Fundamentalmente, a linguagem é uma prática social. Quando a língua é tomada pelo sujeito para organizar um discurso – oral ou escrito – e, portanto, para significar, quando a língua é colocada em funcionamento, é aí que a linguagem acontece.
Como todos sabemos, as circunstâncias nas quais a linguagem se realiza são múltiplas, e delas participamos cotidianamente:
ler uma revista na sala de espera do dentista;
•
ler a estante da banca de jornal ao passar por ela, para ver as notícias mais
•
recentes;
ler a primeira página do
• site, quando acessamos nosso provedor;
ler o Evangelho em voz alta, em uma cerimônia religiosa;
•
ler a tela do banco eletrônico para verificarmos a movimentação de nossa conta
•
bancária;
Lilian Borges
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ler um artigo de lingüística para estudarmos determinado conteúdo;
•
ouvir as notícias no rádio do carro, quando vamos para o trabalho;
•
participar de um sarau literário;
•
ler e responder mensagens recebidas por
• e-mail;
ler um romance à noite, antes de pegarmos no sono;
•
investigar os livros de poesia na estante da livraria para ampliarmos nosso acervo
•
pessoal;
ler o edital de um concurso;
•
escrever uma carta de reclamação por nos sentirmos lesados por determinado
•
serviço ou produto;
participar de uma entrevista de emprego;
•
ler o manual do usuário para conseguir utilizar o celular recém-adquirido;
•
apresentar uma comunicação em um seminário;
•
assistir a um debate em um programa televisivo...
•
Ser cidadão, portanto, requer a inevitável participação de situações de comunicação verbal, de situações de linguagem, quer a linguagem requerida nessas situações seja a oral, quer seja a escrita.
A escola, como instituição cuja finalidade é a formação do sujeito para a cidadania, deve possibilitar a ele a apropriação de conhecimentos que permitam a sua partici- pação social efetiva. Essa participação requer o domínio de todos os conhecimentos exigidos nas situações de interação verbal.
E quais seriam esses conhecimentos?
No que se refere à linguagem escrita, fundamentalmente, seriam:
a) procedimentos de leitura: saber ler da esquerda para a direita e de cima para baixo; considerar a leitura da orelha e da quarta capa na seleção de material de leitura; utilizar um índice para procurar informações, entre outros;
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b) procedimentos de escrita:
de
• planejamento dos textos que escreverá: como tomar nota de aspectos que precisarão estar contidos no texto; organizar um esquema do texto que será escrito e orientar a textualização por ele, por exemplo;
de textualização: seleção do léxico, das expressões, do registro em função do
•
leitor; elaboração dos enunciados; ler o trecho anteriormente escrito para continuar escrevendo, de modo a garantir a coesão e a coerência das infor- mações, entre outros;
de revisão processual e final dos textos;
•
c) comportamentos leitores e escritores: socializar material de leitura; compartilhar critérios de escolha de material de leitura; pedir a opinião de terceiros sobre o texto que escreveu; considerar essa opinião ao revisar o texto, por exemplo;
d) capacidades de leitura e de produção de textos: antecipar eventuais conteúdos do texto em função dos conhecimentos prévios sobre o autor, sua obra, seu estilo, assuntos que costuma tratar, portador e veículo no qual o texto foi publicado, época em que o texto foi escrito; relacionar um texto com outros lidos a partir de referências como autor, temática, época de produção; ser capaz de refutar opiniões contrárias às que defende em um texto; organizar os fatos relatados em uma notícia a partir do eixo de relevância, entre outras.
Além desses conhecimentos, de natureza mais propriamente procedimental, devem ser tomados como objeto de ensino os seguintes conhecimentos lingüísticos consti- tutivos da linguagem:
discursivos
• (relativos à adequação do discurso ao contexto de produção, inclusive as características dos gêneros nos quais os textos se organizam);
pragmáticos
• (relacionados às características de eventos de comunicação, como seminários, saraus, congressos, fóruns);
textuais
• (concernentes à coesão, coerência, paragrafação, pontuação);
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gramaticais
• (referentes aos conteúdos gramaticais clássicos, como sintaxe, mor- fologia, semântica, estilística, fonética, ortografia, estilística);
notacionais
• (relativos à compreensão do sistema de escrita).
A participação nas práticas de linguagem será tanto melhor quanto maior for a mestria do sujeito ao articular adequadamente todos esses saberes, mobilizando-os em função das características da situação de comunicação.
A primeira decorrência da compreensão da linguagem como prática social relaciona-se, portanto, com os aspectos que, na escola, devem ser tomados como objeto de ensino.
Se antes, em uma visão mais conservadora, apenas conteúdos gramaticais eram o foco e, nas práticas de alfabetização, os notacionais, agora o leque se amplia, diversifica e complexifica.
Grafar um texto e produzir um texto em linguagem escrita são a mesma atividade?
A reflexão lingüística atual nos permite compreender que a capacidade de grafar um texto não é sinônimo de capacidade de produzir um texto em linguagem escrita.
A escrita – tal como hoje se sabe – é uma ferramenta tecnológica que permite registrar a palavra, o texto produzido. Por meio da escrita – um sistema de representação alfabético dos sons da fala no caso da escrita brasileira –, podemos grafar, inclusive, textos orais.
É o caso, por exemplo, da transcrição de uma palestra gravada em áudio, para estudo.
A linguagem escrita é mais do que o registro gráfico de um texto: é um modo de organizar o discurso, previamente ao momento de dá-lo a conhecer ao seu interlocu- tor, de modo que se possa recuperá-lo posteriormente, tal como elaborado pelo seu produtor. Esse processo supõe uma organização textual que requer, por exemplo, a apresentação de todas as referências contextuais relevantes do momento de produção, sob pena de o leitor não conseguir recuperá-las.
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A linguagem escrita é mais do que o registro gráfi co de um texto:é um modo de organizar o discurso, previamente ao momento de dá-lo a conhecer ao seu interlocutor, de modo que se possa recuperá-lo posteriormente, tal como elaborado pelo seu produtor.
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Isso posto, podemos dizer que aprender sobre a linguagem escrita e sobre a escrita da linguagem não é o mesmo. São objetos diferentes, ainda que, historicamente, poder grafar a linguagem possa ter sido elemento definidor das características que a lingua- gem passaria a ter, pois, por influência desse suporte, também ela se foi modificando ao longo da história, em especial pelo recurso mnemônico que se tornou.
Saber isso é fundamental para a prática de alfabetização, pois esse conhecimento coloca para o professor a possibilidade de trabalhar a linguagem escrita com seus alunos, ainda que por meio da oralidade, não sendo necessário esperar que eles aprendam a grafar/escrever para passarem a produzir textos em linguagem escrita. Ao contrário, enquanto aprendem sobre a linguagem escrita, os alunos estudam a escrita, ferramenta de registro de textos.
Assim, atividades como recontar oralmente um conto, lido como se o estivesse lendo em um livro, são fundamentais para a aprendizagem da linguagem escrita; ditar um texto
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Aprender sobre a linguagem escrita e sobre a escrita da linguagem não é o mesmo.Saber isso é fundamental para a prática de alfabetização, pois esse conhecimento coloca para o professor a possibilidade de trabalhar a linguagem escrita com seus alunos, não sendo necessário esperar que eles aprendam a grafar/
escrever para passarem a produzir textos em linguagem escrita.
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para que o professor o grafe, também. Em ambas as situações, os alunos estão sendo so- licitados a produzir textos escritos, aprendendo a planejá-los e a revisá-los, de modo que estejam adequados a todas as características do contexto de produção (incluindo as espe- cificidades do gênero). Estão aprendendo conteúdos gramaticais, textuais e discursivos.