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Os Direitos Humanos como Componente da Paz

2 . DIREITOS HUMANOS E PAZ

2.3. PAZ E DIREITOS HUMANOS: ELOS CAUSAIS

2.3.2. Os Direitos Humanos como Componente da Paz

e alguns dos mais sólidos oponentes do totalitarismo ideológico, facilmente se tornam apologistas da discriminação nacional.

Conforme demonstram a prática fascista do populismo nacionalista e as recentes manifestações de racismo e xenofobia da Europa oriental e central, essa promessa não se mantém por muito tempo. Os nestbeschmutzer,

“cosmopolitas”, “mundialistas” e outros não-nacionalistas tornam-se traidores, juntamente com aqueles que sabotam o esforço de guerra por compaixão e humanidade. Referindo-se à Revolução Francesa, Steven Lukes observa: “O slogan revolucionário ‘la fraternité ou la mort’ [fraternidade ou morte] adquiriu um significado novo e ameaçador, prometendo a violência primeiro contra os não-irmãos e depois contra os falsos irmãos”.48

Com a disposição para desconsiderar as violações dos direitos humanos cometidas contra os “outros”, a democracia aparente revela-se uma fraude e pode resultar na negação dos direitos humanos aos indivíduos do seu próprio grupo.

mais simples, a paz, de acordo com essa visão, não é apenas um estado de certa inatividade, que é preciosa, pois a guerra é pior; não é somente uma situação em que todos os atores podem, por outros meios, perseguir suas respectivas metas (não importando quão aceitáveis elas sejam). Ela é o conjunto de valores que lhe dão substância e significado (paz positiva).

Esse raciocínio corre paralelo com os esforços de alguns pesquisadores da paz em redefinir a violência e incluir neste conceito não só o verdadeiro exercício dos métodos violentos, mas também os resultados da antiga violência e a produção permanente de estruturas violentas, tanto nacionais como internacionais (violência estrutural).49 Isso leva à necessidade de descrever as origens da violência estrutural, cujo oposto é a descrição de um Estado sem violência estrutural (a paz). Para os pesquisadores da paz, os valores positivos que devem ser incluídos no conceito de paz são a integração, a satisfação humana, a liberdade, a justiça social, etc. Se a esse conjunto são agregadas as visões individualistas e antropocêntricas do sistema mundial,50 é óbvio que se trata, mais ou menos, do conjunto de valores cobertos pelo conceito de direitos humanos.51

O marxismo, com seu conceito de alienação (Entfremdung), apresentou um potencial similar. A idéia, originalmente tirada de Hegel, abrangia várias formas de perda histórica da verdadeira essência humana por meio da organização econômica e social, da política, da religião e assim por diante.52 Isso lembra os comentários de Johan Galtung e de outros autores sobre a

49O escritor mais influente sobre paz positiva, violência estrutural e conceitos associados é Johan Galtung: GALTUNG, J. A structural theory of integration, Journal of Peace Research, Oslo: v. 5, n. 4, p. 375-95, 1968. _____. Violence, Peace and Peace Research, Journal of Peace Research, v. 6, n. 3, p. 167-91, 1969. _____. Feudal Systems, Structural Violence and Structural Theory of Revolution, Essays in Peace Research, Copenhagen: Christian Ejlers, v. 3, 1970. _____. A structural Theory of Imperialism, Essays in Peace Research, Op. cit., v. 4, 1970. Ver também os autores relacionados:

NEWCOMBE, H.; NEWCOMBE, A. Peace Research around the World, Oakville, Ontario: 1969. Para crítica, ver:

EIDE, A.; KJELL, M. Note on Galtung’s Concept of Violence, Journal of Peace Research, v. 8, n. 1, p. 71, 1971.

BOULDING, K. E. Twelve friendly quarrels with Johan Galtung. In: GLEDITCH, N. P. et al. (Ed.). Johan Galtung:

a bibliography of his scholarly and popular writings 1950-1980. Oslo: Peace Research Institute, 1980, p. 7-26.

50Os nacionalistas modernos que, curiosamente, são atraídos por Galtung rejeitam essa abordagem por desprezar a nação e seu Estado. Ver, por exemplo: SIMIC, D. Pozitivan mir: shvatanja Johana Galtunga [Paz positiva: as visões de Johan Galtung]. Belgrade: Akademija Nova, 1993, p. 77.

51GALTUNG, J. The next Tweenty-Five Years of Peace Research: tasks and prospects, Essays in Peace Research, v. 6, 1988. Op. cit., nota 49. p. 103.

52ISRAEL, J. L’Aliénation de Marx à la sociologie contemporaine. Paris: Anthropos, 1972. ATIENZA, M. Marx y los derechos humanos.

Madrid: Mezquita, 1982. Para uma recente reavaliação, ver: ZIZECK, S. The Sublime Object of Ideology, London: Verso, 1989.

impropriedade da afirmação de potenciais somáticos e mentais individuais.53 Infelizmente, os escritores marxistas mais recentes não se mostraram interessados em questões de teoria jurídica, limitados pela definição vulgar da lei como “a vontade da classe dominante”. Daí a falta de escritos filosóficos e jurídicos marxistas sobre as questões de direitos humanos54e a incapacidade de explorar as possibilidades de “desalienação” por meio dos direitos humanos.

No pensamento oficial dos Estados e das organizações governamentais internacionais, a crença de que a paz era igual aos direitos humanos não esteve presente na sua forma radical, descrita acima. Ela foi reduzida à expressão da perspectiva de que a paz sem os direitos humanos (e outros valores, incluindo o desenvolvimento) ainda era considerada paz, mas uma paz insegura e inferior. A Conferência Geral da Unesco mostrou-se muito satisfeita com a seguinte redação: “a paz não pode consistir somente na ausência do conflito armado, mas implica, principalmente, um processo de progresso, justiça e respeito mútuo entre os povos (...) Uma paz fundada na injustiça e violação dos direitos humanos não pode durar e conduz inexoravelmente à violência”.55

No fim dos anos 70 e início dos anos 80, esse discurso foi substituído pela supremacia da paz, que deve ser nutrida pelos direitos humanos, e eventualmente resultou na Declaração do Direito dos Povos à Paz.

Politicamente, isso se explica pela existência mais acentuada, na maioria dos Estados não-alinhados do Terceiro Mundo, de regimes não-inclinados ao individualismo e à sua respectiva interpretação dos direitos humanos, o que os aproximou do Leste em termos políticos. O conceito de paz retornou ao seu significado internacional negativo, de ausência de guerra entre as nações.

Na realidade política, passou a ser preocupação central a segurança dos

53GALTUNG, J. Violence, peace. Op. cit., nota 49, p. 110-11.

54Ver, entretanto: MARKOVIC, M. Differing Conceptions of Human Rights in Europe: toward a resolutionIn: _____.

Philosophical Foundations of Human Rights. Paris: UNESCO, 1986. p.113-30. PAASTELA, J. Human Rights in the Writings of Marx and Engels. In: ROSAS, A.; HELGESEN, J. (Ed.). Human Rights in a Changing East-West Perspectiv., London: Pinter, 1990. p. 6-16. Para uma pesquisa sobre a doutrina legal soviética marxista sobre os direitos humanos, ver: CASSESE, A. International Law in a Divided World. Oxford: Clarendon, 1986. p. 300-302.

55Resolução nº 18 C/11.1, 1974. O Diretor-Geral da Unesco escreveu na mesma linha de pensamento: "A paz é mais do que simplesmente uma questão de abster-se da guerra; não pode haver paz duradoura se os indivíduos são privados dos seus direitos e liberdades, se os povos são oprimidos por outros povos, se as populações são cercadas pela pobreza ou sofrem de má nutrição e doenças". [Citado por MARKS. Op. cit., nota 3, p. 341.]

Estados, posteriormente identificada como (regime do) estado de segurança.56 Embora bem intencionadas, todas as tentativas para identificar paz e direitos humanos revelam uma fraqueza metodológica. A inclusão de valores e objetivos diversos e desejados amplia o conceito de paz para além do ponto de reconhecimento. O esforço de transformar a paz, de um conjunto de valo- res modais numa coleção de valores substantivos, também tem sido em vão.

Há uma nova disputa para incluir qualquer coisa desejável no pacote da paz, o que revela a estratégia já usada nos direitos humanos: dizer que algo é idên- tico à paz (ou um componente essencial dela) faz com que esse algo possa ser alcançado. Em termos menos sofisticados de debate, isso se aproxima dos truques semânticos relacionados aos termos carregados de valores. Se houver uma “boa” palavra, ligue-a a um valor ou resultado desejado. A paz é boa:

tudo o que nela for incluído também é bom. Como testemunham várias resoluções de organizações internacionais e declarações governamentais, o terrorismo é ruim: tudo o que se imagina merecer condenação, ou for noci- vo, é chamado então de terrorismo.

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