Consideramos que a abordagem do ciclo de políticas apresenta uma concepção de política pública que – da sua elaboração à sua implementação –pressupõe uma atuação mais ampla da sociedade, que podemos denominar, apoiados em Gramsci (2017), de sociedade
civil, e não somente da atuação da sociedade política. Assim, adotamos neste trabalho a concepção de Estado de Gramsci, segundo a qual há uma combinação entre coerção e hegemonia para garantir o domínio de um grupo sobre outro (GRAMSCI, 2017; COUTINHO, 2020). Ao analisar os mecanismos de construção dessa hegemonia, Gramsci amplia o conceito de Estado, contemplando as diversas instâncias institucionais que compõem a sociedade. Nessa concepção, o Estado é composto por duas instâncias distintas: a sociedade civil e a sociedade política. Apesar de distintas, essas instâncias só podem ser separadas didaticamente.
Assim, sociedade política consiste no conjunto de instituições estatais cuja função é assegurar que o Estado exerça seu controle sobre a sociedade, isto é seu papel coercitivo.
Assim, o Estado-coerção é formado pelos mecanismos que asseguram o monopólio do uso da força pela classe dominante, como a burocracia e polícia, ou seja, os aparelhos governamentais incumbidos da administração, da coerção e da organização dos grupos em confronto. A sociedade civil é composta pelas organizações – estatais ou não, públicas ou privadas –responsáveis pela elaboração e difusão das ideologias: as escolas, as igrejas, associações privadas, sindicatos, partidos políticos, imprensa etc. É em torno dessas organizações que se organizam as vontades coletivas, seja dos grupos dominantes, seja dos dominados.
Essa concepção se opõe a ideia de Estado Sujeito que é característica da matriz de pensamento liberal. Nesta, o Estado não se confunde com a sociedade, pois entende-se o Estado como:
uma entidade ativa, externa e acima dos homens e da sociedade em seu conjunto, dotada de vontade própria, de auto iniciativa, sem correspondência com os indivíduos e grupos sociais distintos e, por isso mesmo, dotada de total poder de (co)mando sobre os homens em sociedade. (MENDONÇA, 2014, P. 30).
De acordo com Mendonça (2014), o Estado em Gramsci não deve e nem pode ser pensado como organismo próprio de um grupo ou fração de classe. Ele também incorpora as demandas e interesses dos grupos subalternos, mesmo que seja anulando sua lógica própria.
Para a autora, o conceito de Estado ampliado, ou Estado Integral, permite verificar
a estreita correlação existente entre as formas de organização das vontades (singulares e, sobretudo, coletivas), a ação e a própria consciência (sociedade civil) – sempre enraizadas na vida socioeconômica – e as instituições específicas do Estado em sua acepção restrita (sociedade política). (MENDONÇA, 2014, p.34).
Portanto, de acordo com a autora, podemos entender que a sociedade civil não é apenas o conjunto de aparelhos localizados “fora da esfera estatal”, como supõem alguns, mas, um elemento relevante para a elaboração e difusão ideológica, extremamente importante para o funcionamento do Estado. Entretanto, esta não apresenta um pensamento único, visto que a sociedade civil é marcada pelos conflitos de classe e nela se confrontam projetos distintos, até contraditórios ou antagônicos. Assim, a sociedade civil seria uma arena da luta de classes e da afirmação de projetos em disputa. O consenso é obtido por meio dos aparelhos de hegemonia assim como através do próprio Estado, no sentido restrito, que generaliza o projeto da classe dominante em determinado contexto histórico. Como Poulantzas (2000, apud MENDONÇA, 2014, p.36) explicita: “De modo dialético, o Estado ampliado resulta das diferentes formas de organização e conflito da vida social, constituindo-se, ele próprio, numa relação social entre forças desiguais”.
Nessa concepção, a sociedade civil é o espaço privilegiado de disputa da hegemonia de classe, onde a hegemonia é construída para dar direção política. Ao conquistar a direção política, a fração de classe hegemônica se torna governo.
Para Gramsci (2012), a escola, assim como outras instituições, contribui para que o Estado cumpra a função de criar e manter certo tipo de ideologia8 sobre o que é ser uma civilização e um cidadão, pela difusão de costumes e pela cultura. Esse constitui o papel educador do Estado, “na medida em que tende precisamente a criar um novo tipo ou nível de civilização” (GRAMSCI, 2012, p. 28, C. 13, § 11, apud JACOMINI,2018, p.9). Essa ideologia corresponde aos interesses da classe dominante e às necessidades de desenvolvimento das forças produtivas.
Assim, sendo as escolas e as instituições de ensino superior, aparelhos de hegemonia, encontramos em seu interior, uma intensa disputa pela consolidação dos interesses da classe dominante, assim como processos de resistência. E, portanto, nas disputas travadas durante a execução de projetos como o PIRP podemos identificar as propostas de formação de professores que estão em jogo.
A partir da lógica de programas de formação, mantido por bolsas, de caráter temporário, o Estado busca implementar o projeto da classe dominante, e conquistar um consenso aos poucos. As IES vão aceitando uma determinada característica, considerada
8 Existem várias acepções do termo ideologia. Neste trabalho estamos nos referindo a ideologia como definido por Marilena Chauí (2001), como um conjunto lógico e sistemático de normas e representações que prescrevem aos membros de uma sociedade dividida em classes formas de agir, pensar e sentir, cuja função é dar a esses membros uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes.
menos prejudicial ao seu projeto para não perder a bolsa, e em paralelo, e muitas vezes paradoxalmente, vai criando brechas para a conformação ao projeto dominante.
Assim, consideramos que o conceito gramsciano de Estado Integral ou ampliado contribui para a nossa pesquisa por favorecer a compreensão dos processos que envolvem agenda, elaboração, implementação e avaliação de políticas públicas. Nessa concepção, as Universidade e as escolas, à medida que participam do Estado assim compreendido tanto as organizações e instituições da sociedade política quanto as da sociedade civil, atuam como agentes de conformação a esta política, como de resistência a ela. Se o Estado é Sociedade Civil + Sociedade Política, e a política é a ação do Estado, a política não pode ser resumir a ação governamental, aos interesses expressos por um dos grupos (o dominante) no processo de proposição de uma política. A concepção de a política se constitui nos contextos, no processo, permite apreender a ação da sociedade civil, sua influência, a tensão exercida por ela para a construção de uma política pública.
A partir dessa concepção, o Estado deixa de ser compreendido apenas como uma estrutura burocrática, que representa exclusivamente os interesses de uma determinada classe, e passa a ser compreendido como um espaço de disputa onde, a depender da correlação de forças, reivindicações e interesses das classes subalternas podem ser incorporados nas políticas públicas.