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4 FIOS E (DESA)FIOS

Este é um espaço para concretizar, sob a forma escrita, uma percepção inerente a todo o processo de pesquisa, ou seja, a noção e o reconhecimento de que nem tudo sai como o planejado e o enfrentamento de desafios. Planejar é uma maneira eficaz de nos organizarmos para o alcance dos objetivos propostos, porém, é preciso entender que, nem sempre, tal planejamento segue como o previsto. Reconhecer isso pode ser libertador e edificante.

Esperamos, pois, o tecer de fios e (desa)fios e quem sabe desa(ta)fios, intencionamos o nascer de uma filigrana de narrativas. Traçar caminhos é ótimo, mas encarar des-caminhos pode vir a ser ainda melhor. Caminhos que se constroem no processo, que se perdem no meio do caminho, que se cruzam e que levam a caminhos outros. É necessário refletir, retroceder, avançar ou recomeçar... Uma pausa para enlou(crescer), um mergulho para pegar fôlego.

da pesquisa. Ademais, compreendi que também sou uma pesquisadora de mim e entendi que metodologias insurgentes subvertem roteiros herméticos.

Aprendi que minha pesquisa não tinha que se enquadrar em uma metodologia, mas sim que a metodologia precisava implementar a minha pesquisa. Um exemplo disso era a preocupação em cumprir, fielmente, a metodologia dos Círculos de leitura proposta por Cosson (2014a) que denota que, espacialmente, os alunos devem estar organizados em círculo.

Contudo, por conta da pandemia, a nova e necessária disposição espacial da sala, com carteiras distanciadas e em locais predeterminados para evitar aglomeração e proximidades, impediam a dinâmica de formação de círculos.

Nesse momento, é perceptível a necessidade de adaptações coerentes às realidades e dinâmicas de ensino-aprendizagem. Logo, as adaptações que foram realizadas “cumpriram” a metodologia, uma vez que o fundamento principal era que a palavra circulasse, promovendo reflexão através da leitura coletiva. Assim sendo, a metodologia implementou a pesquisa, até porque não se pretende nada hermético, fechado, protocolar ou uma regra e um modus operandi fixo. Círculo, retângulo, trapézio, quadrado, não importa. O que realmente importa é que a palavra circulou e foi para além da formatação geométrica.

O narrar desse episódio, ou melhor dessa intriga (RICOEUR, 1994), fez-me lembrar do quanto tem sido desafiador e imprevisível o andamento da pesquisa em tempos de pandemia.

O experienciado junto aos alunos durante o período remoto, de afastamento presencial, causou- me, em um primeiro instante, uma auto cobrança de que a pesquisa não podia parar e que eu precisava realizar algo para contar aqui para vocês (vide o meu relato sincero acerca do Círculo de leitura -item 3.7- e da oficina -item 3.7.1- no ensino remoto). Não tenho vergonha de falar isso, pois resultou em um importante momento de enlou(crescimento).

O mais relevante não era a pesquisa não poder parar, mas sim a minha atitude pedagógica diante do desafio em prol dos alunos, do processo de ensino-aprendizagem em tempos pandêmicos. A pesquisa era o resultante disso, caso contrário, não teria as características de uma pesquisa, não seria um processo de investigação, já teria a resposta pronta desde o início.

Essa pesquisa não é uma pesquisa-burocrática, é uma pesquisa-formação.

Uma outra preocupação recorrente é o cuidado de não utilizar as vivências, experiências e mazelas dos estudantes da EJA para algum tipo de sensacionalismo, ou meramente com objetivo de impactar, ou muito menos se apropriar de algo íntimo dessas pessoas com finalidade única de transformar em pesquisa acadêmica. É, pois, perceber que o propósito é justamente o inverso, é, a partir disso, transformar em estudo que possa ajudar demais professores e alunos

a experimentarem momentos de profunda Viviografia. Não se pretende expor tristezas, mas sim iluminar trajetórias de vida, experiência e formação.

Ah, leitor/a amigo/a, continuo a recorrer, nesse espaço, mais uma vez da escrita em primeira pessoa, respaldada por Josso (2007, 2010) quando defende a relação singular-plural, entendendo que o que parece ser individual faz parte do coletivo, englobando a dimensão do outro. Assim, permito-me, volta e meia, adentrar nesse universo antes temido por mim. Quem era eu para falar de mim e na primeira pessoa do singular em uma pesquisa acadêmica? Que libertação de expressão escrita (e até mesmo de um reconhecimento de mim enquanto professora, pesquisadora e narradora). Essa pesquisa que desenvolvo junto com meus alunos vem causando profunda (trans)formação de mim mesma, olhar para eles e incentivar processos autorais ressignificou o meu olhar sobre mim.

Cruzar minha própria narrativa com as das minhas referências viviográficas e, ao mesmo tempo, com as narrativas dos teóricos bibliográficos é desafiador e um exercício de reflexão e de aprendizagem constante. É preciso atentar para o fato de até que ponto o contar é narração ou diegese, para não se perder em narrativas de pura ficção e imaginação. Refletir sobre isso é de suma relevância para a consolidação das bases dessa pesquisa que é comprometida com a verdade e fiel ao que foi narrado pelos alunos, autores viviográficos, e, aqui, recontado pela docente-pesquisadora-narradora, muito embora se saiba e se reconheça que memória e imaginação estão entrelaçadas e que a narrativa é sempre do sujeito de hoje que rememora o passado.

Eu tomo a voz, narro-me a mim mesma (sim, bem redundante para ser enfático), mas principalmente, eu empresto minha voz enquanto narradora a fim de dar visibilidade às histórias, memórias e vivências dos alunos da EJA. Importa refletir também sobre a questão de que mesmo o compartilhar de palavras dos meus alunos, ainda que em citações na íntegra, quem as veste sou eu. Eu que escolho o que contar e o que deixar de contar, o que convém contar e o que não convém contar. Essa escrita, portanto, não deixa de ser também o que se deixou de dizer e o que se deixou por dizer. Como já dizia Guimarães Rosa no livro Tutaméia34, “o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”.

Tenho tendências prolixas e subjetivas (creio que já tenha percebido), contudo, compreendi a importância de não “florear” o texto e sim “fontourear”. Exatamente, isso mesmo que leu, “fontourear” é mais um neologismo do tipo verbal que criei para demonstrar um outro enlou(crescimento) que tive desde a fase embrionária dessa pesquisa. Venho aprendendo com

34 ROSA, João Guimarães. Tutaméia. 1º ed Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

minha orientadora Helena Fontoura (daí o neologismo criado a partir de seu sobrenome) a ser mais objetiva. Não no sentido reducionista da palavra, mas no caminho do direcionamento ao que realmente é essencial, sem ornamentos verborrágicos desnecessários (Acho até que tive uma recaída na própria construção desse parágrafo tentando demonstrar o não floreio a partir de uma espécie de metafloreio, mas continuarei na aprendizagem de fontourear sem deixar de florir narrativas-sementes).