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Os diferentes caminhos da sustentabilidade

No documento UFRGS (páginas 50-54)

surgiram a partir da revisão e aprimoramento dos ODM, criados em 2000 a partir da Declaração do Milênio25, mas que não foram cumpridos até o final do prazo, que era dezembro de 2015.

Já a COP-21, sediada em Paris, pretendeu alcançar um novo acordo internacional sobre o clima, com o objetivo de manter o aquecimento global abaixo dos 2°C. Assim foi aprovado o Acordo de Paris, primeiro acordo global de luta contra as mudanças climáticas. Além de reconhecer a existência dessas mudanças, o documento prevê que aos países industrializados fique a maior parte da responsabilidade de retrocedê-las. O texto final determina, inclusive, que os países desenvolvidos invistam 100 bilhões de dólares por ano em ações de combate à mudança de clima26.

A partir desse breve histórico, que apresentou os principais eventos e documentos destinados à discussão, reflexão e tomada de decisão quanto à problemática ambiental, é possível dar relevo às origens do discurso empresarial no que diz respeito à sustentabilidade e, mais especificamente, ao desenvolvimento sustentável. Podemos dizer que “as organizações são cada vez mais instadas a superar essa lógica do crescimento econômico sem propósitos claros de uma interconexão com o desenvolvimento social, a preservação ecológica e a sustentabilidade.” (KUNSCH, 2009, p. 64). Nesse sentido, desde as primeiras discussões e posicionamentos, até a sofisticação das estratégias, as organizações parecem ter trabalhado intensamente na tentativa de apropriarem-se dos termos e ressignificá-los de forma que não entrassem em conflito com seus interesses econômicos (KAUFMANN, 2016) e, ainda, pudessem contribuir na construção de uma imagem-conceito ética e socialmente responsável.

legitimada a cada evento, tornando-se, assim, modelar” (KAUFMANN, 2016, p. 63). Esse enfoque é denominado pela autora de corrente de manutenção do atual sistema, que tem como base a economia verde e o Triple Bottom Line (ELKINGTON, 2000). O foco está, portanto, na continuidade do crescimento econômico. Além disso, assume o otimismo tecnológico e os mecanismos de mercado como principais formas de resolver a problemática ambiental e tem, como versão mais conhecida, o nome de “desenvolvimento sustentável”.

O modelo Triple Bottom Line (ELKINGTON, 2000), que está na base dessa orientação, é formado a partir do seguinte tripé: 1) o pilar econômico, que se refere aos resultados financeiros da organização; 2) o pilar ambiental, que tem como foco a ecoeficiência, além de envolver o fornecimento de bens e serviços que apresentem redução de impacto ecológico a um nível suportado pela Terra; e 3) o pilar social, que vislumbra o bem-estar social dos públicos da organização, assim como diz respeito à responsabilidade social empresarial. De acordo com Veiga (2013), o tripé começou a ser difundido a partir de 1997, em nível empresarial, e não de governo; só a partir de 2002, destaca o autor, tornou-se uma constante, no contexto da Rio+10, em Joanesburgo. Kaufmann (2016) chama atenção para a representatividade modelar e modelizante do Triple Bottom Line, pois que, a partir de dados de pesquisa realizada por Baldissera e Kaufmann (2013), nos sites de 70 organizações associadas ao Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), foi possível evidenciar que cerca de 95% delas apresentavam-se como sustentáveis e estruturavam seus dizeres a partir do tripé criado por Elkington (2000). Vale observar que, conforme informações presentes no site institucional, “o CEBDS foi fundado em 1997 por um grupo de grandes empresários brasileiros atento às mudanças e oportunidades que a sustentabilidade trazia, principalmente a partir da Rio 92”27.

Importa destacar que o Conselho é composto por associados com grande representatividade no mercado, como Bayer, Basf, BRF, Caixa, Coca-Cola Brasil, Fibria, General Eletric, Gerdau, HSBC, Nestlé e a Unilever, que, em seu conjunto (70 organizações), têm faturamento que compreende cerca de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e que, juntas, empregam em torno de 1 milhão de trabalhadores de forma direta28. Diante desses dados, não se pode esquecer que “[...] as organizações, cada vez mais, exercem-se sobre a cultura e a sociedade propondo compreensões de mundo, sociabilidades e modelos a serem seguidos (sistemas de valores e crenças)” (BALDISSERA, 2013, p. 61). Portanto, exercem-se

27 Informações disponíveis em <http://cebds.org/sobre-o-cebds/quem-somos/>. Acesso em dezembro de 2015.

28 Informações disponíveis em <http://cebds.org/empresas/>. Acesso em junho de 2016.

no sentido de fazer reconhecer determinados sentidos sobre sustentabilidade, ou seja, os sentidos que interessam a elas.

A crítica ao modelo do Triple Bottom Line está no cerne da corrente de transformação do atual sistema, o outro viés identificado por Kaufmann (2016), que representa uma ruptura com o sistema capitalista ao considerá-lo causador da crise ambiental que vivemos hoje. Assim, com base em autores como Cechin (2010), Leff (2008) e Morin (2012), Kaufmann (2016) critica os conceitos/modelos como o Triple Bottom Line, dentre outros motivos, porque ignoram a complexidade da atual conjuntura e consideram a sustentabilidade quantitativamente, atribuindo os mesmos pesos às questões econômicas e ambientais, sem considerar, dentre outras coisas, a natureza como fator limitador do próprio sistema econômico (KAUFMANN, 2016).

Assim, a manutenção de propostas políticas e econômicas tradicionais apenas dão continuidade à ideia de que se deve continuar expandindo a produção, o consumo e as infraestruturas, o que mantém a humanidade em um caminho insustentável.

Como observam Baldissera e Kaufmann (2015), os princípios do sistema econômico tendem a ser os princípios fundantes da própria sociedade ocidental, capazes de atravessar e interferir nos demais sistemas, como o político, o educacional, o cultural e, principalmente, o ecológico. Contudo, o lugar que o sistema econômico assumiu e a significação que ele aciona na sociedade contemporânea são construções socioculturais resultantes, dentre outras coisas, da interação dos sujeitos. Assim, por meio dos processos comunicacionais, a atual configuração econômica foi sendo legitimada, conquistando o caráter central na sociedade contemporânea.

Nessa perspectiva, a significação que foi historicamente objetivada, assumiu certa sedimentação, traduziu-se em representações sociais e práticas cotidianas, (re)constituiu e constitui imaginários, e foi/é permanentemente (re)afirmada mediante processos comunicacionais. Essas concepções, centrais nas redes de significados (cultura, conforme Geertz, 1989), assumem caráter de pressuposto básico, materializando-se em crenças e valores e, em um nível mais visível, em práticas culturais (dentre outras coisas, comportamentos, objetos, regras). (BALDISSERA; KAUFMANN, 2015, p. 4).

Para Leff (2008), a lógica simplificadora e reducionista com a qual a economia continua operando atribui à natureza um valor de mercado, tratando-a como um serviço que está à disposição para que seja utilizada. Entretanto, sob a perspectiva da complexidade e da continuidade da vida, é justamente essa postura que precisa ser revista. Assim, o discurso do desenvolvimento sustentável “simplifica a complexidade dos processos naturais e destrói as identidades culturais para assimilá-las a uma lógica, a uma razão, a uma estratégia de poder para apropriação da natureza como meio de produção e fonte de riqueza” (LEFF, 2008, p. 25).

A noção de desenvolvimento sustentável está constantemente presente no discurso organizacional e materializa-se, portanto, nos relatórios de sustentabilidade. Nesse documento oficial, as organizações apresentam seu ponto de vista, assim como suas ações e planos futuros, quanto aos assuntos relacionados à responsabilidade socioambiental. Por meio do modelo GRI de relatório, amplamente usado no mundo como modelo para o relato de sustentabilidade, estabelecem relações com os públicos que consideram prioritários, a fim de orientar investimentos e, até mesmo, repensar processos.

No capítulo seguinte, será realizada uma breve discussão sobre a ideia de responsabilidade social empresarial e a origem dos relatórios de sustentabilidade. Além disso, será aprofundada a estruturação do modelo GRI de relatório de sustentabilidade e sua perspectiva de diálogo entre organizações e públicos.

5 A RESPONSABILIDADE SOCIAL E O RELATO DE SUSTENTABILIDADE O surgimento do modelo GRI de relatórios de sustentabilidade não se deu por acaso, mas por um contexto que vinha sendo desenhado ao longo das últimas décadas, a partir da construção da ideia de responsabilidade social empresarial. Essa trajetória será apresentada brevemente a seguir, a fim de situar a produção dos relatórios GRI dentro de uma lógica de produção liderada pelas organizações empresariais. Na sequência, discutimos a estrutura do modelo oferecido pela GRI para relatórios de sustentabilidade, com o objetivo de compreender os objetivos do relato, as flexibilizações e possibilidades de apropriação pelas organizações relatoras, em especial no que se refere ao diálogo.

A partir da constituição do modo de produção capitalista, a propriedade privada tornou-se a base do poder da classe empresarial. Assim, a livre-iniciativa e a privatização da produção e distribuição de mercadorias transformaram-se em sinônimo de progresso e liberdade humana, o que colocou os trabalhadores em situações críticas de miséria e desemprego (GUIMARÃES, 1984). A acumulação de capital, mola propulsora da sociedade moderna capitalista, sobrepõe os objetivos econômicos aos objetivos sociais. Com foco na lucratividade, o mercado, concebido inicialmente como fonte de melhoria para a condição humana e garantia de desenvolvimento, deixa a condição humana e social em segundo plano, como explicam Schroeder e Schroeder (2004), transferindo-as para responsabilidade do Estado.

O Estado, por sua vez, não estava preparado para assumir todas essas demandas, o que resultou em uma grave crise de confiança quanto à sua capacidade de administração. Foi nesse

contexto que “a sociedade passou a reconhecer que as empresas, como grandes portadoras e geradoras de riquezas materiais, também deveriam e poderiam assumir uma maior responsabilidade para com a sociedade, assumindo e participando de causas sociais”, situação que concedeu às organizações empresariais um espaço “para participar e influenciar diretamente outras dimensões sociais” (SCHROEDER; SCHROEDER 2004, p. 5). Sobre essa mudança, Guimarães (1984) acredita que, desde a década de 1950, torna-se visível o aguçamento da consciência de cidadania e a força conquistada pelos movimentos de minorias, em especial o movimento ecológico, dando início a uma estratégia de pressão nos donos de empresas por uma maior responsabilidade sobre suas atividades. A sociedade, aos poucos, torna-se mais exigente e consciente dos direitos e deveres legais/éticos/morais das organizações. Essa nova dinâmica contribui com o surgimento do conceito de responsabilidade social nas empresas, já que ele “se vincula à ideia de que as empresas, como os indivíduos, devem ser responsabilizadas por todas as consequências decorrentes de atitudes tomadas”, de forma a proteger e melhorar a qualidade de vida da sociedade (GUIMARÃES, 1984, p. 215).

Para Enriquez (1997, p. 10), a mudança na postura das organizações empresariais deve-se à tentativa de “dar um sentido à sociedade para suprir as deficiências das outras instituições” e, portanto, de tornarem-se mais cidadãs ao liderarem ações que pudessem beneficiar a sociedade. Dessa forma, as organizações passam a encarregar-se não apenas do desenvolvimento da economia, mas também de outros domínios da vida, como o

“desenvolvimento social, psicológico e cívico” (ENRIQUEZ, 1997, p. 10).

A crescente participação das organizações no cotidiano social e a cobrança por posturas mais responsáveis e transparentes, dentre outros fatores, contribuíram com o surgimento dos primeiros balanços sociais, ainda na década de 1970, na Europa, conforme será tratado a seguir.

No documento UFRGS (páginas 50-54)