5.2 O modelo de relatório GRI
5.2.1 O princípio da materialidade
Para a GRI35, um relato confiável vai muito além de uma lista de informações ou o cumprimento de leis e regulações, pois que converte o que é abstrato em informações tangíveis e concretas, facilita o estabelecimento de objetivos, a medição de desempenho e a gestão da mudança. Nesse sentido, a materialidade ganhou destaque na versão GRI-G4, que orienta as organizações a priorizarem temas que sejam verdadeiramente essenciais para o alcance de seus objetivos de sustentabilidade, considerando, para tal, as demandas apontadas pelos públicos com os quais se relaciona.
Por meio do princípio da materialidade, a GRI aconselha o estabelecimento do diálogo entre a organização e os públicos considerados prioritários a fim de que se possa compreender as necessidades desses públicos, suas percepções e expectativas sobre a organização, identificando quais são suas maiores demandas por informação e prestação de contas. Esse
34 Informação disponível em <http://www.fiesp.com.br/indices-pesquisas-e-publicacoes/entrevista-glaucia- terreo-representante-da-global-reporting-initiative-gri-no-brasil-fala-sobre-a-evolucao-dos-relatorios-de- sustentabilidade>. Acesso em junho de 2016.
35 Informações contidas no documento G4 - Introduction, em espanhol.
diálogo deve dar origem a uma série de assuntos considerados relevantes por esses públicos, que serão analisados pela própria organização de acordo com os seus objetivos de sustentabilidade.
Ao colocar uma ênfase ainda maior no conceito de materialidade, o G4 encoraja as organizações relatoras a fornecer apenas Divulgações e Indicadores que reflitam seus impactos econômicos, ambientais e sociais, com base em um diálogo com seus stakeholders e uma avaliação dos impactos da organização (GRI FAQ36, 2013, p. 11).
O cruzamento entre os assuntos levantados externamente e as prioridades da organização é realizado a partir de um diagrama, chamado matriz de materialidade, conforme exemplo apresentado na Figura 2.
Figura 2 - Exemplo de matriz de materialidade
Fonte: ABERJE (2016)
Na Figura 2, ilustramos a matriz de materialidade construída conforme os padrões indicados pelo modelo GRI-G4. O eixo horizontal representa o valor atribuído pela organização para cada aspecto; já o eixo vertical, representa o valor definido pelos públicos consultados. O cruzamento entre esses dois pontos de vista resulta em uma série de aspectos materiais que podem ser considerados relevantes tanto pelos públicos quanto pela organização e, portanto, devem ser prioridade no relato (área triangular em destaque).
A construção da matriz de materialidade é o ponto de partida para a elaboração do relatório, pois que orienta enfoques e limites sobre o que será apresentado. O relato resultante
36 Tradução livre, feita pela autora.
do GRI-G4 apresenta, portanto, os aspectos que refletem os impactos econômicos, ambientais e sociais mais significativos sobre a organização, ou seja, aqueles que têm um peso considerável nas avaliações e decisões dos públicos com os quais se relaciona e estão mais alinhados aos objetivos de sustentabilidade da própria organização.
A GRI sugere que a definição dos aspectos materiais seja um processo contínuo, conforme representado no diagrama que segue (Figura 3), originalmente apresentado no documento G4 Guidelines Reporting Principles and Standard Disclosures, em inglês. Aqui, reproduzido em português a partir de manual oferecido pela Aberje:
Figura 3 - Fluxo para definição dos aspectos materiais e limites do relato
Fonte: ABERJE (2016)
O fluxo prevê a participação dos stakeholders em diferentes etapas, a começar pela identificação dos aspectos materiais a partir do contexto de sustentabilidade da organização. A seguir, é realizada a priorização dos aspectos por critério de relevância para os públicos principais, assim como para a organização. Na etapa de validação, feita pela alta diretoria da organização, são definidos os critérios de abrangência para cada aspecto; além disso, se algum aspecto escolhido como material pelos públicos não receber validação pela diretoria, deve ser feita uma justificativa para a recusa, que será publicada no relatório a fim de atender aos critérios de equilíbrio e transparência. Após a produção do relatório ele deve retornar para análise dos públicos a fim de que avaliem se suas expectativas foram atendidas e se há sugestões para a próxima edição.
A GRI (2013) acredita que não deva ser realizada apenas uma consulta a fim de verificar as expectativas quanto ao relatório, mas deve ser estabelecida uma relação de diálogo constante, possibilitando um aprendizado maior por parte da organização e o aperfeiçoamento de sua visão e práticas de sustentabilidade. Essa participação ativa dos públicos é chamada, pela GRI, de engajamento de stakeholders. Observamos, no entanto, que nos materiais disponibilizados para orientação não existem regras explícitas que definam como essa conversa deve ser feita. De acordo com a GRI (2013), as organizações contam com autonomia37 para eleger a melhor forma de envolver e escutar cada público, podendo valer-se de um ou mesmo de diversos métodos. Assim, não há premissas que estabeleçam a qualidade, profundidade e abrangência do diálogo, abrindo possibilidade para que essa dinâmica sequer se configure como diálogo, mas que possivelmente seja apresentada e reconhecida como tal a partir da publicação do relatório – tendo em vista que muitos dos relatórios são auditados por consultorias externas a fim de validar a consonância das informações com o que foi proposto pela GRI (no caso da amostra analisada nesta dissertação, todos os relatórios foram auditados externamente).
Contudo, é possível consultar exemplos de outras organizações a partir de seus relatórios de sustentabilidade, para se ter uma ideia do que está sendo realizado nesse sentido.
A respeito dessa relação entre organização e seus públicos torna-se importante refletir sobre como os sentidos de diálogo se configuram nos relatórios GRI-G4 das organizações selecionadas para esta pesquisa. Partindo de uma situação hipotética, porém comum, podemos pensar que uma organização que não costuma exercitar a escuta e não possui o hábito de se comunicar com seus públicos, dificilmente o fará de forma competente durante a elaboração do material. Portanto, não é possível que a consulta – e não o diálogo com os públicos – tenda a ser abreviada a fim de evitar possíveis questionamentos aos quais a organização não deseja responder?
Essas reflexões serão aprofundadas com apoio dos resultados obtidos na análise dos últimos relatórios de sustentabilidade (modelo GRI) das quatro organizações premiadas pelo Guia Exame de Sustentabilidade selecionadas para este trabalho, conforme apresentado a seguir.
37 Nesse sentido, atenta-se para a flexibilidade oferecida pelos princípios e diretrizes definidos pela GRI, principalmente quanto à forma de apresentação das informações. Acredita-se, portanto, que sempre haverá espaço para estratégias de seleção de imagens, construção de textos ou disposição de informações, lógica que muitas vezes não estará evidente a um olhar pouco familiarizado com os bastidores de produção.
6 A NOÇÃO DE DIÁLOGO NOS RELATÓRIOS GRI
Neste capítulo serão apresentados os procedimentos metodológicos empregados na coleta e análise dos dados de campo a partir da aplicação da técnica de Análise de Conteúdo (AC), sob a perspectiva de Bardin (2011). Dessa forma, após serem esclarecidos os procedimentos gerais iniciaremos a apresentação de cada etapa da AC seguida de sua respectiva análise, da seguinte forma: a) Pré-análise: contextualização de cada organização; b) Exploração do material: análise da construção da matriz de materialidade de cada organização, levantamento das ocorrências do termo ‘diálogo’ em cada relatório e posterior classificação de acordo com os sentidos encontrados; e c) Interpretação sobre os sentidos evidenciados.
Conforme destacamos anteriormente, foram selecionados para análise – sob critérios que serão apresentados no item a seguir – quatro relatórios, todos publicados em 2016, produzidos pelas seguintes organizações: Alcoa, Fibria, Itaú e Natura.
Na sequência, ainda neste capítulo, apresentamos a terceira etapa de análise da HP, denominada reinterpretação, de forma a trazer à tona novas reflexões acerca do tema