“A memória é uma ilha de edição.”
(Waly Salomão em Poesia Total)
O literário é, por excelência, um fomentador de narrativas sobre a vida... O literário inspira o pensar sobre a vida. Estabelecemos, portanto, uma relação entre narrativas de memórias dos alunos e narrativas literárias dos textos que tendem a caminhar ao encontro das narrativas de memórias literárias em fusão. Dentro do âmbito desse universo da literatura, é possível encontrarmos uma ligação com o pensamento de Delory-Momberger (2012) quando a autora explica que toda narrativa de memórias é também ficção, já que a vida narrada não é a vida vivida.
Retomamos, aqui, a ideia de memória do Senhor Mauro (2021, r.v.) que diz que a memória “é vida vivida lembrada[...]”, no sentido de que é uma parte da vida que já passou e, por isso, vida vivida, ou seja, não é o mesmo que dizer que a vida narrada ou rememorada é a vida vivida. Neste caso, tomamos por foco da fala do Senhor Mauro (2021, r.v.) a palavra lembrada, uma vez que o lembrar e a lembrança trazem à tona algumas noções de significado.
A palavra lembrança é muito utilizada em contextos festivos em que alguém dá uma lembrança (a famosa frase “é só uma lembrancinha”) a outra pessoa como forma de presente seja de aniversário, de viagem ou simplesmente por lembrar de alguém em alguma ocasião e quis presentificar em objeto de memória do vivido ofertado a essa pessoa. Vale observar a relação estabelecida entre as palavras “lembrança” e “presente” que se assumem quase que como sinônimos nesse contexto, mas que remetem, respectivamente, a sentidos de passado e de presente. O que se pode concluir é que o passado se faz presente, estabelecendo associação entre o momento da compra ou da elaboração de tal lembrancinha e o momento presente de entrega.
Essa associação supracitada pode se expandir para o contexto das narrativas de memórias já vividas que, quando narradas são revisitadas e se presentificam, gerando novas percepções, aprendizagens e reflexões a partir da reconstrução das memórias e do escanear de histórias de vida. Assim, passado, presente e futuro se entrelaçam (RICOEUR, 1994). Já no que diz respeito à ligação entre texto literário e a vida e a relação dialética entre o texto e o seu leitor são explicitadas em Zilberman (2008) quando diz que a leitura do texto literário é uma atividade sintetizadora por permitir ao indivíduo penetrar no âmbito da alteridade, sem perder sua subjetividade e história. O leitor não esquece suas próprias dimensões e ainda expande as fronteiras do conhecido. As vivências transmitidas pelo texto enriquecem o leitor.
Entendemos que o ensino de literatura propicia um diálogo potente entre a leitura do texto e a leitura da própria vida, podendo garantir momentos de identificação com o lido e de reminiscências e reflexão a partir de uma temática que se aproxima da realidade dos alunos da EJA, como é o caso de suas memórias e histórias de vida. “São as experiências formadoras, na força do que nos atinge, que nos sobrevêm, nos derrubam e transformam, inscritas na memória, que retornam pela narrativa não como descrição, mas como recriação, reconstrução”
(BRAGANÇA, 2011, p. 159).
A reconstrução compartilhada da memória permite a valorização das histórias de pessoas simples que se veem representadas por meio de fatos narrados do tempo passado.
Tempo que passou, mas que permanece vivo na memória e que se ressignifica a cada narrativa, assumindo novos contornos. As narrativas de memórias inspiradas pelo literário revelam similitudes entre o lido e o vivido.
2.6.1 Histórias para recordar ou histórias para acordar?
“Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.”
(Manoel de Barros em O livro sobre nada)
Brotam, nas salas de aula da EJA, falas encharcadas de realidades, histórias que chacoalham e que, muitas vezes, são abafadas, pois representam negação de direitos, injustiças e privação de condições básicas de vida. São mais do que histórias para recordar, são histórias para acordar e despertar para o que vem acontecendo com os alunos da EJA e com a própria EJA em si. São histórias como alvorada que anunciam a primeira claridade do dia que começa, mas que também são toque de alvorada, de corneta que faz despertar não os soldados, mas o ser humano como um todo para a vida.
As narrativas de vários alunos EJAntes evocam acontecimentos passados de carência, negligência, dificuldades e desigualdades; mas também enfatizam força, determinação e sonho de continuarem ou retomarem os estudos. Contudo, nem sempre encontram facilidades para tal, seja por quantidade reduzida de escolas que ofertam a EJA, seja pelo sucateamento do ensino nessa modalidade ou até mesmo pela desvalorização em termos gerais. Fatores esses que revelam as distâncias entre o prazer de ir e a urgência de chegar.
Muitas das histórias desses alunos EJAntes são verdadeiras narrativas épicas que inspiram força e que revelam grandes ensinamentos de vida. Não obstante, a maioria dessas histórias (ou quase todas) permanecem escondidas ou abafadas, assim como muitas das necessidades urgentes dessa modalidade de ensino que permanece marginalizada e na luta pela garantia de direitos e valorização.
Os alunos da EJA são guerreiros. Eu sou guerreira, porque quando voltei a estudar depois de muito tempo, tive que parar novamente por motivo de saúde, mas esse ano, graças a Deus, termino [...]. Pensei que não fosse concluir, as vezes até por falta de mantimento no decorrer na minha casa e não ter o que dar pra minha filha Brenda, nem ter o básico pra ela, um café decente ou um almoço digno, mas não, eu nunca perdi a fé [...]. Tudo que passei lá trás, vi que foi e sempre vai ser uma aprendizagem pra mim. Hoje vejo minha luta muitos obstáculos no meu caminho. Muitas pessoas me mandando parar de estudar, “você já tá velha”, mas eu passei por tudo isso e hoje vejo que eles estavam enganados. (DONA ENEIDA GUERREIRA. Páginas da vida.
Gonçalense: Viviografia, 2020)
Outro autor viviográfico que se recorda de sua própria vida e que, a partir dessa reflexão, aborda questões que retratam o mote dessa seção de estudos acerca de histórias para acordar é o Empreendedor Adriel (2021, r.v). Segundo ele:
O aluno [da EJA] é bom sim, é muito bom. O que não é bom é a situação que a gente se encontra. Eu, por exemplo, tô focado na meta de estudar [...]. Como minha professora explicou “Time is Money” que significa
“tempo é dinheiro” e eu preciso dos dois [...]. Não posso ficar parado, tenho que ir à luta [...] (EMPREENDEDOR ADRIEL. Eu sou incrível.
Mineiro: Viviografia, 2021)
Simson (2003, p. 14-15) esclarece que existem memória individual, memória coletiva e memórias subterrâneas ou marginais. A memória individual “é aquela guardada por um indivíduo e se refere às suas próprias vivências e experiências, mas que contém também aspectos da memória do grupo social onde ele se formou, isto é, no qual esse indivíduo foi socializado”. A memória coletiva “é aquela formada pelos fatos e aspectos julgados relevantes pelos grupos dominantes e que são guardados como memória oficial da sociedade mais ampla [...] que exprimem a versão consolidada de um passado coletivo de uma dada sociedade”
expressas em memoriais, monumentos, bibliotecas, arquivos e obras literárias e artísticas.
Já as memórias subterrâneas ou marginais “correspondem a versões sobre o passado dos grupos dominados de uma dada sociedade”. Costumeiramente, essas memórias não são monumentalizadas e nem gravadas em suportes concretos como textos, fotografias, vídeos ou obras de artes e “só se expressam quando conflitos sociais as evocam ou quando os pesquisadores que se utilizam do método biográfico ou da história oral criam as condições para que elas emerjam e possam então ser registradas e analisadas” (ibidem). Depois desse processo, elas passam a fazer parte da memória coletiva de uma dada sociedade.
Ao falar sobre construção compartilhada de memória, Simson (2003) conta que as memórias subterrâneas, comumente, encontram-se guardadas no âmago de famílias e grupos sociais e são passadas de geração a geração, por meio de relatos, músicas, poesias ou quando membros do grupo se auxiliam contribuindo com detalhes que despertam processos rememorativos de demais participantes. O compartilhar das memórias gera aprendizagens conjuntas.
Essas memórias ditas subterrâneas não podem ficar escondidas, enterradas ou soterradas, já que apresentam enorme potencial viviográfico, de caráter coletivo, de aprendizagem e de reflexão sobre a realidade viva e circundante. Os alunos jovens, adultos e
idosos são ricos em experiências, “suas trajetórias de classe lhes conferem um conhecimento da materialidade da vida que não pode ser ignorado pela escola” (CIAVATTA; RUMMERT, 2010, p. 465). É nesse sentido que defendemos o emergir das narrativas de memórias dos alunos da EJA como referências por experiência de vida, como embasamento teórico- viviográfico. A memória reconstruída atende a uma função social e o que parece ser individual passa a fazer parte do coletivo (BOSI, 1994).
Precisamos atentar para o fato de que, como aponta Simson (2003, p. 15), “o outro lado da função de memorizar é a de esquecer”. Faz-se fundamental, então, que as necessidades e as histórias de luta da e na EJA não caiam no esquecimento. Importa entender que as narrativas dos alunos precisam não só serem ouvidas e valorizadas, mas também servirem de fundamento para reflexão e proposição de intervenções na área. Simson (2003, p. 15-16) concorda com a ideia de que cultura é memória, já que é a cultura de uma sociedade que possibilita que seus indivíduos escolham “aquilo que será descartado e aquilo que precisa ser guardado ou retido pela memória, porque, sendo operacional, poderá servir como experiência válida ou informação importante para decisões futuras”.
Amparo (2013, p. 1-2) relata que é imprescindível conhecer o passado e a tradição para se pensar o presente, pois “passado, presente e futuro são as instâncias a que nos submetemos, seja para nos apropriarmos da herança cultural ou para nos tornarmos produtores de cultura”.
Por isso, em se tratando especialmente do público da EJA que, em sua maioria é subestimado, essa tarefa de reconstruir e valorizar suas histórias e memórias se faz ainda mais importante para reconhecerem-se e serem reconhecidos como produtores de cultura.
De acordo com Bosi (1994), a recriação do passado realizada por pessoas simples, testemunhas vivas da história, é diferente da versão oficial que se lê nos livros, é um coro comovente e afetivo. A autora afirma que a memória não é apenas sonho, mas trabalho.
Portanto, cabe o entendimento de que as memórias e as histórias dos alunos da EJA atendam a um propósito maior de não apenas remontarem a recordações passadas, mas, sobretudo, para que analisadas sob à ótica presente suscitem outras percepções demandando mudanças de atitudes no direcionamento de melhorias para a EJA.