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Os passos do processo falimentar à luz do Decreto-lei nº 7.661/45

2.2 APORTE HISTÓRICO DO SURGIMENTO DO DECRETO-LEI Nº 7.661/45

2.3.3 Os passos do processo falimentar à luz do Decreto-lei nº 7.661/45

Pela análise efetuada, tem-se como pressupostos imprescindíveis à caracterização da Falência: a) a existência de uma impontualidade no pagamento de obrigação líquida, constante de título que legitima a ação executiva; ou a prática de certos atos ou fatos que revelam a insolvência ou denunciam o propósito do devedor em prejudicar os credores; b a existência de credores como sujeitos ativos do processo concursal; c) a existência de um devedor comerciante, pessoa natural ou jurídica, como sujeito ao processo falencial; e d) a existência de uma sentença declaratória de Falência, transformando aquele estado de fato em estado de direito.

2.3.3 Os passos do processo falimentar à luz do Decreto-lei nº 7.661/45

exercem comércio, embora proibidos [art. 3º, do Decreto-lei nº 7.661/45]133, bem como do devedor que cessou o exercício do comércio há menos de dois anos [art. 4º, VII, do Decreto-lei]134. Ainda, como apregoa Führer135: “A sociedade comercial irregular ou de fato pode falir, pois possui capacidade processual ativa e passiva, sendo representada em juízo pela pessoa a quem couber a administração dos seus bens”.

Esclarecido quem poderá requerer a Falência e quem poderá ser considerado como sujeito passivo desta, informa-se que para requerer a Falência do devedor com base na impontualidade [art. 1º do Decreto-lei nº 7.661/45]136, deve o credor juntar título líquido e certo137, devidamente protestado [art. 11 do referido Decreto-lei]138, que legitime ação executiva139, independente do valor de seu crédito, bastando para isso que o

133Art. 3° Pode ser declarada a falência: I - do espólio do devedor comerciante; II - do menor, com mais de dezoito anos, que mantém estabelecimento comercial, com economia própria;

III - da mulher casada que, sem autorização do marido, exerce o comércio, por mais de seis meses, fora do lar conjugal; IV - dos que, embora expressamente proibidos, exercem o comércio” [BRASIL. Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências. [Diário Oficial da União]. Rio de Janeiro, 31 jul. 1945. Disponível em:

<https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del7661.htm>. Acesso em: 23 abr. 2006].

134 Art. 4° A falência não será declarada, se a pessoa contra quem fôr requerida, provar:

[omissis]; VII - cessação do exercício do comércio há mais de dois anos, por documento hábil do registro de comércio o qual não prevalecerá contra a prova de exercício posterior ao ato registrado;” [BRASIL. Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências.

[Diário Oficial da União]. Rio de Janeiro, 31 jul. 1945. Disponível em:

<https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del7661.htm>. Acesso em: 23 abr. 2006].

135 FÜHRER, Maximilianus Cláudio Américo. Roteiro de falências e concordata. 19. ed. rev.

atual. de acordo com o novo Código Civil, p. 32.

136Art. 1º Considera-se falido o comerciante que, sem relevante razão de direito, não paga no vencimento obrigação líquida, constante de título que legitime a ação executiva. [omissis]”

[BRASIL. Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências. [Diário Oficial da União]. Rio de Janeiro, 31 jul. 1945. Disponível em:

<https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del7661.htm>. Acesso em: 23 abr. 2006].

137 “Título líquido e certo: caráter ou estado da obrigação que é certa, conhecida, exata”

[OLIVEIRA, Celso Marcelo de. Comentários à nova lei de falências, p. 325].

138Art. 11. Para requerer a falência do devedor com fundamento no art. 1º, as pessoas mencionadas no art. 9º devem instruir o pedido com a prova da sua qualidade e com a certidão do protesto que caracteriza a impontualidade do devedor. [omissis]” [BRASIL.

Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências. [Diário Oficial da União].

Rio de Janeiro, 31 jul. 1945. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto- lei/del7661.htm>. Acesso em: 23 abr. 2006].

139 Segundo doutrina de FÜHRER, Maximilianus Cláudio Américo. Roteiro de falências e concordata. 19. ed. rev. atual. de acordo com o novo Código Civil, p. 35: “Títulos executivos são os enumerados nos arts. 584 e 585 do CPC, bem como outros previstos em

devedor esteja em mora no pagamento. Outrossim, o requerimento com base no ato de Falência140 [art. 2º do Decreto-lei]141, independe da existência de título vencido ou de protesto, bastando que o requerente prove sua qualidade de credor.142

Neste sentido, esclarece Champinho143 que:

Se a falência for requerida pelo próprio devedor, atendidos os pressupostos legais, proferirá o juiz desde logo a sentença.

Mas se o pedido for apresentado por credor, determinará o juiz a citação do devedor para que este, dentro de 24 horas, apresente a sua defesa. O prazo para defesa conta-se da juntada do mandado citatório cumprido. Se o devedor não for encontrado, far-se-á a citação por edital, com prazo de três dias para a defesa. [...]. O devedor pode ilidir desde logo a

leis especiais. Também é título executivo a obrigação provada por conta extraída dos livros comerciais e verificado judicialmente (art. 1º, § 1º, da LF), bem como a duplicata sem aceite, acompanhada de prova da entrega da mercadoria (art. 1º, § 3º, da LF). Mesmo os títulos não sujeitos a protesto necessário, como por exemplo uma sentença judicial, ou a obrigação de um avalista, ou de um endossante, devem ser protestados para fins falimentares (art. 10, LF – protesto especial)”.

140 “Ato de falência: tipifica condutas que, em geral, são as de empresários em insolvência econômica. Não se exige, contudo, para a decretação da falência, a demonstração do estado patrimonial de insolvência. É suficiente a prova de que o devedor incorreu na conduta tipificada” [OLIVEIRA, Celso Marcelo de. Comentários à nova lei de falências, p.

324].

141Art. 2º Caracteriza-se, também, a falência, se o comerciante: I - executado, não paga, não deposita a importância, ou não nomeia bens à penhora, dentro do prazo legal; II - procede a liquidação precipitada, ou lança mão de meios ruinosos ou fraudulentos para realizar pagamentos; III - convoca credores e lhes propõe dilação, remissão de créditos ou cessão de bens; IV - realiza ou, por atos inequívocos, tenta realizar, com o fito de retardar pagamentos ou fraudar credores, negócios simulado, ou alienação de parte ou da totalidade do seu ativo a terceiro, credor ou não; V - transfere a terceiro o seu estabelecimento sem o consentimento de todos os credores, salvo se ficar com bens suficientes para solver o seu passivo; VI - dá garantia real a algum credor sem ficar com bens livres e desembaraçados equivalentes às suas dívidas, ou tenta essa prática, revelada a intenção por atos inequívocos; VII - ausenta-se sem deixar representante para administrar o negócio, habilitado com recursos suficientes para pagar os credores;

abandona o estabelecimento; oculta-se ou tenta ocultar-se, deixando furtivamente o seu domicílio. Parágrafo único. Consideram-se praticados pelas sociedades os atos dessa natureza provenientes de seus diretores, gerentes ou liquidantes” [BRASIL. Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências. [Diário Oficial da União]. Rio de Janeiro, 31 jul. 1945. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto- lei/del7661.htm>. Acesso em: 23 abr. 2006].

142 Cf. observação doutrinária de RAMALHO, Roberto. Curso teórico e prático de falência e concordata, p. 89.

143 CAMPINHO, Amauri. Manual de falência e concordata: comentários à Lei de falência – doutrina, prática e jurisprudência, p. 64-65.

falência, dentro do prazo para a defesa, depositando a quantia reclamada, para pagamento ou para discutir a legitimidade ou a importância do crédito. Feito o depósito a falência não pode mais ser declarada. [...]. Pode a defesa ser apresentada sem o depósito. Qualquer motivo apontado no art. 4º, da LF será relevante para a defesa (falsidade do título, prescrição, nulidade, pagamento, etc.).

Expostas estas considerações, informa-se que a sentença declaratória da Falência conterá os requisitos do art. 14, parágrafo único, do Decreto-lei144, consignando o nome do devedor, a hora da declaração, o termo legal, a nomeação do síndico, o prazo para as habilitações de crédito e demais diligências, podendo inclusive ordenar a prisão preventiva do falido.

Portanto, na sentença declaratória, o juiz nomeia o síndico escolhido entre os maiores credores do falido para desempenhar fielmente o cargo e assumir todas as responsabilidades inerentes à qualidade de administrador145. As principais atribuições do síndico estão expressas no

144Art. 14. Praticadas as diligências ordenadas pela presente lei, o juiz, no prazo de vinte e quatro horas, proferirá a sentença, declarando ou não a falência. Parágrafo único. A sentença que declarar a falência: I - conterá o nome do devedor, o lugar do seu principal estabelecimento e o gênero de comércio; os nomes dos sócios solidários e os seus domicílios; os nomes dos que forem, a êsse tempo, diretores, gerentes ou liquidantes das sociedades por ações ou por cotas de responsabilidade limitada; II - indicará a hora da declaração da falência, entendendo-se, em caso de omissão, que se deu ao meio dia; III - fixará, se possível, o têrmo legal da falência, designando a data em que se tenha caracterizado êsse estado, sem poder retrotraí-lo por mais de sessenta dias, contados do primeiro protesto por falta de pagamento, ou do despacho ao requerimento inicial da falência (arts. 8° e 12), ou da distribuição do pedido de concordata preventiva; IV - nomeará o síndico, conforme o disposto no art. 60 e seus parágrafos; V - marcará o prazo (art. 80) para os credores apresentarem as declarações e documentos justificativos dos seus créditos; VI - providenciará as diligências convenientes ao interêsse da massa, podendo ordenar a prisão preventiva do falido ou dos representantes da sociedade falida, quando requerida com fundamento em provas que demonstrem a prática de crime definido nesta lei” [SIC] [BRASIL. Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências. [Diário Oficial da União]. Rio de Janeiro, 31 jul. 1945. Disponível em:

<https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del7661.htm>. Acesso em: 23 abr. 2006].

145 “Ao decretar a falência, o juiz nomeia um síndico, escolhido entre os maiores credores (art.

60, LF). Poderá também ser nomeada pessoa estranha (síndico dativo) se três credores, sucessivamente nomeados, não aceitarem o cargo (art. 60, § 2º). Ninguém pode ser obrigado a ser síndico. [...]. O síndico é o representante legal e o administrador da massa falida, sob a direção e superintendência do juiz. Entre as suas inúmeras atribuições, contam-se as seguintes: representar a massa falida, arrecadar os bens e os livros do falido, prestar informações aos interessados, verificar os créditos, elaborar relatórios, organizar o quadro geral de credores, promover a liquidação, etc.” [FÜHRER, Maximilianus Cláudio Américo. Roteiro de falências e concordata. 19. ed. rev. atual. de acordo com o novo

art. 63 do Decreto-lei nº 7.661/45.

Adverte-se que da sentença que não declarar a Falência cabe apelação [art. 19 do Decreto-lei nº 7.661/45]146. Em contrapartida, da sentença que declarar a Falência com fundamento no art. 2º cabe somente agravo de instrumento147 [art. 17, do Decreto-lei]148, com o intuito de se agravarem os despachos interlocutórios proferidos pelo juízo falimentar no transcorrer do processo. Mas na sentença com base no art. 1º, cabe tanto o agravo de instrumento [art. 17], como embargos [art. 18]149. Neste caso, os dois recursos podem ser interpostos ao mesmo tempo. Esclarece, ainda, Führer150 que:

O fundamento dos dois recursos poderá até ser o mesmo. Mas o agravo de instrumento tratará de questões já abordadas no processo. Os embargos, ao contrário, dão oportunidade para argumentos novos, de fato ou de direito, ainda não lançados.

Nem o agravo de instrumento, nem os embargos têm efeito

Código Civil, p. 42-43].

146Art. 19. Cabe apelação da sentença que não declarar a falência. (Redação dada pela Lei nº 6.014, de 27.12.1973). Parágrafo único. A sentença que não declarar a falência não terá autoridade de coisa julgada. (Redação dada pela Lei nº 6.014, de 27.12.1973)” [BRASIL.

Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências. [Diário Oficial da União].

Rio de Janeiro, 31 jul. 1945. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto- lei/del7661.htm>. Acesso em: 23 abr. 2006].

147 “Os embargos declaratórios têm por finalidade provocar o pronunciamento do mesmo órgão jurisdicional prolator da decisão, quando esta contiver obscuridade, contradição ou for omitido , na sentença ou no acórdão, ponto sobre o qual deveria pronunciar-se o Juiz ou o Tribunal, com vistas a livrar de defeito de forma e, por conseguinte, possibilitar maior segurança na execução do título judicial (art. 535 do CPC)” [GRECO FILHO, Vicente.

Direito processual civil brasileiro. v. 2 (Atos processuais a recursos e processo nos tribunais). 13. ed. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 263].

148Art. 17. Da sentença que declarar a falência, pode o devedor, o credor ou o terceiro prejudicado, agravar de instrumento. Parágrafo único. Pendente o recurso, o síndico não pode vender os bens da massa, salvo no caso previsto pelo art. 73” [BRASIL. Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências. [Diário Oficial da União]. Rio de Janeiro, 31 jul. 1945. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto- lei/del7661.htm>. Acesso em: 23 abr. 2006].

149Art. 18. A sentença que decretar a falência com fundamento no art. 1° pode ser embargada pelo devedor, processando-se os embargos em autos separados, com citação de quem requereu a falência, admitindo-se à assistência o síndico e qualquer credor.

[omissis]” [BRASIL. Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências. [Diário Oficial da União]. Rio de Janeiro, 31 jul. 1945. Disponível em:

<https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del7661.htm>. Acesso em: 23 abr. 2006].

150 FÜHRER, Maximilianus Cláudio Américo. Roteiro de falências e concordata. 19. ed. rev.

atual. de acordo com o novo Código Civil, p. 56.

suspensivo. Tem-se obtido porém efeito suspensivo através de mandado de segurança.

A segunda fase é a de sindicância, também é chamada informativa ou investigatória, que vai da sentença até o início da realização do ativo.

Conforme doutrina de Führer151:

Na fase de sindicância, apuram-se o ativo e o passivo, arrecadam-se os bens, investiga-se a conduta do falido, declaram-se os créditos existentes, apuram-se eventuais crimes falimentares, etc. Nesta fase processa-se a falência em três autos paralelos e simultâneos: os autos principais, os autos de declarações de crédito e os autos de inquérito judicial, todos interdependentes, mas cada um com andamento próprio e finalidade específica.

A terceira e última fase é a de liquidação, que é processada nos autos principais da Falência e na qual os bens arrecadados são vendidos e os credores são pagos. Nesta fase esgota-se a finalidade dos autos paralelos das declarações de crédito e do inquérito judicial152, que auxiliaram os autos principais na verificação do ativo e do passivo, bem como da conduta do falido, além de por fim ao processo de Falência. Assim, encerrada a Falência, devolvem-se os livros ao falido se não estiver respondendo por crime falimentar e as sobras do ativo.153

Por fim, vale acrescer que nem sempre o andamento do processo falimentar percorre todas as três fases, podendo o processo ser

151 FÜHRER, Maximilianus Cláudio Américo. Roteiro de falências e concordata. 19. ed. rev.

atual. de acordo com o novo Código Civil, p. 51-52.

152 “Destina-se o inquérito judicial à apuração ou circunstância que possam servir de fundamento à ação penal por crime falimentar. Os autos de inquérito judicial correm paralelamente aos autos principais da falência, a partir do primeiro relatório do síndico, o qual não poderá apresentar o seu segundo relatório enquanto o inquérito judicial não tiver solução definitiva. Por isso, o retardamento do inquérito prejudicará fatalmente o andamento dos autos principais, prejudicando inclusive o falido, que não poderá obter concordata suspensiva enquanto não estiver definida a sua situação no inquérito”

[FÜHRER, Maximilianus Cláudio Américo. Roteiro de falências e concordata. 19. ed.

rev. atual. de acordo com o novo Código Civil, p. 81].

153 Cf. doutrina de LACERDA, J. C. Sampaio de. Manual de direito falimentar, p. 137.

interrompido e encerrado a qualquer momento, levantando-se a Falência.154