2.2 Internacionalização de empresas
2.2.2 Perspectiva da Dimensão Financeira da Internacionalização
32
conhecimento e experiências internas da firma seriam capazes de representar recursos heterogêneos escassos e de difícil imitação (conforme princípios da RBV de Barney, 1991).
Não há, na literatura, resultados conclusivos sobre qual das perspectivas é a melhor para explicar a o fenômeno da internacionalização de empresas (Hoskisson et al.., 2000). O que se encontram, são trabalhos teóricos e empíricos que buscam determinar em que tipos de circunstâncias uma ou outra perspectiva possa ser mais adequada ou fatores que aumentem a chance de uma escolha oferecer melhores retornos às empresas. Também não é comum encontrar uma preferência de abordagem da dimensão real que possa explicar a internacionalização financeira. Por ser um modelo multiteórico a internacionalização financeira pode ser relacionada com perspectivas econômicas e comportamentais. Aspectos relevantes apontados pelo modelo econômico, como a Localização (L), podem explicar fatos propostos em Hassel et al.. (2003) e Guerreiro (2006). Oxelheim, Randøy e Stonehill (2001) utilizaram o paradigma OLI para determinar estratégias e resultados exclusivamente voltados à área financeira das organizações. Ademais, outros fatores como a composição do conselho de administração ou a estrutura de propriedade ou ainda a separação entre propriedade e controle podem estar melhores relacionados com teorias comportamentais da internacionalização, por entenderem a importância do conhecimento interno da organização como relevantes ao desempenho (Peng, 2001).
33
A organização de indicadores financeiros internos, compostos de recursos e capital estrangeiro, serve para contribuir às investigações de IB. No entanto, ainda que este agrupamento de indicadores da IF seja relativamente recente, quando analisados individualmente, os indicadores apresentam, em média, vasta literatura. É o caso, por exemplo, da propriedade internacional. Atribui-se a Hymer (1960) o marco teórico dos estudos sobre EMN, no qual se utilizou do FDI como objeto de pesquisa para buscar respostas que explicassem os motivos pelos quais as empresas escolheriam o controle e não o licenciamento em seus processos de internacionalização. Posteriormente, os assuntos ligados ao FDI foram ampliados por autores como Aharoni (1966), Dunning (1977; 2003), Witt e Lewin (2007), Filatotchev, Stephan e Jindra (2008). Outras características financeiras que podem ser internacionalizadas e influenciar o desempenho de uma organização aparecem como estrutura de capital, dupla-listagem, e a própria gestão e ferramentas de governança corporativa, entre outros, como aspectos relacionados com a composição do board de uma empresa. Juntas, estas e outras características são frequentemente temas de trabalhos acadêmicos, ainda que, somente com o advento da dimensão financeira (Hassel et al.., 2003) é que foram agrupados em um objeto de estudo único.
A partir dos antecedentes que envolvem as estruturas e características financeiras de uma organização e sua relação com mercados estrangeiros, o fluxo internacional de recursos e capitais passou a ser estudado e mais frequente (Claessens e Schmuker, 2007;
Zabalandikoetxea e Mallo, 2008). A queda de barreiras internacionais, no que Friedman (2005) convencionou chamar de mundo flat, facilitou o acesso de empresas aos mercados estrangeiros, bem como de investidores e profissionais. Essas barreiras culturais, políticas, sociais e mesmo físicas, prejudicavam os negócios internacionais. O surgimento de tecnologias e políticas em prol de sistemas financeiros e ferramentas de fluxo de recursos pelo mundo, se mostrou essencial. Neste sentido, a internacionalização do capital (Hymer, 1976) ou mesmo a globalização do capital (Chesnais, 1994) foram influenciados por um sistema financeiro mais robusto e institucionalizado (Rajan & Zingales, 2003; Levine, 2005; Torre &
Schmukler, 2007). Tal realidade trouxe a opção às empresas de se utilizarem de recursos internacionais via emissão de dívida ou propriedade, na busca por capital financeiro que pudesse alavancar a empresa em maiores graus e/ou com menores juros que aqueles praticados no mercado nacional (Prasad et al.., 2003; Stulz, 2005; Levine, 2005; Claessens &
Schmukler, 2007). A partir dessas características, observa-se um ambiente econômico mundial com fluxo de recursos facilitado, propício ao ambiente corporativo via transferências
34
internacionais (Levine, 2005; Gozzi et al.., 2010; al.., 2012). Diante de um mercado cujas características de internacionalização já se aplicam em diversos níveis dos aspectos corporativos, surgiu a necessidade de investigar, de forma integrada, a dimensão financeira da firma. (Hassel et al.., 2003; Guerreiro, 2006; Urionabarrenetxea & Castellanos, 2010;
Oxelheim et al.., 2012).
A perspectiva da IF surgiu inicialmente na Alemanha com o trabalho de Hassel et al.. (2003) que investigaram as 100 maiores empresas do país. Nesta pesquisa, o modelo tradicional de grau de internacionalização das empresas foi comparado com um indicador proposto de grau de internacionalização financeira. Compunham os indicadores da IF de Hassel et al.. (2003), a porcentagem total de propriedade estrangeira, o número de listagens em bolsas estrangeiras e o padrão das demonstrações financeiras. Em testes estatísticos foram encontrados resultados que apontam para a nulidade de hipótese de covariação entre o grau de internacionalização real e a internacionalização financeira. Por fim, conclui o estudo de Hassel et al.. (2003), que a internacionalização financeira pode ser vista como uma forma alternativa à internacionalização tradicional de empresas, ao que convencionou chamar de dimensão real da internacionalização. Os autores apenas buscam comparar a internacionalização real com a financeira e em nenhum momento buscam relacionar a IF com indicadores de rentabilidade, estrutura de capital ou mesmo de desempenho, foco desta dissertação.
A Figura 5 apresenta o modelo de internacionalização de Hassel et al.. (2003) bem como os indicadores e nomenclaturas utilizadas pelos autores. Para medir o grau de internacionalização tradicional das empresas (real dimension) foram utilizados os indicadores Transnationality Index (TNi) publicado em relatórios periódicos pela UNCTAD, o Transnationality Spread Index (TSi), inicialmente proposto por Ietto-Gillies (1998) e o Degree of Internationalization Scale (DOI) de Sullivan (1994). (Hassel et al.., 2003). Os indicadores de grau de internacionalização de empresas é assunto recorrente em IB (Sullivan, 1994; Ramaswamy & Kroeck, 1996; Hoskisson et al.., 2000). Já para a IF (financial dimensions) foram utilizados aqueles indicadores já comentados, traduzido por Foreign Owners as percentage of Total Ownership (FOTO), Foreign Stock Exchanges (Listings FSE) e, por fim, Accounting Standards (AS).
35
Figura 5 – Modelo de internacionalização da dimensão real x dimensão financeira Fonte: Adaptado de Hassel et al.. (2003)
No modelo da figura 5, as evidências apontam para um descolamento entre os indicadores de internacionalização da dimensão real para com a financeira. Assim, sustentam Hassel et al..
(2003) que, como são fenômenos que não apresentam covariância, não devem ser agrupados em um único índice de grau de internacionalização. Ainda que relevantes ao desenvolvimento dos estudos de IB, os resultados de Hassel et al.. (2003) não são suficiente para afirmar que a internacionalização da dimensão financeira pode trazer melhores retornos às organizações, mas sim que a dimensão financeira existe e não possui covariância com a dimensão real. O foco desta dissertação será verificar justamente o desempenho a partir da ideia de internacionalização financeira de Hassel et al.. (2003).
Outros estudos buscaram relacionar os aspectos da internacionalização financeira à performance da empresa e outros fatores internos. Guerreiro (2006) investigou a participação de estrangeiros na propriedade e no board de bancos portugueses e encontrou relações positivas para a queda do custo de capital e ganhos de estrutura e eficiência operacional.
Zabalandikoetxea e Mallo (2008) identificaram que 72% das empresas financeiramente internacionalizadas investigadas na Espanha indicam que o fizeram por entenderem que esta prática traria maior liquidez de recursos, transparência, alavancagem e menores custos de
36
capitais. Dessa formam, posicionam as autoras que a eficiência dos mercados financeiros internacionais representa fatores importantes para a internacionalização financeira.
Urionabarrenetxea e Castellanos (2010) relacionaram a internacionalização financeira à dimensão real e encontraram que, em média, empresas espanholas tendem a obterem financiamentos internacionais apenas após efetuarem processos de exportação ou importação com o país em questão. No caso brasileiro, especificamente, pouca atenção foi dada aos aspectos integrados da internacionalização financeira. Cyrino e Barcellos (2006) comentam, ainda que brevemente, que a internacionalização se subdivide em seis grandes áreas, a saber:
produtos e mercados, ativos, distribuição, produção global, governança e cultura. Para os autores, esses tipos de internacionalização podem ocorrer de forma integrada, ou separadamente. No entanto, a delimitação de Cyrino e Barcellos (2006) não parece obedecer a uma ordem especificamente financeira, já que separam o tipo de internacionalização dos ativos (ao incluir o FDI) daqueles de governança. Observa-se que, embora estudos tenham evoluído nas investigações acerca da internacionalização financeira, novas perspectivas e tratamentos podem trazer contribuições empírico-teóricas ao tema investigado nesta pesquisa.
Assim como os estudos supracitados e outros que investigam a participação de capital ou recursos estrangeiros nas empresas, esta dissertação busca investigar se a dimensão financeira da internacionalização é capaz de gerar vantagens competitivas às organizações. Tais vantagens apareceriam nos indicadores de performance econômico-financeiros e de mercado a serem analisados. Logo, se as estratégias de internacionalização financeira podem representar vantagens heterogêneas nas empresas, seu estudo pode trazer novos insights à gestão corporativa. Nesta pesquisa serão investigadas as participações de estrangeiros na estrutura de capital, de propriedade, composição do conselho de administração, entre outros.
Para melhor compreender estes conceitos, as teorias serão brevemente apresentadas a seguir, já relacionadas com a internacionalização financeira.