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O começo: uma vida no palco

No documento PDF Stricto Sensu Editora (páginas 109-112)

Houve um tempo em que o boneco deixou de ser apenas boneco- reprodução em menor escala de uma pessoa ou animal- e passou a ser uma coisa maior qualquer, um signo para quase tudo, uma ponte para representação animada de personagens, espaços, tempo, sentimentos e abstrações.

Indivisível do homem que o anima, referência inescapável ao meu universo, mas capaz de ampliar na sua simplicidade as possibilidades e leituras daquilo que representa2. (Mário Piragibe, 2004)

Antes de tornar-se bonequeira/marionetista, com oito anos de idade foi Maribel em montagem da peça “Pluft o Fantasminha”. Seu pai é ator e dirigiu o espetáculo com crianças atuando. Ele compôs uma das músicas: “o importante não é dinheiro, o importante não é o ouro! O importante é o companheiro, ter amigos que é o tesouro!”, com a qual terminavam as apresentações.

Com dez anos interpretou a gata dos “Saltimbancos”. O musical fez tanto sucesso que viajou durante alguns anos percor- rendo o estado do Rio de Janeiro. Na época trabalharam em família:

o irmão mais velho era o jumento, a mais nova, a galinha e o irmão do meio, o cachorro. Depois a atriz criou o palhaço Pirulito, entrou para um grupo de teatro onde confeccionava bonecos de papel machê e passou a apresentar peças nas praças, clubes e escolas em Vassouras (RJ). Quando seus pais se separaram, foi para a capital, começando a estudar teatro na Martins Pena (Centro), Escolinha de Artes do Brasil (EAB-Botafogo) e na UNIRIO. No primeiro curso foram marcantes os exercícios que pediam o despir porque ela tinha apenas 14 anos e vinha do interior. Tiveram vivências na praia, performances no sinal e muitas cenas dentro do teatro. Na EAB experimentou diversos materiais, desde máscaras, até Mamulengos

2 Folheto do espetáculo “7 Dives”.

e bonecos de espuma. Na formatura, em 1991, encenou a comédia

“Barão de Munchausen” como baronesa, fazendo a plateia gargalhar.

Enquanto cursou a UNIRIO criou o grupo “Baú de Encantos” e a peça “Japim cantava bonito”, narrativa indígena com o pássaro que era um violino e emanava lindas músicas. Assim conseguiu juntar recursos para ir continuar os estudos na França. Quando voltou dos estudos no Institut International de la Marionnette, passou a trabalhar no ateliê de Fernando Sant’Anna esculpindo, costurando e criando com ele os personagens para montagem da peça “Luas e Luas”. Sentia-se como os personagens dos joalheiros do espetáculo que faziam a história tomar forma enquanto esculpiam a mais nobre peça.

Em 1999, criou o grupo Teatro Comprimido com Fernando, Mário Piragibe e Márcio Nascimento, com interesse em um teatro de bonecos/animação fora da moldura do palco de luva, extrapo- lando em três dimensões. Como definiu Ana Maria Amaral:

Bonequeiro é aquele que não só dá vida aos personagens, mas também os concebe, constrói, dirige, quando não é também o dramaturgo, o iluminador, o produtor, numa polivalência de responsabilidades, muito questionáveis [...] Todo bonequeiro é um ator-manipulador” (2002, p. 22).

Na proposta do “Teatro Comprimido” o animador/manipu- lador saiu de seu esconderijo, quebrando a ilusão e assumindo-se enquanto ator. O grupo encenou duas peças “Luas e Luas” e “7 Dives”

nas quais os atores-manipuladores trabalhavam níveis narrativos distintos ampliando o jogo de imaginação. A construção técnica e a ilusão da cena aconteciam concomitantemente, com atores e músicos aparecendo e sumindo por detrás dos bonecos, brincando com sombras, manipulação direta, bonecos de fio e vara (haste).

Esses planos distintos conviviam de forma complementar. Atuaram juntos de 1999 até 2005, quando o caminho de quem se uniu nesse grupo, bifurcou-se.

O ator é aquele que no palco é visto, encarna e tem a imagem do personagem. O ator-manipulador é um ator que eventual-

mente se propõe ou, num determinado espetáculo, tem necessidade de animar e dar vida a personagens inanimados.

Enquanto ator-manipulador, nem sempre é visto ou, quando visto, deve manter-se neutro para que o foco não caia sobre si, mas sobre o boneco ou objeto (AMARAL, 2002, p. 22).

A atriz-manipuladora era a princesinha Letícia, que vivia em um reino qualquer, roubava muitas tortinhas de framboesa, comia (silhueta de sombra) e ficava com muita dor de barriga (boneca de manipulação direta deitada em sua caminha). O rei desesperado com a doença da filha resolveu conseguir a lua (o que a menina pediu para se curar). Um dos atrapalhados conselheiros do rei, o Matemático, entrava em tom de baião “eu calculei para o senhor, meu grande rei [...]”, foi personagem também interpretado/manipulado por ela. Quem resolveu o problema de Letícia foi o bobo da corte com a ajuda dos joalheiros, que fizeram uma luazinha de ouro que o bobo entregou para a princesa. A dramaturgia e a música de “Luas e Luas”3 foram criadas em diálogo com os materiais construídos e manipulados.

No espetáculo “7 Dives” interpretou a Fátima. Naquela época trabalhava com várias outras coisas para além do teatro e pela exaustão vocal sofria para chegar aos agudos que a música da perso- nagem pedia. Os 7 Dives eram seres mágicos, ferozes que detestavam humanos. Enquanto caçavam, encontraram Fátima na floresta e a adotaram. Pela primeira vez, com 17 anos ela encontra um príncipe, apaixona-se por ele e parte ao mundo dos homens. Ela precisa usar os poderes que aprendeu com os Dives que a criaram contra eles para conseguir casar-se com o príncipe Nuredin. Além de inter- pretar, foi necessário angariar os recursos para montar o espetáculo, produzir e divulgar. A burocracia, a escassez de recurso, patrocínios prometidos para sair antes e que não saíram, construíram riscos,

3 Com os 2 espetáculos viajou com o SESC-CBTIJ (Serviço Social do Comércio- Centro Brasileiro de Teatro para Infância e Juventude), experiência fantástica de formação de plateia em bairros periféricos da capital e cidades do interior do RJ.

prejuízos e dificuldades em sobreviver com a arte, o que fez a atriz desistir de estar nos palcos.

Após esses dez anos de atuação em teatros, salas e praças, percebeu que uma parte dela queria continuar e outra mudar.

Conseguiu, pela arte educação, ir entrando em diálogo com outras culturas e ampliando os olhares, compartilhando histórias e encan- tando o mundo em outros espaços como as salas de aula. A partir do mestrado escolheu ouvir, observar e pesquisar “o encontro de narrativas orais Guarani com o Teatro de Bonecos”.

No documento PDF Stricto Sensu Editora (páginas 109-112)