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os econômicos e os relativos à proteção do meio ambiente, ou seja, à questão da sustentabili- dade. Acrescente-se que a eficácia desse arcabouço atende às necessidades atuais, tendo em vista a longa trajetória da legislação no setor, que data do início do século passado. Mas essa robusta legislação não pode por si só evitar desastres, como ficou tragicamente demonstrado em Mariana.

O repórter Pedro Peduzzi, da Agência Brasil, escreveu em 9 de janeiro de 2016:

“Cerca de 20 peritos criminais federais estão participando das investigações da Polícia Federal sobre o rompimento de uma barragem de rejeitos da mineradora Samarco, no dia 5 de novembro do ano passado, no município de Mariana, em Minas Gerais. Trabalho similar foi feito em 2003 na cidade mi- neira de Cataguases, onde, em 29 de março daquele ano, rompeu-se uma barragem com resíduos industriais sob responsabilidade da Indústria Cataguases de Papel.

Na época, o Laudo 1.362/2003, do Instituto Nacional de Criminalística (INC), identificou como causas do acidente problemas como a falta de manutenção e de fiscalização e o excessivo prolongamento da vida útil da barragem, o que resultou em um processo erosivo da obra. Segundo o laudo, a barragem tinha sido edificada em 1990 com uma estrutura provisória, que deveria durar apenas dois anos.

De acordo com a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), caso os alertas feitos pelos peritos – em especial os relativos à falta de fiscalização – tivessem sido ouvidos pelas autoridades, a tragédia ocorrida em Mariana poderia ter sido evitada, uma vez que é o poder público o responsável pela fiscalização destas barragens.

‘Tornamos pública essa preocupação com a falta de manutenção e fiscalização de tais obras, por meio de nossa revista institucional, que foi enviada a várias autoridades dos Três Poderes’, disse à Agência Brasil o presidente da APCF, André Morisson. ‘Em artigo sobre deslizamentos e desabamentos, alerta- mos que os administradores públicos estavam delegando a terceiros a responsabilidade sobre a boa qualidade das obras e que, apesar dessa delegação, o poder público não está livre da obrigação de bem fiscalizar os contratos e sua execução, pois quem contrata mal também responde solidariamente pelos ônus’, acrescentou o perito.”

O meio acadêmico também produziu textos sobre o tema, a exemplo do artigo “A respon- sabilidade civil por dano ambiental e o caso Samarco: desafios à luz do paradigma da sociedade de risco e da complexidade ambiental”, de Germana Parente Neiva Belchior, doutora em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina, e de Diego de Alencar Salazar Primo, advogado e mestrando em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Em resumo, os autores comentam que o desastre trouxe sérias questões sobre dano ambiental, sua responsabilização e reparação. Eles salientam que a teoria da responsabilidade civil data da época em que a humanidade enfrentava apenas os riscos ditos concretos, de causalidade simples. O trabalho busca os contornos da res- ponsabilidade civil da Samarco e possíveis dificuldades para sua responsabilização.

O advogado Pearl Arthur Jules Antonius, por sua vez, escreveu no artigo “Exame da legisla- ção mineradora no Brasil e sua importância atribuída ao meio ambiente”:

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“O tema mineração vem adquirindo uma significativa relevância jurídica nos últimos tempos no Brasil.

Com efeito, desde que os recursos minerais passaram a ser objeto de conflito entre os seres humanos e, principalmente, desde que a descoberta e o aproveitamento de tais bens começaram a contar com uma regulamentação normativa, a problemática mineral, de uma questão meramente econômica e política, passou a ser, também, uma questão jurídica. A crescente procura e utilização dos recursos minerais, como também a sua consequente valorização econômica foram, assim, fatores que contri- buíram para a existência de um disciplinamento jurídico dos bens minerais. Ou seja, estes bens vêm constituindo objeto específico de diversos princípios e regras jurídicas referentes à sua descoberta ou revelação e ao seu aproveitamento econômico.” (Antonius, P.A.J., 1999)

Brasil negligencia fiscalização de barragens

O jornal Valor Econômico publicou em 29 de julho de 2016 uma ampla reportagem em que conclui que o Brasil negligencia fiscalização de barragem. Segundo o jornal, o governo federal não tem a menor ideia do que se passa com as centenas de barragens no País. Uma auditoria do TCU (Tribunal e Contas da União) revelou a situação caótica da fiscalização desse tipo de empreendimento, cujo potencial de destruição ambiental e humana pôde ser constatado da pior forma na tragédia ocorrida em Mariana.

A auditoria trouxe dados alarmantes: 72% das barragens de rejeito de mineração consideradas mais perigosas não foram fiscalizadas pelo poder público nos últimos qua- tro anos. Classificadas na categoria A, ou seja, de alto risco de ruptura, elas têm potencial de causar grandes danos humanos, econômicos e ambientais em caso de acidente.

A reportagem informa, também, que o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) passa por um processo de esvaziamento, e que sofre cortes de verbas e de redução de pessoal.

Durante as diligências do TCU, representantes do órgão reconheceram que a carência de recursos dificulta a rotina de fiscalizações dos empreendimentos e análises das documentações enviadas pelas empresas. 

Se a Samarco descumpriu os compromissos básicos com a população de Bento Rodrigues, que vivia sob o risco de sumir do mapa, os órgãos governamentais também estiveram longe das melhores práticas. A falta de funcionários públicos para fiscalizar a atividade mineradora não é um caso isolado no Brasil. Sabe-se que nossa máquina estatal é falha em diferentes áreas. Falta seriedade. Outras barragens no Brasil continuam inseguras, na esperança de que tudo corra bem.

Como a barragem de Fundão está no Rio Gualaxo, afluente do Rio Doce, de gestão estadual, a outorga e a fiscalização ficam a cargo do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), e a licença ambiental é dada pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam). A barragem de Fundão foi classificada pelo Cadastro de Barragens de Minérios do DNPM como “categoria de baixo risco e alto dano potencial associado”. A categoria de risco define os parâmetros para funcionamento da barragem. O Plano de Segurança de Barragem é definido pelas entidades fiscalizadoras.

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O Código de Mineração que está em vigência foi editado pelo Decreto-Lei 227, de 28 de fevereiro de 1967, pelo governo militar, em substituição ao documento anterior, de 1940. Apesar de ter sofrido muitas mudanças, o Código continua sendo a lei básica que regulamenta a ativi- dade. Um novo Código de Mineração está tramitando na Câmara dos Deputados há anos e é alvo de discórdias. O assunto tem sido debatido em diversos foros.

Lama no Espírito Santo, 18 de novembro de 2015 Foto: Leonardo Merçon, convocatória ARFOC MG

Barra Longa, MG, tomada pela lama, 8 de novembro de 2015

Foto: Pedro Vilela, convocatória ARFOC MG

Capítulo 3

DA ÁGUA