acentuada participação de movimentos feministas e de outras mulheres em audiências públicas, possibilitando o apontamento das modifica- ções necessárias para a inclusão no projeto, restando aprovado em 2006 como a lei n° 11.340, intitulada Lei Maria da Penha em atenção aos delitos sofridos por Maria da Penha Maia Fernandes, calcado nas ações dos movimentos feministas e mecanismos in- ternacionais de direitos humanos (SOUZA, p. 24).
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Para tanto, a Lei Maria da Penha veda o pagamento de cesta básica (art. 16), a prestação pecuniária e a substituição de pena pelo pagamento unitário de multa (art. 17). Frente ao constante descontentamento sobre as ameaças sofridas pelas vítimas, para que houvesse renúncia da denúncia apresentada, a Lei de 2006 limita a renúncia à representação a uma audiência especialmente designada, antes do recebimento da denúncia por parte do julgador e ouvido o Ministério Público (art.16).
Nesse sentido, a dificuldade criada pela legislação à renúncia da mulher pode ser identificada também como um mecanismo que inibe a manifestação e respeito da vontade da própria mulher:
Eloquente exemplo da discriminatória superproteção à mulher encontra-se na regra do artigo 16 da Lei nº 11.340/2006, que estabelece que a renúncia à represen- tação só poderá se dar perante o juiz, em audiência es- pecialmente designada para tal fim e ouvido o Ministério Público. A mulher passa a ser assim objetivamente infe- riorizada, ocupando uma posição passiva e vitimizadora, tratada como alguém incapaz de tomar decisões por si própria.
[...]
Quando se insiste em acusar da prática de um crime e ameaçar com uma pena o parceiro da mulher, contra a sua vontade, está se subtraindo dela, formalmente dita ofen- dida, seu direito e seu anseio a livremente se relacionar com aquele parceiro por ela escolhido. Isto significa ne- gar-lhe o direito à liberdade de que é titular, para tratá-la como se coisa fosse, submetida à vontade de agentes do Estado que, inferiorizando-a e vitimizando-a, pretendem saber o que seria melhor para ela, pretendendo punir o homem com quem ela quer se relacionar — e sua escolha há de ser respeitada, pouco importando se o escolhido é ou não um ‘agressor’ — ou que, pelo menos, não deseja que seja punido. (KARAM, 2006, p. 3).
A intenção de proteção às mulheres incutida na legislação é um marco de avanço incontestável, as alterações propostas possibilitam identificar o cuidado intensificado a crimes velados anteriormente, que deixavam de coibir novas incidências sobre a evidente impunidade sobre os delitos. Ocorre que, não se pode ficar adstrito aos mecanismos estatais de imposição sobre
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a independência e respeito às vontades das mulheres vítimas de tais delitos. A intervenção penal foi ampliada sobre o argumen- to de superproteção, no entanto, representa uma deficiência de medidas extrapenais que poderiam efetivar os interesses das vítimas envolvidas.
No entanto, com a intervenção estatal no âmbito privado, com a finalidade de minorar os casos de violência domés- tica e familiar contra a mulher, por meio de um maior rigor por parte da Lei 11.340/2006, observou-se que se tornou comum por parte das mulheres não oferecerem a queixa ou após a denúncia haver a desistência, pois muitas mu- lheres não estão interessadas no processo penal, além do processo penal não atender as necessidades da mulher que se queixa, muito menos as respostas que o direito penal oferece respeitam seus interesses, apesar de existir a parcela das mulheres que estão interessadas na persecu- ção criminal. Ainda assim, pondera-se que o processo não é o objetivo em si, isto é, um meio utilizado pela mulher para tentar acabar com a violência. (RESENDE; MELLO, [201-]).
Sendo assim, ainda que haja previsão de juizados especiali- zados de proteção e orientação às mulheres vítimas de violência doméstica, que sejam atribuídos programas de recuperação e reeducação dos agentes delitivos, o instituto de proteção con- fere na verdade uma proteção calcada apenas em atender aos anseios sociais, advindos primordialmente do feminismo, ocorre que, em face da incompletude de sistemas disponíveis de prote- ção extrapenal da mulher e da família agredida, o Estado assume a postura de detentor da medida punitiva por meio de uma ação pública e incondicionada. A mulher vítima passa novamente a figurar na ação como mera protagonista, sem que possa expor suas necessidades e anseios frente à injustiça que lhe é gerada.
Deixa-se inclusive de possibilitar a conciliação entre as partes, o prosseguimento da vida dos envolvidos é determinado pelo Estado, apreciando a figura dominadora que lhe é intrínseca.
A Lei n. 11.340, por sua vez, apesar de trazer instrumen- tos extrapenais para auxiliar a mulher vítima de violência, acabou ela mesma vitimada pela falta de uma estrutura
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integrada de serviços de apoio à mulher, e o resultado é o acentuamento do papel do direito penal enquanto meca- nismo apto a solucionar os conflitos envolvendo violência doméstica. Embora tenha aumentado sensivelmente a vi- sibilidade de um grave problema social, a Lei Maria da Pe- nha não apresenta avanços na administração de conflitos de gênero e, da mesma forma, na redução das taxas de homicídio de mulheres. (ACHUTTI, 2016, p. 193).
A impossibilidade de conciliação entre os envolvidos em caso de violência doméstica e familiar vai de encontro às trans- formações trazidas pelo novo código de processo civil, Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015, que prevê expressamente a promoção consensual de resolução de conflitos, possibilitando a cooperação das partes no prosseguimento dos atos proces- suais, na busca por menor intervenção estatal e atenção às necessidades das partes processuais. Observa-se que as medi- das alternativas de resolução de conflitos são instigadas pelas novas previsões do ordenamento, uma maneira de perfectibili- zar os institutos trazidos embrionariamente pela lei dos juizados especiais. Ocorre que esse cuidado pela necessidade e inten- ção das partes envolvidas deixou de ser analisado nos delitos de violência doméstica contra a mulher, uma vez que em tais delitos intensificou-se a atuação estatal por meio da excessiva aplicação e imposição apenas de retribuição penalizantes, com o único intuito de responder ao interesse internacional e clamor da sociedade.
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