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O USO DA TECNOLOGIA MÓVEL COMO POSSIBILIDADE DE

No Brasil, o acesso das classes C e D à internet foi estabelecido, de forma mais potencializada, através da popularização e facilidade em ter as tecnologias móveis sem fio, como os celulares, smartphones, tablets, notebooks, netbooks, etc. A facilitação do acesso permitiu novas configurações de igualdade nas relações entre as classes sociais. Os espaços de discussões e tomadas de opiniões estão ampliados, o que permite experiências diversas nas quais se misturam influências e costumes de classes distintas e geram-se novas experiências no universo digital.

O fácil acesso às mais variadas informações em qualquer lugar e a qualquer hora, a comunicação com pessoas do mundo inteiro, a localização de pessoas, os produtos e serviços específicos fazem com que a mobilidade seja um instrumento para dar voz aos sujeitos até então excluídos da sociedade brasileira.

No entanto, apesar de essa mobilidade ter proporcionado quebras de paradigmas, tem- se percebido que não há uma preparação e uma mediação para se filtrar os conteúdos acessados e disseminados pela internet. Isso implica a possibilidade de construção de mensagens audiovisuais, com conteúdos preconceituosos e excludentes. É necessário, então,

que as agências educativas, como a escola, contribuam para a formação crítica e reflexiva do uso dessas tecnologias.

Xavier (2008) discute esses novos comportamentos de aprendizagem na contemporaneidade. Para ele, as “tecnologias esbanjam possibilidades de experiências estáticas interessantes” e a escola precisa se adequar “tecnologicamente às novas necessidades sociais e cognitivas dos aprendizes”. Deve-se considerar que os dispositivos móveis, por serem aparelhos constituídos de aplicativos que levam às distrações, sejam um mecanismo muito desafiador para o ensino na área de linguagens, pois requer um monitoramento mais intenso para o uso crítico e consciente pelos educandos. O autor enfatiza ainda que:

[...] o grande desafio que a escola começa a enfrentar é o de ensinar os aprendizes a interpretar, filtrar, selecionar, avaliar para transformar tantas informações e, capital cultural que possa ser utilizado de modo prudente e decente, ético e estético dentro e fora da instituição de ensino (XAVIER, 2008, p.8).

A inserção das tecnologias móveis no cotidiano das aulas na rede pública de ensino brasileira é ainda uma tarefa difícil. Por serem uma inovação no sistema de comunicação, muitas pessoas não sabem como utilizar as tecnologias móveis para fins educacionais, inclusive os profissionais em educação.

É notório que a maioria dos educadores brasileiros que lecionam no Ensino Fundamental, por ser composta por imigrantes digitais9 e não ter tanto domínio com os dispositivos móveis, acaba resistindo e se recusa a seguir uma nova postura educacional que a sociedade contemporânea impõe: do educador adotar um novo perfil frente aos avanços tecnológicos e ao frequente uso do meio digital por seus educandos.

Percebe-se é que há uma intensa familiaridade dos adolescentes e jovens, os chamados nativos digitais10, com esses dispositivos e com seus diversos recursos. Com o avanço das tecnologias e a popularidade dos dispositivos móveis, Perrenoud (2000) afirma que as inovações tecnológicas estão cada vez mais presentes e com mais intensidade em todos os âmbitos da sociedade e a escola não pode ficar alheia a essa inovação.

9 De acordo com Prensky (2001), os chamados imigrantes digitais são as pessoas que não nasceram na era digital, mas precisam incorporar as novas tecnologias e fazer uso delas em seu dia a dia. Acredita-se que a maioria dos professores do século XXI são imigrantes digitais.

10 Para Prensky (2001), os nativos digitais são a “nova geração” que já nasceu num ambiente cercado de tecnologia, podendo ser compreendida como uma geração que nasceu “apertando botões e clicando”. Os alunos do Ensino Fundamental do século XXI são nativos digitais e, em grande parte, demonstram habilidade e domínio com a tecnologia.

Libâneo (2006) também reflete sobre as consequências de muitos educadores brasileiros resistirem às novas tecnologias da comunicação e informação:

A resistência a uma ampla difusão nas escolas públicas das novas tecnologias da informação e da comunicação, sob o argumento de estarem inseridas na lógica do mercado e da globalização cultural, teria como efeito mais exclusão e mais seletividade social, uma vez que sua não integração às práticas de ensino impediriam aos alunos oportunidades de recepção e emissão da informação, deixando-os desguarnecidos diante das investidas de manipulação cultural e política, de homogeneização de crenças, gostos e desejos, de substituição do conhecimento pela informação (LIBÂNEO, 2006, p.29).

O sistema educacional, desse modo, não pode se isentar de oferecer o letramento digital para a população excluída da sociedade, que compõe a maioria dos sujeitos das escolas públicas brasileiras. Libâneo (2006) enfatiza ainda a necessidade de fortalecer o aprimoramento do Ensino Fundamental para esse público a partir de parâmetros de qualidades diferenciados daqueles veiculados no discurso do neoliberalismo.

Diante de tantos problemas educacionais – evasão, indisciplina, dificuldades cognitivas, rendimentos baixos, entre outros – é necessário procurar meios para melhorar os índices e o desempenho escolar, aproveitando as especificidades de cada educando.

Concomitantemente, é preciso também oferecer ao sujeito possibilidades diferenciadas de aprendizado neste mundo contemporâneo, já que, como afirma Kenski (1996, apud LIBÂNEO, 2006, p. 18) “O mundo destes alunos é polifônico e policrômico. É cheio de cores, imagens e sons, muito distante do espaço quase exclusivamente monótono, monofônico e monocromático que a escola costuma lhe oferecer”.

Apoiando-se nessas concepções, considera-se nesta pesquisa o uso positivo das tecnologias móveis por promover a mobilidade, multifuncionalidade e a interatividade no processo educacional. Tenta-se elucidar que é possível utilizá-las sem que o domínio mercantilista, que elas possivelmente promovem, tornem os educandos parte de uma massa que apenas consome para ser ‘igual’ e se tornem pessoas descaracterizadas da realidade local.

Como uma alternativa para o uso das tecnologias na escola, Libâneo (2006) propõem os seguintes objetivos pedagógicos11:

a) Contribuir para a democratização de saberes socialmente significativos e desenvolvimento de capacidades intelectuais e afetivas, tendo em vista a formação de cidadãos contemporâneos.

11 Os objetivos pedagógicos sugeridos por Libâneo (2006) foram adaptados na aplicação desta pesquisa.

b) Possibilitar a todos oportunidades de aprender sobre mídias e multimídias e a interagir com elas. Ou seja, propiciar a construção de conteúdos referentes à comunicação cultural (as que praticamos e as que praticam conosco), às tecnologias da comunicação e informação, às habilidades no uso dessas tecnologias, às atitudes críticas perante a produção social da comunicação humana e o mundo tecnológico.

c) Propiciar preparação tecnológica comunicacional, para desenvolver competências, habilidades e atitudes para viver num mundo que se

“informatiza” cada vez mais.

d) Aprimorar o processo comunicacional entre os agentes da ação docentediscente e entre estes e os saberes significativos da cultura e da ciência (LIBÂNEO 2006, p.33).

Do exposto, é relevante entender que o uso das tecnologias não deve bastar-se apenas a sua inserção nas aulas de Língua Portuguesa. É necessário fazer com que os educandos entendam essas tecnologias como mais uma possibilidade de fomentar o conhecimento, podendo dar continuidade aos estudos fora do espaço da escola. Desse modo, poderão perceber as diversas formas de interação entre o leitor/texto/autor nas relações comunicativas entre o discurso e o meio tecnológico.

Nessa concepção didática, tem-se o educando como protagonista de sua aprendizagem, mediado e orientado pelo professor para serem gestores de seu aprendizado, organizar os percursos educacionais, sabendo selecionar conteúdos e informações, e construindo coletivamente o seu conhecimento. É uma tarefa bastante complexa, mas necessária para o novo cenário da contemporaneidade.

A seguir, serão apresentados conceitos de identidade e alteridade, importantes para a formação cidadã dos educandos e para a aplicação eficaz deste projeto.

2.5 IDENTIDADE E ALTERIDADE: DESCONSTRUINDO ESTEREÓTIPOS