PARTE I A CRISTOGÊNESE NA HISTÓRIA DO COSMO “... ET PARTURIT
6.2 O RESSUSCITADO: CENTRO UNIVERSAL “OMNIA IN IPSO CONSTANT”
ordem cósmica pela Ressurreição. Ressuscitando dentre os mortos, o Cristo assumiu sua função como centro universal, a função cósmica de ômega. Como ômega, Cristo é a meta sobrenatural da criação e o vínculo que sustenta todas as coisas.
Em Mon Univers (1924), no texto mais emblemático e decisivo sobre a Ressurreição, ele afirma:
Em geral procuramos olhar a ressurreição mais como um acontecimento apologético e momentâneo, como uma pequena desforra individual de Cristo sobre o túmulo.
Mas ela é bem outra coisa, e muito mais que isto. É um “tremendo” acontecimento cósmico. Ela marca a efetiva tomada de posse, pelo Cristo, de suas funções de Centro universal. Antes ele era em tudo como uma alma que afanosamente reúne seus elementos embrionários. Agora, ele irradia sobre todo o Universo como uma consciência e uma atividade senhoras de si mesmas. Emergiu do Mundo, depois de haver sido nele batizado. Estendeu-se até aos céus, depois de ter tocado as profundezas da Terra: “Descendit et ascendit ut impleret omnia” (Ef 4,10). Quando, em face de um Universo cuja imensidão física e espiritual se revela a nós cada vez mais vertiginosa, nos sentimos aterrados com o peso sempre crescente de energia e de glória que devemos colocar sobre o Filho de Maria para termos o direito de continuar a adorá-lo, pensemos na Ressurreição238.
O mistério da Ressurreição sela definitivamente o caráter cósmico do Cristo. Se, pela Encarnação, ele é cósmico, porque em sua humanidade é portador, como nós, de significação cósmica, a Ressurreição sela esse domínio cósmico. O universo, cuja imensidão física se tornou uma catedral pela Encarnação, pela Ressurreição está pleno da energia crescente do Ressuscitado. Energia que, como já sabemos, é o Espírito presente nas entranhas do universo, fazendo-o convergir e ascender sempre mais a uma nova criação. Trata-se de uma promessa revolucionária que transforma todas as coisas. Se Cristo ressuscitou, é a sua própria ressurreição que faz a humanidade avançar em seu percurso histórico, sociológico, antropológico, espiritual, etc.
De imediato reconhecemos neste texto as palavras do papa emérito Bento XVI, citadas na seção anterior. A ressurreição de Jesus foi o “salto mais decisivo em uma dimensão totalmente nova”, que nunca tinha acontecido nos bilhões de anos da história da vida. Essa
238 TEILHARD, Science et Christ, v. 9, p. 92. “La Résurrection, nous cherchons beaucoup trop à la regarder comme un événement apologétique et momentané, comme une petite revanche individuelle du Christ sur le tombeau. Elle est bien autre chose, et bien plus que cela. Elle est um ‘tremendous’ événement cosmique. Elle marque la prise de possession effective, par le Christ, de ses fonctions de Centre universel. Jusque-là, il était partout comme une âme qui péniblement rassemble ses éléments embryonnaires. Maintenant il rayonne sur tout l’Univers comme une conscience et une activité maîtresses d’elles-mêmes. Il a émergé du Monde, après y avoir été baptisé. Il s’est étendu jusqu’aux cieux après avoir touché les profondeurs de la Terre: ‘Descendit et ascendit ut impleret omnia’ (Eph IV, 10). Quand, en face d’un Univers dont l’immensité physique et spirituelle se révèlent à nous de plus en plus vertigineuses, nous sommes effrayés du poids toujours croissant d’énergie et de gloire qu’il faut placer sur le fils de Marie pour avoir le droit de continuer à l’adorer, pensons à la Résurrection”.
influência do Cristo como centro universal está presente nas “dobras mais ínfimas do mundo”
para transformá-lo e atraí-lo a si.
Na Ressurreição, o cosmo está em Cristo e, como centro universal, sua onipresença cósmica conduz a realidade sideral, fazendo-a crescer e levando-a à perfeição escatológica. O Christ toujours plus grand, em sua humanidade ressuscitada, confere esse dinamismo ascensional. É o que atesta em Super-Humanité, Super-Christ, Super-Charité (1943):
Física e literalmente, em primeiro lugar, Ele é aquele que enche: nenhum elemento do Mundo, em nenhum instante do Mundo, que não se moveu, que não se move, que não se deve jamais mover fora de seu influxo diretor [...].Física e literalmente, ainda, Ele é aquele que consuma [...]. E Ele, o Cristo, sendo o princípio orgânico desta harmonização, todo o Universo se encontra, ipso facto, marcado por seu caráter, marcado por sua escolha, animado por sua forma. Física e literalmente, enfim, pois como nele todas as linhas do Mundo convergem e se reúnem num só todo, é Ele que dá consistência a todo o edifício da Matéria e do Espírito239.
A ressurreição de Cristo desperta-nos para a influência da cristogênese na história do ser humano, o Cristo que cresce sempre mais, secretamente, no seio do mundo e nos seus mais insondáveis limites. Sua influência universal contribui, fazendo penetrar os elementos naturais do universo de finalidade e de vida espiritual, de sua maturação e da elaboração do pleroma. No ensaio La Messe sur le monde (1923), expressa tal influência:
Cristo glorioso, influência secretamente difusa no seio da Matéria e Centro fascinante onde se reúnem as fibras sem número do Múltiplo; Potência implacável como o Mundo e quente como a Vida [...]. Vós cujas mãos aprisionam as estrelas;
Vós que sois o primeiro e o último, o vivente, o morto e o ressuscitado; vós que reunis em vossa unidade exuberante todos os charmes, todos os gostos, todas as forças, todos os estados...240
Eis a percepção científica e mística entrelaçando-se. O Cristo ressuscitado torna- se, pois, coextensivo às dimensões espaciais e temporais. Essa presença gloriosa, tão íntima ao universo e ao interior do ser humano, constatada nas passagens acima e abaixo, conduz a
239 TEILHARD, Science et Christ, v. 9, p. 211. Grifos do autor. “Physiquement et littéralement, d’abord, Il est celui qui remplit: aucun élément du Monde, à aucun instant du Monde, qui ne se soit mû, qui ne se meuve, qui ne doive jamais se mouvoir en dehors de son influx dirigeant [...]. Physiquement et littéralement, encore, Il est celui qui consomme [...]: et Lui, le Christ, étant le principe organique de cette harmonisation, tout l’Univers se trouve, ipso facto, marqué de son caractère, dessiné par son choix, animé de sa forme. Physiquement et littéralement, enfin, puisqu’en Lui toutes les lignes du Monde convergent et se nouent ensemble, c’est Lui qui, à l’édifice entier de la Matière et de l’Esprit, donne sa consistance”.
240 TEILHARD, Le Coeur de la Matière, v. 13, p. 154. “Christ glorieux, influence secrètement diffuse au sein de la Matière et Centre éblouissant où se relient les fibres sans nombre du Multiple; Puissance implacable comme le Monde et chaude comme la Vie [...]; Vous dont les mains emprisonnent les étoiles; Vous qui êtes le premier et le dernier, le vivant, le mort et le ressuscité; Vous qui rassemblez en votre unité exubérante tous les charmes, tous les goûts, toutes les forces, tous les états...”.
evolução, conduz o ser humano a um maior crescimento do corpo e do espírito. Em Note sur le Christ-Universel (1920), escreve:
Eu entendo, por Cristo-Universal, o Cristo centro orgânico do universo inteiro: - centro orgânico, isto é, do qual depende fisicamente, de forma definitiva, todo desenvolvimento, mesmo natural; - do universo inteiro [...], e de todas as realidades das quais dependemos fisicamente, próxima ou remotamente [...]; - do universo inteiro, ainda, isto é, não só do esforço moral e religioso, mas igualmente de tudo aquilo que este esforço supõe, a saber, de todo crescimento do corpo e do espírito241.
Os eflúvios emanados desse centro, desse astro “omnia in ipso constant”, atuam no universo e também onde se exercem as atividades humanas de forma meritória. Esse centro de agrupamento universal, pelo efeito transformador da Ressurreição, aciona os homens a patamares de maior consciência, de menos egoísmo, zonas nas quais, para as criaturas mais extasiadas, a luz divina brilha mais suficiente e mais límpida...242
O crescimento do corpo e do espírito mencionado na citação parece-nos corresponder a três formas de beatificação243. Com efeito, averiguando-as, constatamos a dinâmica sempre orgânica e ascensional presente na reflexão do autor, com possíveis repercussões para repensar a dimensão antropológica da Redenção. O ser humano o é apenas para se aprimorar física, intelectual e moralmente. Precisa, para ser plenamente ele mesmo, trabalhar toda a sua vida, a fim de buscar mais ordem, mais unidade em suas ideias, em seus sentimentos, em sua conduta. Programa de vida, interesses e esforços para fins cada vez mais nobres e espirituais. Trata-se da centração!
Igualmente difundida é a ilusão elementar de que o ser humano, para crescer, necessita perseguir egoisticamente seu trabalho de acabamento. Ele, física e biologicamente, como tudo o que existe na natureza, é essencialmente plural. Ele corresponde a um fenômeno de massa. Isto aponta para o fato de que apenas podemos progredir saindo de nós mesmos, unindo-nos aos outros, “de modo a desenvolver por esta união um aumento de consciência — conforme a grande lei de complexidade”244. Subsiste, porém, a abertura ao amor, cuja função e charme são essenciais para nos completar. É a descentração!
241 TEILHARD, Science et Christ, v. 9, p. 39. Grifos do autor. “J’entends, par Christ-Universel, le Christ centre organique de l’univers entier: - centre organique, c’est-à-dire, auquel est suspendu physiquement, en définitive, tout développement, même naturel; - de l’univers entier [...], de toutes les Réalités dont nous dépendons physiquement, de près ou de loin [...]; - de l’univers entier, encore, c’est-à-dire non seulement de l’effort moral et religieux, mais également de tout ce que suppose cet effort, à savoir de toute croissance du corps et de l’esprit”.
242 Cf. TEILHARD, Le Milieu Divin, v. 4, p. 176.
243 Cf. TEILHARD, Les directions de l’Avenir, v. 11, p. 129-135.
244 TEILHARD, Les directions de l’Avenir, v. 11, p. 130-131.
O ser para o outro, a escuta da linguagem daquele que interpela o indivíduo a sair de si mesmo, leva-o a ser plenamente ele mesmo. Surpresa, não sem motivo! Quanto mais o sujeito é atraído por um número de afeições privilegiadas, este movimento não para mais: ele se expande. Aí a visão se alarga. Formamos apenas um único corpo. Nesse corpo acontece o estabelecimento gradual de um sistema universal e nossos pensamentos tendem a funcionar cada vez mais como as células de um mesmo cérebro. Toma figura aos nossos olhos a humanidade de amanhã, uma super-humanidade, mais consciente, mais poderosa. O sentimento despertado diante desse fenômeno externo e interno é que a vida nos solicita ser, a nos incorporar a uma totalidade organizada, da qual somos cosmicamente parcelas conscientes. Um centro de ordem superior aguarda-nos. Ser, amar e, finalmente, adorar245. É a supercentração!
Identificamos nesses três movimentos aspectos do corpo ressuscitável, sabendo que a ressurreição não começa após a morte, mas no batismo e em toda experiência pascal.
“Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3). Os movimentos da verdadeira autorrealização, acima refletidos, reenviam-nos, também, às afirmações de Gregório de Nissa, para quem o Cristo é aquele que no interior do ser humano o conduz a contemplar inicialmente a atividade divina nele. A seguir, essa atividade da Encarnação prolongada no ser humano estende-se ao universo246.
Com o que a Ressurreição contribui com a corporeidade do Cristo?
6.3 O MISTÉRIO DO CORPO DO RESSUSCITADO: TRANSFIGURADO E