A utilização de imagens (fotográficas e/ou fílmicas) nas pesquisas em diversas áreas das Ciências Sociais, como nas pesquisas nos/dos/com os cotidianos em Educação, das quais esta pesquisa faz parte, acompanha a necessidade de se pensar uma apresentação/representação não mais do outro pesquisado, enquanto objeto de estudo, mas como sujeito, num pensamento em conjunto, numa relação intersubjetiva sobre essa apresentação/representação. O uso da narrativa a partir do texto escrito como principal dispositivo para as pesquisas da alteridade, passa a ser questionado, pois criam ―desenhos‖, imagens, um imaginário sobre o outro e sua cultura, sua forma de vida e representação sobre ela que podem não ser real, mas pictórica, pois a subjetividade de quem pesquisa reflete no olhar sobre o outro. Essa criação imagética a partir dos textos e da escrita ajuda a todos os
sujeitos da pesquisa a questionarem as apresentações/representações e a pensarem em novas apresentações/representações, principalmente quando o sujeito não pesquisador passa a falar por/sobre si. No entanto, como fazer isso a partir do que esse sujeito nos traz, como ―[...]
falas, discursos, intervenções, explanações críticas e diferentes pontos de vistas [...]‖
(GONÇALVES; HEAD, 2009, p. 18). Gonçalves e Head (2019) apontam que o audiovisual seria um caminho, mas em diálogo com Certeau (2014), isso depende dos usos que se faz deles, pois muitas pesquisas que utilizam tanto documentários como fotografias acabam também criando um imaginário, apresentando e representando o sujeito ainda como objeto de estudo e de forma simplesmente expositiva e estereotipada. Ronaldo Mathias (2016) nos conta, por exemplo, que ao fotografar povos indígenas norte-americanos durante pesquisa, o etnógrafo e fotógrafo Edward Curtis os fez posarem para a foto com trajes típicos
―reproduzindo práticas já abandonadas‖ (p. 77), reforçando representações e os objetificando.
Uma imagem fotográfica que se instaura como parte de um sistema de classificação e tipificação organizada do corpo estranho para ser visto pela cultura não primitiva, estabelecendo um sentido de veracidade mas também de regulação de representação (MATHIAS, 2016, p. 78).
A crítica de Mathias (2016) sobre o que seria o ‗mau uso‘ da fotografia na pesquisa de Curtis, salienta e reafirma o que Gonçalves e Head (2009) estão problematizando acerca da necessidade de se pensar outras possibilidades dos usos das audiovisualidades nas pesquisas, para outra apresentação e representação dos sujeitos.
Se existem, evidentemente, diferenças fundamentais entre representações/apresentações escritas e imagéticas de si e do outro, em todas essas dimensões - éticas, estéticas, políticas e epistemológicas, o ponto principal a ser salientado é que, a partir do momento em que se reconhece uma simetria entre representações escritas e imagéticas como formas de conhecimento e como modos de apresentar o outro [...] é justamente o momento em que a ‗passagem à imagem‘
antropológica se torna efetiva (GONÇALVES; HEAD, 2009, p. 19).
Os usos das narrativas imagéticas, sejam elas fílmicas ou fotográficas, a partir do entendimento do sujeito enquanto produtor se sua própria realidade, apresentação e representação, de quem fala de si e por si, me levam a pensar, junto com Gonçalves e Head (2009), em autoapresentação e autorrepresentação. Não é mais o pesquisador falando sobre o outro, mas o sujeito na pesquisa falando por si, fabulando, criando, reinventando, interpretando e produzindo novos conhecimentos sobre sua existência, o que os autores chamaram de devir-imagético.
O devir-imagético estrutura uma narrativa que procura dar conta desses dois aspectos na simultaneidade, propondo de uma só vez a um só momento a não mais
antagônica relação entre subjetividade e objetividade, cultura e personalidade, individuo e sociedade. Assim, a conceituação de devir-imagético problematiza conceitos-chave do pensamento sociológico clássico como o individual e o coletivo, o sujeito e a cultura ao abrir espaço para a individualidade ou imaginação pessoal criativa que passa a formular uma fabulação de si como forma de auto-representação (sic). O indivíduo, a partir de sua potência de individuação enquanto manifestação criativa e através de sua interpretação pessoal, pode se auto-representar (sic) como pertencente a um mundo cultural que se constitui no momento mesmo de sua apresentação (GONÇALVES; HEAD, 2009, p. 25-26).
O processo de fazer uma foto, seja um autorretrato, uma selfie ou como referente36, o ato fotográfico, é um momento de fabulação de si. Ao ficarmos em frente à câmera, mudamos nossos gestos, nossa postura, nossa forma de nos colocarmos, nos portarmos e nos comportarmos de forma que a imagem corresponda àquilo que queremos mostrar e como queremos ser vistos e nos dar a ver. Roland Barthes (2015), em A Câmara Clara, traz essa sensação por meio de sua própria experiência. Ao saber que seria fotografado, Barthes relata que sua forma de estar naquele momento mudou, criando-se novas possibilidades de ser.
―Ora, a partir do momento que me sinto olhado pela objetiva, tudo muda: ponho-me a
―posar‖, fabrico-me instantaneamente um outro corpo, metamorfoseio-me antecipadamente em imagem‖ (BARTHES, 2015, p.18). Quando Barthes diz que se metamorfoseia antes da imagem, significa colocar-se em fabulação. Tendo o ato fotográfico já com essas características sobre o fotografado, o de criar em cima da imagem que será feita de si, ao pensarmos na fabulação durante o ato, possibilitamos complementar essa criação a partir da produção de novas existências, da forma de cada professora perceber o mundo.
Entendendo que a rostidade produzida sobre mulheres negras/racializadas parte das verdades engendradas sobre elas, a partir do olhar dominante em uma sociedade patriarcal racista e sexista, em uma relação de poder de brancos sobre negros, com origem na época da escravidão e que se perpetua até os dias atuais, apresentando-as e representando-as como coisas e objetos sem autonomia e desejos, é que as professoras se colocaram em frente às câmeras para se autoapresentarem e autorrepresentarem, em processo de devir-imagético, problematizando a questão por meio da produção de outras imagens possíveis sobre si. A partir de suas potências individuais, elas se colocaram a fabular novas imagens sobre ser uma mulher negra/racializada professora e para além da docência, sem tentar construir uma imagem comum, coletiva, mas sim em suas singularidades. A fotografia, nesse contexto, dialogando com Soares, Paiva e Fonseca (2017), tem a potência de inventar outras possibilidades de mundo, assim como a de sermos e estarmos no mundo (KASTRUP, 2007),
36 Termos usado por Roland Barthes para se referir ao objeto ou pessoa fotografada, sem a qual não existira a foto.
operar em ―linha de fuga‖, desterritorializar (DELEUZE; GUATTARI, 2012), sair do fixo e estabelecido, para o que pode ser fluido e em movimento. Somos todos sujeitos mergulhados em paradigmas e discussões acerca de infinitas questões que nos atravessam.
Nesse sentido utilizei a fotografia como dispositivo e ferramenta de pesquisa para pensarmos juntas - a partir da imagem (perfil, estereótipo, rosto) produzida historicamente sobre a mulher negra/racializada e da professora - a desconstrução desses estereótipos,
‗desrostificação‘, fabulação de si e produção de novas existências a partir da multiplicidade de subjetividades envolvendo professoras racializados, problematizando a diferença dentro da diferença, com a imagem-corpo do mestiço no âmbito da subjetividade, em relação à identidade negra. Como nos trazem Deleuze e Guattari (2012), não há como voltar atrás, mas é preciso debatermos a criação de novos usos para a máquina da rostidade, afinal: ―Se um rosto é uma política, desfazer o rosto também o é, engajando devires reais, todo um devir- clandestino‖ (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p, 64).
A partir das discussões acerca da desconstrução desse rosto mulher negra/racializada, em cruzamento com o rosto professora, as docentes criaram outras imagens a partir da potência de seus corpos, das práticas, dos desejos, dos valores, dos saberesfazeres e das crenças, enfim, de suas singularidades, utilizando elementos que levaram para os ensaios fotográficos tais como: objetos pessoais, roupas, materiais escolares, laptop, brinquedo, livros, acessórios dentre outros, fabulando outras subjetividades e imaginários relacionados à mulher-negra/racializada-professora. A maioria problematizou por meio das fotografias a vida fora da escola, enquanto outras fizeram um paralelo entre a imagem que esperam delas e a imagem que elas fazem de si mesmas, como querem ser vistas. Nesta pesquisa, não houve intuito de produzir uma imagem do real, nem produzir uma imagem padrão, que engendrasse um novo perfil homogeneizado hegemônico, mas ficcionar a partir de um rosto pré-existente, novas imagens possíveis.