manter um relacionamento afetivo, que nenhuma finalidade positiva seria alcançada com a indenização pleiteada”307.
Em recente decisão da Oitava Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, nos autos da Apelação Cível nº. 2009.00141668 a relatora Desembargadora Ana Maria Oliveira308, fundamentou seu entendimento favorável à reparação:
Evidente que inexiste a obrigação do pai de sentir afeto pelo filho, sendo impossível a imposição do laço sentimental. Devem, no entanto, os genitores, propiciar aos filhos o desenvolvimento sadio de seu caráter, não apenas amparando materialmente, mas também resguardando sua integridade psicológica e moral, para que ocorra seu crescimento emocional.
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais309, também em recentes decisões não entendeu pelo dever de ressarcimento, conforme fundamenta o julgado:
O afeto não se trata de um dever do pai, mas decorre de uma opção inconsciente de verdadeira adoção, de modo que o abandono afetivo deste para com o filho não implica ato ilícito nem dano injusto, e, assim o sendo, não há falar em dever de indenizar, por ausência desses requisitos de responsabilidade civil.
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul310, também em recente decisão, entendeu que não houve a caracterização do dano no caso em tela, esclarecendo por sua vez o entendimento acerca do abandono afetivo:
Enfim, não se pode negar que a falta de afeto paterno pode, sim, causar sofrimentos. Todavia, por mais reprovável que seja o abandono praticado pelo pai e a dor suportada pelo filho – no caso, não demonstrada -, as respostas jurídicas possíveis são a fixação de alimentos, no que tange ao dano material, e a destituição do pátrio poder, no campo extrapatrimonial.
Logo, não se pode a ele imputar ato ilícito algum e, consequentemente, o dever de indenizar. Por isso, não há qualquer reparo a ser feito na sentença.
307 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº. 757.411. Rel. Min. Fernando Gonçalves, j. 29 de nov. de 2005.
308 RIO DE JANEIRO, Tribunal de Justiça. Apelação Cível nº. 2009.001.41668. Rel.
Desembargadora Ana Maria Oliveira, j. 20 de out. de 2009.
309 MINAS GERAIS, Tribunal de Justiça. Apelação Cível nº. 1.0499.07.006379-1. Rel. Luciano Pinto, j. 27 de nov. de 2008.
310 RIO GRANDE SO SUL, Tribunal de Justiça. Apelação Cível nº. 700301422852009. Rel. Alzir Felippe Schmitz, j. 30 de jul. de 2009.
Por fim, o presente feito, mesmo solucionado na esfera jurídica, possivelmente deixará sem solução breve a questão do afeto, pois, se era afeição o que o autor queria, por certo dificultou a sua progênie, eis que o caminho trilhado através do litígio é mais longo e tormentoso.
Importante destacar ainda, a decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul da Apelação Cível nº. 70029285277311, que também fundamentou sua decisão sob o entendimento de não responsabilização por abandono afetivo, conforme segue:
Com efeito, o pedido de indenização vem amparado na alegação de abandono afetivo e material.
No sistema jurídico vigente, o dever de indenizar pressupõe o ato ilícito, o que significa ser necessário demonstrar o fato lesivo, o dano e o nexo de causalidade entre o dano e o ato do agente.
Na esfera do Direito de Família, este Tribunal de Justiça tem entendido que somente em situações especialíssimas é possível condenar-se ao pagamento de indenização por danos morais e materiais em face do chamado abandono afetivo.
[...]
Ora, não se desconhecem os direitos e deveres inerentes ao poder familiar, entre eles, o de sustento, criação e educação dos filhos.
Tampouco se olvida o direito à convivência familiar previsto no art.
227 da CF e o princípio da dignidade da pessoa humana.
Entretanto, entendo que, não obstante existirem ações ou omissões de podem levar à responsabilização do genitor, a ausência de afeto, de relação paternoafetiva, por si só, não conduz ao dever de indenizar.
O Tribunal de Justiça de Santa Catarina, em decisão proferida no ano em curso da Apelação Cível nº. 2008.057288-0, oriunda da Comarca de Criciúma312, também se filia ao entendimento da não reparação por abandono afetivo:
Não se nega a dor tolerada por um filho que cresce sem o afeto do pai, bem como o abalo que o ABANDONO causa ao infante; porém a reparação pecuniária além de não acalentar o sofrimento do filho ou suprir a falta de amor paterno poderá provocar um abismo entre pai e filho, na medida que o genitor, após a determinação judicial de reparar o filho por não lhe ter prestado auxílio AFETIVO, talvez não mais encontre ambiente para reconstruir o relacionamento.
311 RIO GRANDE SO SUL, Tribunal de Justiça. Apelação Cível nº. 700292852772009. Rel. José Conrado de Souza Júnior, j. 24 de jun. de 2009.
312 SANTA CATARINA, Tribunal de Justiça. Apelação Cível nº. 2006.015053-0. Rel. Monteiro Rocha, j. 13 de fev. de 2009.
Contrário a este entendimento, estabeleceu a decisão da Apelação Cível sob os autos nº. 2006.015053-0, oriunda da comarca de São José, apreciada pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina313, fundamentou sua decisão, sendo favorável a indenização por abandono afetivo: “O pai que se omite em cuidar do filho, abandonando-o, ofende a integridade psicossomática deste, acarretando ilícito ensejador de reparação moral”.
Depreende-se ainda do presente julgado:
Haja vista a imprescindibilidade da presença paterna na existência do indivíduo e, tendo em conta os efeitos negativos da ausência do pai na vida do filho, é inegável que o abandono afetivo constitui ato atentatório à dignidade da pessoa humana em processo de desenvolvimento e hábil a gerar dano moral.
O entendimento do Superior Tribunal de Justiça vem consubstanciado no sentido da não caracterização da responsabilidade civil por abandono afetivo, pois afirma que não cabe ao Poder Judiciário obrigar alguém a amar, posição esta que fundamenta algumas decisões de tribunais pátrios, mas não limita que outros tribunais tenham entendimentos contrários.
Diante disto, verifica-se que segundo o entendimento de alguns magistrados em decisões de primeiro grau, não está pacificado o entendimento acerca da responsabilidade civil por abandono afetivo na filiação, e por consequencia o dever de reparar.
No entanto, seguindo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça, a maioria das decisões recentes do ano em curso acerca do tema, entendem que o abandono afetivo não caracteriza o dever de reparar, mas também não é unânime este entendimento entre os tribunais brasileiros, motivo pelo qual, deve o magistrado tratar com muita cautela as ações decorrentes do abandono afetivo.
313 SANTA CATARINA, Tribunal de Justiça. Apelação Cível nº. 2006.015053-0. Rel. Monteiro Rocha, j. 13 de fev. de 2009.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho teve o objetivo principal o estudo da responsabilidade civil por abandono afetivo na filiação, tendo em vista que o referido tema está em evidência na sociedade e por consequencia no mundo jurídico.
O Capítulo 1, abordou lições sobre família, estudando seu conceito, a evolução histórica, os princípios constitucionais aplicados ao Direito de família, os tipos de família constitucionais, a filiação e, por conseguinte os direitos e deveres inerentes à filiação.
No Capítulo 2, estudou-se os aspectos gerais da responsabilidade civil, através de seu conceito, evolução histórica, seus elementos, a distinção entre responsabilidade civil objetiva e responsabilidade civil subjetiva, bem como o estudo da responsabilidade civil contratual e a responsabilidade civil extracontratual.
Por fim, o Capítulo 3, trouxe essencialmente o núcleo do objeto do referido estudo, ou seja, as abordagens acerca da responsabilidade civil por abandono afetivo na filiação.
Diante disto, para a compreensão do estudo acima indicado, passa-se a analisar as hipóteses da pesquisa de forma conclusiva.
A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 de forma contundente trouxe princípios essenciais que abrigam a instituição familiar, de modo que, o Estado passou a dar maior proteção a cada integrante deste núcleo, principalmente no que diz respeito à pessoa dos filhos, mediante o poder familiar, que se configura pelo direito e dever dos pais com relação aos filhos, que é juridicamente tutelado pelo Estado, restando, portanto, confirmada a primeira hipótese.
A responsabilização civil é tema atuante no mundo jurídico, tendo em vista que o agente que causar dano a outrem, mediante a configuração dos elementos pertinentes à responsabilidade civil, de modo que pode a culpa ser apreciada ou não para uma possível reparação, podendo ser tanto responsabilização objetiva quanto subjetiva, confirmando neste ínterim a segunda hipótese de pesquisa.
O afeto é tema de grande relevância para a sociedade e por conseqüência para o mundo jurídico, após o advento da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 que trouxe o princípio da afetividade, como sustentação do Direito de Família.
Não se pode deixar de conceber que o afeto tem sublime importância para a formação do indivíduo no seio familiar, no entanto não é pacífico o entendimento de que a falta desse tipo de sentimento, o qual, alguns entendem não como sentir, mas como agir, remeteria ao direito de reparação, de modo que a terceira não restou confirmada.
Suma a importância salientar, que o entendimento doutrinário dos especialistas em família, em sua maioria, entendem que o abandono afetivo paterno-filial gera a responsabilização civil, bem como se filiam desse entendimento alguns tribunais brasileiros.
No entanto, esse entendimento encontra óbice nos julgamentos dos casos concretos, principalmente no Superior Tribunal de Justiça, de modo que os julgadores fundamentam sua decisão no sentido que Estado não pode obrigar alguém a sentir o amor, o carinho e o afeto, sendo que neste caso a função da reparação pela responsabilidade civil não estaria estampada de suas principais funções, quais sejam, a sanção e a compensação.
Expostas essas considerações, reconhece-se que é um tema que ainda não possui entendimento pacificado, de modo que, a qualquer tempo, tanto na sociedade, quanto no mundo jurídico pode sofrer alteração de grande valia.
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