Essas novas demandas exigiram e continuam exigindo novas competências de todos os envolvidos no trabalho educativo.
A nós, educadores, é pedido que conheçamos nosso campo de trabalho, o educacional, para que possamos atender ao multiculturalismo, às diferenças sociais e culturais, aos diferentes pontos de partida de nossas crianças e jovens, de forma a podermos ajudá- los a atingir pontos de chegada socialmente aceitos e pretendidos.
É preciso que saibamos como apoiá-los nessa caminhada, e para isso faz-se necessário que conheçamos os caminhos possíveis.
Somos chamados a trabalhar coletivamente, para responder à reunificação do conhe- cimento, que não mais admite a entrega fragmentada do saber aos educandos; a res- ponsabilidade por mostrar aos educandos que o conhecimento deve ajudar a construir uma visão global da realidade é da escola e não pode ser deixada apenas como tarefa de descoberta paras as crianças e jovens.
Somos chamados, ainda, a trabalhar por projetos como forma de superar um com- portamento meramente burocrático e cristalizado que não sabe adequar as respostas às necessidades concretas de cada realidade escolar.
Respostas contextualizadas e precisas para cada ambiente escolar pedem flexibilidade na ação educativa, e isso se institucionaliza em projetos especificamente voltados para cada realidade, de modo a atender às expectativas sociais concretas do ambiente no qual se instala a unidade escolar.
O Conselho Municipal de Educação (CME) de São Paulo foi criado em 24 de fevereiro de 1988. É um órgão normativo e deliberativo, com estrutura colegiada, composto por repre- sentantes do Poder Público, trabalhadores da educação e da comunidade. Entre suas competências, o CME é responsável por:
• prestar assessoramento ao Executivo Municipal, no âmbito das questões relati- vas à educação, e sugerir medidas no que tange à organização e ao funcionamento da Rede Municipal de Ensino, inclusive no que respeita à instalação de novas unida- des escolares;
• promover e realizar estudos sobre a orga- nização do ensino municipal, adotando e propondo medidas que visem à sua expan- são e ao seu aperfeiçoamento;
• elaborar o Plano Municipal de Educação;
• emitir parecer sobre os assuntos de ordem pedagógica e educativa que lhe sejam sub- metidos pela Administração Municipal, por meio de seu órgão próprio.
fundamentos.indd 158
fundamentos.indd 158 11/28/08 4:13:19 PM11/28/08 4:13:19 PM
159
JAIR MILITÃO DA SILVA A EDUCAÇÃO PODE MUDAR... E EU COM ISSO?
Para adquirir essas novas competências, há, entretanto, uma condição fundamental, sem a qual dificilmente chegamos à mudança: sentir-se protagonista do trabalho educativo.
O termômetro que nos permite medir nosso desejo de protagonismo é o de conside- rarmos a realidade acontecimento e não apenas fato. Isso se materializa na resposta que dou à pergunta:
O que eu tenho a ver com isso?
De fato, as mudanças educacionais em meio a um processo de democratização da sociedade podem acontecer só quando existem sujeitos sociais empenhados na busca de melhores condições de ensino.
Um sujeito proativo é alguém que julga a realidade e se posiciona diante dela, encara as demandas sociais como ocasião de resposta criativa e empenhada.
Todavia, não conseguimos ser sujeitos proativos e mantermo-nos nessa condição quando atuamos como indivíduos anônimos, como seres solitários sem necessidade dos demais.
A constituição de nossas pessoas como sujeitos é sempre um processo comunitário.
Nossa humanização ocorre nos processos relacionais e precisamos ao menos de outro ser humano para criar e manter nossas identidades. Portanto, os autênticos sujeitos sociais são sempre coletivos.
As formas atuais de organização social não favorecem o surgimento de sujeitos cole- tivos; por isso, é necessário um esforço intencional e sistemático para a constituição deles, ou seja, é urgente um trabalho pedagógico para a criação de sujeitos coletivos.
Essa pedagogia sistematiza-se em procedimentos, com passos que, paulatinamente, vão criando condições de compromisso de cada participante, mobilizando sua afetividade, inteligência, vontade, memória, criando, por fim, uma identidade que ultrapassa o eu
Campagnoli Produções
fundamentos.indd 159
fundamentos.indd 159 11/28/08 4:13:19 PM11/28/08 4:13:19 PM
EDUCAÇÃO FAZER E APRENDER NA CIDADE DE SÃO PAULO 3. IDÉIAS – ESCOLA, SABERES E FAZERES
160
e atinge um nós ético, isto é, um nós que compromete cada pessoa, livremente, com o trabalho a ser realizado por todos.
Um projeto pedagógico construído de forma participativa, por sujeitos coletivos comprometidos, pode unificar a ação de toda a unidade escolar.
Nós, trabalhadores em educação, precisamos dizer, ao propormos um projeto peda- gógico, a que problema queremos responder. De fato, só planejamos quando temos uma necessidade real a atender. Caso contrário, até mesmo o ato de criar um projeto pode tornar-se mera tarefa a ser realizada alienadamente, apenas para atender a um pedido da Secretaria, e não se torna ocasião de efetivo exercício de protagonismo.
Um projeto pedagógico em uma unidade escolar apresenta uma dimensão crucial, que é o processo de sua elaboração: sem uma participação efetiva de todos os envolvidos, pode estar fadado ao insucesso. A outra dimensão é o produto final, que sintetiza as intenções dos trabalhadores em educação da unidade escolar: o plano global da escola, documento que deve ser o marco orientador das ações e das avaliações.
Quando a unidade escolar está conectada a uma rede de ensino e a um sistema com identidade própria, como é o caso das escolas públicas e de algumas privadas per- tencentes a redes com mantenedora única, as orientações gerais dos órgãos centrais devem ser elementos constituintes das propostas das unidades, sem o que se instaura um irrealismo pedagógico que, mais cedo ou mais tarde, provocará colisões que podem levar ao insucesso o trabalho de todos.
Uma unidade escolar que julgue necessário propor inovações ainda não existentes em nível de sistema que integra deve fazê-lo, como manda o conhecimento administra- tivo, obedecendo aos trâmites e canais instituídos, quando estamos em um Estado Democrático de Direito.
Portanto, um projeto pedagógico de uma unidade escolar supõe a existência de pro- tagonistas para sua criação e sustentação. Supõe também a clara busca de solução de
“
Um projeto pedagógico em uma unidade escolar apresenta uma dimensão crucial, que é o processo de sua elaboração: sem uma participação efetiva de todos os envolvidos, pode estar fadado ao insucesso.”
fundamentos.indd 160
fundamentos.indd 160 11/28/08 4:13:19 PM11/28/08 4:13:19 PM
161
JAIR MILITÃO DA SILVA A EDUCAÇÃO PODE MUDAR... E EU COM ISSO?
um ou mais problemas e o critério de organização das ações deve ser o interesse do usuário da escola.
O compromisso de todos pela educação, mesmo que se concretize em última ins- tância no trabalho realizado nas unidades escolares, não prescinde, ao contrário, até mesmo depende muito, do trabalho realizado nos níveis regional e central das redes e sistemas escolares.
A implantação de políticas públicas, de modo especial quando a unidade escolar está inserida em rede, é fator importantíssimo para o sucesso da oferta de uma educação de qualidade.