moradores, um aumento da integração. Muitos disseram que essa integração havia aumentado por conta da ausência dos traficantes armados, fazendo com que pessoas, que antes tinham medo de frequentar a Santa Marta, passassem a subir o Morro. Mas o mesmo processo gerou críticas de que, embora a integração da Santa Marta tivesse aumentado, esse aumento se consolida mais de fora da favela para dentro do que de dentro para fora.
Outra “abertura” que a UPP consolidou para os moradores da favela, em relação ao restante da cidade e a outras favelas, foi justamente a possibilidade de poder intercambiar espaços outrora proibidos, sob a influência de facção criminosa rival à de sua área de origem. Com a instalação da UPP, esse fechamento deixa de existir, o que sem dúvida diminui em parte a fragmentação desse tecido.
Estudo coordenado por Cano (2012) sobre as UPPs conclui que,
nesse sentido, parece estar surgindo uma nova dualidade, para além da tradicional entre favela e asfalto. A nova polaridade se manifesta em relação às ‘favelas pacificadas’ e às tradicionais. As primeiras permitiriam uma livre entrada e a tranquilidade de não ter de enfrentar tiroteios, enquanto as outras estariam ainda condenadas a serem territórios proibidos, lócus da violência, do perigo e, em última instância, do mal (p. 133).
De qualquer forma, no caso da Santa Marta, a instalação da UPP diminui a fragmentação do tecido sociopolítico-espacial e ocorre em um espaço previamente ocupado de forma heterogênea e com disputas de poder. Conceituar, desmistificar e relacionar todas essas forças dentro desse espaço é fundamental para entendermos a regulação do poder na favela Santa Marta após a instalação da UPP. A partir de agora, analisaremos o significado da favela, espaço esse onde a UPP atua e com representatividade para toda a cidade.
negou as promessas de pagamento dos soldos atrasados e as garantias de habitação (VALLADARES, 2005). Consequentemente os soldados ocuparam o Morro da Providência, que continha em sua encosta uma planta chamada favela, sendo esta a mesma planta que os soldados encontraram na guerra de canudos.
Daí por diante, o morro ficou conhecido como Morro da Favela, e as características de sua edificação incorporou o nome de favela, que se disseminou para o restante da cidade a partir da segunda década do século XX (ABREU, 1994). Mas foi com a campanha contra os cortiços que a criação desse novo espaço teve um aumento considerado na cidade, como nos diz Valladares:
mas só após essa ferrenha campanha contra o cortiço foi despertado o interesse pela favela, um novo espaço geográfico e social que despontava pouco a pouco como o mais recente território da pobreza. De início, tal interesse voltou-se para uma determinada favela que catalisa todas as atenções. É o Morro da Favella, já existente com o nome de Morro da Providência, que entra para a história através de sua ligação com a guerra de Canudos, cujos antigos combatentes ali se instalaram com a finalidade de pressionar o Ministério da Guerra a pagar seus soldos atrasados. O Morro da Favella, pouco a pouco, passou a estender sua denominação a qualquer conjunto de barracos aglomerados sem traçado de ruas nem acesso aos serviços públicos, sobre terrenos públicos ou privados invadidos. Conjuntos que então começaram a se multiplicar no Centro e nas Zonas Sul e Norte da cidade do Rio de Janeiro (2005, p. 26).
A favela, desde seu início e sua formação, representa bem mais do que o espaço da pobreza, é, sobretudo, uma simbologia de resistência por parte dos que não se sentem abarcados pelo poder público, responsável por garantir direitos constitucionais. A esse respeito, Valladares ainda nos lembra que,
de fato, a leitura de textos escritos no início do século [XX] leva a associar o Morro da Providência, no Rio de Janeiro, ao povoado de Canudos, no sertão baiano. Na verdade, as duas histórias se sobrepõem, pois foram antigos combatentes da guerra de Canudos que se estabeleceram no Morro da Providência, a partir daí denominado Morro da Favella. A maior parte dos comentaristas apresenta duas razões para essa mudança de nome: 1ª) a planta favella, que dera seu nome ao Morro da Favella – situado no município de Monte Santo no Estado da Bahia – ser também encontrada na vegetação que recobria o Morro da Providência; e 2ª) a feroz resistência dos combatentes entrincheirados nesse morro baiano da Favella, durante a guerra de Canudos, ter retardado a vitória final do exército da República, e a tomada dessa posição representando uma virada decisiva na batalha. Se a primeira explicação diz respeito apenas a uma similitude, a segunda tem uma forte conotação simbólica que remete à resistência, à luta dos oprimidos contra um adversário poderoso e dominador. No Rio de Janeiro, os soldados desmobilizados da guerra de Canudos e instalados sobre o Morro da Providência, ao mesmo tempo em que se colocavam em uma posição estratégica em relação ao Ministério da Guerra, permaneciam submetidos a ele, na expectativa de receber seus soldos atrasados (2005, p. 29).
Muitas são as formas de encarar um mesmo evento, por exemplo, um “pivete”
pode representar um perigo iminente no juízo de uma pessoa, enquanto para outra é apenas uma vítima do abandono da sociedade e do poder público. Aí está a
importância da fenomenologia12, que vem sendo observada pelos geógrafos humanistas e que não pode ficar restrita a esse grupo, mas deve ser incorporada também a uma leitura espacial mais ampla dentro da geografia. Com isso, chegaremos ao ponto de classificar a favela, que tem muitos olhares e interpretações e provoca reflexões diferentes nas diversas pessoas que refletem sobre esse espaço, mesmo que superficialmente.
Historicamente, várias foram as formas de caracterizar as favelas. Já no ano de 1900, era classificada da seguinte forma por um delegado de polícia,
obedecendo ao pedido de informações que V. Excia., em ofício sob n° 7.071, ontem me dirigiu relativamente a um local do Jornal do Brasil, que diz estar o morro da Providência infestado de Vagabundos e criminosos que são o sobressalto das famílias no local designado, se bem que não haja famílias no local designado, é ali impossível ser feito o policiamento porquanto nesse local, foco de desertores, ladrões e praças do Exército, não há ruas, os casebres são construídos de madeiras e cobertos de zinco, e não existe em todo o morro um só bico de gás, de modo que para a completa extinção dos malfeitores apontados se torna necessário um grande cerco, que para produzir resultado, precisa pelo menos de um auxílio de 80 praças completamente armadas (ZALUAR, 2006, p. 8).
O próprio Alfred Agache13, que na função pública expos a favela também como problema social, nos reporta a favela da seguinte forma,
não impede que, construídas contra todos os preceitos da higiene, sem canalisações d’agua, sem exgottos, sem serviço de limpeza publica, sem ordem, com material heteróclito, as favellas constituem um perigo permanente d’incendio e infecções epidêmicas para todos os bairros atravez dos quaes se infiltram. A sua lepra suja a vizinhança das praias e os bairros mais graciosamente dotados pela natureza,
12 Presente em um número maior de estudos humanísticos em geografia, um primeiro movimento filosófico a ser seguido na pesquisa diz respeito à fenomenologia. Seu criador, o filósofo alemão Edmund Husserl, criticou as teorias científicas, particularmente, as de inspiração positivista excessivamente apegadas à objetividade e à crença de que a “realidade” se reduz àquilo que se percebe pelos sentidos (PENHA, 1989: 28). O vocábulo teoria, na verdade, não possui a mesma acepção na filosofia e nas ciências. Na filosofia, “teoria” (do grego) tem o sentido de contemplação, de entendimento ou interação. O termo fenomenologia, referente ao estudo dos fenômenos, foi primeiramente cunhado por J. H. Lambert, em 1764, e recebeu significações diversas de Kant, Hegel, Husserl e Heidegger (GOMES, 1996). Para Husserl “o sentido do ser e do fenômeno não podem ser dissociados” (DARTIGUES, 1971: 13), pois a consciência só pode ser assim entendida quando dirigida para um objeto e este “só pode ser definido em sua relação com a consciência” sendo, portanto, objeto para um sujeito.
Trata-se de um princípio caro à referida filosofia que analisa a dinâmica que fornece significado aos objetos. Com efeito, a fenomenologia interpreta a apreensão das essências, através da experiência vivida pelos indivíduos e grupos sociais e não se detém ou distingue o objeto do sujeito, sendo uma filosofia que ultrapassa a dicotomia sujeito-objeto. Nestas condições, o enfoque é precioso para a dimensão simbólica, na medida em que, aos artefatos dispostos na paisagem, o homem atribui significados, alçando-os aos patamares dos símbolos. No caso específico da ciência espacial, os geógrafos, por muito tempo, excluíram de suas abordagens os laços de vizinhança, o estoque de conhecimento, a agradabilidade, a topofobia, a fixação aos espaços e lugares, as experiências cotidianas e os elos que unem as pessoas ao meio ambiente. A fenomenologia, considerando esses atributos, serve de ponte a especialistas, com vistas ao entendimento do mundo vivido, pois – diferentemente da "ciência que omite as questões da vida" (RELPH, 1981: p. 101) – não trata o mundo independente dos seres humanos (MELLO, inédito, p. 10-11).
13 Segundo Valladares, Alfred Agache “chegando ao Rio pela primeira vez em 1927 – convidado pelo então prefeito Antonio Prado júnior –, apresentou três conferências que obtiveram uma grande repercussão. Em seguida, foi contratado pela Prefeitura do Rio de Janeiro para elaborar o primeiro plano de extensão, renovação e embelezamento da capital do país” (2005, p. 45).
despe os morros do seu enfeite verdejante e corroe até as margens da matta na encosta das serras (AGACHE, apud VALLADARES, 2005, p.47).
Os textos citados revelam uma perspectiva negativa que se tem da favela, como perigo e local de ladrões e vagabundos. A visão que o delegado tivera da favela, há mais de cem anos, cremos não ter apresentado grandes mudanças, pois até os dias de hoje a favela passa a representar algo negativo no imaginário das pessoas.
“O que é uma favela?” Durante o longo tempo que trabalhamos com o tema, esta pergunta foi feita a pessoas de variados grupos sociais e categorias profissionais. As respostas revelaram um quadro de opiniões surpreendentemente homogêneo, independente da posição política, da condição educacional e da perspectiva ética e religiosa do entrevistado. O eixo da representação da favela é a noção de ausência.
Ela é sempre definida pelo que não teria: um lugar sem infraestrutura urbana – água, luz, esgoto, coleta de lixo –, sem arruamento, sem ordem, sem lei, sem moral e globalmente miserável. O caos, enfim (SOUZA E SILVA; BARBOSA, 2005, p. 24, grifo do autor).
O juízo que, muitos moradores de nossa cidade têm da favela atualmente, pode ser atribuído, em grande parte, aos meios de comunicação, que dão visibilidade à favela pela intensificação de seus pontos negativos, como, por exemplo, o tráfico de drogas, espaço da violência, espaço dos pobres “coitados”, um espaço inferiorizado. Não se pode negar que o espaço da favela apresente uma grande quantidade de problemas, muito em função da ausência do poder público, mas ao enfatizarmos sempre a mesma imagem, ocultamos uma série de outras, estigmatizando um espaço e seus moradores.
A favela ainda é contraposta a um determinado ideal de urbano, vivenciado por uma pequena parcela dos habitantes da cidade. Não é à toa, então, que ela é considerada uma disfunção, um problema que afeta a saúde da cidade. A Revista Veja expressou em uma de suas capas esse juízo marcado pelo temor:
acompanhada da manchete “A periferia cerca a cidade”, apresenta-se uma imagem na qual as construções de alvenaria, em cor escura – remetendo à visão de formigas saúvas em movimento – vão devorando gradativamente prédios brancos e limpos.
(SOUZA E SILVA; BARBOSA, 2005, p. 57-58, grifo do autor).
As imagens que mostram a favela como caldeirão cultural, espaço de alegria e de criatividade, com enorme rede de solidariedade, acabam que, grande parte das vezes, ocultadas pela grande mídia em função das notícias negativas. A própria densidade das casas, comum em muitas favelas e que é tomada como algo negativo, pode desenvolver também aspectos positivos.
Nas favelas, há uma elevada concentração de habitações, e isso não é a expressão de um problema, mas tem um aspecto positivo realçado pelo grau de intensidade da vida na favela, até porque os moradores das favelas têm uma lógica diferenciada na relação com a rua, pois o espaço do morador é muito mais que sua casa. As áreas comuns são muito importantes em sua convivência diária, fato que fortalece as
relações de vizinhança diante da relação com o outro na construção dos espaços comuns, mesmo diante da insegurança (SOUZA E SILVA, 2009, p. 83).
Não há aqui intenção de romantizar e ausentar de problemas as relações de vizinhança na favela, pois a mesma proximidade das casas que gerou uma integração e solidariedade entre vizinhos, gerando também alguns conflitos.
A maior densidade populacional, as dificuldades advindas da convivência tão próxima de pessoas vindas de diferentes regiões do país, particularmente entre nordestinos e cariocas negros, a confusão entre responsabilidades individuais e coletivas, assim como os conflitos em torno das verbas oferecidas pelo Estado e por algumas organizações não governamentais, tudo isso dificultou as tarefas das associações de moradores (ZALUAR, 2006, p. 219).
Justamente essa diferença, que pode causar pequenos conflitos, faz com que a favela seja um espaço heterogêneo, diverso, múltiplo, o que vai de encontro à visão daqueles que pensam a favela como espaço homogêneo.
Falar da favela no singular tem implicações importantes, por exemplo a adoção da homogeneidade como pressuposto, e o desinteresse pela diversidade, de tal maneira que as diferenças internas ao mundo das favelas se tornam automaticamente secundárias. Ocultam-se a diversidade, a pluralidade das formas, das relações e das situações sociais (VALLADARES, 2005, p. 152).
O Observatório de Favelas, Organização Não Governamental dedicada ao estudo das favelas em todo Brasil, realizou um seminário14 e definiu a favela da seguinte forma:
1. Considerando o perfil sociopolítico, a favela é um território onde a incompletude de políticas de ações do Estado se fazem historicamente recorrentes [...] Portanto, as favelas são, de modo geral, territórios sem garantias de efetivação de direitos sociais, fato que vem implicando a baixa expectativa desses mesmos direitos por parte de seus moradores.
2. Considerando o perfil socioeconômico, a favela é um território onde os investimentos do mercado formal são precários, principalmente o imobiliário, o financeiro e o de serviços [...] Há, portanto, distâncias socioeconômicas consideráveis quando se trata da qualificação do tempo/espaço particular às favelas e o das condições presentes na cidade como um todo.
3. Considerando o perfil sócio-urbanístico, a favela é um território de edificações predominantemente caracterizadas pela autoconstrução, sem obediência aos padrões urbanos normativos do Estado. [...] A favela significa uma morada urbana que resume as condições desiguais de urbanização brasileira e, ao mesmo tempo, a luta de cidadãos pelo legítimo direito de habitar a cidade.
4. Considerando o perfil sociocultural, a favela é um território de expressiva presença de negros (pardos e pretos) e descendentes indígenas, de acordo com região brasileira, configurando identidades plurais no plano da existência material e simbólica (SOUZA E SILVA, 2009, p. 96).
O próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística caracteriza a favela como “aglomerados subnormais”, o que sem dúvida destaca os aspectos negativos
14 Seminário realizado entre os dias 19 e 20 de agosto de 2009, por ocasião dos oito anos do Observatório de Favelas.
a que já nos referimos anteriormente, maximizando estigmas. Contudo, a favela é também um espaço da criatividade, que vai muito além do que é mostrado nas escolas de samba, um espaço que ajuda a manter a cidade em movimento e, principalmente, um espaço que necessita da presença do poder público atuante de todas as formas cabíveis, em várias esferas diferentes, e não apenas com seu braço repressor ou como curral eleitoral. São esses espaços que mantêm uma delicada relação de poder entre as várias forças atuantes. Uma delas, o tráfico de drogas armado, cuja dinâmica será analisada a seguir.