33%
67%
Sim Não
Figura 6: Caracterização dos sujeitos de Pesquisa segundo tempo de serviço na Enfermagem, abril, 2009
Fonte: Instrumento de coleta de dados.
As enfermeiras que não possuem outro vínculo empregatício optam por fazer hora plantão (HP), que representa no salário dos enfermeiros uma boa compensação. Isso fica evidenciado pelo expressivo numero de profissionais que adotam essa rotina. Contudo podem ocorrer horas plantões desnecessárias, pois a unidade mantém para a maioria dos enfermeiros o limite máximo instituído por funcionário que é de 60 horas de HP mês. Avaliando a Escala de abril de 2009 os dados da entrevista com os sujeitos de pesquisa, constatou-se que apenas duas informantes não realizaram HP: uma por estar ocupando o cargo de gerente de
Dimensionamento é um processo sistemático que fundamenta o planejamento e a avaliação do quantitativo e qualitativo do pessoal de enfermagem necessário para prover os cuidados de enfermagem, que garantam a qualidade, previamente estabelecida, a um grupo de pacientes/clientes, de acordo com a filosofia e estrutura da organização, bem como com a singularidade de cada serviço “(KURCGANT et al, 2005).
Esta temática vem constituindo ao longo do tempo, um foco de atenção entre os enfermeiros que têm a função de gerenciar uma equipe de saúde, pois ela interfere diretamente, na eficácia, na qualidade e no custo da assistência. Por isso ela tem provocado uma série de conflitos e discussões entre estes profissionais.
A necessidade de diminuir custos e aumentar a oferta de trabalho caracteriza a importância do quadro de pessoal de enfermagem existente nas instituições, O esperado é que este quadro de trabalhadores de enfermagem esteja pautado no aspecto qualitativo. Pensar no aspecto qualitativo pode envolver um numero maior de trabalhadores de enfermagem, o que exige maior custo com as pessoas na organização sob um olhar “mais frio de economistas e administradores” que na grande maioria das vezes não entendem as subjetividades que envolvem a realização dos cuidados de enfermagem.
No entanto, é importante que as chefias da saúde possuam conhecimento para dimensionar os recursos humanos de enfermagem, facilitando a implantação de medidas que favoreçam a qualidade da assistência.
Neste sentido, o papel da enfermeira é relevante, pois ela é a responsável pelo planejamento, organização, coordenação, execução e avaliação dos serviços de assistência de Enfermagem, conforme rege a Lei do Exercício Profissional (BRASIL, 1986), e esse processo gerencial por ela desenvolvido deve ser fundamentado na Filosofia do Serviço de Enfermagem do qual faz parte.
O dimensionamento de pessoal de enfermagem representa a aplicação de um processo sistemático para determinar o número e a categoria profissional requerida para prestar cuidados de enfermagem que garantam qualidade e segurança a um grupo de pacientes, e a operacionalização desse processo requer a utilização de um método que possibilite sistematizar o inter-relacionamento e a mensuração das
variáveis que interferem na carga de trabalho da equipe de enfermagem
(GAIDZINSKI, apudNICOLA, 2005, p. 4).
Assim fica evidente na fala de “enfermeira 6” diz que dimensionar é mais do que um simples cálculo, e que a mesma forma não vai servir para todas as unidades. Vejamos:
“Dimensionar é você deixar uma quantidade de pessoas pra prestar atendimento isto é dimensionar. Agora, de que forma já é uma outra questão, porque nem sempre o dimensionamento de uma unidade de 35 leitos de cardiologia é a mesma que de uma clínica médica.”
(ENFERMEIRA 6)
O dimensionamento do pessoal de enfermagem é um processo sistemático e contínuo, que visa avaliar e adequar o quantitativo e qualitativo dos recursos humanos existente nas unidades, a fim de estabelecer um cuidado de acordo com a filosofia e estrutura da instituição.
Evidenciou-se ao longo deste estudo que os sujeitos da pesquisa identificam o que é dimensionamento, apesar de não usarem os instrumentos necessários para realizá-lo, o que dificulta a argumentação no momento de solicitar a contratação de recursos humanos para o serviço de enfermagem. A percepção dos sujeitos de pesquisa em relação à dificuldade em ter subsídio diante da insuficiência de funcionários para a assistência ao cliente, fica demonstrada na fala de “enfermeira 5”.
“Apesar de trabalhar muito nos não escrevemos quase nada, o que dificulta para nós argumentar diante da falta de funcionários. Acredito eu que a maioria dos enfermeiros se baseia pela observação da sobrecarga dos funcionários”. (ENFERMEIRA 5)
Também percebemos na fala da “enfermeira6” a precariedade de elaborar uma escala correta na qual não é incluída a taxa de absenteísmo dos funcionários.
“Por dois motivos, primeiro é que a gente acaba trabalhando numa escala que você não conta com folgas, atestados, férias. Este é um problema sério. Segundo, o tipo de cuidado, de complexidade, aqui no meu ponto de vista deveria ter mais funcionários para você poder fazer uma melhor assistência. Quando você atende, você não pode contar com atestados, com as pessoas que estão fora, então as escalas ficam muito apertadas por causa disso, e existem muitos
atestados aqui dentro. Isso é um problema muito sério”.
(ENFERMEIRA 6)
Segundo Gaidzinski (apud Nicola 2005, p. 4) implementar uma metodologia de dimensionamento constitui-se em um instrumento gerencial valioso na medida em que disponibiliza dados das condições do paciente, os quais auxiliarão no processo decisório relacionado à alocação de recursos humanos, qualidade da assistência, monitoramento da produtividade e processo orçamentário, estabelecendo, assim, parâmetros mínimos para o estabelecimento de um quadro adequado de profissionais de enfermagem.
Apesar dos estudos relacionados aos métodos de dimensionamento de pessoal na área da enfermagem estarem demonstrando que os diferentes graus de complexidade assistencial dos pacientes em unidades de internação devam ser considerados como parâmetro importante para prever e prover recursos humanos, tradicionalmente as instituições hospitalares dimensionam os recursos humanos de enfermagem sem levar em consideração a subjetividade do cuidado de enfermagem que está relacionada à subjetividade do ser humano. Enfim, cuidar na enfermagem representa ir além do fazer pelo fazer isolado, mecânico e impessoal. Este cuidar está diretamente intricado com a essência do ser humano, que depende da singularidade de cada humano e de seu ciclo vital.
Entendendo o cuidado de enfermagem desta forma, um banho de leito torna- se um cuidado que oscila de uma atividade de enfermagem mínima a uma atividade complexa, o que vai determinar a sua classificação é o momento em que ele está sendo realizado e quais as complicações clinicas que o paciente apresenta.
A fala abaixo nos mostra que muitas vezes a complexidade do paciente não é levada em conta,quanto é perguntado se o resultado da assistência é satisfatório.
“.Desculpa mas se um dia alguém achar que ta bom não serve para trabalhar. Imagina nunca ta bom, sempre tem mais para fazer. Não vou dizer que consigo aplicar isso todo dia. É o que te digo, encontra muitas barreiras. Eu não posso estar fazendo o trabalho deles, eu peço, eu mando, mas eu não vou supervisionar cada um todo dia, cada um sabe seu serviço”. (ENFERMEIRA 6)
A enfermagem trabalha com a saúde dos seres humanos, mas também trabalha com a doença, principalmente nos ambientes hospitalares. E, é nos ambientes hospitalares que a enfermagem depara-se com todos os tipos de mazelas do ser humano, tendo que conviver com todas as frustrações dessas pessoas. É nessas situações que os cuidados mais simples como os controles das eliminações (fezes e urina), os banhos de leito, enfim, todos os cuidados de higiene e conforto, cuidados que demandam tempo do serviço de enfermagem e que exigem competência. Um banho de leito pode tornar-se um momento impar para o enfermeiro fazer uma avaliação do estado físico do doente. Este banho pode ser um cuidado simples ou um cuidado complexo que envolve um grande aparato tecnológico, situação definida pelo estado clinico do paciente.
“O pessoal é ciente, apesar do número grande de pacientes que eles têm, porque tem pacientes que são dependentes, mais tem épocas que têm outros pacientes que não são totalmente dependentes, são independentes. Neste sentido no seu auto cuidado, é aqueles que estão aguardando cirurgia, então estes são mais fácil de cuidar. Por não ter que dar tanto atenção para estes pacientes no cuidado higiene e conforto eles podem dar então atenção para outros que são mais totalmente dependentes, então dá para equilibrar. Estamos conseguindo, claro o pessoal fica mais estressado, cansado, por isso. Mas o atendimento está sendo como a gente deseja, bom”.
(ENFERMEIRA 5)
A enfermagem não realiza somente os cuidados acima relatados No mesmo paciente ainda são realizados cuidados de enfermagem complexos que necessitam do auxílio de equipamentos desenvolvidos com alta tecnologia. Para desenvolver esta gama de cuidados que oscilam da baixa complexidade até o mais complexo é necessário um quantitativo de trabalhadores de enfermagem em número suficiente.
A Equipe de Enfermagem é responsável por grande parte dos cuidados de manutenção e restauração da vida realizada nos pacientes em um hospital durante as 24 horas, ininterruptamente.
Lembramos que os serviços de enfermagem não podem trabalhar seu quantitativo de trabalhadores reportando-se somente em números. É necessário ter qualidade na formação desses profissionais. Condição esta que demanda uma previsão dos responsáveis pelos serviços de enfermagem na organização de
programas de educação permanente para atualização dos membros da equipe de enfermagem.
Assim pode-se afirmar que o uso da formula tradicional para o calculo de pessoal, (ou seja, considerando que todos os pacientes são assistidos como se desmandassem a mesma quantidade de cuidado e que todos os trabalhadores de enfermagem são iguais e executam o mesmo tipo de cuidado, ou seja, não é levado em conta que cada paciente se comporta de maneiras diferentes, e que exige da equipe enfermagem uma assistência diferente em termos qualitativos e quantitativos) gera uma dificuldade para o enfermeiro solicitar mais funcionários, pois não há subsídio adequado, não há uma comprovação real das necessidades de recursos humanos.
O uso dessa formula tradicional para o calculo de pessoal pelas instituições empregadoras dos profissionais de enfermagem reflete o comportamento posto pelo modelo capitalista em que vivemos e que acompanhou a enfermagem acompanhou ao longo de sua trajetória enquanto profissão. Alem disso, também é reflexo das questões de gênero e da hegemonia de uma determinada profissão no setor da saúde. Felizmente houve muitos avanços ao longo dos últimos anos no estabelecimento da profissão de enfermagem, mas não se conseguiu avançar muito em setores cruciais que demandam a contratação de novos trabalhadores de enfermagem.
Nos serviços de enfermagem existem atividades que apesar de não serem consideradas como atividades diretas e/ou indiretas, merecem ter seu tempo computado, pois elas ocorrem com muita freqüência e são fundamentais para a manutenção e organização de uma equipe de enfermagem que se preocupa com um padrão de qualidade em assistência, principalmente pelo fato de pertencer a uma instituição em cuja missão está inserida a atuação nas áreas de informação, educação, pesquisa e assistência. Por isso, essas atividades devem ser valorizadas no momento de se dimensionar recursos humanos. Infelizmente o órgão gestor do hospital estudado não leva em consideração essas atividades no cômputo das horas trabalhadas, considerando apenas as horas de assistência direta aos doentes.
Constatou-se que os enfermeiros que participaram desta pesquisa não possuem clareza quanto ao dimensionamento do pessoal de enfermagem e a
repercussão que um dimensionamento deficiente pode acarretar no processo de trabalho da enfermagem.