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Ordem de preferência dos créditos na Falência

2.2 APORTE HISTÓRICO DO SURGIMENTO DO DECRETO-LEI Nº 7.661/45

2.3.4 Ordem de preferência dos créditos na Falência

interrompido e encerrado a qualquer momento, levantando-se a Falência.154

seguinte forma:

1) salários e indenizações trabalhistas, inclusive aquelas oriundas de acidentes de trabalho que tenham ocorrido antes de decretada a falência; 2) créditos que gozem de igual prioridade, em virtude de lei especial, como é o caso dos créditos tributários e dos parafiscais; 3) créditos com direitos reais de garantia; 4) créditos com privilégio especial sobre determinado bem; 5) créditos da massa; 6) créditos com privilégio geral; 7) créditos quirografários.

Tal ordem classificatória dos créditos é direcionada ao síndico160 que tem, ou pelo menos deveria, satisfazer os pagamentos de acordo com o que a Lei estabelece. Porém, várias questões com relação a essa ordem devem ser ponderadas, como noticia Coelho161:

Primeiramente, apesar da ordem de prioridades ter que ser seguida pelo síndico na hora do pagamento do passivo, não está descartada a possibilidade de alguns credores terem seus

124), a classificação dos créditos, na falência, obedece à seguinte ordem: I - créditos com direitos reais de garantia; II - créditos com privilégio especial sôbre determinados bens; III - créditos com privilégio geral; IV - créditos quirografários. § 1º Preferem a todos os créditos admitidos à falência, a indenização por acidente do trabalho e os outros créditos que, por lei especial, gozarem essa prioridade. § 2° Têm privilégio especial: I - os créditos a que o atribuírem as leis civis e comerciais, salvo disposição contrária desta lei; II - os créditos por aluguer do prédio locado ao falido para seu estabelecimento comercial ou industrial, sôbre o mobiliário respectivo; III - os créditos a cujos titulares a lei confere o direito de retenção, sôbre a coisa retida; o credor goza, ainda, do direito de retenção sôbre os bens móveis que se acharem em seu poder por consentimento do devedor, embora não esteja vencida a dívida, sempre que haja conexidade entre esta e a coisa retida, presumindo-se que tal conexidade, entre comerciantes, resulta de suas relações de negócios. 3º Têm privilégio geral: I - os créditos a que o atribuírem as leis civis e comerciais, salvo disposição contrárias desta lei; II - os créditos dos Institutos ou Caixas de Aposentadoria e Pensões, pelas contribuições que o falido dever; III - os créditos dos empregados, em conformidade com a decisão que fôr proferida na Justiça do Trabalho; 4º São quirografários os créditos que, por esta lei, ou por lei especial não entram nas classes I, II e III dêste artigo, os saldos dos créditos não cobertos pelo produto dos bens vinculados ao seu pagamento e o restante de indenização devida aos empregados” [SIC]” [BRASIL. Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências. [Diário Oficial da União]. Rio de Janeiro, 31 jul. 1945.

Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del7661.htm>. Acesso em:

23 abr. 2006].

160 Segundo FÜHRER, Maximilianus Cláudio Américo. Roteiro de falências e concordata, p.

3: “O síndico é o representante legal e o administrador da massa falida, sob a direção e superintendência do juiz. Entre as suas inúmeras atribuições, contam-se as seguintes:

representar a massa falida, arrecadar os bens e os livros do falido, prestar informações aos interessados, verificar os créditos, elaborar relatórios, organizar o quadro geral de credores, promover a liquidação, etc”.

161 COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial, p. 308.

créditos satisfeitos antes mesmo de outros que, de acordo com a Lei, possuam créditos que preferem àquele. É o que ocorre com os créditos fiscais – nestes compreendidos os de natureza tributária e não tributária – que, por força do art. 187162, da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN), gozam de superprivilégios por estarem excetuados da concorrência de credores e da exigência de suspensão das execuções individuais contra a falida, não precisando a Fazenda Pública se sujeitar à habilitação para cobrar suas dívidas.

Neste caso, como os créditos públicos não precisam concorrer com os demais, se a execução fiscal tramitar de forma mais rápida do que o processo falimentar, o bem penhorado em favor da Fazenda Pública pode ser vendido antes da liquidação da massa, podendo o fisco receber antes mesmo dos credores trabalhistas163. Quanto a essa possibilidade, pondera Lacerda164 que: “[...] se os bens da falida já estivem arrecadados, só restará à Fazenda Pública pedir reserva ao juízo da falência, a fim de lá receber, obedecendo à preferência legal dos créditos trabalhistas”.

Em interessante prisma, ao analisar esta prerrogativa dos créditos públicos, assevera Lacerda165 que:

A nova lei de falências em França (13.7.1967) restringiu as prerrogativas da Fazenda Pública e reforçou o privilégio dos credores trabalhistas. A Fazenda Pública tem que se habilitar na falência como qualquer outro credor. Disposição sensata que deveria ser adotada sem tardança pelo legislador pátrio, como pondera Fábio Konder Comparato. Não se compreende, com efeito, que o soi-disant ‘juízo universal da falência’ não abranja os créditos fazendários, cuja satisfação costuma ser, afinal de contas, decisiva para o pagamento dos credores quirografários. Por outro lado, se o soerguimento da grande empresa combalida é de interesse público, por razões de

162Art. 187. A cobrança judicial do crédito tributário não é sujeita a concurso de credores ou habilitação em falência, concordata, inventário ou arrolamento” [BRASIL. Código comercial, código tributário nacional e código comercial. 6. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p. 347].

163 Cf. COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial, p. 308.

164 LACERDA, J. C. Sampaio de. Manual de direito falimentar, p. 208.

165 LACERDA, J. C. Sampaio de. Manual de direito falimentar, p. 208.

ordem social e econômica, é inevitável o sacrifício relativo do Fisco e imprescindível a sólida proteção dos assalariados.

A justificativa para tantas vantagens e privilégios concedidos aos créditos públicos seria a preservação do bem-estar social, isso porque aqueles são os responsáveis por seu financiamento. Porém, por outro lado, deve ser analisado também o fato de que as prerrogativas cedidas à Fazenda Pública podem provocar, além de prejuízo aos trabalhadores, efeitos muito danosos à sociedade. Como exemplo, cita-se o elencado por Tebet166:

Tem-se como exemplo, o aumento do risco de recebimento de créditos em um processo falimentar por um credor privado, o que conseqüentemente provoca a retração na oferta de créditos e elevação dos juros dos empréstimos, ou ainda, o prejuízo ou mesmo Falência de credores menores que dependem crucialmente do recebimento de dívidas; e por conseqüência, diminuição do bem-estar social.

Insta observar, neste sentido, que a ordem preferencial de pagamento dos créditos estabelecida pelo Decreto-lei nº 7.661/45 e pela Lei nº 6.830/80 [Lei de Execuções Fiscais]167 foi objeto de rigorosas críticas por parte da doutrina e dos credores como noticia Castro168:

A experiência forense revela que a maioria dos credores que se localizam em ordem menos privilegiada, raramente, conseguem receber seus créditos, pois os recursos provenientes da liquidação dos bens da falida geralmente se esvaem na satisfação das dívidas trabalhistas, não suportando nem as dívidas fiscais. Essa situação de iniqüidade provém do fato do legislador, nos últimos anos, ter se preocupado unicamente em aumentar a proteção dos créditos trabalhistas e fiscais de forma excepcional e absoluta, desvirtuando o verdadeiro sentido do processo falimentar. A maior prova disso

166 Cf. observação doutrinária de TEBET, Ramez. Parecer da Comissão de Assuntos Econômicos sobre o Projeto de Lei da Câmara nº 70, de 2003. Senado. Disponível em: <

http://www.senado.gov.br/web/senador/ramez/2003>. Acesso em: 10 mar. 2006, p. 1.

167 BRASIL. Lei nº 6.830, 28 de setembro de 1980. Dispõe sobre a Cobrança Judicial da Dívida Ativa da Fazenda Pública, e dá outras providências. [Diário Oficial da União]. Brasília, 23 set. 1980. Disponível: <http://www1.planalto.gov.br>. Acesso em: 23 mar. 2006.

168 CASTRO, Alberto Farracha de. Colonialismo Jurídico e a Reforma do Direito Falimentar.

Revista de Direito Mercantil, nº 12, p. 92-105, São Paulo, out/dez 2002, p. 75.

pode ser verificada no descrédito em que caiu o direito real em garantia. Mesmo se resguardando de possíveis inadimplências por meio de hipotecas de imóveis, alienação fiduciária, penhor de máquina ou mercadorias, dentre outras, os credores com garantias reais, dificilmente conseguem receber, uma vez que o produto da alienação dos bens gravados deverá pagar primeiramente os volumosos créditos trabalhistas e depois os fiscais.

Portanto, na grande maioria dos países, em caso de Falência, os créditos com garantia real preferem aos fiscais. São poucos também os países onde os créditos trabalhistas têm prioridade sobre aqueles, e quando tem, é limitado. Este padrão justifica-se como uma forma de manter

“[...] um ambiente institucional favorável ao crédito, procurando privilegiar a empresa produtiva com a possibilidade de acesso a empréstimos e financiamentos fartos e baratos”, como instruem Araújo e Lundberg169.

Desta forma, constata-se que as vantagens legais de que gozam as dívidas fiscais, na forma como vigorava no Decreto-lei nº 7.661/45 e o CTN, dificultavam a formação de uma conjuntura econômica e institucional que favorecesse o desenvolvimento. Portanto, via-se, desde já, a necessidade definir novamente a função do crédito tributário no processo falimentar, e promover alteração na ordem preferencial de pagamento das dívidas.

Outra questão levantada pela doutrina refere-se à ordem de preferência dos encargos e dívidas da massa que englobam as despesas com a administração da Falência [massa falida]170. Da análise da Lei, como exposto acima, percebe-se que esses créditos deveriam ser pagos apenas depois das restituições em dinheiro e após terem sido satisfeitas todas as dívidas trabalhistas e fiscais. Porém, essa ordem de pagamento era

169 ARAÚJO, Aloísio; LUNDBERG, Eduardo. A Nova Lei de Falências – Uma Avaliação.

Working paperBanco Central do Brasil. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br>.

Acesso em: 18 mar. 2006, p. 1.

170 “Massa falida: é o acervo ativo e o passivo de bens e interesses do falido que passa a ser administrado e representado pelo síndico. Embora seja apenas uma universalidade de bens, e não uma pessoa jurídica, a massa falida tem capacidade de estar em juízo como autora ou ré. A massa falida divide-se em massa ativa e massa passiva. Forma-se no momento em que é decretada a falência” [OLIVEIRA, Celso Marcelo de. Comentários à nova lei de falências, p. 28].

incompatível com um dos objetivos da Falência: o de viabilizar uma administração profissional da massa, como justifica Coelho171:

O juiz apenas pode contar com a colaboração de síndicos honestos, competentes, empenhados e experientes se eles forem remunerados de forma satisfatória. Nenhum depósito ou seguradora, por outro lado, concordaria em contratar com a massa para ser eventualmente pago, após os credores trabalhistas e fiscais, se sobrar dinheiro.

Registra-se, neste viés, que este entendimento levou os juízes a determinarem que antes de qualquer outro crédito sejam pagas as despesas provenientes da administração da massa falida172.

Expostas estas considerações sobre a ordem de preferência dos encargos e dívidas da massa falida, há que discorrer, mesmo que brevemente, sobre os créditos trabalhistas.

Neste norte, adverte-se que pela redação original do Decreto-lei nº 7.661 de 1945, os créditos trabalhistas eram classificados em último lugar na dos privilégios reais, ou seja, só seriam satisfeitos após os créditos fiscais, os por dívidas e encargos da massa, os com garantia real e os com privilégio especial. Tal posição, como apregoa Requião173: “[...] era muito injusta e desprezava a natureza falimentar da remuneração empregatícia, e a proteção que é devida pela sociedade moderna à condição da classe proletária”.

Conforme registra Requião174:

[...]. A correção deste despropósito legislativo só ocorreu em 1960, com a vigência da Lei nº 3.726, que passou a dar classificação bem mais privilegiada e protetora aos salários e indenização dos empregados da empresa falida, colocando o

171 COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial. v. 3. 5. ed. rev. atual. de acordo com o novo Código Civil e a nova Lei de Falências. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 341.

172 Cf. observação de COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial, v. 3, p. 341.

173 REQUIÃO, Rubens. Curso de direito falimentar, p. 328.

174 Cf. REQUIÃO, Rubens. Curso de direito falimentar, p. 329.

crédito trabalhista como o primeiro a ser satisfeito no processo de liquidação.

Desta forma, os créditos trabalhistas, formados por salários e indenizações de qualquer origem175 e sem qualquer limitação, passaram a preterir todos os demais créditos na ordem preferencial de pagamento, inclusive os fiscais, ficando após apenas dos créditos resultantes de indenização por acidente de trabalho.