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O golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 56-60)

O intenso retrocesso nos rumos das políticas educacionais está diretamente vinculado ao golpe jurídico-parlamentar-midiático que se concretizou no Brasil em 2016. Este Golpe de Estado, não se caracterizou pelo forte aparato militar, dos golpes tradicionais, pois segundo Barnabé Medeiros Filho (2018), o avanço tecnológico e a complexificação crescente da

dinâmica capitalista levou a uma modificação na forma de intervenção imperialista, com novos métodos de intervenção indireta:

Sociedades mais complexas, a popularização e generalização das tecnologias da informação e o fracasso das ditaduras anteriores tornam mais difícil mobilizar apoio popular a um golpe militar e, sobretudo, as dificuldades em depois controlar um grande país só na base da repressão e censura. Para um quadro mais complexo, o imperialismo precisava construir instrumentos de intervenção mais sofisticados, cultivar novos aliados internos e criar uma nova justificativa ideológica.

(MEDEIROS FILHO; 2018; p.10).

Segundo o autor, esses novos métodos de intervenção indireta se caracterizam pela cooptação de forças policiais e do poder judiciário22 e da construção de uma justificativa ideológica, que no Brasil se articulou no discurso de combate à corrupção (MEDEIROS FILHO; 2018). Podemos perceber esses novos métodos sendo aplicados, desde 2013, com a apropriação de um movimento legítimo iniciado nas ruas23, as chamadas jornadas de julho, por grupos políticos e movimentos24 interessados na desestabilização política do Governo de Dilma Roussef. Além dessas ações, a construção do golpe contou com um aparato sofisticado de diversos tipos de ação, que envolveram tanto as manifestações de rua, como a cooptação de grandes parcelas do Congresso, e o uso massivo das redes sociais, além do apoio dos grandes conglomerados de meios de comunicação.

A crise econômica que o Brasil vinha enfrentando foi acirrada politicamente com as ações promovidas pelos articuladores do Golpe, com a conveniência do Judiciário. A grande mídia teve um papel fundamental na propagação de escândalos de corrupção, alimentando um clima de ódio contra o Partido dos Trabalhadores (PT), ao qual a presidenta reeleita pertencia, e na transformação do golpe em um grande espetáculo midiático, com ampla cobertura da imprensa.

Cabe registrar, ainda, que o Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), principal partido de oposição, derrotado nas urnas em quatro eleições consecutivas, também desempenhou um papel importante no desenvolvimento do golpe, com seus representantes formando o núcleo intelectual do golpe. Para Medeiros Filho (2018), a força do PSDB estava

22 Setores do judiciário e de organismos ligados à segurança foram alvo de treinamentos especiais e transferência de recursos financeiros, sob a justificativa de financiamento de operações de combate ao narcotráfico e à corrupção, como a “Operação lava-jato”, que teve um papel fundamental na construção do Golpe.

23 Há dúvidas se este foi um movimento espontâneo contra o aumento das passagens no transporte público, ou já fomentado pelos grupos que posteriormente assumiram a hegemonia dos protestos.

24 Grupos organizados, de viés conservador e/ou ultraliberal, financiados por empresas brasileiras e americanas, como por exemplo o MBL - Movimento Brasil Livre, entre outros.

ligada às relações com o Partido Democrata norte-americano, porém com a vitória de Donald Trump, do Partido Republicano, nas eleições americanas de 2016, a hegemonia do PSDB no bloco golpista foi minada.

Após a mudança de governo nos Estados Unidos o que se viu no Brasil foi uma batalha pelo poder no seio das forças antes unidas no golpe. [...] Ou seja, com Trump, o imperialismo ficou temporariamente sem diretrizes claras com relação ao Brasil e isso, circunstancialmente, impediu o aprofundamento do golpe.

(MEDEIROS FILHO; 2018; p.16).

O Golpe coloca Michel Temer, o vice-presidente, no poder, que apesar da avalanche de denúncias de corrupção, consegue se manter no cargo, devido ao fisiologismo do Congresso. O esfacelamento do bloco golpista, que atinge, especialmente, os dois partidos diretamente envolvidos na articulação do Golpe - o PSDB e o PMDB, e a campanha de difamação contra o Partido dos Trabalhadores e suas lideranças, trazem como consequência a criação de um espaço para o crescimento de grupos protofascistas. Segundo Medeiros Filho (2018), com os sinais de esgotamento do modelo capitalista, “o risco mais concreto e mais generalizado a que temos assistido nos anos mais recentes é a implantação de regimes protofascistas, que podem chegar a ações genocidas para eliminar populações excedentes”

(MEDEIROS FILHO; 2018; p.22)

A pandemia de Covid-19 que estamos enfrentando agora no país, com mais de 650 mil mortes, até o momento em que escrevemos este texto, parece confirmar o crescimento dessa resposta à crise do capital no Brasil. O governo instalado em 2019, com a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência, tem viés nitidamente protofascista, ultraconservador, autoritário, com forte discurso nacionalista e estreitamente ligado aos interesses da burguesia brasileira, neoliberal. Assim, a eleição de Bolsonaro consolida uma nova etapa do golpe.

A primeira fase foi a viabilização eleitoral de um candidato de perfil autoritário, o ex-capitão do exército Jair Bolsonaro. Esse deputado, que se notabilizara por declarações nacionalistas e contrárias às privatizações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, surpreendentemente apresentou-se como candidato com um programa neoliberal ao extremo. Ao mesmo tempo, com um discurso de acirrado conservadorismo nos costumes e extremamente repressivo em matéria de segurança pública, procurou atender tanto às preocupações do fundamentalismo religioso, quanto aos medos de amplas camadas da população afetadas pelo crescente banditismo nas cidades brasileiras. Suas frases raivosas, muitas vezes ofensivas, receberam ampla cobertura da mídia, o que acabou servindo para ampliar sua popularidade. (MEDEIROS FILHO, 2018, p.23).

O sucesso da campanha eleitoral de Bolsonaro se deu ao uso massivo de redes sociais e a divulgação de notícias falsas, para diferentes públicos, selecionados conforme suas

convicções. As redes foram utilizadas para a construção de uma narrativa que minimizou os protestos contra ele durante o período eleitoral, que juntamente com a propagação do ódio ao PT, à diversidade e às conquistas sociais, culminou com sua eleição para a presidência do país.

Apesar da mudança nos núcleos de poder do golpe, o governo Bolsonaro não representa uma ruptura com o projeto econômico que foi posto em curso, a partir de 2016.

Após o golpe dá-se início a uma série de reformas que retiram direitos da população, cortam recursos e impõem uma lógica privatista centrada, na educação, em duas importantes políticas, a BNCC e o Novo Ensino Médio.

A retirada dos direitos e de proteção ao trabalho e ao trabalhador com a aprovação das Leis 13.429/17 e 13.467/17 – contrarreforma trabalhista – é altamente danosa para a classe trabalhadora da cidade e do campo e para os sindicatos de todas as categorias profissionais. A EC 95/2016, que congelou os recursos do Poder Executivo por 20 anos, com implicações diretas na redução de investimentos em saúde e em educação, inviabiliza o cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação 2014-2024. Cabe ainda registrar a entrega das fontes energéticas não renováveis ao capital estrangeiro, abalando o monopólio estatal da Petrobrás e da Eletrobrás, entre outras medidas prejudiciais ao patrimônio público, como a aprovação da Lei 13.365/2016 (Lei do Pré-Sal), a qual altera as regras para exploração do petróleo e do gás natural em águas profundas, extingue a atuação obrigatória da Petrobrás em todos os consórcios formados para a produção nessa área, o que, na prática, visa a transferir o patrimônio do povo brasileiro ao grande capital internacional. (LINO; ARRUDA, 2018, p.20).

Estas e outras medidas caracterizam um desmonte organizado das políticas sociais no país, configurando um cenário de crise social, política e econômica, que evidencia as desigualdades socioeconômicas estruturais que persistem no país e atingem a população mais empobrecida. Esse cenário foi agravado, ainda mais, com a pandemia da Covid-19, devido à má gestão governamental no combate à disseminação do coronavírus. As reformas fiscal, trabalhista e previdenciária que se iniciam no governo Temer e continuam no governo Bolsonaro têm caráter neoliberal que visa a implantação de um projeto de redução do Estado e de dependência econômica do capital internacional, defendido pelas oligarquias político- econômicas brasileiras.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 56-60)