Fui estimulada pela minha orientadora, Prof.ª Dr.ª Maria da Conceição Soares, a trazer a interseccionalidade entre as categorias gênero, raça e docência, como parte da pesquisa dela
11 Oracy Nogueira traz a ideia de que no Brasil há o preconceito racial de marca, em que a pessoa é identificada como negra por conta do fenótipo. Já nos Estados Unidos, há o preconceito racial de origem, em que a
identidade negra tem origem biológica.
intitulada Professoras em devir: fabulações imagéticas de si, problematizações do feminino e implicações para a docência. Pesquisa essa que dá continuidade às pesquisas que o Grupo Currículo, Narrativas Audiovisuais e Diferença – CUNADI12 -, orientado por ela e do qual faço parte, têm desenvolvido desde 2005, na interface entre narrativas audiovisuais, currículos, formação docente e diferença. O objetivo principal da sua pesquisa é problematizar questões que envolvem a imagem padronizada e estereotipada do que é ser uma professora, pela sua condição de mulher e docente; e, as implicações na própria docência e além dela, por meio de ensaios fotográficos e videográficos em estúdio, como espaçotempo de fabulações.
Em nosso grupo de pesquisa, fazemos uso das audiovisualidades como dispositivo de pesquisa-intervenção, entendendo-as como práticas de criação, fabulação e invenção de si (KASTRUP, 2007). Criação, não no sentido de criatividade, mas como espaço de problematização e para pensarmos as implicações e, consequentemente, soluções, como processo de aprendizagem para além do já sabido. Dialogando com Conceição Soares (2016), como praticantes do cotidiano (CERTEAU, 2014), fazemos uso das audiovisualidades para criar narrativas outras na pesquisa acadêmica.
O audiovisual como dispositivo para a pesquisa-intervenção nos/com os cotidianos das redes educativas opera como um produtor/disparador/desencadeador de sentimentos, sensações, significações e experiências estéticas partilháveis que, problematizados em rodas de conversas e/ou no entrelaçamento com diferentes redes de saberes-fazeres, tanto nos espaços-tempos da recepção como da produção, impulsiona a problematização e a negociação de sentidos em relação ao que nos toca, ao que nos afeta, ao que nos agencia, ao que nos constitui. Praticar as audiovisualidades em contextos escolares possibilita questionar modelizações e engendrar outros modos de conhecer e de se constituir, para além daqueles hegemonicamente fixados conforme os interesses do capital, dos mercados e do biopoder (SOARES, 2016, p. 92).
No caso desta pesquisa, usei a fotografia como dispositivo de pesquisa-intervenção e narrativa complementar à narrativa verbal, para apresentar, discutir e problematizar junto às minhas interlocutoras como o corpo feminino negro/racializado se constitui, é constituído, marcado, vigiado, controlado, dentro-fora da escola, problematizando as interseccionalidades envolvendo raça, gênero e docência. Em um estúdio fotográfico, criamos um espaçotempo de representações, autoapresentações e fabulações de si, questionando, por meio das imagens produzidas durante os ensaios fotográficos, o que é discutido como relativo ao feminino com e para além da docência e produzindo novas/outras imagens. Corpo é imagem e o protagonista desta pesquisa.
12 Grupo de Pesquisa CNPq Currículos, Narrativas audiovisuais e Diferença.
As pesquisas nos/dos/com os cotidianos se utilizam de imagens como narrativas complementares à escrita, quando essas por si só não dão conta da complexidade do cotidiano nos mais variados espaçostempos (OLIVEIRA, 2007). No entanto, utilizo aqui as imagens como disparador de problematizações, compondo e impulsionando outras linguagens. Tanto a narrativa verbal quanto a imagética funcionam não como representação do real, mas sim como criação ou fabulação sobre o real. São interpretações da realidade. Da mesma forma que ao narrar, o mais importante não é o fato mas o que é dito sobre o fato (CERTEAU, 2014), a fotografia funciona nas pesquisas nos/dos/com os cotidianos não como dispositivo de captura do momento real, a imagem ali estática, mas como possibilidade das diversas interpretações possíveis da imagem criada daquele momento. Soares (2010), em diálogo com Certeau (2014), nos aponta a importância dos usos da fotografia nas pesquisas ―como potência para a produção de teoriaspráticas que visem à compreensão e a invenção do vivido‖ (SOARES, 2010, p. 70).
A proposta inicial era fazermos três encontros com minhas interlocutoras: o primeiro, para apresentarmos a pesquisa a elas e elas já apontarem algumas questões pessoais; o segundo, a entrevista oficial e o ensaio fotográfico; e o terceiro, um encontro com todas para mostrarmos as fotos e criarmos um espaçotempo de discussão e compartilhamento de ideias sobre as imagens. No decorrer da pesquisa, percebi que não seria possível fazer as três etapas com todas, uma vez que a maioria trabalha, estuda e uma tem filhos. Então, adaptei de acordo com o tempo de cada uma, focando apenas numa conversa preliminar, por telefone ou presencial, em que expliquei a pesquisa, e o dia do encontro no estúdio para a entrevista e as fotos. A entrevista no estúdio era importante, pois foi gravada em vídeo para posterior produção de um documentário, um dos materiais resultantes da pesquisa guarda-chuva de minha orientadora.
A partir da explicação sobre a pesquisa em conversas preliminares, que se deram via celular por meio de mensagem de texto, solicitei a cada uma que levassem para o ensaio fotográfico objetos pessoais, roupas e acessórios que quisessem, a partir do que passam e sentem: como elas se veem, como gostariam de ser vistas, como as pessoas as veem, como também elas se autoapresentam e se autorrepresentam a partir (e apesar) de e com as situações que vivenciam e/ou inventam13. Na permanente invenção de si, do grupo e do mundo.
A imagem que fazemos de nós mesmos é relacional, a partir do olhar do outro sobre nós, uma ―verdade constituída‖ (GONÇALVES; HEAD, 2009, p. 21) de grupos hegemônicos.
13 Inventam no sentido que criam, produzem, contam.
Quando pensamos na imagem da população negra, por exemplo, o preconceito de marca (NOGUEIRA, 2006) nos leva a uma imagem pré-concebida do que seja um negro, um rosto (DELEUZE; GUATTARI, 2012), com o fenótipo significado de maneira desqualificada, menor e inferior. No entanto, entendemos o ensaio fotográfico nesta pesquisa como espaço de fabulação, não apresentando nem o real ou o fictício, mas potencializando outras maneiras possíveis de ser e estar dos sujeitos, no caso, das professoras, dentro da ideia de devir- imagético, desenvolvida por Marco Antonio Gonçalves & Scott Head.
Assim, a conceituação de devir-imagético problematiza conceitos-chave do pensamento sociológico clássico como o individual e o coletivo, o sujeito e a cultura ao abrir espaço para a individualidade ou imaginação pessoal criativa que passa a formular uma fabulação de si como forma de auto-representação (sic). O indivíduo, a partir de sua potência de individuação enquanto manifestação criativa e através de sua interpretação pessoal, pode se auto-representar (sic) como pertencente a um mundo cultural que se constitui no momento mesmo de sua apresentação (GONÇALVES; HEAD, 2009, p. 25/26).
Essa potência de individuação no momento de se autoapresentar fez com que as professoras sentissem-se livres para fabular, ficcionar, problematizando a imagem que fazem delas, a imagem que elas entendem ter, o que são e o que querem ser. Durante o ensaio, cada uma levou objetos variados para compor as fotos: roupas, brinquedo, peruca, livro, fantasia de carnaval, espelho, computador. As escolhas foram pessoais e uma peça foi adquirida pela pesquisa.