A partir da caracterização dos dois sujeitos da pesquisa (stakeholders da EP e empreendedores) e das duas amostras (Escócia e Brasil), parte-se para a descrição dos procedimentos e análise dos dados.
QUADRO 29 — ESTUDOS EMPÍRICOS SOBRE EMPREENDEDORISMO E IPA
Autores Foco do estudo País de origem
Kempster e Cope (2010)
Aprendizagem da liderança no contexto do empreendedorismo.
Reino Unido
Cope (2011) Aprendizagem empreendedora a partir das falhas e fracassos empresariais.
Reino Unido
Rehman e Roomi (2012)
Explorar os fatores de influência da vida profissional e pessoal na carreira de mulheres empreendedoras.
Paquistão/Reino Unido
Berglund (2013) Estudo conceitual sobre a fenomenologia enquanto complemento das abordagens cognitivas e discursivas.
Suécia
Peltonen (2014) Aprendizagem colaborativa de competências
empreendedoras de professores dos níveis primário e secundário.
Finlândia
Tasnim, Yahya e Zainuddin (2014)
Compreender a relação entre perseverança e sucesso na trajetória de empreendedores.
Holanda/Malásia
Lewis (2015) Relações entre empreendedorismo feminino e liderança. Nova Zelândia Ekanem (2015) Diferenças entre a aprendizagem empreendedora de
homens e mulheres.
Reino Unido
Patten (2016) Experiências vividas de empreendedores nas indústrias criativas.
Irlanda
Fonte: Autoria própria (2017).
O mais comum método de coleta de dados é a entrevista semiestruturada em profundidade, que deve ser gravada e transcrita antes de se iniciar a análise. As amostras na IPA geralmente são pequenas, oscilando entre casos únicos até 8 participantes, que seja suficiente para que o potencial da IPA seja alcançado (SMITH;
FLOWERS; OSBORN, 1997; SMITH; FLOWERS; LARKIN, 2009).
Smith (2010) apresenta alguns critérios para avaliar a qualidade de pesquisas que utilizam IPA (Quadro 30), os quais fundamentam teoricamente os princípios de IPA, sua característica fenomenológica, hermenêutica e idiográfica; clareza para que o leitor identifique o tema que foi tratado; coerência, e análises interessantes e plausíveis; amostra suficiente para a proposta do estudo, que demonstre densidade para o tema. Apresenta-se o Quadro 30, com os atributos que determinam a qualidade dos estudos.
QUADRO 30 — PROCESSO DE ANÁLISE DA IPA
Atributo Descrição
Deve ter um claro foco O estudo deve fornecer detalhes de um aspecto particular, em vez de uma abordagem mais ampla. Este foco pode ser determinado no início ou surgir durante a análise.
Deve ter dados suficientemente fortes
Em geral os dados são resultantes de entrevista, sendo necessário um rigoroso processo de entrevista, habilidade esta que não pode ser subestimada, pois esta etapa afetará a qualidade do estudo.
Deve ter rigorosidade no método
Os temas que constam na análise precisam ser mencionados no corpo do trabalho por meio de citações dos entrevistados. Estas devem ser selecionadas para indicar convergência ou divergência, representatividade e variedade de resultados.
Amostragem Amostras pequenas (de 1 a 3 entrevistados) devem aparecer citações de todos. De 4 a 8 participantes, ao menos metade deles devem apresentar as evidências. Amostras maiores devem apresentar evidências de pelo menos 3 ou 4 sujeitos.
Dar espaço para a exploração dos temas
É melhor explorar a fundo categorias e subcategorias relevantes ou emergentes, do que tratar de todas elas superficialmente.
A análise deve ser interpretativa
A análise deve seguir os extratos apresentados. O autor está mostrando assim os assuntos que estão contribuindo para a análise do tema, estando envolvido numa dupla hermenêutica: tentando fazer sentido do participante e tentando fazer sentido de sua experiência.
A análise deve apresentar convergências e divergências
Deve apresentar padrões de similaridade entre os participantes, bem como apresentar experiências individuais. As narrativas devem seguir a análise interpretativa de como os participantes se manifestam em diferentes e particulares modos. O realce das similaridades, diferenças é a marca de um bom trabalho com IPA.
Deve ser cuidadosamente escrito
O leitor deve se sentir envolvido com uma narrativa bem-feita. Como resultado, ele irá considerar que aprendeu em detalhes sobre a experiência do participante do fenômeno sob investigação.
Fonte: Elaboração própria a partir de Smith (2011).
As entrevistas junto aos empreendedores seguiram pressupostos baseados no interpretativismo, especificamente por meio da fenomenologia, na qual, de acordo com King (2004), a principal preocupação do pesquisador recai sobre a obtenção de informações precisas do entrevistado, não viciada por fatores de relacionamento.
Deve-se atentar também para a reflexividade que se refere ao reconhecimento de que o envolvimento do pesquisador como um participante ativo no processo de pesquisa molda a natureza do processo e do conhecimento produzido por ela.
A análise dos dados na IPA é um processo interativo da descrição fluida e engajamento com a transcrição, que envolve flexibilidade de pensamento, processo de redução e expansão, revisão, criatividade e inovação (SMITH; FLOWERS, OSBORN, 1997). Assim o processo analítico é multidirecional, há uma constante elevação entre diferentes processos analíticos. A análise é aberta à mudança, e seu
único pensamento fixo é agir para registrar os fatos, sendo que o dinamismo proporciona qualidade à análise qualitativa. A Figura 5 apresenta uma visão geral dos procedimentos de análises da IPA.
FIGURA 5 — PROCEDIMENTO DE ANÁLISE DA IPA
Fonte: Elaboração própria a partir de Smith; Flowers; Larkin (2009).
Ressalta-se que não foram localizados no Brasil estudos que tratem da IPA na área de administração, por este motivo optou-se por apresentar o procedimento da análise IPA com maiores detalhes no Quadro 31, assim como a forma de aplicação na presente pesquisa. Os estudos estrangeiros que fazem uso da técnica de análise são predominamentemente na área de psicologia, assim abre-se a possibilidade de outros estudos utilizando a técnica no Brasil, em especial na área de administração.
Análise IPA
Ler e reler
Notas iniciais
Desenvolvimento de temas emergentes
Procurando conexões entre temas mergentes
Indo para outros casos
Procurando padrões de comparação entre os
casos
Comentários descritivos
Comentários linguísticos
Comentários conceituais
Desconstrução
Visão geral da Construção dass Notas Iniciais
Abstração
Subsunção
Polarização
Contextualização
Enumeração
Função
Congregar informações
Outros processos de análise
QUADRO 31 — APLICAÇÃO DA ANÁLISE DE DADOS DA IPA NA TESE
Passos Descrição Aplicação na tese
Passo 1 - Ler e reler
Se o transcrito for de uma entrevista é necessário ouvir o áudio para imaginar a voz do participante durante as questões e recordar as reações. O processo é lento, há necessidade de sumarizar e compreender as mensagens do entrevistado, recordar as expressões e criar os códigos das emoções e das primeiras análises do texto, já registrando as primeiras ideias e conexões. Neste processo é necessário organizar o texto em ordem cronológica. Estas leituras trazem a possibilidade de localizar detalhes e ricas informações que serão analisadas posteriormente.
As 12 entrevistas com os gestores e professores das instituições na fase 1 da pesquisa, bem como as 5 entrevistas com brasileiros e as 5 com escoceses foram por diversas vezes lidas e relidas, bem como utilizou-se o áudio para auxiliar a pré-análise.
Passo 2 - Anotações
iniciais
Acontece paralelamente com a primeira etapa. Examina o conteúdo semântico e a linguagem usada num nível exploratório. A análise mantém a mente aberta para anotar tudo que interessa dentro do transcrito. Nesta fase também a separação do mesmo em unidades de sentido e assinala-se comentários em cada uma delas. É necessário comentar as diferenças e similaridades, ecos, amplificações, contradições no qual a pessoa está dizendo.
Os elementos linguísticos como pausas, risos, aspectos funcionais da linguagem, repetição, entonação, grau de fluência e metáforas podem descrever componentes importantes da análise. Finaliza-se buscando compreender as percepções emergentes e a desconstrução e reorganização do texto para facilitar o processo de análise.
Em paralelo à leitura as anotações foram realizadas nos arquivos de cada uma das entrevistas.
Passo 3 – Desenvol-
vendo temas emergentes
A tarefa é gerenciar os dados em busca de reduzir o volume de detalhes a partir das notas iniciais. Esta categorização é complexa em termos de mapear as inter- relações, conexões e padrões entre as notas exploratórias. Nesta etapa o pesquisador se afasta do entrevistado e se coloca no texto, interprestando as experiências vividas. O resultado da análise será um produto de ambos - pesquisador e pesquisado – a partir dos esforços de colaboração mútua (SMITH; FLOWERS;
LARKIN, 2009, p. 92). Estes temas geralmente são expressos em frases ou afirmativas, que são a essência do que do trecho e contém suficientes particularidades para mover-se da abstração para o conceitual. Esta etapa é um processo sinérgico de descrição e interpretação.
Os temas decorrentes
da pesquisa
bibliográfica foram sendo acrescentados
com os temas
emergentes a partir das análises das entrevistas.
Passo 4 - Buscando
conexões entre os
temas emergentes
Depois de levantar os temas emergentes e os organizar de maneira cronológica, o próximo passo é mapear e analisar como os temas se relacionam. Nem todos os temas emergentes precisam ter articulação entre si, alguns podem ser descartados, pois dependem muito do que está se buscando com o estudo e da relevância da informação.
Nesta etapa podem estar presente a:
Abstração (identificar padrões entre os temas emergentes e os super-temas centrais);
Subsunção (quando um tema adquirie super status na pesquisa, e traz consigo uma série de outros temas relevantes)
Polarização (analisar temas de relacionamento
Diversos temas foram levantados e mesclados a partir da análise semântica e pragmática dos temas.
totalmente oposto, focando nas diferenças ao invés das similaridades);
Contextualização (identificar o contexto do tema emergente na narrativa – cultural, temporal, etc);
Enumeração (criação de indicadores numéricos, ou quantificar respostas, quando necessário, indicando frequências de temas emregentes a partir de sua relevancia);
Função (temas emergentes podem ser examinados por suas funções específicas dentro do transcrito);
Trazendo tudo junto (organizar temas de um jeito criativo e elevar o nível das análises);
Outros processos para ajudar a análise (compliar extratos de transcritos e criar arquivos com temas emergentes, comentar e tematizar no computador)
Passo 5 – Indo para o
próximo caso
Repetir o processo do caso inicial para o próximo caso, tratando-o com suas próprias particularidades, evitando replicar a lógica empregada no anterior. É lógico que haverá influência dos achados anteriores, mas a importante habilidade do pesquisador é saber buscar novos temas emergentes.
Ao finalizar um caso (entrevista), iniciou-se o próximo, trazendo consigo as categorias que surgiram, bem como a abertura para novos temas.
Passo 6 – Buscando padrões através dos
casos
Significa criar uma tabela ou figura observando através dos casos. Que conexões há entre eles? Como o tema de um ajuda a revelar um diferente caso? Quais temas são mais potentes? Esta etapa pode levar a reconfigurar os títulos dos temas, se tornando uma tarefa criativa. Sua apresentação final pode ser em formato de gráfico, tabela expressando as conexões entre os grupos como um todo.
Ao término das análises das 12 entrevistas da primeira fase e de todos os 5 casos brasileiros e 5 escoceses, buscou-se mapear as relações existentes entre os casos, a partir de
semelhanças e
divergências.
Fonte: Elabação própria a partir de Smith; Flowers; Larkin (2009).
Finalmente, a partir da descrição detalhada da IPA, apresenta-se a Figura 6, que detalha o esquema metodológico da presente tese.
FIGURA 6 — ESQUEMA METODOLÓGICO DA PESQUISA DE TESE
Fonte: Autoria própria (2017).
Contexto da Educação Profissional na Escócia Contexto da Educação Profissional no Brasil
1ª Etapa da tese:
Pesquisa exploratória
2° Etapa da pesquisa:
Empreendedores Definição das categorias: Educação
Profissional + Educação Empreendedora
Pré-teste das Categorias de Análise
Entrevistas junto aos stakeholders da Educação Profissional (Brasil e
Escócia)
Observação participante das práticas de Educação Empreendedora na Escócia – Estágio doutoral
Definição das categorias e temas para empreendedores
Necessidade de aplicação a professores
Entrevistas fenomenológicas Empreendedores (COPE, 2005)
Readequação, exclusão e validação das categorias e temas previamente levantados e temas emergentes.
Análise Interpretativa Fenomenológica IPA (SMITH; FLOWERS; LARKIN, 2009)
Geração do Relatório Final Conclusivo
Sugestões e proposições de melhorias para a Educação Empreendedora no contexto da Educação Profissional Brasileira
Pressupostos teóricos: Educação Profissional e Educação Empreendedora
Readequação, exclusão e validação das categorias e temas
Pré-teste das Categorias de Análise
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
O quarto capítulo da tese apresenta a descrição e análise dos resultados obtidos por meio das etapas da pesquisa descritas anteriormente. Inicia-se com a análise da observação participante de seis meses no período do estágio doutoral. Na sequência, a apresentação dos dados pertencentes a cada uma das categorias pesquisadas, sendo elas: 4 categorias institucionais (educação profissional, educação empreendedora nível macro-organizacional, nível institucional e aprendizagem empreendedora), que são resultado da etapa exploratória por meio das entrevistas junto aos stakeholders (gestores e professores) das instituições sobre as suas práticas do ensino do empreendedorismo. Posteriormente são analisadas as categorias provenientes das narrativas dos empreendedores pesquisados no Brasil e na Escócia: aprendizagem empreendedora, nível individual, além da categoria emergente: nível institucional.
4.1 ENSINO DO EMPREENDEDORISMO NA ESCÓCIA: OBSERVAÇÃO