3.2 Aprendizagem Móvel: transformando dialogicamente a educação
3.2.1 A Perspectiva Bring Your Own Device…
14O termo "nativos digitais" foi popularizado por Marc Prensky (2001), para distinguir jovens rodeados por tecnologias digitais desde a sua infância, argumentando que esta influência teria consequências na sua forma de pensar e agir que os diferenciariam das gerações anteriores.
Como visto anteriormente, a progressiva adoção de dispositivos móveis pelos estudantes é um fenômeno que desafia as instituições de ensino a incorporá-las na educação. A partir dessa realidade, uma das possibilidades que emerge no contexto educacional é estimular discentes e docentes a utilizarem seus próprios dispositivos móveis nas atividades educacionais.
Essa prática, denominada “Bring Your Own Device” (BYOD), conforme já mencionada nesta pesquisa, teve sua gênese na Intel no ano de 2009, quando a empresa observou que muitos de seus colaboradores utilizavam seus próprios dispositivos para conectar-se à rede corporativa (JOHNSON et al., 2014).
Mesmo tendo sido fundado no âmbito empresarial, é crescente a adoção da perspectiva BYOD na educação. Apesar das políticas para adoção de tal perspectiva terem sido originadas para a redução de despesas gerais com tecnologia, o BYOD também pode ser considerado como uma proposta de estilo de vida contemporâneo (JOHNSON et al., 2014).
Segundo Burden et al. (2012), a grande vantagem deste conceito é o sentimento de posse do dispositivo, o qual potencializa nos estudantes a vontade de que seu dispositivo funcione verdadeiramente em seu benefício. Contudo, Sharples (2006) ressalta que existe uma grande dificuldade em gerir equipamentos com potencialidades diferentes, devido à diversidade de configurações dos dispositivos que são propriedades dos estudantes e não uniformizadas pela escola.
Entre potencialidades e peculiaridades, a perspectiva BYOD se constitui em uma alternativa de implementação metodológica para práticas pedagógicas mediadas por Tecnologias Digitais Móveis de Informação e Comunicação (TDMIC) no modelo de aprendizagem 1:1 (um dispositivo por estudante) “sem a necessidade de ações e projetos que prevejam em grande escala a aquisição de dispositivos móveis para serem distribuídos aos estudantes” (NICHELE, 2015, p. 80). Em oposição a isso, na perspectiva BYOD os custos relativos à aquisição de dispositivos móveis são transferidos da escola para o estudante (UNESCO, 2013). Porém, a instituição de ensino deverá assegurar uma infraestrutura adequada, principalmente referente ao acesso à banda larga de qualidade, a fim de suportar as possibilidades metodológicas que envolvam a aprendizagem com mobilidade. Na mesma direção, Nichele (2015) acrescenta que:
[...] esses custos – de aquisição do dispositivo pelo estudante; e do fornecimento de infraestrutura adequada por parte da instituição de ensino – deve ser ponderado ao se considerar que a integração das tecnologias móveis e sem fio (TMSF) pessoais ao processo educacional viabiliza a ampliação dos espaços para além da instituição de ensino, proporcionando uma mudança na natureza das atividades de aprendizagem, de modo que elas podem ocorrer em qualquer lugar, a qualquer momento. Assim, naturalmente o contexto do mobile learning é implementado com a prática do BYOD e as atividades educacionais prolongam-se (NICHELE, 2015, p. 80).
No cenário internacional, o Ministério da Educação de Alberta - Província canadense - classificou quatro tipos de BYOD, seguindo uma linha de estandartização (exigência de um dispositivo específico) à flexibilidade (uso de quase qualquer dispositivo) no processo de ensino e aprendizagem, conforme especificado na Figura 2:
Figura 2. Tipos de BYOD
Fonte: Alberta Education (2012, p.11, tradução livre)
Comparando os extremos (modelo 1 e modelo 4), o primeiro pode ser mais vantajoso para os professores, pois exige apenas um modelo de dispositivo, facilitando o planejamento e a execução das aulas. Em contrapartida, no modelo 4 podem existir diversos dispositivos diferentes, o que é capaz de dificultar a aplicabilidade de certos aplicativos. Este modelo exige um maior letramento digital por parte do professor, além de ser mais igualitário, devido ao fato de não segregar os alunos a partir de seus dispositivos (ALBERTA EDUCATION, 2012).
É importante ressaltar, no entanto, que a perspectiva BYOD não está centrada nos dispositivos utilizados, mas sim na possibilidade de conteúdo personalizado que os estudantes irão acessar por meio deles, tornando a aprendizagem mais produtiva, flexível e autônoma. Por esses motivos, pesquisadores da área educacional apontam a perspectiva BYOD como uma das melhores práticas envolvendo tecnologia para a personalização da aprendizagem (JOHNSON et al., 2014).
Em estudos recentes, diferentes pesquisadores analisam as possibilidades educacionais viabilizadas pelo uso dos dispositivos móveis dos próprios alunos (FORTSON, 2013;
NICHELE, 2015; PEREIRA et al. 2016; VIEIRA; COUTINHO, 2016).
Fortson (2013) abordou a perspectiva do professor em classes do tipo BYOD. Sua pesquisa, realizada na Califórnia/USA, verificou que é comum entre os professores da localidade a dificuldade de trabalhar com salas desse tipo, nas quais cada aluno possui um dispositivo com características diferentes. Entretanto, de acordo com o estudo, é possível adaptar para classes BYOD aulas que foram planejadas para classes de dispositivos homogêneos. O autor sugere seguir o princípio das tarefas de dispositivo neutro (device neutral assignments) “[...] os professores não precisam se preocupar com os dispositivos. Os estudantes encontrarão o aplicativo de que precisam” (FORTSON, 2013, p. 6, tradução livre). Portanto, o autor concluiu que o dispositivo é apenas um meio que pode ser adaptado conforme o objetivo da atividade, a qual os próprios alunos irão conduzir e encontrar alternativas para superar os problemas encontrados.
Já Nichele (2015) desenvolveu uma pesquisa objetivando compreender os dispositivos móveis contribuir para processos de ensino e aprendizagem em Química na perspectiva do mobile learning e BYOD, a partir de práticas pedagógicas no contexto da formação inicial de professores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) - Campus Porto Alegre. Com os resultados da pesquisa, foram identificadas as seguintes orientações: a) desenvolver práticas pedagógicas pensadas para qualquer sistema operacional, ou seja, multiplataforma; b) considerar a possibilidade de adoção da metodologia Sala de Aula Invertida15, devido ao acesso à infraestrutura, em especial a qualidade da internet, como forma de minimizar os problemas técnicos das escolas nas atividades escolares; c) planejar previamente a criação de espaços educacionais híbridos e multimodais (NICHELE, 2015).
Pereira et al. (2016) e Vieira e Coutinho (2016) analisaram a possibilidade metodológica do BYOD associado a jogos digitais. Pereira et al. (2016) apresentaram a viabilidade do uso de jogos digitais para a aprendizagem de conceitos matemáticos adotando a perspectiva BYOD e o apoio das redes sociais, tendo como campo de atuação uma escola estadual do município de Cotia em São Paulo. Foram evidenciados desafios, tais como: a) ausência de formação de professores sobre jogos digitais; b) problemas com infraestrutura tecnológica incompatível com as atividades pedagógicas adequadas; c) necessidade da criação de uma metodologia sobre o uso de jogos digitais como apoio na construção de conceitos matemáticos.
Vieira e Coutinho (2016) aplicaram um mobile game de desenvolvimento próprio para o ensino de Geografia sob a perspectiva BYOD potencializando experiências de aprendizagem ao ar livre. A pesquisa identificou altos níveis de motivação e interação. Além disso, as autoras elencam alguns cuidados que os professores devem ter, tais como: a) definição do tema e objetivos; b) verificação da bateria e configuração dos dispositivos; c) conhecimento do percurso para antecipar a falta de cobertura de rede; d) atribuição de recompensas a todas as equipes e utilização diários de campo. Contudo, é importante ressaltar que a pesquisa de Vieira e Coutinho (2016) foi realizada em Portugal, sendo possível contar com a cobertura de rede Wi-Fi disponibilizada gratuitamente pela localidade.
Diante disso, considera-se o BYOD uma nova tendência no contexto nacional, já adotada internacionalmente. Entretanto, no Brasil as instituições de ensino ainda estão se adaptando a ela, descobrindo suas potencialidades e peculiaridades. A possibilidade de estimular os estudantes a explorarem e (re)descobrirem o potencial de seus próprios dispositivos móveis, é um elemento chave para a adoção do m-learning nas instituições de ensino (NICHELE, 2015). Portanto, salienta-se a necessidade de estudos aprofundados sobre a perspectiva BYOD, devido à velocidade das mudanças no cenário das tecnologias móveis e ao reduzido direcionamento metodológico sobre os mesmos em práticas educacionais.
3.3 Jogos Digitais na Educação e as Potencialidades dos Mobile Games de