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Investindo na afetividade

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 78-86)

6.2 Repensando as ações a partir das primeiras análises

6.2.1 Investindo na afetividade

No segundo trimestre do ano letivo procurei iniciar o trabalho investindo na afetividade, buscando estabelecer com a turma uma relação de respeito, carinho e compreensão, a fim de estabelecer uma relação de afetividade positiva.

Para diagnosticar relações harmoniosas, de amizade, de admiração e também relações marcadas por conflitos, iniciei o projeto a partir de uma dinâmica dividida em duas etapas: na primeira, os alunos responderam às perguntas sobre as relações interpessoais na sala de aula constantes na Figura 3.

Os dados me ajudariam a identificar as relações de amizade, de admiração; situações de conflito, rejeição etc., a fim de me auxiliar a refletir sobre como auxiliar a conduzir essas relações da melhor forma no cotidiano escolar.

6 EVA é a sigla para espuma vinílica acetinada, uma espuma sintética produzida a partir do copolímero termoplástico do Ethylene Vinyl Acetate (acetato-vinilo de etileno).

Figura 3 – Dinâmica “A hora da amizade”, parte 1

Fonte: A autora, 2016.

Para a realização da atividade, os alunos foram orientados a permanecerem em silêncio total, com muita atenção e sem interagir com os colegas, pois ninguém poderia ver a resposta um do outro. Tratei a atividade como uma brincadeira que verificaria se eles saberiam ou não guardar segredo, mantendo um clima de mistério e tranquilidade.

Observei que os alunos ficaram muito tranquilos e encararam a atividade como uma brincadeira e tiveram a oportunidade de pensar sobre como se relacionavam uns com os outros. Na ocasião não registrei nenhum conflito e somente precisei intervir em situações em que alguns alunos não conseguiam compreender alguma pergunta.

Na etapa 2, Figura 4, meu objetivo era conseguir um momento de interação harmoniosa entre os alunos, em que os conflitos existentes entre eles perdessem relevância diante de ações de carinho e aceitação. As atividades pressupunham uma movimentação pela

sala de aula, mas permaneceu a orientação para que o trabalho fosse feito individualmente e que procurassem não conversar durante a dinâmica.

Figura 4 – Dinâmica “A hora da amizade”, parte 2

Fonte: A autora, 2016.

Cada vez que um dos alunos recebia um cartão-coração, um cartão-interrogação, um cartão-frase ou um cartão-desenho, era possível ver a alegria que a ação causava. Como não podiam falar durante a atividade, não houve questionamentos sobre o significado do cartão- coração e, ao final, expliquei-lhes que o objetivo era que buscassem compreender as qualidades e os defeitos uns dos outros, aprendendo a se respeitar mutuamente e a conviver com harmonia. Com a existência do sorteio proposto na letra d, foi possível que cada criança recebesse pelo menos 01 cartão e, assim, todos ficaram felizes com o resultado.

Alguns alunos receberam vários corações e ainda outros cartões, mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de mensagens de carinho dirigidas ao aluno já referido nesta pesquisa como Marcos, envolvido no episódio de porte de faca. Por mais que aquela situação tivesse nos preocupado a todos na escola, os alunos pareciam ter se solidarizado verdadeiramente com o colega diante do fato de ter perdido a mãe recentemente e compreenderam que era um colega que precisava de carinho e apoio. Ele foi mencionado 12 vezes como o mais triste, por isso recebeu 12 cartões de elogios ou mensagens motivadoras.

Esse carinho talvez se justifique também pelo fato de o aluno jamais ter sido agressivo com os colegas de classe. Mesmo no que dizia respeito ao episõdio em que levou uma faca, seu objetivo era se proteger de possíveis agressores, embora o aluno nunca tenha se envolvido em

brigas ou em conflitos mais violentos. Era um menino com dificuldades de aprendizagem, um histórico familiar marcado por uma perda trágica e com comportamento instável, que oscilava entre momentos de timidez e momentos em que fazia brincadeiras que incomodavam os colegas. Embora no meu entendimento suas brincadeiras e conversas atrapalhassem as aulas, esse aspecto foi mencionado por apenas 01 aluno na questão j da etapa 1. Marcos foi considerado como o mais engraçado por 05 colegas (questão h da etapa 1) e implicante por somente 01 colega (questão l da etapa1).

O outro aluno vítima de bullying, no entanto, foi mencionado sete vezes como o colega de quem os alunos menos gostavam, nove vezes como o que mais atrapalhava a aula e 05 vezes como o mais implicante. Embora Paulo tenha sido o mais votado nas três perguntas, é importante relatar que vários dos alunos foram avaliados negativamente. Foram 08 alunos diferentes os mencionados como alguém de quem os demais não gostavam, 08 os que atrapalhavam as aulas e 12 alunos foram apontados como o colega “mais implicante”. No total, 16 alunos foram mencionados nessas três perguntas, com vários deles aparecendo como opção de resposta em todas. Considerando que nessa época havia 32 alunos matriculados e que a frequência oscilava entre 28 e 30 alunos em sala em cada aula, pode-se dizer que metade da turma apresentava problemas ou de comportamento ou nas relações interpessoais, o que justifica as constantes queixas de alunos e professores.

Após a dinâmica, acreditando na importância do autoconhecimento e da autoaceitação como caminhos para compreender e respeitar o próximo, o tema para início do projeto foi

“Identidade”. Nessas primeiras aulas, minha intenção era trabalhar o tema sem realizar nenhuma atividade especificamente voltada para esta pesquisa, mas como forma de sensibilização para a implementação do projeto, buscando perceber como os alunos se viam e se sentiam enquanto indivíduos.

Para as atividades rotineiras nas aulas de português, foram selecionados quatro textos de diferentes gêneros: “Uma das Marias”, crônica de Luís Fernando Veríssimo; “O nome da gente”, poema de Pedro Bandeira, “Marcelo, marmelo, martelo”, conto de Ruth Rocha; e

“Gente tem sobrenome”, canção de Toquinho (Figuras 5, 6, 7 e 8).

Figura 5 – Texto 1: “Uma das Marias”, crônica de Luiz Fernando Veríssimo

Fonte: https://www.omnieducacional.com.br/painel/geral/sistema/kcfinder/upload/files/PLT_

05.06_6oANO_Portugues.pdf <Acesso em 25 de abril de 2016>

Figura 6 – Texto 2: “O nome da gente”, poema de Pedro Bandeira

Fonte: http://bionarede.com.br/wp-content/uploads/2012/04/INT031201.pdf <Acesso em 25 de abril de 2016>

Figura 7 - Capa do livro “Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias”, conto de Ruth Rocha, texto 3, disponível na biblioteca da escola.

Fonte: ROCHA, Ruth. Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias.

Rio de Janeiro: Salamandra, 1999

Figura 8 – Texto 4: “Gente tem sobrenome”, canção de Toquinho

Fonte: http://www.edicoessm.com.br/files/pnld/2013/ma/alfp/Reproducao_capitulo_1_ano_

mala.pdf

Além da leitura e de atividades de interpretação, os textos possibilitaram o reforço de conteúdos relacionados às classes de palavras (substantivos, adjetivos e pronomes), pontuação e uso de iniciais maiúsculas. Paralelamente, os alunos tiveram a oportunidade de contar um pouco sobre si, respondendo a questões acerca do nome, da família e do lugar onde viviam.

Foram três aulas de trabalho com os textos e, no final da última atividade, uma das questões indagava se os alunos gostavam do próprio nome: 29 alunos responderam que sim e 01 deixou de responder a essa e a outras questões da atividade; 12 alunos disseram que o nome foi escolhido pela mãe, enquanto 7 disseram ter sido o pai quem escolheu; 05 alunos mencionaram que os dois, pai e mãe, escolheram o nome e 3 disseram que a escolha foi da avó. O motivo mencionado por 11 alunos para gostarem do próprio nome foi acharem que é bonito. Os demais mencionaram motivos diversos, como ser bíblico, ser incomum, ser conhecido, ser especial etc.

Os alunos fizeram acrósticos nos quais deveriam colocar adjetivos escolhidos por eles para se caracterizarem e que seriam posteriormente colocados na primeira página no caderno

do projeto, cuja confecção ficou sob a responsabilidade da professora de artes, Natalie.

(Figura 9).

Figura 9 – Exemplos de acrósticos criados pelos alunos

Fonte: A autora, 2016.

Percebi que, pelo menos em relação ao nome, os alunos demonstraram muita satisfação, porém seria necessário observar outros aspectos relacionados à identidade, os quais seriam trabalhados a partir da seleção dos próximos textos.

Além das atividades que seriam realizadas em aula, planejei em conjunto com a coordenadora do projeto Mais Educação, professora Anacleice, uma atividade que aconteceria após o recesso, denominada “A Corrente do Bem”. A ideia era que a cada dia, durante 30 dias, um aluno recebesse um elo feito em EVA e fosse responsável por cuidar dele. Ao mesmo tempo, a turma toda deveria zelar para que o ambiente da sala fosse harmônico, evitando gritos, ofensas e brigas, e buscando ter uma boa participação nas aulas. Ao final de cada dia, a coordenadora iria consultar os professores e confirmar se os alunos cumpriram a tarefa. Caso a resposta fosse positiva, o elo seria colocado no mural e, dia após dia, os elos iriam se somando e formando uma corrente. Ao final dos trinta dias, após todos os alunos terem tido a oportunidade de cuidar de um elo e a turma ter cumprido a tarefa, os alunos receberiam como prêmio um passeio.

6.3 Grandes obstáculos no processo – dificuldades na execução das propostas de

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 78-86)

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