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O estado atual da CT&I no contexto brasileiro

para aumentar a capacidade energética verde, incentivar o uso de veículos elétricos e híbridos, bem como aprimorar o programa de treinamento de recursos humanos (ibid., p. 607-621).

Dentre as estratégias principais no âmbito da CT&I para as tecnologias 4.0 estão, além do blockchain, a análise de dados, a IA, as impressões em 3D, a IoT, a automação e a computação em nuvem (ibid., p. 608).

No que diz respeito ao uso de CT&I nas cidades, a Índia possui uma iniciativa ousada para tornar cidades selecionadas “inteligentes”, em um programa denominado Missão Cidades Inteligentes (Smart Cities Mission). Considerando o destacado no tópico inaugural deste capítulo, o país entende como inteligente a cidade em que há a conjugação de diversos fatores: conectividade robusta, digitalização, boa governança (e-governo) e participação cidadã. Estes fatores devem estar presentes em cidades que também possuem um abastecimento satisfatório de água, eletricidade, saneamento, educação e serviços de saúde, moradia segura e acessível, juntamente com sistemas eficientes de mobilidade urbana e transporte público (SCHNEEGANS; LEWIS; STRAZA, 2021b, p. 609).

Por fim, importante destacar o trecho que apresenta o panorama deste programa na atualidade:

[...] Há duas características essenciais desta missão. Em primeiro lugar, os projetos desenvolvidos na cidade devem ser decididos pelos cidadãos dessa cidade de forma participativa. Em segundo lugar, é baseado em projetos e, portanto, não resulta no desenvolvimento holístico de toda a cidade.

Quatro anos depois, apenas dez cidades respondem por 48% dos projetos concluídos. É provável que a prática de limitar o desenvolvimento a pequenas áreas dentro das cidades amplie as desigualdades existentes porque os serviços atualizados não estarão disponíveis para todos os cidadãos [...] (ibid., p. 609, tradução nossa)17.

Perpassado o contexto da CT&I no mundo, com a análise do entendimento de organizações internacionais quanto ao tema, bem como da observação de regiões e países selecionados, o tópico seguinte irá tratar do panorama geral brasileiro relativo à matéria.

Retomando-se o tratado no item 1.2.1, o relatório de ciência da UNESCO (2015), com o nome “Rumo a 2030”, indica o seguinte ponto como o maior desafio do Brasil em CT&I: o desenho e a implementação de uma política de longo prazo que permita que o desenvolvimento científico e tecnológico alcance a população como um todo para uma melhor qualidade de vida das pessoas, com perceptível impacto na melhoria das condições de vida da sociedade.

Por sua vez, a ONU lançou mão de uma nova abordagem para a realização de suas pesquisas e relatórios a partir de 2021, solicitando aos países para repensar suas estatísticas, a fim de verificar novos tópicos como, por exemplo, o ecossistema de pesquisa e inovação dos países. Sobre esta nova perspectiva, será utilizada uma estrutura conceitual denominada de dez áreas-chave, cujo objetivo será o de ampliar o conjunto e qualidade de indicadores a fim de fazer um levantamento compreensivo da saúde do ecossistema de pesquisa e inovação dos países18. As dez áreas-chave dizem respeito aos seguintes tópicos:

1. A responsabilidade da ciência para com os ideais das Nações Unidas de dignidade humana, progresso, justiça, paz, bem-estar da humanidade e respeito pelo meio ambiente [...] 2. A necessidade de a ciência interagir de forma significativa com a sociedade e vice-versa [...] 3. O papel da ciência na política nacional e na tomada de decisões, na cooperação internacional e no desenvolvimento [...] 4. Promoção da ciência como bem comum [...] 5. Condições de trabalho inclusivas e não discriminatórias e acesso à educação e emprego na ciência [...] 6. Qualquer conduta científica está sujeita aos padrões universais de direitos humanos [...] 7.

Equilibrando as liberdades, direitos e responsabilidades dos pesquisadores [...] 8.

Integridade científica e códigos éticos de conduta para ciência e pesquisa e suas aplicações técnicas [...] 9. A importância vital do capital humano para um sistema científico sólido e responsável 10. [...] O papel dos estados na criação de um ambiente propício para a ciência e a pesquisa […] (SCHNEEGANS; LEWIS;

STRAZA, 2021b, p. 26-27).19

Embora ainda não evidentes os relatórios ou pesquisas das Nações Unidas com base nesta gama de itens, é premente que o Brasil trabalhe desde já com estes quesitos gerais para

18 Para maior detalhamento, sugere-se a leitura do relatório de ciências “Corrida contra o tempo para um desenvolvimento mais inteligente” (SCHNEEGANS; LEWIS; STRAZA, 2021b).

191. The responsibility of science towards the United Nations’ ideals of human dignity, progress, justice, peace, welfare of humankind and respect for the environment […] 2. The need for science to interact meaningfully with society and vice versa […] 3. The role of science in national policy and decision-making, international

cooperation and development […] 4. Promoting science as a common good […] 5. Inclusive and non- discriminatory work conditions and access to education and employment in science […] 6. Any scientific conduct is subject to universal human rights standards […] 7. Balancing the freedoms, rights and

responsibilities of researchers […] 8. Scientific integrity and ethical codes of conduct for science and research and their technical applications […] 9. The vital importance of human capital for a sound and responsible science system […] 10. The role of states in creating an enabling environment for science and research..

melhor valorização da CT&I no país como peça estratégica para o desenvolvimento nacional, e isso deve começar pelo exemplo federal, com forte impacto nas esferas regional e local.

Outrossim, o Relatório de Ciências da Unesco de 2021 realiza um panorama geral da ciência no país, tendo como principais observações as tendências divididas nos três grandes grupos a seguir: gastos em pesquisa, tendo sido percebida uma diminuição de gastos no setor nos últimos anos, com cortes de recursos; investimento em recursos humanos e mão de obra, com maior número de doutores formados nos últimos anos, maior participação feminina na educação superior, um crescimento tímido no número de pesquisadores e diminuição da disparidade salarial entre gêneros; e desigualdades regionais, com políticas de redução de desigualdade que começam a render frutos, mas com disparidades regionais persistentes no que diz respeito à inovação empresarial e ao financiamento dos estados em pesquisa (ibid., p.

247- 250).

O Relatório traça cinco conclusões macro do contexto da CT&I no país. Há avanços notáveis nas áreas científica e social, contudo há que se avançar no combate às desigualdades, uma vez que verificou-se um aumento na desigualdade social, com o retorno de pessoas à extrema pobreza. Adicionalmente, necessita-se um maior controle e monitoramento da proteção ambiental e avaliação de políticas públicas, com o objetivo de se manter os indicadores e não retroceder no que já fora alcançado. Por fim, verifica-se uma queda no pedido de patentes pela indústria, o que é resultado de um menor investimento empresarial e menor ritmo de inovação das empresas brasileiras, que perdem, portanto, em competitividade (SCHNEEGANS; LEWIS; STRAZA, 2021b, p. 251).

Há, no que pese as amarras estatais brasileiras relacionadas ao desenvolvimento de CT&I, bons exemplos de iniciativas públicas que buscam melhorar o ambiente inovador em âmbito local. Foram selecionados dois exemplos interessantes que bem demonstram o poder da CT&I para o desenvolvimento das pessoas, e consequentemente das cidades.

O primeiro exemplo é de autoria do Ministério do Turismo (MTur), que lançou em 2020 o primeiro Desafio Brasileiro de Inovação em Turismo, em colaboração com a Organização Mundial do Turismo (OMT). O desafio buscou soluções para a retomada do turismo brasileiro no pós-pandemia, por meio de projetos de base tecnológica que respondam às necessidades imediatas e a desafios gerais do turismo brasileiro. O projeto tinha como um dos seus objetivos a melhoraria da competitividade do setor de turismo por meio da transformação digital.

Conforme dados do IBGE, em estudo já defasado, com números referentes ao ano de 2009, o setor de turismo representava 3,7% do PIB e 3,5% do total de remunerações no Brasil

(INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2012, p. 23-25). Em relatório mais atualizado, o setor de viagens e turismo representava 6,4% do PIB brasileiro, conforme dados de 2021 do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WORLD TRAVEL &

TOURISM COUNCIL, [2022], p.2). Em tempos de crise e impactos no setor, a exemplo das interrupções de viagem em decorrência da pandemia, o desafio lançado pelo MTur pode ser um alento para a categoria no Brasil e poderia se incorporar às próprias políticas de incentivo ao setor de turismo.

A outra iniciativa é um projeto chamado CITinova, implementado pela ONU e executado pelo MCTI em parceria com o Governo do Distrito Federal e da Prefeitura do Recife. Conforme as escassas informações publicadas20, os objetivos principais são de desenvolvimento de soluções tecnológicas inovadoras, metodologias e ferramentas de planejamento urbano integrado para apoio ao gestor público, o incentivo à participação social com fins de se alcançar cidades mais justas e sustentáveis.

O projeto possui três grandes frentes de ação: planejamento urbano integrado, investimento em tecnologias inovadoras e a criação de uma plataforma do conhecimento.

Ressalta-se a segunda frente de ação, que visa desenvolver projetos pilotos de enfrentamento de desafios dos moradores de Brasília e Recife, nas áreas de água, resíduos, energia, mudanças climáticas e mobilidade. Posteriormente, o objetivo é que os resultados alcançados sirvam de modelo a serem replicados em larga escala por gestores públicos de outras localidades.

Não é difícil de imaginar se essas e outras iniciativas esparsas fossem, na verdade, um desdobramento de uma política pública em CT&I com protagonismo da participação dos municípios, que fosse consistente e efetivamente perdurasse no tempo. O potencial dos resultados e impactos sociais poderiam ser surpreendentes.

Este tópico realizou uma breve abordagem do contexto atual da área de CT&I no Brasil, com dois exemplos objetivos de iniciativas possíveis para o fomento da área, objetivando uma mera introdução geral do tema. Salienta-se que este conteúdo será retomado pormenorizadamente nos capítulos seguintes, a se iniciar pelo próximo capítulo, que realiza a investigação dos alicerces normativos no Brasil relativos à CT&I.

20 Para maior detalhamento do projeto, cumpre visitar o sítio oficial na internet. Disponível em:

https://citinova.mcti.gov.br/. Acesso em: 20 jan. 2023.

2 ALICERCES NORMATIVOS PARA CONFIGURAÇÃO DA CT&I NAS CIDADES

....BRASILEIRAS

Verificados os aspectos gerais relacionados à temática a que esta dissertação se propõe, passa-se à análise dos principais alicerces normativos brasileiros relativos à CT&I e como estes dispositivos regulam a ação estatal, bem como aquelas dos demais atores que interagem entre si, para a produção de ciência, tecnologias e inovações.

É premente destacar que a análise realizada neste tópico trata do arcabouço normativo com fulcro na municipalidade, realizando-se o estudo do texto normativo sempre tendo em vista a relação cidade e CT&I, mas não se restringindo exclusivamente a ela. Neste sentido, aborda-se, primeiramente, os dispositivos constantes na Constituição Brasileira de 1988, a pedra fundamental e texto principal, norteador do ordenamento jurídico brasileiro e, posteriormente, trata-se do Marco Legal de CT&I, seguido da Política Nacional de Inovação.

Em continuidade, aborda-se a infraestrutura nacional de dados espaciais, seguindo-se com a análise do Estatuto da Metrópole e, por fim, destaca-se o Estatuto da Cidade e seus principais dispositivos potenciadores de CT&I nos municípios brasileiros.