7.2 O reencontro
7.2.2 Oficina 2
Figura 28 – Votação para escolha de um final para o curta-metragem
Fonte – A autora, 2017.
Retornamos ao auditório onde o restante da turma já aguardava com a professora Elza e relembramos o enredo do curta-metragem. Ao final, pedi que os que foram à Sala de Professores para apuração da os votos contassem aos colegas o final vencedor. Pude perceber que os alunos ficaram satisfeitos com o resultado e que realmente haviam gostado do curta- metragem. A escolha pelo final 2 refletiu que eles tinham consciência de qual seria a atitude mais adequada a ser tomada por Virgínia diante daquela situação. Perguntados se teriam a mesma atitude que consideraram a correta, todos disseram que sim. No entanto, quando perguntei se sempre que viam uma situação semelhante acontecendo na escola tomavam iniciativa e tentavam ajudar o colega que estava sendo vitimado, a maior parte dos alunos se calou. Apenas quatro alunos responderam imediatamente que sim, enquanto alguns disseram que “às vezes”. Apesar de ter perguntado o motivo de geralmente não intervirem, os alunos ficaram tímidos e não souberam explicar. Aproveitei para falar sobre o papel das testemunhas nos eventos de bullying e da importância de procurarem ajuda para o colega vitimado.
Realizamos, então, a segunda atividade do dia: Leitura de imagens (Figura 29).
Organizados em um grande círculo, cada aluno deveria escolher uma imagem dentre as espalhadas no centro da roda e fazer uma leitura a partir das questões a seguir: O que a imagem mostra? Por que a escolheu? Que sentimentos lhe transmite? Que relações ela tem com o seu dia a dia escolar?
Figura 29 – Dinâmica Leitura de Imagens
Fonte: A autora, 2017.
Dentre as imagens disponibilizadas, havia várias que indicavam conflitos em diferentes situações e outras que apresentavam ambientes aparentemente harmônicos. Alguns escolheram as imagens em que crianças apareciam felizes brincando com amigos ou ao lado da família, justificando que escolheram justamente por esses motivos: representavam momentos de alegria com amigos ou família. Outros escolheram imagens que pareciam expor conflitos, associando-as ao bullying, e outros mencionaram que escolheram por motivos diversos.
“Essa imagem de dois garotos ameaçando um menor passa uma coisa negativa, que não pode acontecer.”
“Minha imagem passa ideia de amizade.”
“A minha tem amor, carinho, amizade.”
“Eu escolhi essa porque tá tudo suave, todo mundo na paz.”
“Aqui tem três crianças fazendo bullying. Tem tudo o que a gente viu na peste da Janice: o agressor, a vítima e as testemunhas.”
“O meu tem o Chris e ele sofre bullying.” 13
“No meu tem uma criança triste e sozinha e outros brincando longe. Separar a pessoa de todo mundo também é bullying.”
“As duas meninas da foto estão fazendo bullying com a outra pelas redes sociais”
Nessa dinâmica pudemos conversar um pouco mais sobre o isolamento e a exclusão como forma de bullying e também sobre o cyberbullying, que os alunos explicaram ser o bullying que ocorre na internet por meio de ofensas nas redes sociais e da criação de perfis falsos.
Em uma das cenas havia uma cena da novela Carrossel14, sobre a qual o aluno que a escolheu disse: “Eu acho que essa foto transmite segurança, porque tem vários amigos”.
Chamou minha atenção a maneira com que os alunos se referiram ao personagem Cirilo, único negro da sala, falando dele como se ele fosse inferior às outras crianças. Depois de convidá-los a refletirem sobre essa atitude, um aluno observou que todas as crianças da foto estavam abraçadas enquanto o Cirilo estava ao lado, mas sem tocar ou ser tocado por ninguém. Então os alunos levantaram hipóteses para justificar a cena: ele estaria sendo
13 Chris é o personagem de uma premiada série de televisão estadunidense de comédia dramática inspirado nas experiências pessoais de Chris Rock no bairro de Bed-Stuy, em Nova Iorque, exibida com sucesso no Brasil.
14 Carrossel é uma telenovela brasileira direcionada ao público infantil produzida pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). Baseada na novela mexicana Carrusel pela Televisa, Carrossel é ambientada em uma escola de ensino fundamental.
excluído, os colegas seriam racistas, ele seria muito tímido, ele não se sentiria à vontade para abraçar os colegas, os colegas não perceberam etc.
Como todos os alunos conheciam a série “Todo mundo odeia Chris”, aproveitei para relembrar a sinopse e fazer reflexões sobre o bullying sofrido pelo personagem principal na escola. Os alunos identificaram com facilidade o Chris como a vítima, o personagem Caruso como agressor e os colegas como testemunhas, incluindo o melhor amigo do Chris, chamado Greg. Uma aluna (Laysa) indicou que ele sofria bullying por ser negro e outro aluno (Marcelo) comentou que se tratava de bullying porque acontecia com frequência e ele não tinha como se defender. A partir do que conheciam sobre a série conversamos sobre a violência no ambiente escolar, reforçando conhecimentos sobre o bullying.
O aluno que escolheu a imagem de uma sala de aula estaria “tudo suave, todo mundo na paz”, ao analisar a cena, comentou que um determinado aluno da foto tinha “cara de bagunceiro”. Indaguei se era possível perceber isso, já que o menino estava no final da sala, sentado e nem o rosto estava muito visível. Ele justificou ter afirmado que ele tinha cara de bagunceiro devido ao uso de boné e por estar no final da sala. Aproveitei o ensejo para refletirmos sobre julgamentos baseado em aparências e sobre como isso pode interferir nas relações interpessoais.
Na análise dessas três imagens a questão racial foi bastante pontuada, primeiramente porque em duas delas os alunos associaram os personagens negros a características negativas e também por utilizarem, em alguns momentos, palavras como moreno ou moreninho para se referirem a eles. O assunto é complexo e várias questões foram pontuadas: estereótipos, racismo, colorismo15, porém sem muito aprofundamento.
A atividade foi demorada, pois eram muitos alunos para participar e, talvez por esse motivo, a partir de determinado momento os alunos aparentemente perderam interesse pela atividade, havendo bastante dispersão da atenção. Foi preciso estimular a participação, pois alguns alunos demonstravam acanhamento no momento de justificar suas escolhas oralmente.
Nesta atividade todos deveriam falar, diferentemente das anteriores, cujas participações orais foram voluntárias e contaram com muitas interações dos alunos mais extrovertidos, com as quais os mais reservados apenas concordavam.
15 O colorismo ou a pigmentocracia é a discriminação pela cor da pele e é muito comum em países que sofreram a colonização europeia e em países pós-escravocratas. De uma maneira simplificada, o termo quer dizer que, quanto mais pigmentada uma pessoa, mais exclusão e discriminação essa pessoa irá sofrer (DJOKIC, 2015).