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Em 1945, o presidente Getúlio Vargas concedeu ao município o título de Monumento Nacional, por seu “significativo patrimônio histórico, religioso e cultural” e pela ativa participação na vida cívica e política do País. Além de ser um dos municípios mais importantes do Circuito do Ouro, parte integrante da Trilha dos Inconfidentes e da Estrada Real, Mariana tem a economia fun- damentada na extração de minérios (ouro e ferro) e um pouco no turismo.
Integra o Quadrilátero Ferrífero – localizado ao centro-sul do Estado de Minas Gerais (área de 7.000Km2) –, que junto com outras cidades mineiras como Sabará, Santa Bárbara, Itabirito, Nova Lima, Congonhas e Ouro Preto respondem pela maior produção de ferro do País. Sua região é banhada por rios importantes, como o Rio do Carmo, Gualaxo do Norte, Gualaxo do Sul, e afluen- tes do Rio Doce. Na região está instalada a mineradora Samarco, formada pela Vale e BHP Billiton.
Fonte: Google Imagem
O município de Mariana possui nove distritos, que desenvolvem atividades agropecuárias e artesanato: Santa Rita Durão, Monsenhor Horta, Camargos, Bandeirantes (Ribeirão do Carmo), Padre Viegas (Sumidouro), Claudio Manoel, Furquim, Passagem da Mariana e Cachoeira do Brumado. Bento Rodrigues, cuja comunidade sofreu o primeiro e o maior impacto do desastre ambiental, é subdistrito de Santa Rita Durão.
Quadrilátero Ferrífero
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Igrejas São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo, Mariana (MG), julho 2016 Foto: Fabiana Grassano, arquivo de viagem
A Estrada Real
A Estrada Real de Minas, caminho formado pelos tropeiros para escoar o produto da minera- ção no período do Brasil Colônia, liga os povoados do interior de Minas Gerais ao litoral do Rio de Janeiro. Ela possui 1.630 quilômetros de extensão e atravessa os estados de Minas, Rio de Janeiro e São Paulo. A trilha tornou-se oficial, em meados do século 17, pela Coroa Portuguesa. Muitas dessas trilhas eram antigos caminhos indígenas.
Trata-se de uma estrada histórica, que atrai turistas de todas as partes do Brasil e do mundo.
É composta em sua maior parte por terra batida. Também há trilhas, calçamento e um pouco de asfalto. Desde 1999 é gerenciada pelo Instituto Estrada Real, que pertence ao sistema Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG). Atualmente, quatro caminhos compõem a Estrada Real: Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho dos Diamantes e Caminho de Sabarabuçu.
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Estrada Real de Minas na entrada de Bento Rodrigues Fonte: Google Maps
Bento Rodrigues
Bento Rodrigues, subdistrito de Santa Rita Durão, no município de Mariana, era um local agradável de se viver, com uma população de 600 pessoas que habitavam aproximadamente 200 casas até 5 de novembro de 2015, data da ruptura da barragem de Fundão, da Samarco. Havia matas, cachoeiras e as ruínas de uma igreja histórica, que acabaram soterradas pela lama.
Localizado na parte baixa de Mariana, local de parada para descanso dos tropeiros que per- corriam os caminhos de Minas Gerais em busca do ouro, o seu nome foi dado em homenagem ao bandeirante português que esteve na região por volta de 1798 e que deu origem ao povoado.
Bento Rodrigues foi um importante local de mineração do século 18, época em que surgiram caminhos que ligavam esses centros ao litoral, criando a histórica Estrada Real – que atravessava Bento Rodrigues –, unindo o povoado aos distritos de Santa Rita Durão e Camargos.
Lugar tranquilo, com cachoeiras escondidas na mata. Seu potencial turístico era pouco explorado, apesar de haver um hotel fazenda logo na entrada do subdistrito. A Cachoeira do Ouro Fino – uma queda d’água de 15 metros, com lago de 5mx3m e profundidade máxima de 1,5m –, no Rio Gualaxo do Norte, era um dos principais pontos turísticos da região. Tinha ainda duas igre- jinhas: Nossa Senhora das Mercês e São Bento, construídas no século 18, e que abrigavam impor- tante acervo de arte sacra. Tudo isso desapareceu sob a lama de rejeitos.
A população de Bento Rodrigues festejava, sempre no último final de semana de julho, a Festa de São Bento, padroeiro do subdistrito, além da Festa de Nossa Senhora das Mercês. Havia ainda o Coral do Bento, que se apresentava nas festividades locais e regionais.
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Historicamente, a extração mineral na região sempre foi muito intensa. O povoado de Bento Rodrigues estava situado logo abaixo das barragens de Fundão e Santarém, ambas pertencentes à Samarco, responsável por uma terceira barragem de rejeitos na região, a de Germano.
Vista geral da praça de Bento Rodrigues Fonte: Google Maps
Igreja de São Bento Fonte: Google Maps
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As casas de Bento Rodrigues eram simples, mas amplas e bem construídas. A população, basicamente rural, sobrevivia da agricultura familiar e de subsistência, cultivando roças de fei- jão, milho e frutas, além de criar porcos, galinhas, patos, cavalos, e possuir horta e pomar no quintal. O local tinha venda e bar. Os habitantes usufruíam do conforto da cidade, como luz elétrica, água encanada, computador, internet, celular, além de utilizarem carros e caminhone- tes para o transporte. O povoado não possuía agência bancária e, devido ao fato de se sentirem seguras, muitas pessoas guardavam dinheiro em casa. Todos se conheciam e se consideravam uma grande família.
O subdistrito tinha uma escola de ensino fundamental, a Escola Municipal Bento Rodrigues, frequentada por aproximadamente 50 pessoas, entre alunos, professores e funcionários, e aten- dia crianças desde a pré-escola até o último ano do ensino fundamental. Muitos jovens davam continuidade aos estudos em Mariana; alguns quando concluíam arrumavam emprego por lá, mas a maioria ficava em Bento Rodrigues e passava a trabalhar na Samarco ou na roça da família.
Havia também um time de futebol, o União de São Bento, com sede e campinho. Após o desastre ambiental, os jogos do time passaram a ser realizados em um campo de Mariana. A maioria dos jogadores trabalhava na Samarco, mas ficou desempregada depois da tragédia.
Segundo a professora de geografia Ariane Melo, da Escola Municipal Bento Rodrigues, “a empresa tem uma representatividade econômica muito grande em toda a região, empregando pessoas direta e indiretamente”.
Rua de Bento Rodrigues Fonte: Google Maps
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Vista geral do subdistrito Fonte: Google Maps
Outra parte dos moradores vivia da produção da pimenta biquinho, que originou o tradicio- nal licor e a geleia de pimenta, largamente comercializados na região. Segundo o historiador Lélio Pedrosa Mendes, da Secretaria de Cultura e Turismo de Mariana, a prefeitura do município incen- tivou as moradoras a fundar a Associação de Mulheres da Agricultura Familiar, para organizar a produção e o comércio do produto.
A produção da pimenta biquinho
A pimenta biquinho, ou pimenta-de-biquinho, tornou-se popular no Brasil especialmente por possuir baixa ardência e agradar diversos paladares. Vermelha e pequena, é excelente para ser consumida inteira, como aperitivo, ou para ser preparada em conservas de vinagre.
Keila Vardeli, presidente da Associação dos Hortifrutigranjeiros de Bento Rodrigues (Ahobero), conta que criaram a associação de mulheres da agricultura familiar em 2002, para promover a venda dos produtos e gerar renda. Em 2006, com o apoio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), passaram a produzir e comercializar a geleia de pimenta biquinho para todo o Brasil.
Segundo Keila, o excesso da pimenta in natura as levou a desenvolver o produto. Depois de muitos testes de receitas, chegaram à geleia, que passou a ser o produto principal da associa- ção. Elas não revelam a receita e mantêm o segredo a sete-chaves. A plantação de 1.500 pés de pimenta da Associação foi soterrada pela lama de rejeitos que invadiu Bento Rodrigues. Mas as mulheres recuperaram os equipamentos utilizados para a produção, conseguiram se reerguer e
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alugaram um imóvel em Mariana. Elas reto- maram a produção da famosa geleia em janeiro de 2016.
Paracatu de Baixo
Como Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, que também foi soterrado, é um subdistrito pertencente a um dos nove distritos de Mariana. Paracatu está ligado ao distrito de Monsenhor Horta com uma população aproximada de 300 pessoas.
A comunidade simples sempre viveu da
roça de feijão e milho, hortifrútis e criação de galinha, porcos e gado. Antes da lama as festas tradicionais no subdistrito e na região eram a Folia de Reis e a de Santo Antônio, na capela do santo do mesmo nome. As crianças estudavam na Escola Municipal de Paracatu de Baixo, que atendia desde a pré-escola até a 8ª série do ensino fundamental. O rio Gualaxo do Norte banhava o subdistrito.
Keila Vardele, da Associação de Produtores de Pimenta, em Bento Rodrigues
Foto: Portal a12
Subdistrito de Mariana, Paracatu de Baixo, Loral Gonçalves Marcelino em frente a sua casa que foi destruída.
Foto: Alexandre C. Mota/Nitro/Época
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Rio Gualaxo do Norte
O Rio Gualaxo do Norte é um subafluente do Rio Doce. Importante na região, ele passa pelos subdistritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, e segue seu curso até desaguar no Rio do Carmo, após ser encorpado pelos afluentes, os córregos Água Suja e Barreto. O Rio Gualaxo do Norte nasce na Serra do Espinhaço, no município de Ouro Preto, a aproximadamente 1.380 metros de altitude. Seis quilômetros abaixo, ele atinge o município de Mariana, onde suas águas são utili- zadas para a geração de energia elétrica em uma pequena central hidrelétrica, a PCH Bicas.
Rio Gualaxo do Norte em junho de 2016 Foto: Tássia Biazon, arquivo de viagem
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Vista aérea do Rio Gualaxo do Norte Fonte: Google Maps
Vista aérea das barragens de rejeitos da Samarco em Bento Rodrigues Fonte: Google Maps
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