Após cinco planos heterodoxos num país continental, Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor e Plano Collor II, e cinco moedas diferentes, então, surgiu pela primeira vez uma moeda forte, o real. A moeda (money) numa economia tem
"as funções de meio de troca, unidade de troca e reserva de valor" (Carvalho, 2007, p.
1). A moeda é uma unidade de cálculo, um poder econômico portátil.
A moeda real foi lançada em 1º de julho de 1994 e no ano de 2017 comemorou- se os 23 anos de sua circulação na economia brasileira. A imagem da musa da República encontra-se presente nas notas de real e nós, os trabalhadores e as trabalhadoras, diariamente, mensalmente e anualmente estamos em busca de uma
tartaruga-marinha (dois reais), de uma garça (cinco reais), de uma arara (dez reais), de um mico-leão-dourado (vinte reais), de uma onça-pintada (cinquenta reais), e, sobretudo, de uma garoupa (cem reais) para comprar bens e serviços. Para isso acontecer sem muitos problemas, é fundamental ensinar a pescar o peixe. A cédula de um beija-flor (um real) não circula mais na economia brasileira.
Revelamos que no início do Plano Real, o BCB importou papel-moeda de 5 reais da Alemanha, 10 reais da Inglaterra e de 50 reais da França para atender a elevada demanda de papéis-moedas na economia aberta do Brasil.
Nas cédulas do real constam as assinaturas do Ministro da Fazenda e do Presidente do BCB, as palavras "Deus Seja Louvado" e são numeradas pela CMB. A segunda família de cédulas do real começou a circular no País em 2010, sendo que as novas notas de R$ 5 e R$ 2 só chegaram no ano de 2013. E, dessa vez, sem a "caçula"
de R$ 1. A nota com maior quantidade de cédulas em poder da população ou da rede bancária, segundo o BC, é a nova de R$ 50, com 1,3 bilhão de exemplares. Em segundo lugar em termos de volume está a nota de R$ 2 da primeira família, com 700 milhões.
Ao longo dos 23 anos, o real já teve até nota de plástico. Em abril de 2000, foi lançada uma cédula comemorativa de R$ 10, nos 500 anos de descobrimento do Brasil, com a efígie de Pedro Álvares Cabral, feita de polímero e tecnologia importada da Austrália.
Ao longo de mais duas décadas, o real vendo sendo uma moeda mundialmente conhecida como o euro. Na Itália, por exemplo, a moeda vigente de 17 de março de 1861, no século XIX, até 28 de fevereiro de 2002, no século XXI, foi à lira, sendo substituída pelo euro com a entrada da República Italiana na UE e com adesão a Zona do Euro. Hoje, a lira italiana é uma peça de museu em Roma, Turim, Florença, Veneza, Gênova, Nápoles ou Milão.
Outro famoso exemplo é a Grécia, onde a dracma foi considerada a moeda com maior tempo de circulação no mundo, sendo utilizada da Grécia Antiga (640 antes de Cristo) até o ano de 2002, quando o euro passou a ser adotado pelos gregos como moeda oficial do milenar país. Os dracmas de prata agora são peças de museu em
Atenas, Patras ou Larissa. A Grécia desde 2009 até os dias atuais encontra-se em profunda crise econômica.
Enfatizamos que o Brasil foi um dos países que menos cresceu economicamente no mundo entre 1976 e 2016, com uma taxa média de crescimento econômico de 2,77%
ao ano. Outra recessão econômica por dois anos consecutivos sofreu o Brasil, desta vez a retração de -3,8% em 2015 e -3,6% em 2016. A severa recessão econômica provocou desemprego, inadimplência, falência e divórcio, além de um longo caminho de desalentos, desesperos, amarguras e desilusões. Segundo a OMS, a crise econômica afeta diretamente a saúde emocional da população. Atualmente, nós conhecemos alguém com problemas de saúde por causa dos impactos da pior recessão da histórica econômica do País.
No Brasil o desemprego já ultrapassa os 12 milhões de pessoas (IBGE) e a inadimplência já passa dos 61 milhões de consumidores (SPC BRASIL). Eles procuram sair do vermelho, mas como desempregado e/ou inadimplente estão com as mãos na cabeça quente com tantas contas atrasadas, sem reais em sua carteira ou no banco comercial. Um estudo sério da OIT apontou que no ano de 2017, de cada três desempregados no planeta, um seria brasileiro.
A moeda real quando surgiu em 1994, ela transformou a economia brasileira. "No sentido de evitar mais um congelamento de preços e salários, e, sobretudo, o confisco de poupanças, o Plano Real foi organizado em três etapas: 1. Lançar o PAI (Programa de Ação Imediata), em 14 de junho de 1993; 2. Introduzir a URV (Unidade Real de Valor), em 1º de março de 1994; 3. Substituir a URV pela nova moeda, o real, em 1º de julho de 1994" (GALVÃO JÚNIOR, 2016, p. 336). Na primeira etapa foi necessário fazer ajustes nas despesas públicas. Na segunda etapa foi implantado de forma provisória a URV. E na terceira e última etapa ocorreu à substituição da URV e do cruzeiro real pelo real.
De acordo com um dos formuladores do Plano Real, o economista Gustavo Franco (2017, p. 579), "No primeiro dia útil de funcionamento do esquema, a URV valia CR$ 647,50 e era este o ponto de intervenção para o BCB. Os valores foram sendo reajustados a cada dia até o último dia de vida da URV, quando o seu valor foi fixado em CR$ 2.750,00".
A URV foi uma moeda virtual. A grande novidade da URV foi sua inserção no padrão monetário do País, dotada de uma das características da moeda: a unidade de conta. A URV foi um golpe mortal na indexação. Embora inicialmente sendo vedado o seu poder liberatório como meio de pagamento, continha a previsão que quando a URV fosse emitida como moeda, mas com o nome de Real.
"Dois fatores foram fundamentais para o sucesso do Real. O primeiro foi à desindexação da economia com a Unidade Real de Valor (URV), que contribuiu para se ter uma referência estável de preços. Quando a moeda entrou em vigor, os preços, por meio da URV, já tinham uma certa estabilidade. O segundo aspecto fundamental foi a chamada âncora cambial. Naquele momento, o câmbio era fixo, com o BC determinando a taxa de câmbio e, ao mesmo tempo, houve a abertura comercial externa no Brasil. As importações passaram a ter tarifas mais baixas, garantindo por meio da concorrência a estabilidade de preços", explicou o economista Mauro Rochlin.
O Plano Real foi o melhor plano econômico do Brasil. Este plano de estabilização econômica foi o mais eficaz da economia brasileira na redução da inflação e na ampliação do poder de compra da classe trabalhadora no País. Não ocorreu congelamento de preços nem de salários nem tão pouco confisco de poupança.
No ano de 1998, o Brasil alcançaria outro recorde nacional, a sua menor taxa de inflação, de 1,65%, mensurado pelo IPCA do IBGE, graças ao Plano Real. A inflação permanecerá relativamente baixa de 1999 (ano que o Brasil adota uma política monetária de manter a inflação em níveis baixos) até os dias atuais, ou seja, com IPCA de 6,63% ao ano, em média, nos últimos 18 anos.
5. NOVO OLHAR SOBRE A MOEDA NO BRASIL E NO MUNDO NO SÉC. XXI