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O NEOCONSTITUCIONALISMO

No documento Jefferson Augusto de Paula.pdf - Univali (páginas 92-108)

A Constituição atualmente – pelo menos doutrinariamente – possui lugar de destaque, pois, a maioria das obras jurídicas do momento, passam a focar o direito a partir da Constituição. Exemplo disso é vermos doutrinas de Direito Civil com um enfoque Constitucional. Assim a Constituição torna-se um topói.

Mas daí surge o questionamento: o que motivou esta valorização repentina da Constituição?

Tentando responder esta questão, verificamos que a Constituição da República Federativa do Brasil outorgada em 05/10/1988, trouxe já no seu início, um Título inteiro chamado “DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS”, com mais de setenta incisos consagrando direitos e garantias aos brasileiros. Isto nunca havia ocorrido na história do Constitucionalismo nacional. Houve um despertar das pessoas ao tomarem ciência, que eram portadoras de direitos e podiam exigi-los do Estado, através dos instrumentos de garantias, que a própria Constituição lhe outorgava.

Em artigo intitulado “Direitos fundamentais sociais na Constituição de 1988”, publicado na imprensa, Clémerson Mérlin Cléve assim disse:

“A Constituição que está a completar vinte anos de vigência foi generosa com os direitos fundamentais e, entre eles, com os sociais. E é fácil compreender a razão. A Constituição vigente pode ser compreendida como resposta a um passado de arbítrio (a ditadura militar), apresentando-se com a pretensão de reordenar o futuro do país a partir de novos princípios e fundamentos. Uma normatividade capaz de diminuir os contrastes encontráveis na sociedade brasileira desde o início de seu processo de formação.

Trata-se, portanto, de construir uma sociedade emancipada constituída por cidadãos livres e iguais. Há, no discurso constitucional, portanto, uma conexão evidente entre as idéias de democracia (auto-governo), dignidade da pessoa humana, liberdade (autonomias pública e privada) e igualdade (respeito, reconhecimento, alteridade), tudo para conformar aquilo que

podemos chamar de Estado Democrático de Direito. O que haverá de unir os brasileiros, para além de nossa história, de nossa cultura, de nossa gastronomia, de nossa música ou de nossa arte, é o sentimento de pertencimento a uma comunidade de destino, chamada Brasil, fundada a partir de certos valores, de certos princípios, de certos direitos.

Os direitos sociais, foram, disse antes, generosamente contemplados na Constituição. Além daqueles vinculados ao mundo do trabalho, o texto constitucional reporta-se, particularmente no art. 6º, aos direitos à educação, saúde, moradia (incluído pela Emenda Constitucional 26/2000), lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e infância e à assistência aos desamparados. São todos direitos de eficácia progressiva, que expandem o seu horizonte de realização à medida que a sociedade progride, que novas políticas públicas são implementadas e que a sociedade os reivindica. Um componente essencial da política, hoje, no contexto desta Constituição, é fazer valer as promessas constitucionais, diminuindo a distância entre a normatividade e a realidade constitucionais.

Há mecanismos jurídicos previstos no direito brasileiro para a efetivação desses direitos. O Judiciário, neste particular, embora criticado aqui e acolá, vai assumindo certo papel antagônico (ativismo) nesse campo. Mesmo à falta de regulamentação, ou da insuficiência das políticas públicas, tais direitos podem ser reclamados judicialmente pelo menos para a garantia daquilo que se convencionou chamar de mínimo existencial. De outro ângulo, é preciso ver que os movimentos sociais, hoje, no país, levantam as suas bandeiras reclamando uma específica interpretação da Constituição. Não atuam contra ela, como no passado. É a solução. Da dinâmica reivindicante da sociedade, muitas vezes contraditória, serve-se a Constituição para reforçar a sua legitimidade e atualizar o seu sentido, inclusive no campo dos direitos sociais.

Nunca é demais lembrar que uma sociedade autônoma, que constrói o seu próprio destino, que delibera sobre a sua experiência política e existencial, é constituída por mulheres e homens emancipados, não dependentes, reivindicantes e responsáveis ao mesmo tempo. Há condições necessárias para a deliberação pública e o amadurecimento da democracia. Entre eles, indispensáveis são os direitos sociais. Sem eles, a condição humana apresenta apenas os horizontes limitados da dependência

e da fragilidade, que o Brasil precisa urgentemente superar, se quer mesmo apresentar-se no futuro como sociedade exemplar.

Em síntese, nesse campo a nova Constituição avançou enormemente. Mas é apenas um começo. A ponta do iceberg. Há muito, ainda, a fazer. A Constituição não é apenas texto. É também experiência, vivência, dinâmica política. Ela é construída todos os dias. A novidade é que, agora, temos uma Constituição capaz de orientar a construção de uma sociedade emancipada, e não o contrário.”210

Concorda-se com o Constitucionalista paranaense que muito foi feito, mas, sem dúvida há muito mais a fazer, e é esta vontade política de se ter uma ‘sociedade emancipada’, é o que dá força para acreditarmos na efetividade constitucional.

Atualmente – após os vinte anos de Constituição – a Carta Magna passou a ter um valor imenso, sendo a cruz de Cristo, onde todos se curvam – ou deveriam se curvar -, pois, esta no topo da cadeia do ordenamento jurídico, irradiando sua luz para toda a órbita jurídica nacional.

Este revigoramento da Constituição é aquilo que foi batizado como Neoconstitucionalismo, ou seja, um ‘novo movimento constitucional’, um

‘novo olhar’ – quem sabe despertar – para o texto constitucional.

A força normativa da Constituição (Hesse) trouxe muito interesse da doutrina, em especial estrangeira, que passou a se debruçar sobre uma nova forma de atuar do texto Constitucional. Uma das pessoas que se dedicaram a este estudo foi Susanna Pozzolo, que é Professora de Teoria do Direito da Universidade de Gênova na Itália, e tem um livro sobre o

‘Neocostituzionalismo e positivismo giuridico’, o qual não tem tradução no Brasil.

O trabalho mais conhecido da autora em nosso país é o seu artigo chamado ‘Un Constitucionalismo Ambiguo’, que faz parte da coletânea:

210 Caderno ‘Direito e Justiça’ do Jornal Estado do Paraná - publicada coincidentemente no dia 05 de outubro de 2008, quando a Constituição estava fazendo vinte anos -, p. 8.

‘NEOCONSTITUCIONALISMO(S)’, publicado pela Trotta, que foi organizado por Michel Carbonell. Na referida obra, a autora procura circunscrever a noção de

‘neoconstitucionalismo’ como teoria do Direito do Estado Constitucional211.

A autora afirma que o termo ‘neoconstitucionalismo’ não possui um significado único, sendo possíveis várias interpretações212, dizendo ainda:

“<Neoconstitucionalismo> es un término que ha entrado en el léxico de los juristas hace poco tiempo y que, si bien no tiene un significado unívoco, ha logrado una gran aceptación. En las páginas que siguen, el término ‘neoconstitucionalismo’ será empleado para indicar una precisa prospectiva iusfilosófica que se caracteriza por ser constitucionalista (o sea, por insertarse en la corriente iusfilosófica dedicada a la formulación y predisposición de los límites jurídicos al poder político) y antipositivista. El neoconstitucionalismo tiene como objeto específico el análisis de los modernos ordenamientos constitucionales y democráticos de Occidente”.213

Um dos traços marcantes do ‘neoconstitucionalismo’ para Susanna é a colocação da lei numa posição de subordinação e introdução, junto aos critérios de validez formal já presentes, os critérios de validez material capazes de condicionar a atividade legislativa inclusive em seus conteúdos e não só em suas formas214. É a demonstração dita anteriormente, e que será inúmeras

211 POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s). Madrid:

Editora TROTTA, 2003. p. 187.

212 POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s). p. 189.

213 POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s), p. 188

214 POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s), p. 189.

Vide também, p. 190, onde diz: “Quizá una de las más relevantes se refiere a la noción de validez jurídica que aquélla presupondría: la que se entiende como estricta o exclusivamente formal, que se revelaría inadecuada para ser empleada por el Derecho del Estado constitucional, cuyas normas serían válidas, antes que nada, por satisfacer critérios materiales, o sea, por su contenido”. Mas Susanna não esta sozinha, pois, este pensamento é muito forte em Ferrajoli, e também é seguido por Serrano que diz: “La diferencia conceptual validez/vigência rompe completamente con esta imagem analítica, mecanicista y atômica de la norma jurídica. La norma ya no es el enunciado general y abstracto, puesto y positivo, em virtude del cual ‘si ilícito, entonces debe de ser sanción’. La norma es ahora ese elemento, precepto o proposición promulgada, más un juicio de coherencia con el sistema jurídico, incluidos en él los valores

vezes repetidas neste trabalho, que uma lei para ser válida não precisa somente ter sido respeitado o seu processo legislativo, mas antes de tudo, deve estar conformado o seu conteúdo com os preceitos da Constituição, ou seja, só valerá se o seu conteúdo não contrariar o texto da Magna Carta.

Ainda sobre a terminologia ‘neoconstitucionalismo’, Susanna apresenta de forma inédita, as lições apreendidas em sala de aula – através de anotações/apontamentos – com o Professor T. Mazzarese, no curso de filosofia do Direito da Universitá degli Studi di Brescia, que diz haver três possíveis sentidos de neoconstitucionalismo, sendo eles:

“a) en un primer sentido, ‘neoconstitucionalismo’ indicaria un rasgo caracterizador de algunos ordenamientos jurídicos: en particular, el dato positivo por el cual el ordenamiento presenta una Constitución que, además de contener las reglas de individualización y de acción de los órganos principales del Estado, presenta un elenco más o menos amplio de derechos fundamentales; b) en un segundo sentido, ‘neoconstitucionalismo’ indicaria un cierto modelo explicativo del contenido de determinados ordenamientos jurídicos (los indicados en el punto precedente), o sea, el término indicaria un cierto paradigma del Derecho, de sus formas de aplicación y de conocimiento; en este segundo sentido ‘neoconstitucionalismo’ no indica por tanto nada en el mundo, sino que más bien representa un modelo teórico; c) en un tercer sentido, el término

‘neoconstitucionalismo’ indicaria un modelo axiológico-normativo del Derecho, un modelo ideal al que el Derecho positivo debería tender. Este ideal, sin embargo, no sería el mero desarrolo y la mera concretización del Derecho real, sobre la base de los princípios y de los valores que en este último están expresamente enunciados”.215

positivizados en su plano más alto: la constitución histórica, indisponible para cualquiera de sus tres poderes incluido el legislativo. La norma ya no es una unidad dada, sino una cadena de unidades argumentadas dinámica (competencia y procedimiento) y estáticamente (coherencia)”.

SERRANO, José Luis. Validez y Vigencia, p. 102.

215 Esta citação, esta na nota de roda-pé nº 02 da pág. 188-189, de: POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s).

Para Susanna Pozzolo, há distintas razões para a superação da metodologia juspositivista, onde o neoconstitucionalismo teria como função o reconhecimento de um grande número de princípios de justiça, e também sociais, pois, num Estado Constitucional, os direitos fundamentais são efetivamente jurídicos e por isto, devem ser aplicados pelo Poder Judiciário216. Nas palavras da autora: “Esta función de concretización sería una de las que la legislación y la jurisdición (en particular el Tribunal Constitucional), pero también la ciencia jurídica, deberían llevar a cabo”.217 A Constituição para a autora seria um valor em si mesma.218

A Professora de Gênova é firme em reconhecer que o sistema jurídico deveria necessariamente apresentar um conteúdo justo para poder ser considerado como Direito219, pois só seria possível “calificar como

‘jurídico’ un sistema normativo o una norma singular, por tanto, sería el contenido de justicia que expresaran (...) el neoconstitucionalismo entiende que tal contenido de justicia es interno al Derecho, es decir, positivado”.220

A importância da correta interpretação da Constituição221, foi objeto de analise de Susanna que disse:

216 Na terminologia de Susanna: “son justiciables”, op. cit., p. 190.

217 POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s), p. 190.

218 POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s), p. 192.

219 POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s), p. 191.

220 POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s), p. 191.

221 “..., a tese da abertura na determinação de sentido se impõe não apenas devido ao processo de aquisição de verdades descrito pela cadeia psicanalítica de significações, onde se intentou mostrar a natureza do princípio enquanto motivo conceitual e a primazia do significante determinado pelo “grande Outro”, mas também pela própria impossibilidade, na esteira analítica existencial do Dasein, de o sujeito se livrar de sua pré-estrutura de compreensão ao se deparar com o texto.

Nessa perspectiva, os postulados da hermenêutica filosófica, a unidade da applicatio e o constante reconstruir do sentido em função da projeção do Dasein, desenhado na figura do círculo hermenêutico, que não pode ser vicioso e nem se fechar em si, permitem inferir que em toda a interpretação jurídica há uma inescapável determinação de aspectos individuais e subjetivos”. MARRAFON, Marco Aurélio. Hermenêutica e Sistema Constitucional: a decisão judicial “entre” o sentido da estrutura e a estrutura do sentido. Florianópolis : Habitus Editora, 2008, p. 183.

“El intérprete, en el fondo, deberá elegir entre la estricta legalidad y la justicia sustancial, adoptando la solución menos traumática y más compatible con la realidad (ocasional) y con el sistema jurídico en su conjunto, haciendo así prevalecer uno u otro valor contingentemente relevante. Es claro que el intérprete privilegiado, que de este modo asume también la tarea de custodio del constitucionalismo moderno, será el juez de las leyes. Este último, al que le está confiada la tarea de ‘garantizar’ la Constitucióin, abandonado, si es que alguma vez la ha ejercido, el papel de

‘legislador negativo’, se transforma en ‘legislador concurrente’ y, con una actividad extensa y penetrante, se empuja a remodelar la ley sobre los contenidos de la Constitución, formulando así, al mismo tiempo, la ‘Constituição-norma’, o sea, la específica concepción (elegida de entre las contenidas en el texto) del significado de las normas constitucionales, que se afirma positivamente en el Derecho concreto. Desde la prospectiva neoconstitucionalista, sin embargo, la actividad que permite el paso de la ‘Constitución-documento’ a la ‘Constitución-norma’ no se caracteriza como discrecional, ya que el ideal jurídico al que se adecua sería interno al Derecho positivo mismo y de ese modo tal actividad resultaría completamente vinculada. Presupuestos estos datos, a la ley no sólo le quedaría una posición subordinada al dictado constitucional, sino un papel en cierta forma residual, ya que se convertiría en mero instrumento de actuación (más concreto) de los princípios constitucionales, perdiendo así su carácter de libre expresión del poder político. No habrá más espacio para meras political questions, puesto que cada elección legislativa, debiendo conformarse al desarrolo de los valores constitucionalizados, será necesariamente justiciable sobre la base de la ‘Constitución-norma’ que se ha afirmado como Derecho concreto”.222

Para ela o que diferencia a Constituição do direito infraconstitucional, não seria somente a questão de hierarquia normativa, mas sim,

222 POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s). p. 193- 194.

há existência de um conteúdo qualificado.223 Sobre esta diferença, a autora ainda fala:

“Si no me equívoco, entonces, la contraposición entre iuspositivismo y neoconstitucionalismo no parece basarse tanto sobre la relevancia de una diferencia estructural del objeto estudiado (...) sino más bien en la diferente teoría del Derecho y de sus tareas que se entiende como propria del uno y del otro. Según el neoconstitucionalismo, en sustancia, las tareas meramente descriptivas que el iuspositivismo requiere al teórico no serían escindibles de las tareas normativas que el Derecho del Estado constitucional prentedería del mismo. Pero si esta afirmación puede ser fundada cuanto el sujeto que desarrolla la actividad interpretativa (de individualización del contenido del Derecho) es el jurista-juez, no lo es por el contrario cuando el que desarrolla esa actividad de individualización del Derecho es el mero jurista.

Entonces, si es necesario reconocer el mérito del neoconstitucionalismo por haber llamado la atención sobre este punto, sobre esta diferencia, obligando al mismo tiempo al proprio iuspositivismo a volver a discutir algunas cuestiones, es necesario también confirmar que el neoconstitucionalismo se ha equivocado si la conexión entre Derecho y moral (positiva) de la que habla está referida a la actividad del mero jurista”.224

Na mesma coletânea de Miguel Carbonell, o autor italiano Luigi Ferrajoli escreveu um artigo chamado ‘Pasado y Futuro Del Estado de Derecho’, onde procura neste trabalho demonstrar as espécies de Estado de Direito, e suas possíveis vias de evolução ao Estado Constitucional.225

223 “La incorporación de los valores, ahora bajo la forma de derechos fundamentales, determinaría la inseparabilidad del valor ético respecto del contenido meramente jurídico de la Constitución, determinando la especificidad de tal documento y requiriendo una interpretación moral del texto fundamental. Esto, debido a que, para atribuir un sentido a las disposiciones constitucionales, sería necesario adscribir primero un sentido concreto a los valores y, por tanto, adoptar una cierta concepción de los principios y de los derechos fundamentales”. POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s). p. 198-199.

224 POZZOLO, Susanna. Un Constitucionalismo Ambíguo, In: Neoconstitucionalismo(s), p. 205.

225 Afirmação de Michel Carbonell no ‘Prólogo: Nuevos Tiempos para el Constitucionalismo’, do livro: Neoconstitucionalismo(s), Edición de Miguel Carbonell, Editora Trota: 2003, p. 10.

Ferrajoli inicia o trabalho dizendo haver duas formas de

‘Estado de Direito’, sendo uma em sentido lato, mais fraca ou formal, que designa qualquer ordenamento jurídico em que os poderes públicos são conferidos pela lei e exercitado nas formas e nos procedimentos legalmente estabelecidos226. Já outra versão do Estado de Direito, seria uma versão forte ou substancial, sendo aqueles ordenamentos em que os poderes públicos estão ademais sujeitos a lei (e, portanto, limitados ou vinculados por ela), não somente relativo às formas, senão também pelos conteúdos227.

Esta segunda forma de Estado de Direito, ainda é vista na Itália, de um modo mais restrito, sendo aqueles ordenamentos em que todos os poderes, incluído o legislativo, estão vinculados ao respeito de princípios substanciais, estabelecidos por normas constitucionais, como a da divisão de poderes e dos direitos fundamentais.228

Explicando o surgimento do Estado de Direito, Ferrajoli diz:

“El Estado de Derecho moderno nace, con la forma del Estado legislativo de Derecho, en el momento en que esta instancia alcanza realización histórica, precisamente, con la afirmación del Derecho válido y antes aún existente, con independencia de sua valoración como justo. Gracias a este principio y a las codificaciones que sons u actuación, uma norma jurídica es válida no por ser justa, sino exclusivamente por haber sido ‘puesta’ por uma autoridad dotada de competência normativa.”229

Esta afirmação de que uma lei é válida se posta por uma autoridade competente, trouxe reflexos positivos naquele período para as pessoas, pois, assim, a lei era a ‘garantia’ do povo contra as ordens dos reis

226 FERRAJOLI, Luigi. Neoconstitucionalismo(s). p. 13.

227 FERRAJOLI, Luigi. Neoconstitucionalismo(s). p. 13.

228 FERRAJOLI, Luigi. Neoconstitucionalismo(s). p. 13-14.

229 FERRAJOLI, Luigi. Pasado y Futuro del Estado de Derecho, in, Neoconstitucionalismo(s), p.

16. Ainda vale a pena destacar, p. 17: “Se evidencia el extraordinário alcance de la revolución producida con la afirmación del principio de legalidade por efecto del monopólio estatal de la producción jurídica”.

déspotas da época. Mas fruto do seu tempo, a validade de uma lei em razão de apenas sua formalidade, não permanece como modo válido no século XX, em especial no século XXI. Ferrajoli explica que houve uma segunda mudança de paradigma que seria a consideração de validez de uma lei, não só pela sua formalidade, mas também e especialmente pelo seu conteúdo estar em conformidade com a Constituição. Sobre isto vejamos:

“... un segundo cambio, no menos radical, es el producido en este último medio siglo con la subordinación de la legalidad misma – garantizada por uma específica jurisdicción de legitimidad – a Constituciones rígidas, jerárquicamente supraordenadas a las leyes como normas de reconocimiento de su validez (...) cambian las condiciones de validez de las leyes, dependientes ya no solo de la forma de su producción sino también de la coherencia de sus contenidos con los princípios constitucionales. La existência (o vigência) de las normas, que en el paradigma paleo-iuspositivista se había disociado de la justicia, se disocia ahora también de la validez, siendo posible que una norma formalmente válida, y por consiguiente vigente, sea sustancialmente inválida por el contraste de su significado con normas constitucionales, como por ejemplo el principio de igualdad o los derechos fundamentales.”230

Esta sem dúvida é a virada de pensamento do Estado de Direito para o Estado Constitucional, pois, aquelas formas de validade de uma lei de Kelsen, cedem espaço para uma validade não só formal, mas sim, validade substancial (conteúdo). Neste caminho, Ferrajoli diz que a Constituição passa a ter um papel crítico e projetivo em relação com o seu próprio objeto.231 Neste viés:

“se altera el papel de la jurisdicción, que es aplicar la ley solo si es constitucionalmente válida, y cuya interpretación y aplicación son siempre, por esto, también, um juicio sobre la ley misma que el

230 FERRAJOLI, Luigi. Neoconstitucionalismo(s). p. 18.

231 “En efecto, en el Estado constitucional de Derecho la Constitución no sólo disciplina las formas de producción legislativa sino que impone también a ésta prohibiciones y obligaciones de contenido, correlativas unas a los derechos de liberdad y las otras a los derechos sociales, cuya violación genera antinomias o lagunas que la ciencia jurídica tiene el deber de constatar para que sean eliminadas o corregidas”. FERRAJOLI, Luigi. Pasado y Futuro del Estado de Derecho, In:

Neoconstitucionalismo(s). p. 18.

No documento Jefferson Augusto de Paula.pdf - Univali (páginas 92-108)