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O MAL E O PECADO ORIGINAL NA DIMENSÃO DO COSMO

No documento Aparecida Maria de Vasconcelos (páginas 151-178)

PARTE I A CRISTOGÊNESE NA HISTÓRIA DO COSMO “... ET PARTURIT

5.2 O MAL E O PECADO ORIGINAL NA DIMENSÃO DO COSMO

O mal na filosofia clássica tomista é considerado como a “falta do bem natural ao ser e que este deve sofrer [...] a privação da ordenação ao fim devido, pois, não só o fim tem a natureza do bem, mas também o útil, que se ordena ao fim” (TOMÁS Aq., ST., I, q.49, a.1).

Tradicionalmente, o pensamento cristão procurou responder à problemática do mal em geral com o que se conhece como teodiceia. Em sentido estrito, uma teodiceia é toda tentativa de justificar a existência de Deus em face do mal e do sofrimento. Uma vez que Deus é bom e todo-poderoso, então ele deve ser capaz de prevenir o sofrimento da vida. No entanto, o sofrimento e o mal existem claramente. John Haught acredita que o pensamento de Teilhard pode levar a descentralizar uma interpretação expiatória do mal, que adere mais facilmente a uma compreensão pré-evolutiva do universo128.

Numa visão fixista do cosmo, o mal aparece como uma degradação do ser. Em um universo em cosmogênese, aparece como uma falta de acabamento do ser imperfeito, que progride por estágios de organização129.

Teilhard considera o mal como um efeito secundário, subproduto inevitável da marcha de um universo em evolução. Semelhante aos poderosos foguetes lançados ao plano intersideral, que deixam atrás de si espessos rastros de fumaça, um cosmo em movimento apenas pode progredir deixando atrás de si tais rastros130. Esta é, basicamente, a posição do jesuíta acerca do problema do mal. Um exame mais acurado da questão, entretanto, é importante.

127 As questões do mal e do pecado original são canteiros abertos para a teologia. No arcabouço do pensamento teilhardiano, elas desencadeiam críticas, são motivos de polêmicas e merecem pesquisas específicas. Aliás, o próprio Teilhard, ao tratar destes temas, fá-lo com a maior hesitação, quase sempre submetendo suas reflexões ao exame de teólogos profissionais. Já no ensaio Le Milieu Divin, esses temas são tratados de modo mais prudente e ortodoxo. Naturalmente os dois temas extrapolam os limites da nossa pesquisa. Aqui tencionamos apresentá-los, sintetizados, pois são elementos integrantes do mistério da redenção. Os ensaios nos quais Teilhard trata da questão do mal. Écrits du Temps de la Guerre, v. 12, p. 113-124. Id. LaVision du Passé, v. 3, p. 105-106. Id. Le Milieu Divin, v. 4, p. 80-100. Id. Comment je crois, v. 10, p. 101-103. Id. L’Energie humaine, v. 6, p. 105-110. Id. Comment je crois, v. 10, p. 138. Id. L’Avenir de l’Homme, v. 5, p. 119. Id.

Comment je crois, v. 10, p. 228. Id. Les directions de l’Avenir, v. 11, p. 211-213. Id. L‘activation de l’Energie, v. 7, p. 255-257. Id. L’activation de l’Energie, v. 7, p. 267-268. Para um maior aprofundamento da questão do mal em Teilhard, remetemos o leitor para a obra de Jean Maalouf, Le mystère du mal dans l’oeuvre de Teilhard de Chardin. Cf. MOSCHETTA, Fondements, p. 342-358.

128 Cf. HAUGHT, Cristianismo e Ciência, p. 144-145. HAUGHT, John F. Teilhard and the question of life’s suffering. In: DUFFY, Kathleen. (Ed.). Rediscovering Teilhard’s Fire. Philadelphia: Saint Joseph’s University, 2010. p. 53-67. p. 64.

129 Cf. TEILHARD, L’activation de l’Energie, v. 7, note 1, p. 268.

130 Cf. TEILHARD, L’activation de l’Energie, v. 7, p. 268.

Pode o mal tornar-se um problema em um universo que se move em estágios de crescente complexidade? Em Comment je vois (1948), ele afirma:

No Cosmo antigo, supostamente saído inteiramente feito das mãos do Criador, é natural que a conciliação parecesse difícil entre um Mundo parcialmente mau e a existência de um Deus ao mesmo tempo bom e todo-poderoso. Mas em nossas perspectivas modernas, em contrapartida, de um Universo em estado de cosmogênese — e mais particularmente em estado de “enrolamento” — como tantos bons espíritos ainda se obstinam em não ver que, intelectualmente falando, o famoso problema não mais existe?131.

Esclarecendo: em virtude da estrutura do nada, sobre o qual o ato criador se inclina, Deus:

para criar, pode proceder de um único modo: arranjar, unificar pouco a pouco, sob sua influência atrativa, utilizando o jogo tateante dos grandes números, uma multidão imensa de elementos, em primeiro lugar infinitamente numerosos, extremamente simples e tenuamente conscientes — depois, gradualmente mais raros, mais complexos e, finalmente, dotados de reflexão. Ora, qual é a contrapartida inevitável de todo sucesso obtido conforme um processo deste gênero, senão de ter que pagar por uma certa proporção de fracassos? Desarmonias ou decomposições físicas no Pré-vivente, sofrimento com o Vivente, pecado no domínio da Liberdade:

não há ordem em formação que, em todos os graus, não implique desordem. Nada, eu repito, nesta condição ontológica (ou mais exatamente ontogenética) do Participado que fira a dignidade ou limite a onipotência do Criador [...]. [...] o Mal é um subproduto inevitável, ele aparece como uma pena inseparável da Criação132.

O mal aparece, pois, estatisticamente necessário a uma humanidade em gênese.

Ele surge ao longo da unificação do múltiplo, já que é a expressão de um estado de pluralidade ainda não completamente organizado. Reconhecemos, na citação, os dois tipos de mal aos quais Teilhard dedicou mais atenção. O primeiro é o mal físico. A partir desta explicação, ele incorpora o aspecto positivo da Redenção. O segundo é o mal moral. Aqui nos defrontamos com o aspecto negativo da Redenção.

131 TEILHARD, Les directions de l’Avenir, v. 11, p. 211-212. Id. L’activation de l’Energie, v. 7, p. 267-268.

Grifos do autor. “Dans le Cosmos ancien supposé sorti tout fait des mains du Créateur, il est naturel que la conciliation parût difficile entre un Monde partiellement mauvais et l’existence d’un Dieu à la fois bon et tout-puissant. Mais dans nos perspectives modernes, en revanche, d’un Univers en état de cosmogénèse, — et plus particulièrement en état d’ ‘enroulement’ —, comment se fait-il que tant de bons esprits s’obstinent encore à ne pas voir que, intellectuellement parlant, le fameux problème n’existe plus?”

132 TEILHARD, Les directions de l’Avenir, v. 11, p. 212-213.Grifos do autor. “[...] pour créer, ne peut procéder que d’une seule façon: arranger, unifier petit à petit, sous son influence attractrice, en utilisant le jeu tâtonnant des grands nombres, une multitude immense d’éléments, d’abord infiniment nombreux, extrêmement simples et à peine conscients, — puis, graduellement plus rares, plus complexes et, finalement doués de réflexion. Or quelle est la contrepartie inévitable de tout succès obtenu suivant un processus de ce genre, sinon d’avoir à se payer par une certaine proportion de déchets? Dysharmonies ou décompositions physiques dans le Pré-vivant, souffrance chez le Vivant, péché dans le domaine de la Liberté: pas d’ordre en formation qui, à tous les degrés, n’implique du désordre. Rien, je le répète, dans cette condition ontologique (ou plus exactement ontogénique) du Participé qui porte atteinte à la dignité ou limite la toute-puissance du Créateur [...]. [...] le Mal est un sous-produit inévitable, il apparaît comme une peine inséparable de la Création”.

O mal do crescimento, da desordem, do fracasso e a morte ganham um valor definitivo, um sentido positivo para a vida e o trabalho humano desde que vistos num contexto de gênese. Assim Teilhard escreve em La Transposition “conique” de l’action (1942):

O Mal [...], sob todas as suas formas, a Injustiça, a Desigualdade, o Sofrimento, a própria Morte, cessa teoricamente de ser um escândalo no momento em que a Evolução se torna uma Gênese; a imensa dor do Mundo aparece como o reverso inevitável, ou, melhor ainda, como a condição, ou, mais exatamente até, como o preço de um imenso êxito. A Terra, por sua vez, este minúsculo planeta sobre o qual nos esmagamos, a Terra não tem mais nada da prisão estúpida onde tememos nos asfixiar133.

O mal do crescimento humano é inevitável! Todo progresso em direção a uma maior consciência se exprime em termos de trabalho e esforço. O labor humano rumo à unidade, a uma maior personalização, é tecido de dificuldades, ainda que sob aparentes harmonias e alegrias que envolvem o progresso. Nessa engenhosa, por vezes dramática, tessitura, o ser humano, refletindo sobre os degraus ou movimentos de um mundo ascendente, pode sentir a dificuldade da ascensão e/ou uma tendência natural de parar:

Ordenação e centração: dupla operação conjugada que, semelhante à ascensão de um pico ou à conquista do ar, apenas pode objetivamente se efetuar senão no caso de ser rigorosamente paga, por razões e seguindo um preço tais que, se nós os pudéssemos conhecer, teríamos penetrado o segredo do Mundo em torno de nós134.

Lançados desde o nascimento em plena batalha, crescemos convencidos que, para o êxito do esforço universal do qual somos os colaboradores, é inevitável que haja sofrimento e aflição. Avançamos ao preço de numerosas provas que nos estimulam a progredir sempre mais... A epopeia humana de sofrimento rumo à ascensão ao pico é provocação criadora e trampolim para novos impulsos... Esta é uma intuição preciosa ao autor, para quem a vitória está na mesma direção do perigo que tanto nos apavora. Percebemos uma reflexão bem existencial que clama por um papel ativo do ser humano diante das vicissitudes da vida.

133 TEILHARD, L’Avenir de l’Homme, v. 5, p. 119. Grifos do autor. “Le Mal [...], sous toutes ses formes, l’Injustice, l’Inégalité, la Souffrance, la Mort elle-même, cessent théoriquement d’être un scandale, du moment où, l’Évolution devenant une Genèse, l’immense peine du Monde apparaît comme le revers inévitable, ou, mieux encore, comme la condition, ou plus exactement même, comme le prix d’un immense succès. Et la Terre à son tour, cette minuscule planète sur laquelle nous nous écrasons, la Terre n’a plus rien de la prison stupide où nous pensions étouffer”.

134 TEILHARD, Le Phénomène Humain, v. 1, p. 347. “Arrangement et centration: double opération conjuguée qui, pareille à l’ascension d’un pic ou à la conquête de l’air, ne peut objectivement s’effectuer que si ele est rigoureusement payée, pour des raisons et suivant un taux tels que, si nous pouvions les connaître, nous aurions pénétré le secret du Monde autor de nous”.

Quanto às desordens e aos fracassos da natureza, eventos pontuados na citação com que abrimos esta seção, eles são também inerentes a um mundo em evolução. Se Deus escolheu que sua criação alcançasse a plenitude em e por uma cosmogênese, era inevitável que admitisse a desordem como parte do processo. O problema não reside no Criador, mas no seio da multidão em vias de organização135. “Deus não pode, em virtude de suas perfeições, fazer que os elementos de um Mundo em via de crescimento, ou mesmo de um Mundo em via de escalada, escapem aos choques e às limitações, mesmo morais”136. Tal posição é a de Santo Ireneu. Para o bispo de Lião, o mal e o sofrimento no mundo não procedem de um deus malvado, senão do fato de que, por um lado, a criação ainda está inacabada; por outro, pelo fato de o ser humano nela introduzir a semente do mal (LIÃO, Adv. haer. 3,17,6)137.

A morte é a consumação de todas as nossas limitações:

Na morte, como num oceano, confluem nossas bruscas ou graduais limitações. A morte é o resumo e a consumação de todas as nossas limitações: ela é o mal — mal simplesmente físico, na medida em que ela resulta organicamente da pluralidade material em que estamos imersos, mas também moral, enquanto essa pluralidade desordenada, fonte de todo choque e de toda corrupção, é engendrada, na sociedade ou em nós mesmos, pelo mau uso de nossa liberdade138.

Primeiro, detenhamos nossa atenção em seu aspecto físico. Num universo em gênese, no qual as pessoas são destinadas em e pelo ômega a alcançar a plenitude precisamente enquanto pessoas, a morte deve misteriosamente contribuir para o crescimento da personalidade. Sua função é agir como uma metamorfose entre etapas diferentes da personalidade. Primeiramente, a morte deve ser considerada como uma transformação profunda na natureza segundo a qual se produz algo novo. Com efeito, seja lá qual for o espaço ou o nível, quando uma grandeza atinge o máximo de seu desenvolvimento muda bruscamente de aspecto, de estado ou de natureza139.

135 Cf. TEILHARD, Le Phénomène Humain, v. 1, p. 346.

136 TEILHARD, Le Milieu Divin, v. 4, p. 89. “Dieu ne peut pas, en vertu même de ses perfections, faire que les éléments d’un Monde en voie de croissance, ou tout au moins d’un Monde tombé en voie de remontée, échappent aux heurts et aux diminutions, même morales”. Em nota de rodapé nesta mesma página, nota 1, Teilhard esclarece: “Parce que ses perfections ne sauraient aller contre la nature des choses, et que la nature d’un Monde supposé en voie de perfectionnement, ou ‘en remontée’, est justement d’être encore partiellement désordonné. Un Monde qui ne présenterait plus trace, ou menace, de Mal, serait un Monde déjà consommé”.

137 Citado por RUIZ DE LA PENÃ, Teología de la creación, p. 96.

138 TEILHARD, Le Milieu Divin, v. 4, p. 84. “Dans la mort, comme dans um océan, viennent confluer nos brusques ou graduels amoindrissements. La mort est le résumé et la consommation de toutes nos diminutions:

ele est le mal — mal simplement physique, dans la mesure où ele resulte organiquement de la pluralité matérielle où nous sommes immergés, mais mal moral aussi, pour autant que cette pluralité désordonnée, source de tout heurt et de toute corruption, est engendrée, dans la société ou en nous-mêmes, par le mauvais usage de notre liberté”.

139 Cf. TEILHARD, Le Phénomène Humain, v. 1, p. 78.

A segunda etapa é explicada pela operação da energia radial na noosfera. A energia radial, evocada na primeira parte, é a que faz avançar um elemento para uma maior complexidade, uma maior consciência. A energia tangencial tem a função de ligar um elemento a outro, no mesmo nível de organização. No mundo material, a energia radial é dependente da tangencial. Assim sendo, o sentido da morte humana é precisamente a cessação desta dependência da energia radial em relação à energia tangencial140. Trata-se da entropia.

Há uma degradação da energia, isto é, nossas energias se nivelam-se porque se degradam, perdem seu poder motor. A morte supõe, como explica Gustave Martelet, a evidência de que o universo do qual somos fisicamente inseparáveis seja, sem ser destruído, liberado de sua própria entropia141.

Após ter alcançado determinado limite de centração, a pessoa alcança a barreira da morte que ela deve escalar antes de entrar na esfera de um centro superior. Assim, a morte se torna um segundo salto, comparável, em seu efeito sobre o indivíduo, à hominização da espécie. Ela representa uma nova relação entre matéria e espírito. É uma metamorfose!

Esta dura lei da criação não parece tão absurda quando confrontada com a bondade e o poder de Deus. Ciência e fé cruzando os olhares! A Revelação atesta que o verdadeiro significado do sofrimento e da morte é a passagem a uma vida nova em e pelo Cristo. Para os que estão unidos ao Cristo pela fé, o mal físico é colocado a serviço do crescimento espiritual:

O Cristo venceu a Morte, não apenas reprimindo seus malefícios, mas reorientando o seu aguilhão. Pela virtude da Ressurreição, mais nada mata necessariamente, mas tudo é capaz de se tornar, em nossas vidas, o bendito contato das mãos divinas, a bendita influência da Vontade de Deus [...]. “Diligentibus Deum omnia convertuntur in bonum”.142

O aspecto positivo da Redenção, assinalado na seção anterior, adquire uma dimensão libertadora para o ser humano já na realidade presente. Sobressai, ao nosso olhar, também uma das facetas da ação soteriológica da Redenção em regime de cosmogênese. O mistério da Redenção/Ressurreição faz sobressair aos nossos olhos que a cristogênese, na história do ser humano, reorienta toda a sua existência, pois o Cristo reconcilia em si todas as

140 TEILHARD, Le Phénomène Humain, v. 1, p. 265; 302.

141 Cf. MARTELET, La certitude, p. 43.

142 TEILHARD, Le Milieu Divin, v. 4, p. 84-85. Grifos do autor. “Le Christ a vaincu la Mort, non seulement en réprimant ses méfaits, mais en retournant son aiguillon. Par la vertu de la Résurrection, plus rien ne tue nécessairement, mais tout est capable de devenir, sur nos vies, le béni contact des mains divines, la bénie influence de la Volonté de Dieu [...]. Diligentibus Deum omnia convertuntur in bonum” (Jo 3,30: “Convém que Ele cresça e que eu diminua”).

coisas. Pelos efeitos “de sua onipotência recaindo em nossa fé, os acontecimentos que se manifestam apenas em nossa vida como puros detritos se tornarão um fator imediato da união que sonhamos estabelecer com ele”143.

Cristo transformou o mal físico em um instrumento para a purificação da matéria e o crescimento espiritual. Este crescimento toma lugar em e por uma transformação da matéria. A totalidade material do mundo “encerra determinada quantidade de força espiritual, cuja progressiva sublimação in Christo Jesu é, para o Criador, a operação fundamental em curso”144. A tarefa do Cristo, vivo em seus fiéis, consiste em selecionar pacientemente essas forças espirituais da matéria e uni-las a seu próprio corpo. Esta influência do Cristo, que extrai gradualmente uma substância “eleita”145, é responsável pela “convergência geral da matéria em direção ao espírito”146.

A segunda etapa da reflexão concernente ao mistério do mal trata do mal moral.

No contexto evolutivo, o mal moral não é tratado propriamente como falta subjetiva na consciência individual, mas diz respeito à parte da evolução que se tornou reflexivamente consciente. Em outras palavras, uma vez que a “moralização e a santificação do universo são o verdadeiro progresso, o verdadeiro prolongamento do trabalho que deu o cérebro e o pensamento”147, o mal moral é o que afeta o progresso do ser humano rumo ao ômega; é a recusa de amar o ômega.

Apesar da diferença entre mal físico e o mal moral, as duas formas fazem parte de um mesmo e único mal. “Existe um só Mal = a desunião. Chamamo-lo de ‘moral’ quando atinge as áreas livres da alma. Mas, assim como o bem, de resto, que ‘une’, não deixa de ser de essência física148. A abordagem do mal moral seguiu a direção do papel desempenhado pela liberdade, pela responsabilidade e pelo amor. Essas noções demonstram claramente, no

143 TEILHARD, Le Milieu Divin, v. 4, p. 92. “[...] par l’effet de sa toute-puissance tombant sur notre foi, les événements qui ne se manifestent expérimentalement dans notre vie que comme de purs déchets vont devenir un facteur immédiat de l’union que nous rêvons d’établir avec Lui”.

144 TEILHARD, Le Milieu Divin, v. 4, p. 127. Grifos do autor. “[...] une certaine quantité de puissance spirituelle, dont la progressive sublimation in Christo Jesu est, pour le Créateur, l’opération fondamentale en cours”.

145 A palavra eleita é utilizada por Teilhard no contexto de uma purificação da matéria sob a influência salvadora do Cristo.

146 TEILHARD, Le Milieu Divin, v. 4, p. 128.

147 TEILHARD, Genèse, p. 215.

148 TEILHARD, Science et Christ, v. 9, p. 109, nota 2. Grifos do autor. “Il n’y a qu’un seul Mal = la désunion.

Nous l’appelons ‘moral’ quand il affecte les zones libres de l’âme. Mais (comme le Bien, du reste, qui ‘unit’) il reste, même alors, d’essence physique”. O mal moral num processo de unificação é livremente comprometido e, ao mesmo tempo, uma inevitabilidade estatística. A necessidade estatística não implica obrigação nem miniminiza a liberdade do homem.

sistema teilhardiano, a capacidade de autodestruição do ser humano. Isto é, a existência do inferno e a necessidade que ele tem da graça redentora.

Desde que o ser humano atravessou o limiar da consciência reflexiva, ele tem em suas mãos seu próprio destino e o destino da evolução do mundo. Observa-se que “a verdadeira evolução do Mundo se passa nas almas, e na união das almas. Seus agentes íntimos não são mecanicistas, mas psicológicos e morais”149.

O progresso da humanidade para uma maior unidade está na direção a uma maior espiritualização e também a uma grande liberdade. Como já salientado, entre o interior e o exterior das coisas agem simultaneamente a energia radial e a tangencial. No ser humano, as forças da energia radial têm efeito livre e psicossocial, impelindo-o para formas cada vez mais elevadas de comunhão interpessoal. Depende, porém, de cada ser humano aceitar ou recusar a tarefa de subir para uma mais alta união.

Em virtude da evolução da consciência, os atos humanos expressam a evolução da liberdade. O ser humano, por um lado, faz-se lúcido; sua consciência se expande em relação às novas leis que regulam sua conduta. Por outro, descobre novas possibilidades de criação, novos riscos, substituindo um plano superior de perigos.

Quem quer que adote tal visão deveria perceber, “se exaltando ao Infinito, a grandeza de suas responsabilidades”150. Exatamente como a liberdade cresce na história evolutiva da humanidade, a responsabilidade humana cresce ao lado da liberdade. É neste contexto do progresso da humanidade para uma maior unificação que pode ocorrer um fracasso parcial de todo o empreendimento humano:

Mas pode ser também que, segundo uma lei à qual nada escapou no Passado, o Mal, crescendo ao mesmo tempo que o Bem, atinja ao fim o seu paroxismo, também sob forma especificamente nova [...]. Recusa ou aceitação do Ômega? Um conflito pode nascer151.

Está aí explicitamente considerada a liberdade de opção. Recusar esta energia fundamental da vida, que é o próprio sangue da evolução espiritual, significa desviar o ser humano de sua “felicidade de crescer, de sua felicidade de amar, de sua felicidade de adorar”.

149 TEILHARD, Science et Christ, v. 9, p. 76-77.

150 TEILHARD, La Vision du Passé, v. 3, p. 191.

151 TEILHARD, Le Phénomène Humain, v. 1, p. 321. “Mais il se peut aussi que, suivant une loi à laquelle rien dans le Passé n’a encore échappé, le Mal, croissant en même temps que le Bien, atteigne à la fin son paroxysme, lui aussi sous forme spécifiquement nouvelle [...]. Refus ou acceptation d’Oméga? Un conflit peut naître”.

No documento Aparecida Maria de Vasconcelos (páginas 151-178)