CAPÍTULO I INTRODUÇÃO
6.3 PERCEPÇÃO DOS TÉCNICOS DO PROGRAMA MAVIPI
106 Mesmo reconhecendo o valor dos demais parceiros, a EPAGRI é reconhecida como grande aliada, como a instituição que sempre esteve ao lado do produtor, sempre buscou melhorar a qualidade da produção e padrão de vida dos produtores rurais.
(...) graças a EPAGRI estou produzindo, eles ajudam a gente em tudo e se importam com a gente (Piscicultor17).
(...) a EPAGRI se mostrou grande parceira, principalmente após denúncias da APREMAVI culpando a piscicultura pela proliferação do borrachudo, a nossa sorte foi a EPAGRI que ficou do nosso lado (Piscicultor18)
Entre os piscicultores entrevistados, 80% não foram atingidos pelas denúncias da APREMAVI, pois ocorreu entre 1996 e 1997, e eles estão na atividade a menos de 08 anos, a partir de 1999, onde todos já se enquadraram dentro dos padrões do MAVIPI, ou seja, com tudo dentro da Lei.
Apenas 20% dos piscicultores entrevistados em especial de Agrolândia, Trombudo Central e Atalanta, foram prejudicados pelas denúncias, pois já tinham seus viveiros construídos dentro das áreas de preservação permanentes e sem controle dos efluentes.
(...) a nossa associação já teve mais de 70 sócios, como não conseguiram legalizar suas atividades após as denúncias da APREMAVI, abandonaram a piscicultura, hoje somos apenas 7 sócios (Piscicultor19).
(...) a APREMAVI ferrou com muitos companheiros em Agrolândia e Trombudo Central, essa conversa de borrachudo fez muita gente sair da piscicultura (Piscicultor20).
(...) depois das denúncias o Ministério Público exigia ajuste de conduta, queria que a gente se adaptasse as exigências da Lei, mas como se os viveiros já estavam construídos fora dos padrões exigidos, foi mais fácil partir pra outra (Piscicultor20).
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• são pequenos piscicultores, com área geralmente menor que 3O ha;
• com predominância de atividade como pessoa física, sendo poucos os casos de firmas ou pessoas jurídicas;
• a piscicultura passou a ter um peso significante na composição da renda;
• a grande maioria está entrando na atividade recentemente (menos que 8 anos);
• tem um perfil diferente do tradicional dono de reservatório de água com peixe dentro, e estão usando áreas nobres da propriedade ao invés dos tradicionais
"brejos";
• a construção do viveiro e da unidade produtiva é de fundamental importância, e assim sendo não pode ser adaptada ou se dar um jeitinho.
(...) tomo como definição de piscicultor aquele indivíduo que pratica a piscicultura com objetivos comerciais plenos, ou seja, praticam um modelo de produção definido, investem tempo e recursos na operação das unidades produtivas e comercializam o pescado regularmente, independente da época do ano e adicionalmente devem ter controle da entrada e saída da água, uma das condições necessárias para se obter o licenciamento ambiental (Tamassia, Técnico da Epagi, 2007).
(...) os piscicultores são pequenos e médios produtores rurais que vivem em pequenas e médias propriedades e tem na piscicultura uma atividade de diversificação de atividade e renda...são minorias as propriedades que tem na piscicultura integrada sua atividade principal, normalmente é secundária (Schappo, Técnico EPAGRI, 2007).
Para Tamassia (2007) os piscicultores estão organizados em associações municipais, as quais foram o suporte para a fase do MAVIPI 1, ou seja, para definir, implantar, desenvolver e consolidar o Modelo de Produção. Elas deram suporte para os processos intra- porteira onde estava o foco gerador do problema do tipo ameaça (causado por outros, no caso a ONG) que estava presente em determinada época. E num determinado momento se reuniram em uma Associação Regional para enfrentar a questão ambiental.
(...) percebeu-se que o coletivo tem mais significação que o individuo, especialmente em relação a lei, ou seja, se um está errado, ele é o errado e a lei correta, ao passo que, se muitos começam e estar em desacordo com a lei, abre-se a possibilidade da lei estar assíncrônica e portanto passível de nova interpretação ou redação. (Tamassia, 2007, Técnico da EPAGRI)
Com o aumento da produção e oferta de pescado, nem nível local, regional, nacional e mesmo internacional, é previsível que os preços caiam, como de fato já está ocorrendo
108 localmente. A manutenção da remuneração que hoje está sendo bastante atrativa vai depender do produtor se dedicar com grande afinco a pelo menos duas classes de atividades:
• De gerenciamento da produção (intra-porteira), apenas aumentos de produtividade não garantem melhores apropriações das riquezas produzidas pelos agricultores.
Melhores retornos serão viabilizados se os produtores trouxeram para sua responsabilidade ações e/ou atividades dos elos processamento e distribuição.
• Atividades pós-porteira. Para atuar neste segmento o volume requerido de produção para garantir a viabilidade econômica do empreendimento é elevada.
Nenhum dos piscicultores atuais tem este volume individualmente, assim sendo, a opção que se apresenta é a de organização regional para obtenção do volume.
(...) esta é a razão de ter-se definido como desafio atual o problema perda de oportunidade, ou se ocupa o espaço que se apresenta ou este será ocupado por alguém, e ai será muito mais difícil ou praticamente impossível. E aqui que se insere e está o objetivo do projeto atual de capacitação dos piscicultores, em que se busca desenvolver as habilidades de empreendedorismo e assim se adequar para os desafios dos novos tempos e lucrar com eles (Tamassia, 2007 Técnico da EPAGRI).
Schappo (2007) assegura que os proprietários estão organizados em associações municipais, que realizam reuniões mensais onde são discutidos todos os assuntos da piscicultura, do ponto de vista técnico, econômico, social e ambiental.
(...) o objetivo maior é organizar a produção e a comercialização, onde o produtor pode se apropriar do lucro pós-porteira (Schappo, 2007 Técnico da EPAGRI).
(...) produzir dentro do Modelo Mavipi é muito fácil, vender a produção é um pouco menos fácil, ganhar dinheiro com a produção é mais difícil, por isso é necessário organizar cada vez mais a comercialização (Schappo, Técnico da EPAGRI, 2007).
Schappo (2007), assegura que a demanda ainda é muito menor que o mercado precisa, podendo aumentar a produção em quatro ou cinco vezes no Alto Vale. Hoje são produzidos em torno de 1.500 toneladas/safra, tendo por principais mercados consumidores 50% os pesque-pagues da região do vale do Itajaí, de São Paulo e do Paraná, e 50% das indústrias de processamentos do Sul do Brasil.
Os investimentos necessários para prática do MAVIPI em cada hectare transformado em viveiros fica em torno de R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais), exigindo um custeio médio de produção de aproximadamente R$ 8.000,00 (oito mil reais), gerando uma renda
109 bruta variável em torno de R$ 15.000,00 (quinze mil reais), sobrando uma receita líquida para o produtor em torno de R$ 7.000,00 (sete mil reais ano) (SCHAPPO, 2007).
A tabela 6 mostra os números da produção, principais espécies produzidas e principais mercados consumidores da piscicultura integrada, o Modelo Mavipi no Alto vale do Itajaí.
Figura 11 – Tilápias – Espécie com maior produção no sistema MAVIPI
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Tabela 6 – Levantamento da produção de peixes comercializados: safra junho 2005/junho 2006 – Região do Alto Vale do Itajaí.
ESPÉCIES DESTINO DA PRODUÇÃO
MUNICÍPIO VIV
Nº
Área (ha) Dias de Cultivo
Tilápia Carpa Húngara
Carpa Cabeça Grande
Carpa Prateada
Outras Espécies
Industria Pesque Pague
Propriedade Total de Kgs
ITUPORANGA 37 21,75 M/407 122.755 25.058 18.605 2.026 4.860 43.305 116.193 13.806 173.304
AURORA 43 26,70 M/336 165.361 32.131 17.696 1.356 1.424 29.729 184.498 3.741 217.968
ATALANTA 17 11,10 M/337 93.507 12.435 9.845 276 39 63.110 45.318 7.674 116.102
PETROLANDIA 11 4,95 M/325 40.956 5.415 3.820 - - 19.712 30.479 - 50.191
AGROLANDIA 84 37,60 M/365 190.800 47.700 26.500 - - 95.400 169.600 - 265.000
TROMB. CENTRAL 104 30,10 M/365 112.200 39.600 13.200 - - 67.320 97.680 - 165.000
MIRIM DOCE 21 7,78 M/365 60.000 12.000 8.000 - - 20.000 60.000 - 80.000
PRES. GETÚLIO 60 21,00 M/365 94.500 17.000 14.500 - - 35.000 91.000 - 126.000
POUSO REDONDO 22 15,00 M/365 70.000 6.000 4.000 - - 15.000 65.000 - 80.000
TAIÓ 45 32,00 M/365 85.000 6.600 4.400 - - 25.000 71.000 - 96.000
RIO DO SUL 01 1,00 M/425 6.600 2.200 1.200 - - 6.600 3.400 - 10.000
PRES. NEREU 07 3,55 M/425 19.938 4.261 1.363 - - - 24.284 1.278 25.562
CHAP. LAGEADO 05 1,95 M/415 11.400 2.100 1.500 - - 11.400 3.600 - 15.000
TOTAL 457 214,48 M/374 1.073.017 212.500 124.629 3.658 6.323 431.576 962.052 26.499 1.420.127
FONTE: Escritório EPAGRI Ituporanga – 2007.
111 Para Claudemir Schappo e Sérgio Tamasia (2007), os produtores foram sentindo a necessidade de organização da produção diante dos desafios dos novos tempos, tornando evidente a operacionalização de dois conceitos:
• Impossível sobreviver isoladamente: especialmente no mundo econômico. Isto implica que pessoas devem atuar, agir e interagir entre si com intensidade crescente.
A maneira de colocar estas pessoas em contato, "remando" para o mesmo lado, é através de processos gerenciais ou organizacionais. Quando se deseja que pequenas propriedades produtoras não se transformem em meras unidades de fornecimento de matéria prima, uma das formas organizacionais mais conhecidas são as Associações de Produtores.
• Delegação de responsabilidades: cada vez mais as responsabilidades pelo sucesso do dia a dia estão sendo transferidas aos interessados, que deixam de ser simples atores e passam a ser protagonistas das ações. Dentro desta perspectiva se aproximam o planejamento, o gerenciamento e a execução. Se manifesta através das descentralizações governamentais e parcerias entre os vários componentes da estrutura social.
Nesta nova tendência e através das associações (em suas várias formas jurídicas) torna possível aos produtores:
• Operacionalizarem o importante papel que é hoje o estabelecimento de parcerias;
• Habilita/ajuda aos produtores pleitearem e administrarem recursos necessários para administrar o desenvolvimento coletivo;
• Ter acesso a informações de produção e comercialização de maneira igual á todos;
• Comprarem insumos e equipamentos de forma coletiva;
• Realizarem despesas em forma de mutirão de associados;
• Adquirirem credibilidade para reivindicar e exigir novas políticas públicas para o setor.
Para Claudemir Shappo e Sérgio Tamassia (2007), as principais dificuldades encontradas pelos técnicos na implantação do MAVIPI – Modelo Alto Vale de Piscicultura Integrada, evoluem com o tempo e dizem basicamente respeito ao desenvolvimento do Modelo de Produção e a ampliação da base produtiva:
• Inicialmente centrava-se na falta de organização e na falta de um modelo de produção que atendesse aos requisitos ambientais, tivesse significação
112 socioeconômica e viabilizasse apropriação atrativa de lucros pelos produtores que a praticassem;
• Depois foram as tratativas necessárias para se convencer os órgãos públicos (MP e ambiental) de que a atividade praticada daquela maneira era ambientalmente tolerável e portanto passível de licenciamento ambiental;
• Após o licenciamento para as unidade novas, a dificuldade ainda hoje é o licenciamento das unidades antigas, que atendem aos requisitos relacionados com o controle da entrada/saída de água mas localizam-se em APPs;
• Concomitantemente ao desenrolar da questão licenciamento para unidades antigas, está a questão da liberação do credito. Apesar do governo federal todo ano anunciar a disponibilização de volumes expressivos de recursos, muito pouco é liberado em função das exigências/garantias requeridas o que praticamente inviabiliza a captação pelos produtores típicos da região - pequenos produtores;
• Falta de pessoas atuando na extensão para que se pudesse atender um maior número de municípios;
• Deficiência nossa, como técnicos, que induz atuarmos mais intensamente como
"difusionistas" ao invés de "construtivistas". Tal fato cria vínculos muito forte de
"dependência" dos produtores aos técnicos o que dificulta aos piscicultores caminharem pelas suas pernas, reduzindo assim a capacidade de atuação criativa e com universo mais amplo do técnico, ou seja, é um ciclo vicioso que exige cada vez mais técnicos para conduzir coisas que depois de conhecidas, deveriam ser praticadas regularmente pelos produtores;
• Produtores muito acostumados e muito dependentes do paternalismo Estatal, sendo uma das possíveis causas do relacionado no item anterior;
• Desinteresse ou dificuldade em entender a grande importância da prática de registros e informações para o gerenciamento e sucesso do negócio. Quem anota é apenas o técnico. Também talvez conseqüência do descrito nos dois itens anteriores;
• Dificuldade em convencer os produtores a continuarem a praticar o modelo acordado inicialmente e que foi passível de licenciamento ambiental sob pena de perda do licenciamento.
Segundo técnicos da EPAGRI, as denúncias da APREMAVI sobre a polêmica dos borrachudos acabou lançando um problema tipo ameaça que se transformou em uma
113 oportunidade. Desta forma, a ameaça que ela disponibilizou teve um papel fundamental e importantíssimo para a definição, desenvolvimento e prática do MAVIPI.
(...) num primeiro momento a APREMAVI se apresentou como uma ONG que só olhava os aspecto ambiental, esquecendo-se do técnico, do econômico e principalmente do social. Num segundo momento ela foi importante pois nos mostrou um outro lado, o da preservação do meio ambiente e impacto ambiental gerado pela atividade, e que tinha uma legislação que deveria ser cumprida (técnico EPAGRI).
(...) essas denúncias nos permitiu definir o perfil das propriedades e dos piscicultores, isso significa dizer que a piscicultura não é para todos, e sim aos interessados que se enquadram dentro do que preconiza a Legislação em especial a Ambiental e os padrões do sistema Mavipi (técnico EPAGRI).
Figura 12 – Associativismo e Cooperação Mútua, fundamental para MAVIPI
114 CAPÍTULO VII – CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS