INTRODUÇÃO
5.2. Paradigma e Metodologia de Pesquisa
A metodologia de pesquisa escolhida é a pesquisa crítica de colaboração (PCCol) (MAGALHÃES, 2004, 2007, 2009). A denominação crítica advém de sua intenção de transformar os contextos escolares, nos quais se desenvolve, e de colaboração, pois se espera a participação ativa e conjunta dos participantes na negociação dos sentidos e significados mediada pela linguagem.
Esta pesquisa se enquadra no paradigma crítico na medida em que tem uma orientação para a transformação das condições sociais das minorias e de participantes em posição de desvantagem, propiciando assim movimentos contrários a relações opressivas de qualquer natureza (BREDO & FEINBERG, 1982). Nessa concepção, o pesquisador e o participante estão em relação de reciprocidade uma vez que o conhecimento, na visão dos teóricos críticos como Bredo & Feinberg (1982) e Girod-Séville e Perret (1999), configura-se como uma possibilidade de transformação social de todos aqueles que estão envolvidos no projeto de pesquisa.
O paradigma crítico está embasado nos pressupostos filosóficos de Marx e sua perspectiva histórico-dialética. Essa perspectiva é chamada de dialética na medida em que a produção de conhecimento é dinâmica, porque está em constante transformação e se constrói no momento da interação. Na verdade, quando Vygotsky olha para o viés marxista, ele não busca resposta as suas questões, ele o faz com interesse em seu método, isto é, em como construir uma ciência, em como conduzir uma investigação da vida humana. Dessa forma, ele se inspira em Marx, ao entender que ciência não se faz somente na discussão dos fatos, mas na vida real que se vive e, para isso, é preciso entender o que está acontecendo, para, assim, transformar, construindo o novo. Para Vygotsky (apud NEWMAN e HOLZMAN, 1993/2002, p. 61), o marxismo pode embasar esse método de trabalho como um processo dialético histórico-natural em que o mundo é simultaneamente pré-requisito
e produto. Assim, o método é simultaneamente um pré-requisito e um produto, o instrumento e o resultado do estudo.
Esta pesquisa, de cunho colaborativo-crítico, não objetiva apenas apontar fatos ou descrevê-los como no caso da etnografia convencional, mas, também, oferecer respostas visando a uma transformação social dos envolvidos no processo e, quando possível, de sua comunidade. Vergara (1998) esclarece, que a pesquisa colaborativa tem como principal característica e objetivo, a intervenção do pesquisador junto ao contexto de pesquisa, não só no que se refere ao processo investigativo, mas também, no que diz respeito à alteração da realidade. Para tanto, seus dados foram coletados em um ambiente de ensino-aprendizagem engajado na práxis revolucionária, isto é, aquela comprometida com mudanças de totalidades.
Nesse duplo movimento de instrumento e / para resultado, o sujeito transforma e transforma-se simultaneamente na atividade (NEWMAN e HOLZMAN, 1993/2002).
Magalhães (2007, p. 73) aponta que, dentro desse paradigma de pesquisa, pesquisador e pesquisados são “coparticipantes ativos no ato da construção e de transformação do conhecimento”.
Para tanto, Fidalgo e Shimoura (2007) ressaltam a importância da colaboração como uma forma de organização crítica da linguagem que cria contextos para se aproximar dessa transformação, por meio da participação ativa e conjunta na negociação dos sentidos e significados, visando a um produto criativo.
As autoras (2007, p. 16) mencionam, a partir de Magalhães, que a negociação seria necessária para que “todas as interpretações, crenças e valores” fossem “colocados, para que suas diferenças e semelhanças” fossem discutidas, entendendo a colaboração diferentemente da cooperação e de outros conceitos que, embora semelhantes, não trazem a negociação de valores em seu bojo.
Precisa-se perceber, no contexto em que se pretende atuar, quais são as necessidades da comunidade, a historicidade de cada um, já que cada ser humano está inserido em um contexto diferente e traz todas essas experiências vividas para formar um algo novo, que só poderá ser compreendido na medida em que se tiver em mente esse ser histórico-social.
Como pesquisadores da LA, estamos empenhados na resolução de problemas do mundo real. Por se constituir como uma forma de ação planejada de caráter social, o dispositivo da pesquisa-ação se coloca como um instrumento de
trabalho muito adequado às atividades de extensão universitária. Thiollent (2005/2008, p. 16) define essa prática como:
[...] um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.
Em sua obra Metodologia da Pesquisa-Ação, o autor aponta que, essa linha de pesquisa tem sido aplicada em diversos campos do conhecimento, tanto no Brasil como em outros países, mas que, especificamente no Brasil, ela tem sido empregada de forma crescente na área educacional como fruto de uma “desilusão para com a metodologia convencional, cujos resultados, apesar de sua aparente precisão, estão muito afastados dos problemas urgentes da situação atual da educação” (THIOLLENT, 2005/2008, p. 80).
Embora essa forma de pesquisa ainda esteja em discussão e enfrente certo preconceito ideológico por parte de alguns cientistas sociais, que temem o rebaixamento do nível de exigência acadêmica que acompanha a metodologia convencional, para Thiollent (2005/2008), somente uma sólida metodologia pode evitar esse risco inerente a toda pesquisa que não esteja metodologicamente comprometida com a ética. Essa metodologia guia os pesquisadores “esclarecendo cada uma das suas decisões por meio de alguns princípios de cientificidade”.
Thiollent (2005/2008, p. 20) ressalta, ainda, que é extremamente importante que o pesquisador adote uma atitude neutra, “sem imposição unilateral de suas concepções próprias”, evitando que, devido a seu aspecto dialógico, a pesquisa- ação dê a impressão de perder em precisão e objetividade. Desse modo, os pesquisadores precisam estar conscientes da necessidade de participar de discussões em grupos e seminários como forma de trocar ideias, avançar o debate e produzir conhecimento relativo às questões abordadas.
Embora se assemelhe ao tipo de pesquisa articulada na pesquisa-ação, por não ter um caráter individual, minha pesquisa seria mais fielmente caracterizada se fosse chamada de pesquisa sobre minha própria ação. A coletividade é uma marca deste estudo, tanto no que tange o lado prático como o acadêmico, pois inúmeros foram os momentos de colaboração e discussão junto ao grupo de pesquisa, notadamente junto aos alunos de Iniciação Científica integrantes do LACE. Dessa
maneira, a pesquisa não somente provocou mudanças na pesquisadora, mas, teve um compromisso com a transformação do universo pesquisado. Assim, essa escolha lexical seria mais apropriada levando-se em conta que este trabalho busca investigar a minha própria prática em sala de aula.
No que tange às variedades distintas de pesquisa-ação educacional existentes, parece-me que a orientação emancipatória e de crítica social, tal como proposto por Carr e Kemmis (1986), seja a marca do presente trabalho. Se a pesquisa-ação educacional é principalmente uma estratégia para o desenvolvimento de professores e pesquisadores, objetivando aprimorar seu ensino e, consequentemente, o aprendizado de seus alunos, para esses autores ela tem um grande potencial transformador, pois incita o questionamento coletivo dos participantes que buscam compreender as práticas sociais e as situações nas quais estão inseridos em vista de transformá-las.