CAPÍTULO 3 AS BASES DE UMA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA REALISTA . 101
3.2 A defesa de uma ontologia moral
3.2.1 O homem como um animal que se autointerpreta
Neste tópico avaliaremos a condição autointerpretativa do sujeito a partir de duas perspectivas. A primeira é o caráter hermenêutico do sujeito como intérprete dos seus próprios sentimentos, possibilitando o acesso ao domínio de importâncias significativas (imports)376 referentes ao sujeito (subject-referring). Já na segunda perspectiva, avaliaremos a noção de linguagem das emoções (language of the emotions) como constitutiva de uma vida articulada a partir de uma reflexão mais aprofundada sobre como a nossa identidade é formada por nossas autocompreensões.
A chave hermenêutica para a interpretação do conceito de pessoa e moralidade em Taylor reside na tese de que “os seres humanos são animais que se autointerpretam”377. Para ele, ser pessoa é mais do que ter certas capacidades que nos diferenciam das demais espécies, mas sim ser um intérprete de si mesmo e da realidade que o rodeia. Nesse movimento não só de conhecimento pessoal, mas também de conhecimento da realidade, ser pessoa significa responder ao chamado da própria existência e isso só nos cabe fazer de modo engajado, responsável e autorreflexivo. Por isso, ele afirma que “um ser desse tipo é um respondente”378.
Nesse raciocínio, Taylor quer sustentar a ideia de que o que nos diferencia de outros tipos de agentes não é a nossa consciência representativa e a nossa superioridade estratégica diante da vida e das coisas, mas sim a nossa capacidade de avaliação e reavaliação da nossa própria vida. Por isso, é necessário compreender pessoa não como portador de uma consciência representativa, mas sim “entender um agente essencialmente como um sujeito de significância”379.
Para estar lançado neste mundo de significações, o filósofo canadense identifica a autointerpretação como característica incontornável do ser humano no que se refere à construção livre de sua agência. Ser agente humano é ser capaz de refletir, avaliar e
375 TAYLOR, Charles. As fontes do Self: A construção da identidade moderna. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2011, p. 43.
376 Por import (importância significativa), Taylor entende um modo em que algo pode ser relevante ou de importância para os desejos ou propósitos ou aspirações ou sentimentos de um sujeito; ou colocado de outro modo, uma propriedade de algo por meio do qual é uma questão de não indiferença a um sujeito.
(TAYLOR, Charles. Self-Interpreting Animals. Human agency and language - Philosophical papers 1.
Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 48).
377 Ibid. p. 45.
378 TAYLOR, Charles. The Concept of a Person. In: Human agency and language - Philosophical papers 1. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 97.
379 Ibid. p. 102.
125 interpretar a narrativa de sua própria vida e reconstruí-la a partir do pano de fundo de suas pré-compreensões (pre-understandings) para usar um termo heideggeriano.
Portanto, interpretar a si mesmo não é simplesmente uma capacidade inerente, mas uma necessidade vital do indivíduo de se posicionar diante da realidade vivida.
Pois, a agência humana está inextrincavelmente ligada à nossa condição de seres que experimentam o mundo, de engajamento.
Nesse engajamento, nós assumimos a narrativa de nossa própria história, o que nos torna “capazes de avaliar o que nós somos até o ponto que nós podemos nos moldar nesta avaliação, pois somos responsáveis pelo que nós somos de um modo que outros sujeitos de ação e desejos (os animais superiores, por exemplo) não podem ser dito ser”380.
Nessa perspectiva, estamos lançados na existência como seres capazes de experimentar emoções e sermos conscientes de nossas situações. Não podemos nos enquadrar a leis a priori capazes de previsibilidade de nossos comportamentos, pois a neutralidade em relação aos nossos próprios sentimentos e situações não é só impossível, mas uma distorção de nossa condição de sujeitos. Em Self-Interpreting Animals, Taylor descreve em detalhes a sua posição contra uma postura reducionista do comportamento humano e mostra ainda que essa posição do conceito de pessoa não nos leva a um subjetivismo, mas resgata uma compreensão mais profunda da natureza humana. De acordo com ele:
Essa concepção de homem resiste essencialmente à redução da experiência a uma visão meramente subjetiva sobre a realidade, ou um epifenômeno, ou uma descrição desordenada. Pelo contrário, a afirmação é que nossa interpretação de nós mesmos e nossa experiência são constitutivas de quem nós somos, e, portanto, não pode ser considerada como meramente uma visão sobre a realidade, separável da realidade, nem como um epifenômeno, que pode ser passado pelo nosso entendimento da realidade.381
Com essa passagem, pode-se depreender que a tese desenvolvida por ele está intrinsecamente relacionada com a nossa condição de agentes corporificados382, pois enquanto tal, nós não só apreendemos a realidade em categorias preestabelecidas, mas a percebemos de um ponto de vista que não pode ser indiferente ao sujeito, mas se entranha nele. A sua preocupação por um conceito de pessoa enquanto ser percipiente, que provém da influência de Merleau-Ponty, pode ser considerada o caminho para a
380 TAYLOR, Charles. Responsibility for Self. In: RORTY, Amélie. The Identities of Persons. Berkeley:
University of California Press, 1976, p. 282.
381 TAYLOR, Charles. Self-Interpreting Animals. In: Human agency and language - Philosophical papers 1. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 47.
382 No segundo capítulo desta pesquisa acenamos brevemente a condição corporificada de racionalidade que Taylor adota.
126 investigação da condição hermenêutica do sujeito, cuja influência decisiva foi sem dúvida Martin Heidegger.
O marco teórico dessa preocupação em Taylor já está explícito desde o seu primeiro artigo escrito com Michael Kullman, The pre-objective world383, de 1958, em que viceja uma interpretação da fenomenologia merleau-pontyana valorizando a condição engajada de agência humana, cuja qualquer pretensão de objetificação do sujeito tende ao reducionismo. Ainda em seu primeiro livro de 1964, The Explanation of Behaviour, essa preocupação se evidencia mais fortemente quando o escopo teórico deste era lançar uma crítica às bases do behaviorismo psicológico, propondo uma explicação teleológica da ação fundada “nas categorias básicas da antropologia filosófica”384. Poderíamos citar vários outros textos que evidenciam a importância da noção de uma agência engajada em nosso autor. O que é válido ressaltar aqui é que, ao estabelecer uma distinção385 clara entre o que está no âmbito das ciências naturais e o que escapa de suas atribuições, o tema da condição interpretativa do sujeito aparece.
Para Taylor, há algo especial no objeto teórico das ciências humanas que nos proíbe de simplesmente transferir o método elaborado nas ciências naturais ao estudo do homem386. Assim sendo, será necessário delinear os traços peculiares das ciências humanas, tendo em vista as configurações incontornáveis do sujeito. Essa constatação dos limites do método das ciências humanas conduzirá o discurso do nosso filósofo ao aspecto hermenêutico das ciências humanas. Afinal, é possível haver uma ciência hermenêutica? Eis a principal questão que inquieta o nosso autor quando discute os limites e as possibilidades da estrutura hermenêutica para a compreensão do sujeito.
No intuito de dar uma resposta a essa inquietação, Taylor defende que há algum tipo de entendimento, uma compreensão parcialmente explícita sobre as coisas que não pode ser esgotada por formulações exatas, que desempenham um papel essencial na ciência natural. Para explicitar melhor essa preocupação o nosso autor parte da distinção entre uma explicação da motivação humana que parte de propriedades que são independentes da experiência do sujeito (experience-independent properties) e uma que
383 TAYLOR, Charles; KULLMAN, Michael. The Pre-Objective World. The Review of Metaphysics. Vol.
12, Nº 1, p. 108-132, 1958.
384 TAYLOR, Charles. The Explanation of Behaviour. London: Routledge & Kegan Paul, 1964, p. 4.
385 Essa importante distinção entre ciências humanas e ciências naturais, Taylor desenvolve de modo mais detalhado em TAYLOR, Charles. Interpretation and the sciences of man. In: Philosophy and the Human Sciences. Philosophical Papers 2. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, pp. 15-57 e TAYLOR, Charles. Gadamer on the Human Sciences. In: DOSTAL, Robert J. (Ed.). The Cambridge companion to Gadamer. Cambridge University Press, 2002, pp. 126-142; TAYLOR, Charles. Understanding in Human Science, Review of metaphysics, 1980, 34, pp. 25-38.
386 TAYLOR, Charles. Understanding in Human Science, Review of metaphysics, 1980, 34, pp. 25-38, p.
25.
127 parte de propriedades dependentes da experiência do sujeito (experience-dependent properties) no texto Self-Interpreting Animals.
O primeiro tipo de explicação é aquela que ele visa criticar em demasia em todo o seu itinerário filosófico. Esta tem como pressuposto uma explicação das motivações humanas baseada em estados neurofisiológicos ou psicológicos, não identificando nenhum lugar para as propriedades dos sujeitos, consideradas como qualidades secundárias na investigação do comportamento humano.
Segundo o nosso autor, esse foi o marco teórico proporcionado pela revolução científica do século XVII, em que levou a famosa distinção entre propriedades primárias e secundárias ao seu termo. Taylor cita as qualidades clássicas de cor, doçura, calor, etc., como propriedades dos sujeitos, portanto secundárias, e não das coisas. Para essa visão:
A cor é considerada uma propriedade das coisas que ela tem somente na experiência de sujeitos visuais. Se não houvesse tais sujeitos, elas ainda emitiriam luz de certo comprimento de onda, mas a propriedade fenomenal que nós chamamos cor não existiria. Em um universo sem sujeitos visuais não faria sentido falar de coisas como coloridas. Uma explicação das coisas que evita tais descrições relacionadas ao sujeito pode ser chamada uma explicação absoluta.387
É válido ressaltar aqui que esse pano de fundo da investigação de Taylor de questionar as explicações reducionistas de nossa condição humana, visando ao que ficou conhecido como explicação em termos de absolutidade (absoluteness), para usar uma expressão de Bernard Williams388, leva-nos ao arcabouço central de nossa tese de que as ciências humanas não podem se enquadrar nesse critério de absolutidade, justamente pela condição de fatos e significâncias estarem juntas e não separadas como se pretendeu.
O que conduz à afirmação do nosso autor de que o ser humano deve ser compreendido não por essa perspectiva, mas por caracterizações daquilo que é desejável (desirability characterizations)389, que “pertencem a uma variedade de descrições que ultrapassa o que tem sido considerado os limites das ciências naturais”390.
Nesse sentido, o ser humano escapa das caracterizações objetivistas do comportamento humano, pois, sendo seres de significações, as nossas ações e emoções
387 TAYLOR, Charles. Understanding in Human Science, Review of metaphysics, 1980, 34, p. 31-32.
388 Bernard Williams desdobra esse tema em: WILLIAMS, Bernard. Ethics and the limits of philosophy.
Fontana Press, 1985, p. 139-140. Por concepção absoluta do mundo, Williams entende como uma visão de “mundo como ele é independente de nossa experiência”.
389 Taylor empresta este termo de Elizabeth Anscombe em ANSCOMBE, Elizabeth. Intention, Cambridge: Cambridge University Press, 1958.
390 TAYLOR, Charles. Understanding in Human Science, Review of metaphysics, 1980, 34, p. 31.
128 devem ser explicadas a partir do ponto de vista do sujeito, e não do observador. Pois
“entender alguém é compreender suas emoções, suas aspirações, aquilo que ele acha admirável ou desprezível. [...] É compreender, em uma linguagem fenomenológica, o seu mundo de significações”391.
Na verdade, tanto as nossas ações quanto as nossas emoções só fazem sentido se referentes ao sujeito. Não obstante, isso não quer dizer que Taylor está construindo sua análise das emoções e das experiências humanas “somente pelo nosso lado narcisista”392 ou por uma espécie de teoria referente ao self (self-referring), que tornaria o “eu” o centro da investigação, mas sim que ele se volta para uma compreensão mais alargada de pessoa humana que não descarta a dimensão significativa para a explicação das motivações humanas. O que leva Taylor a afirmar que:
Nossos sentimentos referentes ao sujeito nos abrem para o domínio do que é ser humano; porque nós não podemos ter nenhuma consciência desapaixonada do bem humano; e a qualidade de nossa consciência do bem é uma função de alinhamento dos nossos sentimentos. [...] O sentido das significações importantes (imports) que os sentimentos incorporam tem sido articulado em uma imagem de nossa situação moral, de acordo com o qual alguns bens são superiores a outros, enquanto ainda outros são falsos ou ilusórios. E isto é onde começa fazer sentido falar de homem como um animal que se autointerpreta. Porque essas articulações são em certo sentido interpretações. [...] Vida humana nunca está sem sentimento interpretado; a interpretação é constitutiva do sentimento.393
As propriedades referentes ao sujeito, portanto, são aquelas que só fazem sentido se experimentadas por um sujeito. Propriedades como vergonha, humilhação, indignação, remorso, etc., são sentimentos que só têm atribuições de significância (imports) se experimentados por ele e, mais ainda, se estiverem articulados com um pano de fundo constitutivo como seres sociais e agentes linguísticos. Nossas emoções são interpretadas, não podem ser simplesmente decodificadas como pretendem as teorias do input, por exemplo. De acordo com o nosso autor, “essas propriedades são próprias da vida de um sujeito de experiência”394.
Essa noção nos leva ao segundo ponto de nossa investigação que é a relação entre interpretação e identidade. Afinal, a interpretação de nossas emoções, ao nos possibilitar a compreensão de nossa situação, é capaz de tocar o sentido mais profundo da nossa autoconsciência? E mais ainda, a compreensão de nossas emoções nos capacita percebê-las como distorcidas ou apropriadas? Como podemos fazer uma espécie de
391 Ibid. p. 32.
392 TAYLOR, Charles. Self-Interpreting Animals. In: Human agency and language - Philosophical papers 1. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 57.
393 Ibid. p. 62-63.
394 Ibid. p. 54.
129 transvaloração (transvaluation) daquilo que nós sentimos distorcidamente para vivermos uma vida mais articulada? Para responder a essas perguntas, a noção de uma linguagem das emoções (language of the emotions) como elemento articulador da identidade do sujeito será de extrema importância para o desenvolvimento de nossa tese.
Para o nosso autor, o fato de o sujeito poder atribuir importâncias significativas aos seus sentimentos e poder qualificar suas emoções não significa que ele tenha apenas um papel subjetivo diante delas, mas sim que essas atribuições de significância sejam importantes para a compreensão de uma vida articulada, que é própria do sujeito, que é original e expressiva. Assim:
Experimentar uma dada emoção envolve experimentar nossa situação como sendo de certo tipo ou tendo certa propriedade. Mas esta propriedade não pode ser neutra, não pode ser algo para o qual nós somos indiferentes, ou caso contrário nós não seríamos movidos. Antes, experimentar uma emoção é ser consciente de nossa situação.395
Para a compreensão da relação entre emoções e situação, o nosso autor cita vários tipos de emoções que poderíamos sentir e atribuir importâncias significativas, como sentir-se humilhado, envergonhado, indignado, culpado, maravilhado, etc. Todos esses sentimentos somente farão sentido para um sujeito que tem como pano de fundo suas pré-compreensões, suas próprias importâncias significativas (imports) e é capaz de caracterizá-las como tal, o que ele identifica com o sentido de autoconsciência.
Essa proposta por uma espécie de teoria das emoções está marcada por uma crítica que sempre reitera no pensamento de Taylor, como já dissemos, que são as explicações reducionistas do comportamento humano e a tentativa de mapeamento396 de nosso estado de sujeitos para a construção de autômatos, por exemplo.
Segundo ele, o único tipo de mapeamento que podemos fazer é o das nossas motivações e intuições morais, e estas são sempre referentes ao sujeito e fruto de avaliações fortes, como veremos adiante. O que está envolvido nesse mapeamento é a compreensão de nossas emoções como um direcionamento a uma dimensão vivida da existência do sujeito que somente poderia ser sentida por ele qua sujeito.
Em um texto da juventude intitulado Explaining Action de 1970, Taylor desenvolve melhor a caraterização das emoções e dos sentimentos a partir da teoria da
395 Ibid. p. 48.
396 Uma importante fonte de Taylor para essa crítica à tentativa de mapear o comportamento humano por uma Inteligência Artificial foi o livro de Hubert Dreyfus, em que acena a condição corporificada de pessoa como configuração incontornável, cuja pretensão de mapeamento seria inalcançável. Ver em DREYFUS, Hubert. O que os computadores não podem fazer. Rio de Janeiro: Casa do Livro Eldorado, 1975.
130 emoção desenvolvida por Anthony Kenny em Action, Emotion and Will397. Neste texto, o filósofo canadense nos mostra que a visão dualista tradicional de que as nossas emoções sempre se referem a objetos exteriores a nós e que elas não exercem influência direta em nosso comportamento, ou melhor, até exercem influência, mas não servem para a explicação do comportamento humano, tem nos legado um conjunto de equívocos acerca das emoções, desqualificando o valor delas não só para a explicação do comportamento, mas também para a compreensão da identidade humana.
Não obstante, Taylor reforçará que muitas das nossas emoções podem ser consideradas uma força disposicional indispensável para a consumação das nossas ações, possibilitando formar a identidade dos sujeitos por meio da interpretação que eles fazem de suas próprias emoções. Ele diz mais ainda que separar o sujeito de suas emoções e sentimentos em busca de uma objetividade neutra na compreensão da natureza da ação humana “é ignorar completamente nossa noção crucial de agência”398.
O seu ponto de partida é contribuir com uma teoria das emoções não apenas focada nas “conexões não contingentes de emoções e sentimentos com seus objetos”399, mas sim revelar, juntamente com Kenny, que tanto as emoções quanto os sentimentos podem ser considerados inspirações para a produção do comportamento do sujeito.
Para essa defesa, é preciso superar a visão dualista tradicional de que o objeto da emoção é a sua causa. A sua indagação é: “As emoções são, então, estados da mente definidos não-intrinsecamente em termos de suas „causas‟, ou o que dá origem a elas, como os desejos são pelo que eles dão origem?”400
A resposta a essa indagação é desenvolvida ao longo do texto a partir da tese de que as emoções e sentimentos podem ser úteis para a explicação da agência humana porque “emoções são modos de consciência afetiva de seus objetos, como tal, elas são modos de não ser indiferente àqueles objetos”401. Essa convocação à não indiferença é o que Taylor tem continuamente defendido ao longo de sua trajetória filosófica, pois emoções e sentimentos, por sua própria natureza, “servem sempre como pano de fundo (background) para a explicação de nossas disposições”402.
O exemplo do sentimento de vergonha citado por ele em Self-Interpreting Animals é bem esclarecedor. “A vergonha é uma emoção que um sujeito experimenta
397 KENNY, Anthony. Action, Emotion and Will. London: Routledge & Kegan Paul, 1965.
398 TAYLOR, Charles. Explaining action, Inquiry: An interdisciplinary journal of Philosophy, V. 13, p.
54-89, 1970, p. 71.
399 Ibid. p. 66.
400 Ibid. p. 66.
401 Ibid. p. 72. (Grifo nosso)
402 Ibid. p. 72.
131 em relação a uma dimensão de sua existência como um sujeito. O que nós podemos nos envergonhar são propriedades que são essencialmente propriedades de um sujeito”403. Ao ver do nosso autor, essa emoção está ligada a uma dimensão expressiva que se relaciona diretamente com o nosso pano de fundo narrativo, cultural e com a nossa aspiração à dignidade.
O importante, portanto, a ser destacado nessa relação é que a partir do momento que o sujeito é capaz de atribuir significatividade à sua situação, ele também é capaz de descrevê-la e explicitar, mesmo que de modo ainda confuso, algumas bases implícitas da situação em que ele está envolvido. Essa descrição envolve o movimento de articulação de nossos sentimentos. O que leva Taylor a afirmar que “atribuir uma importância significativa é fazer um julgamento sobre o modo como as coisas são, que não pode ser simplesmente reduzido ao modo como nós sentimos sobre elas”404.
Assim sendo, o papel da linguagem das emoções como momento avaliativo do sujeito em relação à sua própria vida nos possibilita articular o que antes estava confuso ou até mesmo transformar os nossos próprios sentimentos. Na verdade, “nossa linguagem das emoções é indispensável precisamente porque ela é irredutível. Ela se torna uma condição essencial da articulação”405. E essas articulações, afirma Taylor,
são tentativas de formular o que está inicialmente incompleto, confuso e mal formulado. E esse tipo de formulação ou de reformulação não isenta seu objeto de alterações. Fornecer uma determinada articulação é, de certo modo, moldar o sentido do que nós desejamos ou do que consideramos importante.406
A nosso ver, o papel dessa via articuladora é relacionar sentimento e reflexão, pois só podemos ter consciência de nós mesmos a partir daquilo que é de fato importante para nós. E o modo como nós sentimos as emoções e experimentamos determinados sentimentos depende em parte do modo como nos interpretamos, “do modo como eu me apresento, projeto ou expresso no espaço público”407. Nesse aspecto:
Se nós pensarmos sobre este sentido reflexivo do que nos importa como sujeitos como sendo distintivamente humano – e isto é claramente central para a nossa noção de nós mesmos que nós somos tais seres reflexivos; isto é o que subjaz a definição tradicional de homem como um animal racional – nós poderíamos dizer que nossos sentimentos referentes ao sujeito
403 TAYLOR, Charles. Self-Interpreting Animals. In: Human agency and language - Philosophical papers 1. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 53.
404 Ibid. p. 55.
405 Ibid. p. 57.
406 TAYLOR, Charles. What is Human Agency? In: Human agency and language - Philosophical papers 1. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 36.
407 TAYLOR, Charles. Self-Interpreting Animals. In: Human agency and language - Philosophical papers 1. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 57.