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O tráfico de drogas e a relação de poder com a favela

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 62-72)

a que já nos referimos anteriormente, maximizando estigmas. Contudo, a favela é também um espaço da criatividade, que vai muito além do que é mostrado nas escolas de samba, um espaço que ajuda a manter a cidade em movimento e, principalmente, um espaço que necessita da presença do poder público atuante de todas as formas cabíveis, em várias esferas diferentes, e não apenas com seu braço repressor ou como curral eleitoral. São esses espaços que mantêm uma delicada relação de poder entre as várias forças atuantes. Uma delas, o tráfico de drogas armado, cuja dinâmica será analisada a seguir.

O entendimento dessa regulação de poder, que antecede a instalação da UPP, é primordial para que possamos compreender as modificações causadas pela UPP na Santa Marta e, para isso, é fundamental entender a origem do tráfico armado até seu enraizamento nas favelas cariocas.

O tráfico de drogas armado e “organizado” sob o título de Comando Vermelho manteve a hegemonia na Santa Marta durante anos (BARCELLOS, 2009). Sua história tem início na prisão Cândido Mendes encravada na Ilha Grande, litoral do Rio de Janeiro, onde presos políticos foram colocados juntos com presos “normais”.

“O Cândido Mendes tem segredos: mortes violentas, estupros, o preso contra o preso, a guarda contra todos” (AMORIM, 2011, p. 50). A necessidade de sobreviver na prisão foi o que formou o primeiro grupo com certa organização e hierarquia, como analisado por Dowdney:

a organização sistemática do mercado de droga a varejo no Rio de Janeiro nas prisões com a criação da primeira – e provavelmente ainda a mais poderosa – facção de droga, o Comando Vermelho, marca o início da escalada da violência armada organizada (2003, p. 29).

No período ditatorial, os presos políticos eram julgados pela Lei de Segurança Nacional (LSN) e alguns deles foram mandados para a prisão Cândido Mendes, na Ilha Grande, Estado do Rio de Janeiro. Ao chegarem para cumprirem sua pena, foram colocados em uma galeria (Galeria B) junto com prisioneiros sem motivação política, que, assim como os presos políticos, também assaltavam bancos e, por isso, julgados pela mesma Lei de Segurança Nacional, como ameaça ao país (MISSE, 1999; LEEDS, 2006; AMORIM, 2011).

Sessenta e seis homens condenados por atividades revolucionárias passaram pela galeria B, entre 1969 e 1975, quando os presos políticos começaram a se transferir para uma unidade especial do Departamento do Sistema Penitenciário (Desipe), no Complexo Penitenciário da Frei Caneca, no centro do Rio de Janeiro. [...] Naquele mesmo setor do Instituto Penal Cândido Mendes – a Galeria B – estavam os presos comuns condenados por crimes previstos na LSN [Lei de Segurança Nacional], como assaltos a bancos e instituições financeiras. [...] O encontro dos integrantes das organizações revolucionárias com o criminoso comum rendeu um fruto perigoso:

o Comando Vermelho (AMORIM, 2011, p. 58).

Leeds nos aponta que,

na tentativa de enfraquecer a organização [Comando Vermelho], as autoridades carcerárias transferiram os membros da lei de segurança para outras prisões, o que efetivamente difundiu e reforçou ainda mais a ideia de ação coletiva. [...] Hoje, a geração do “coletivo” dos anos 70 foi em grande parte substituída por novas lideranças que utilizam as técnicas organizacionais, dentro das prisões e nas favelas, para montar lucrativas redes de tráfico de cocaína, mas principalmente sem a mentalidade do coletivo. Nos anos 70, o advento da cocaína como nova mercadoria lucrativa modificou radicalmente as oportunidades para o crime

organizado a partir da prisão. [...] Em 1994, armamentos sofisticados viriam incluir-se no rol de mercadorias a serem traficadas (2006, p. 238-239).

Com o crescimento da demanda e alta lucratividade da venda de cocaína, novas facções foram formadas e, assim, novas favelas – locais preferenciais para a implantação desse tipo de comércio no Rio de Janeiro – são disputadas pelo crime

“organizado”. Na década de 1980, vários líderes do Comando Vermelho foram mortos, ocorrendo uma fragmentação do grupo.

O “olho grande”, a ambição e o grande volume de “derrama” na “caixinha” da rede cognominada Comando Vermelho, ainda por volta de 1985, bem como o aumento da repressão policial que levou à cadeia as principais lideranças, a partir de 1986, determinou o fracasso do projeto de oligopolização do varejo nas áreas pobres e à fragmentação e pulverização do “movimento” que se verifica hoje, em grande parte dessas áreas. Resquícios das quasiorganizações que saíram das falanges da década de 70 sobrevivem em outras áreas, ainda baseadas nas redes então montadas, mas perderam completamente o sentido protopolítico que, em parte, orientou sua formação nos idos de 1979-1980. Os vagabundo tomaram conta do negócio, e são cada vez mais jovens (MISSE, 1999, p. 369).

Já em 1990, outras facções haviam sido criadas, Terceiro Comando, Comando Vermelho Jovem e os Amigos dos Amigos (DOWDNEY, 2003, p. 33). Para garantir o controle espacial, os grupos iniciaram um processo de corrida armamentista, bem ao estilo guerra fria, mas enquanto esta nunca contou com uma agressão direta entre URSS e Estados Unidos, os grupos do Rio de Janeiro cada vez mais mantinham disputas sangrentas. Mostrar aos adversários o poder bélico de determinado “morro” era um fator determinante para intimidar o adversário e desencorajar uma possível invasão de grupos rivais. Assim, cada vez mais os grupos de venda de drogas no varejo mantiveram arsenais de guerra, tendo a polícia do Rio de Janeiro que pedir licença ao exército para comprar armamentos que fizessem frente aos adquiridos pelos bandidos. O cenário dessa guerra ocorre, principalmente, nas favelas transformadas em fortalezas do tráfico e misturadas ao cotidiano de certo número de pessoas que ficam no meio do fogo cruzado (SOARES, 2005).

Normalmente, o combate entre facções criminosas e a polícia só ocorria quando o conflito entre as facções afetava diretamente a classe média ou se tornava demasiadamente noticiado pela imprensa, como no caso da favela Santa Marta em Botafogo, quando a quadrilha do Cabeludo entrou em guerra contra a quadrilha do Zaca (BARCELLOS, 2009). Conflitos entre polícia e bandido, não raro, eram motivados por algum acordo quebrado entre esses, principalmente com o não

pagamento do “arrego”16. Quando isso ocorria, a polícia fazia operações que deixavam mortos e aterrorizavam a população (SOARES, 2005).

São vários os trabalhos que mostram a regulação de poder entre o tráfico de drogas e os moradores, porém merece destaque o esforço e pioneirismo de Alba Zaluar, que estudou essa relação em sua tese de doutorado na década de 1980 na Cidade de Deus (ZALUAR, 2000). As questões de legitimidade, poder e violência, analisadas no primeiro capítulo, são essenciais para a compreensão dessa relação do tráfico com os moradores da favela, pois, para o tráfico obter um “poder” maior sobre a favela, é necessário certa legitimidade que pode ocorrer em vários níveis. É verdade que a vontade do tráfico ocorre em última instância pela ordem do cano de uma arma, o que faz se afastar do verdadeiro poder segundo Hannah Arendt, mas, mesmo com esse artifício, é preciso que “negociem” com a favela. É preciso o mínimo de legitimidade, que muitas vezes ocorre por conta da ausência do poder público em questões sociais importantes.

Zaluar entende que, mesmo o bandido, apresenta legitimidade, sendo esse conhecido como o “bandido formado”, como explicita a autora:

Nesta representação positiva dos bandidos, os moradores os consideram como o vingador de seu povo, do seu “pedaço”, e o defensor da inviolabilidade do território que ocupam. São eles que efetivamente impedem a entrada de outros bandidos, pivetes, ladrões ou estupradores que não só ameaçariam a segurança dos trabalhadores como manchariam a honra e a dignidade dos moradores daquele local. É essa associação que lhes permite distinguir entre o “bandido formado”, isto é, o que conhece as regras do jogo e não ultrapassa os limites de sua atuação, garantindo o respeito e proteção entre moradores, e demais bandidos. Um bandido

“formado” não mexe com o trabalhador de sua área, mas respeita e o defende nesse vácuo deixado por uma ação policial e judiciária ineficiente e pervertida. É precisamente isso que cria uma simbiose entre eles, esse infeliz, mas necessário casamento (ZALUAR, 2000, p. 138).

Dentro de uma favela, onde o poder público se ausenta do saneamento de necessidades básicas e onde a polícia muitas vezes atua de forma violenta e atendendo ao seu próprio interesse, ou ao interesse da classe média, é o tráfico de drogas que de uma forma ou de outra estabelece as regras.

Ao contrário da polícia, entretanto, o bandido, além de garantir a inviolabilidade de sua área, pode ser reconhecido como o defensor do trabalhador nos casos em que ofensas pessoais sofridas por este precisem ser vingadas. Diante da inevitável humilhação e da ausência de proteção policial ou jurídica, o bandido transforma-se no vingador de seu povo (ZALUAR, 2000, p. 141).

1616 Suborno dado por traficantes a policiais para não incomodar o comércio ilegal de drogas na favela.

A regra que o Comando Vermelho estabelece na favela tem semelhanças com a mantida dentro do presídio à época de sua formação, o que, mesmo de forma deturpada, pode apresentar melhoras de ordenamento social dentro da favela. A partir dessa relação, a favela se transforma numa grande prisão, onde a massa que estava à mercê da “crueldade” de alguns criminosos precisa de alguém que preencha o espaço do Estado e reestabeleça as mínimas condições de respeito com o próximo. Vale lembrar que o mínimo já é mais do que nada e está longe do máximo.

Vejamos alguns pontos em comum na origem de Comando Vermelho dentro do espaço prisional e as regulamentações de poder que vão reger o espaço da favela dominado por traficantes de drogas minimamente organizados, ou pelo menos hierarquizados.

1. Estupros dentro dos presídios eram comuns antes da chegada do Comando Vermelho. No Cândido Mendes, essa prática marca o tipo de violência contra os seus novos “residentes” e é narrada de forma estarrecedora por Carlos Amorim.

O processo de fazer um novato “virar moça” é simples. O sujeito é “selecionado”

quando chega, especialmente se é daqueles que entra no presídio assustado, acuado pelos guardas, temendo os companheiros de cadeia. Esse é forte candidato.

Particularmente se é jovem e saudável, se o corpo não apresenta sinais de deformação ou cicatrizes muito feias. O que vai acontecer com ele também é bem simples: o homem encarregado da primeira seleção avisa que chegou alguém que reúne as condições necessárias e a quadrilha faz o resto. O preso vai ser currado por cinco ou seis presidiários numa só noite. Vai ficar amarrado, amordaçado e permanentemente sob ameaça dos estoques, que são facas artesanais. [...] Depois de um certo tempo, o novato está tão desmoralizado que não tem outra saída a não ser a prostituição controlada pela quadrilha (2011, p. 72).

Todo esse processo ocorrendo sob o conhecimento dos guardas e das autoridades que nada faziam, ou seja, o Estado, mesmo sem ser o

“estuprador” direto, compactua com tal prática ao se ausentar de suas obrigações. A relação com a favela parece clara. Quem faz a segurança da favela e garante a integridade de suas filhas e filhos contra abusos dentro deste espaço? A resposta esperada deveria ser a polícia, mas essa, assim como no presídio de Ilha Grande, não é tão eficiente em punir os culpados e em prevenir qualquer tipo de agressão sexual dentro das favelas, onde os próprios moradores devem vingar-se, o lavar a honra a que se refere Zaluar (2000). É nesse momento que o Comando Vermelho passa a legitimar,

mesmo que de forma tortuosa, sua presença dentro da favela Santa Marta, como uma força, que não tem uma ideologia de luta contra o Estado e não luta por uma revolução, mas garantindo que algumas regras sociais importantes não sejam quebradas ou, se forem, exista punição.

2. Crimes contra o patrimônio também existem dentro da favela e o garantidor da segurança deveria ser o Estado, mas novamente este, muitas vezes, se revela ausente, e os traficantes são os “responsáveis” por essa garantia.

O bandido protetor, por mais um desses paradoxos do Brasil de hoje, garante a ordem social e faz a justiça, obrigando muitas vezes os pequenos ladrões a devolverem os objetos furtados a seus donos, vizinhos e trabalhadores (ZALUAR, 2000, p. 148).

Como garantir a segurança dentro da favela se a própria polícia, nas vezes em que entra nesse espaço, ainda é acusada de roubar objetos pessoais de moradores17? É necessário lembrar aqui, para fugirmos dos preconceitos criticados por nós outrora, que a favela não é um espaço onde todos estupram todos e onde tudo é roubado pelo vizinho. Muito pelo contrário, a rede de solidariedade entre vizinhos é muito maior em uma favela quando comparado a determinados bairros mais ricos, que também estão sujeitos a esse tipo de violência, como visto anteriormente. O que ocorre na verdade é uma diferença de prioridades de policiamento, diga-se, de qualidade.

Enquanto no bairro formal o poder público tem maior presença, nas favelas a ausência desse garantidor da dignidade da pessoa humana faz com que o temor de um crime seja maior, logo, a atuação de ladrões e estupradores ocorre nesses espaços mais vulneráveis, ou melhor, hipervulneráveis.

3. A solidariedade com os companheiros de cela também foi um marco para legitimidade e, consequentemente, incremento do poder por parte do Comando Vermelho (AMORIM, 2011). Muita dessa solidariedade pode ser encontrada nos traficantes do varejo, que ajudam moradores da favela com pequenos gestos, tal como garantir o material para a construção de obra, remédios para alguma criança doente e “financiar” festa na favela. A atitude de ajudar está presente, mas se o interesse é ajudar de graça ou garantir

17 “PMs são expulsos por roubo durante retomada do Alemão” Disponível em:

<http://extra.globo.com/noticias/rio/pms-sao-expulsos-por-roubo-durante-retomada-do-alemao- 6159966.html#ixzz27XVQyFSq>. Acesso em: 22/09/2012.

favores dos moradores para que não sejam denunciados futuramente, é mais complicado de se saber. Sobre esse tema, nos lembra Zaluar:

todavia, não cabe idealizar, ainda mais do que os moradores da área, um bandido- protetor ou bandido-herói e concluir que estamos diante de herói românticos de um movimento social. Apesar de todas as conotações com a injustiça que os termos

“revolta” e “revoltado” trazem à tona, a atividade principal está num rendoso comércio – o tráfico de tóxicos – e o seu estilo de vida está longe de ser contestatório (2000, p. 165).

Leeds complementa,

embora esses indivíduos possam sentir-se obrigados a dar algo em troca a suas comunidades, eles são antes de tudo negociantes que usam o espaço físico da favela ou conjunto popular como palco de operações para uma atividade altamente lucrativa do setor informal. Para que esse espaço seja disponível e protegido, eles têm que oferecer algo em troca. Os serviços mencionados só são válidos porque o Estado não os presta e porque as entidades encarregadas de oferecer segurança – Polícia Militar e Polícia Civil – atuam como forças corruptas e repressivas que geralmente perseguem e matam em vez de proteger (2006, p. 244).

Uma moradora de 35 anos, entrevistada para essa pesquisa na Santa Marta, revela que

o movimento fortalecia sim. Quando nós precisávamos eles fortaleciam. Muitas vezes eu precisei de grana para tapar vazamento de água dentro do meu quarto e não tinha dinheiro. Aí o que eu fazia, ia falar com os caras. Pô, tem como fortalecer aí? Tô com criança, tá pingando na cama delas. Eles iam lá e fortaleciam.

O favor dos traficantes para com a população da favela é diferente do clientelismo estabelecido por políticos dentro dessas mesmas favelas. O traficante, mesmo que queira, não pode melhorar a vida de todos os moradores desse espaço e, bem ou mal, também é morador e, na maioria das vezes, sofre com os mesmos problemas estruturais do restante. Não se pode confundir a vida dos traficantes de drogas no varejo, que na maioria das vezes nem ao mar foram (SOARES, 2005), com a imagem veiculada pela mídia das “mansões do tráfico”, que não condiz com a realidade vivenciada pela maioria dos envolvidos com o tráfico, e nada mais são do que casas típicas de classe média, encontradas no meio da favela e que, por contraste, são chamadas pela mídia de mansões18. Os políticos clientelistas dão algum agrado na época das eleições, têm o poder de mudar, mas na maioria das vezes pouco se interessam e não convivem com seus moradores, tampouco nesse espaço.

É preciso mostrar também que a relação de poder dentro de favelas dominadas por traficantes de drogas estremece com barbáries cometidas pelos

18 Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/geral,policia-descobre-mansoes-de-chefes-do- trafico,646554,0.htm>. Acesso em: 20/01/2013.

mesmos. Com a diminuição da idade do traficante e consequente diminuição da experiência dele, as atrocidades cometidas tendem a aumentar. Zaluar, ao estudar a dinâmica dos conflitos entre bandidos e trabalhadores, afirma que

a fonte de conflitos maiores entre bandidos e trabalhadores, no entanto, está na existência de bandidos que não seguem as regras explícitas de convivência com moradores, que exigem o respeito e a proteção mútuos. Estes roubam, atacam, humilham os trabalhadores e seus familiares. Ferem a moral, que poderíamos considerar como uma moral de classe, através da qual um roubo é condenado ou não segundo quem é roubado: um pobre ou um “grande”, um trabalhador ou uma empresa. Eles recebem outros nomes – “pivete”, “bandido porco”, além do já mencionado “bandido sanguinário” – e são definidos por oposição ao “bandido formado” (2000, P. 148).

A fala de um morador da Santa Marta, de 52 anos, reforça o pensamento de Zaluar.

Já vi caso de gente de bem ser destratada e, até humilhada pelo pessoal do movimento. Acontece que tem muita gente que entrava para o movimento e achava que com uma arma na cintura podia fazer o que quisesse. Aí o que acontece? Um menino que quando era mais novo fez alguma besteira na favela e tomou uns

“sopapos” de algum trabalhador, como esse menino não tinha pai, até porque muitos que entravam para o tráfico não tinham pai e a mãe, não podia fazer muita coisa, esse moleque, se fosse rancoroso, esperava pegar a arma só para se vingar. Depois o cara podia até reclamar para quem tava mandando, mas se o esculacho fosse de leve, nem dava em nada.

O domínio do tráfico na favela, como já falado, ocorre primordialmente pelo uso do fuzil. As regras não são democráticas e as desavenças com bandidos podem condenar um morador a morte sem nenhum julgamento oficial e justo, e sim feito por traficantes que muitas vezes nem completaram a maioridade.

Além disso, devemos lembrar que a relação de poder dentro de uma favela ocorre entre traficantes e os moradores, mas também com aqueles que possivelmente podem passar temporariamente por aquele espaço dominado pelo fuzil. O fechamento que o tráfico provoca nas favelas, e enfatizado por Souza em seu conceito de fragmentação, é ilustrado por uma proibição de determinadas pessoas, residentes em favelas controladas por facções rivais, entrarem em outras.

A área de influência desse domínio do tráfico extrapola à da favela e ganha espaços além desse limite, formando um verdadeiro território rede. Alguns episódios são marcantes, entre eles o problema do Piscinão de Ramos, que, por ser território dominado pela facção do terceiro comando, passou a ser proibido para pessoas que morassem no território do Comando Vermelho, como relata Dowdney:

as regras e punições não têm sempre o pretexto de manter a ordem social ou “apoio mútuo”. As regras podem se relacionar explicitamente com o simples domínio territorial. Por exemplo, em alguns territórios do Terceiro Comando, os moradores

não podem usar roupas vermelhas, a cor do Comando Vermelho. A desobediência pode levar à execução. Isso ficou demonstrado depois da construção do piscinão [de Ramos] [...], na zona norte do Rio, cercado por favelas controladas pelo Terceiro Comando. Por causa do grande número de frequentadores nos fins de semana, tornou-se um ponto de vendas de drogas muito rentável para o terceiro comando. Ao proibir os moradores de suas favelas de utilizarem o local, o Comando Vermelho esperava limitar o número de compradores, afetando assim os lucros do rival. Dois adolescentes ignoraram a proibição e foram ao piscinão: foram executados [em 2002] (2003, p. 68).

Fica nítido que a relação de poder do traficante de drogas dentro da favela apresenta alguma legitimidade ao preencher algumas carências do morador, em função, principalmente, da ausência do poder público. Por outro lado, Soares apresenta treze razões que mostram o quanto o tráfico de drogas misturado ao tráfico de armas pode ser perverso.

1. Provocam um assustador número de mortes. [...] O número escandaloso de mortes violentas é diretamente proporcional à desorganização do tráfico, porque elas ocorrem, sobretudo, em função das disputas entre grupos pelo controle territorial.

2. Desorganizam a vida associativa e política das comunidades.

3. Impõem um regime despótico às favelas e bairros populares.

4. Recrutam força de trabalho infantil e adolescente para descartá-la pela via previsível, mas incontornável da morte prematura.

5. Dissemina valores belicistas contrários ao universalismo democrático e cidadão.

6. Destroem estruturas familiares e a dinâmica da reprodução cultural, ao inverter, artificialmente, relações de autoridade intergeracionais, convertendo-as em laços de poder militarizado.

7. Degradam a lealdade comunitária tradicional.

8. Fortalecem e disseminam o patriarcalismo, a homofobia e a misoginia.

9. Estimulam reações que tendem a estigmatizar a pobreza e os pobres.

10. Promovem o entrelaçamento entre o “crime do colarinho branco”, praticado por membros das camadas médias e das elites, e a criminalidade que prospera nas favelas e nos bairros populares.

11. Atuam como fonte de muitas outras atividades criminosas.

12. Induzem muitos policiais à corrupção.

13. Penetram, pela vida das drogas, em toda a sociedade e no Estado, como nenhuma outra modalidade criminosa (SOARES, 2000, p. 267-277).

Por último, não podemos esquecer que os traficantes exercem um grande poder sobre a associação dos moradores, o que já causou polêmica e mortes no Rio de Janeiro, inclusive dentro da favela Santa Marta, sendo um dos casos mais divulgados e com maior repercussão o relatado por Leeds, quando

no final dos anos 80, os traficantes conseguiram assumir o controle da associação de moradores apoiando uma chapa de candidatos considerados simpáticos aos seus interesses e, logo, menos capazes de envolver a polícia nas questões de

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 62-72)