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CAPÍTULO 1 A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE MODERNA

1.2 A construção do self moderno

1.2.3 O princípio da liberdade autodeterminante

A partir dessas perceptíveis mudanças na noção de self, que vimos nos tópicos anteriores, é inegável que a concepção de liberdade também se transformaria, afinal, se agora me reconheço como self a partir do que sou como indivíduo destacado da sociedade em nível constitutivo, passa-se a reconhecer também que sou capaz de autolegislar as minhas escolhas sem referência a alguma autoridade externa ou hierarquia superior ordenadora. De acordo com Taylor, “a liberdade moderna surgiu por esse descrédito”101.

98 Ibid. p. 187.

99 Ibid. p. 203.

100 Ibid. p. 189.

101 TAYLOR, Charles. A ética da autenticidade. São Paulo: Realizações, 2011, p. 12.

44 Na tentativa de repensar o conceito de liberdade apregoado na modernidade e possibilitar uma discussão mais acurada acerca das condições de ser livre na sociedade contemporânea, nós dedicaremos à exposição do tema tendo em vista os dois polos da liberdade, „o positivo e o negativo‟102, abordados por Taylor a partir da divisão estabelecida por Isaiah Berlin.

É importante destacarmos que “a noção moderna de liberdade que se desenvolve no século XVII como a independência do sujeito, a determinação de seus próprios propósitos sem interferência da autoridade”103, tornou-se o lema de nossa civilização.

Essa concepção que perpassará as teorias do contrato social do século XVII e terá seu ápice em Kant, com a ideia de autonomia radical, é o princípio que queremos mostrar aqui como uma das bases da constituição da identidade moderna.

A construção moderna do conceito de indivíduo que vimos nos tópicos anteriores é de crucial importância para entendermos as concepções de liberdade negativa e positiva em Taylor. A primeira percebe esse indivíduo como destacado do social para ser livre e a valorização da liberdade está no poder da escolha. Só se é livre em virtude do “poder de escolha que os homens possuem de conceber alternativas e chegar a uma definição do que realmente querem, assim como discernir o que exige sua adesão ou lealdade”104. A segunda percebe o exercício da liberdade como processo de autorrealização do indivíduo na unidade expressiva da comunidade, o papel da liberdade não se limita à escolha, mas à noção de bens compartilhados e fortemente avaliados. Em Sources of the Self, Taylor afirma que a liberdade moderna:

É definida negativamente pelo declínio ou erosão de todos aqueles quadros da ordem cósmica que poderiam oferecer uma definição substantiva para nossos propósitos paradigmáticos como seres racionais. Mas é também definida positivamente pelos poderes reflexivos centrais ao sujeito moderno, aqueles que lhe conferem os diferentes tipos de interioridade, os poderes da razão desprendida e a imaginação criativa.105

De acordo com o nosso autor, a liberdade negativa pode ser vista como princípio radical de autodeterminação do sujeito. Só se é livre se temos o direito de escolher nosso modo de vida independentemente da dimensão valorativa de nossas escolhas.

Taylor chama esse princípio de liberdade ultraliberal, em que “todas as escolhas são

102 Taylor desenvolve essa distinção no artigo “What is wrong with negative liberty” por influência do artigo de Isaiah Berlin “Two concepts of liberty”. (TAYLOR, Charles. What is wrong with negative liberty. In: Philosophy and the human sciences – Philosophical Papers 2. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 211-229)

103 TAYLOR, Charles. As Fontes do Self: A construção da identidade moderna. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2011, p. 113.

104 TAYLOR, Charles. Atomism. In: Philosophy and the human sciences – Philosophical Papers 2.

Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 204.

105 TAYLOR, Charles. As Fontes do Self: A construção da identidade moderna. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2011, p. 506.

45 igualmente compatíveis com esse princípio de liberdade e nenhuma delas pode ser julgada moralmente melhor ou pior por este princípio”106.

Nesse sentido, só se realiza humanamente se se agir livremente de acordo com os direitos de escolha que lhe são atribuídos em sociedade. Para Taylor, esse princípio de autodeterminação recebe uma interpretação profundamente simplista do que é realmente ser livre com as figuras de Hobbes, Locke e Bentham quando adotam uma postura instrumental e atomizada de sujeito. Eles percebem a liberdade como uma condição do sujeito humano de escolher e não um potencial que precisa ser desenvolvido. Para esses autores, ser livre está ligado às oportunidades de realizar desejos, a liberdade é vista como a ausência de obstáculos externos que possam tolher a realização daqueles.

O filósofo canadense entende que essa noção está baseada em “uma psicologia moral completamente simplista do empirismo tradicional”107, que nos torna incapazes de reconhecer o que significa realmente ser livre. Entender a liberdade como um princípio de oportunidades (opportunity-concept) não nos capacita para avaliar os nossos desejos a partir de valores morais que nos constituem, ou seja, de um processo de discriminação dos nossos desejos em ordem de superioridade e inferioridade para a nossa própria autorrealização em comunidade.

Nesse sentido, o filósofo canadense entende que a liberdade ultraliberal está fortemente associada a um pluralismo de bens que não nos possibilita guiar a nossa vida para a dimensão da autorrealização que se pretendia, pois a questão de “termos direito de fazer o que quisermos com os nossos bens, qualquer disposição que se escolhe passa a ser igualmente justificável a partir do ponto de vista deste princípio”108.

Nesse pluralismo de bens aparentemente consensuais o princípio que rege a dimensão da liberdade torna-se uma razão procedimental que, em vez de conduzir o indivíduo à realização dos seus desejos e, consequentemente, à autorrealização, leva-o à maximização dos seus desejos como uma condição de ser livre, que está longe de ser uma condição autêntica para Taylor.

Nessa percepção negativa do conceito, quanto mais desejos posso realizar sem restrições externas tanto mais livre posso ser. Esse tipo de liberdade autodeterminante

“permite-lhe fazer o que quer, e a maior aplicação da razão instrumental oferece mais do

106 TAYLOR, Charles. Atomism. In: Philosophy and the human sciences – Philosophical Papers 2.

Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 196.

107 Ibid. p. 197.

108 Ibid. p. 197.

46 que você quer, o que quer que isso seja”109.

Segundo o nosso autor, apesar da inautenticidade dessa concepção, ela tem tido uma forte adesão em nossa sociedade. Em The Ethics of Authenticity e nos artigos What is wrong with negative liberty, Kant‟s Theory of Freedom e Atomism, o nosso autor mostra bem o papel central da vertente negativa para o desenvolvimento de uma sociedade liberal neutra. Ele afirma que “nós vivemos em uma era de movimentos de libertação. Este é um sinal do grau em que a liberdade tem se tornado o valor central da nossa cultura”110, já que nunca se falou tanto no direito de ser livre e autônomo.

O que está em questão é que essa noção, independentemente da sua influência negativa de liberdade em nossa sociedade, é, para Taylor, profundamente reducionista e simplista, pois o conceito de liberdade deve ser mais rico do que isso. “Pois essa noção de autodeterminação da liberdade, empurrada até os seus limites, não reconhece quaisquer fronteiras, nada dado que tenha de respeitar em meu exercício de autodeterminação da escolha”111.

Por isso, o nosso autor percebe em outra vertente da noção de liberdade um caráter significativo e autorrealizador, pois adere a uma noção de indivíduo livre em comunidade, cuja valorização do discernimento das motivações intrínsecas aos desejos torna-se importante para o exercício autêntico da liberdade. Essa noção a entende como princípio de autorrealização própria de cada indivíduo, baseada principalmente na vertente pós-romântica, cujo lema fundamental não é o de oportunidades, mas sim o de exercício (exercise-concept).

De acordo com Taylor, a liberdade de autorrealização não pode se basear puramente na ideia de oportunidade, como a liberdade negativa propõe, porque, antes de tudo, ela deve ser um exercício. “Pois esta concepção identifica (ao menos parcialmente) a liberdade com a direção de si mesmo, isto é, o exercício concreto do controle sobre a própria vida”112.

A ideia de exercício está alicerçada nos princípios de significação e distinção qualitativa, tão caros a Taylor, que veremos no terceiro capítulo desta pesquisa. O que é válido ressaltar aqui é que a opção pela liberdade positiva não se baseia no completo repúdio pela noção negativa, mas mostra suas insuficiências restritivas ao próprio direito de ser livre e o que significa viver em comunidade e liberdade. De acordo com o

109 TAYLOR, Charles. A ética da autenticidade. São Paulo: Realizações, 2011, p. 30.

110 TAYLOR, Charles. Kant‟s theory of freedom. In: Philosophy and the human sciences – Philosophical Papers 2. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 318.

111 TAYLOR, Charles. A ética da autenticidade. São Paulo: Realizações, 2011, p. 74.

112 TAYLOR, Charles. What is wrong with negative liberty. Philosophy and the human sciences – Philosophical Papers 2. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 214.

47 nosso autor, o descarte da noção de significância que está no pano de fundo do exercício da liberdade tem sido um processo destrutivo das próprias condições de ser livre.

Não obstante, em um exemplo bem elucidativo, o filósofo canadense nos faz perceber que apesar do erro das teorias negativas da liberdade de não perceberem o caráter intrínseco dos desejos, que vão além dos cálculos de uma relação custo- benefício, há um caráter implícito de valores superiores que vigoram em nossa sociedade e que parecem ultrapassar a esfera de direitos apenas, dando espaço para a afirmação da liberdade positiva.

Taylor mostra a diferença entre esses dois polos da liberdade a partir da noção de uma restrição trivial e outra que se refere a um tipo de exercício de liberdade que nos parece superior. Certamente, poderíamos ter a nossa liberdade cerceada em diversas circunstâncias. Taylor cita uma delas: suponhamos que fosse instalado um semáforo de trânsito próximo à sua casa que te impedisse de transitar livremente com o seu carro nesse cruzamento como outrora. Agora, você não pode simplesmente ter atenção no trânsito para evitar colidir com os outros carros, mas deve parar no sinal vermelho e esperar que acenda o sinal verde para que possa passar.

Apesar de esse fato ser um exemplo de um tipo de cerceamento trivial de nossa liberdade, podemos compreender facilmente, que, apesar do nosso direito de locomoção, também é necessária a prevenção de mais colisões de carros e uma maior segurança aos pedestres nessa região. Podemos avaliar essa situação em uma relação de custo-benefício sem prejuízo algum para a nossa autorrealização, já que, ao avaliar os prós e os contras, percebemos que essa é uma situação demasiado corriqueira e não um debate político sério.

Não obstante, se porventura houvesse uma lei que te proibisse de exercer a sua crença religiosa de alguma forma, certamente você sentiria que a sua liberdade estaria sendo afetada. Taylor afirma que “ainda que esta lei limitasse esse culto religioso em determinados momentos (assim como o semáforo limita atravessar o cruzamento em determinados momentos) seria vista como uma séria restrição”113. Nesse exemplo, percebemos que, apesar de uma concepção simplista de liberdade que vigora em nossa sociedade, entendendo-a apenas como ausência de obstáculos externos tout court, certamente temos uma noção significativa de liberdade que nos permite avaliá-la em nível de superioridade ou inferioridade, em que ser livre se refere à “ausência de

113 Ibid. p. 218.

48 obstáculos externos à ação significativa”114, e não apenas a obstáculos externos no sentido hobbesiano.

Nessa perspectiva, torna-se necessário repensar o conceito de liberdade como exercício, em detrimento de uma pura noção de oportunidades, para que percebamos que a condição humana de ser livre não está simplesmente em seu poder de escolha, mas está no fato de poder dar conteúdo significativo a essas escolhas. Não nos delongaremos mais acerca deste ponto, pois no terceiro capítulo abordaremos melhor o tema relativo à condição social e livre do ser humano que Taylor apoia. A finalidade deste tópico foi apenas preparar o caminho da nossa investigação acerca do ponto de vista crítico de Taylor em relação à predominância do polo negativo da liberdade moderna que fere a nossa compreensão de sujeito e interfere na compreensão de um modelo autêntico de raciocínio prático.