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— “[...] vou compra pra minha neta que é muito nervosa e vai faze cirurgia..., é bom a gente sabe disso...” (P1).

No momento da reflexão de uma situação codificada, observam-se as idas e vindas, do concreto para o abstrato e do abstrato para o concreto, apresentando o movimento dialético (FREIRE, 1971).

À medida que as participantes iam exteriorizando suas ideias e constatações, iam percebendo como atuavam ao viverem a situação analisada — o que Freire (2008) chama de percepção da percepção anterior.

Gênero e papéis de gênero estão profundamente enraizados na matriz cultural de cada sociedade e são transmitidos através dos modelos de família, de geração em geração. Existe uma hierarquia entre seus membros fundada no gênero, na idade e no parentesco, que se expressa em relações contratuais, explícitas, como no caso do casamento, e implícitas, no caso da coabitação. Dela resulta uma divisão de tarefas que varia de acordo com os costumes, o gênero, a idade e o local; ela é flexível, pois é influenciada por circunstâncias novas como nascimento, mortes, doenças, crises econômicas e oportunidades. A luta por estabelecer uma divisão de trabalho mais equitativa é constante, deixando claro que as unidades domésticas apresentam, ao mesmo tempo, um comportamento cooperativo e outro conflitivo (FRIEDMAN, 1996).

Essa dinâmica oportunizou trabalhar com o grupo de mulheres dentro da metodologia de Freire, ajudando a perceber, em termos críticos, o que caracteriza sua vida, e pensar que se desejarem é possível fazer mudanças.

39 atividade. Novamente observamos, através da fala das participantes, características individuais que as diferenciam ou o momento pelo qual estão passando:

— “Bom, eu peguei o papel que diz: terapia, alegria, sentir-se útil, mas pra mim o trabalho não é uma terapia ao contrário me dá muita canseira, sou a primeira a levanta em casa e a última a deita, faço o serviço de casa, cozinho, limpo, arrumo e não tenho ajuda de ninguém por isso não posso dizer que me dá alegria” (P5).

— “Mas e agora que você sofreu essa cirurgia no seu braço, as suas filha não te ajudam?”

(P4).

— “Que nada, não querem nem sabe, ninguém ta nem aí pra mim...” (P5).

— “Mas por que elas não tem ajudam, não foram ensinadas?” (P3).

— “Eu ensinei, mas elas dizem que não gostam do trabalho de casa, preferem trabalha fora, querem estuda, uma tá fazendo auto escola pra dirigir, detestam serviço de casa e aí sobra pra mim” (P5).

A presença de uma doença repercute na vivência familiar, laboral e social. Essas repercussões podem ser observadas nos pacientes com esforço repetitivo, que podem expressar sentimentos de desvalia, insegurança quanto ao futuro profissional, inconformismo frente a algumas limitações, incerteza e medo quanto ao seu futuro, morosidade no processo terapêutico e de reabilitação, medos, manifestações depressivas e de revolta e incorporações de ideias de autoculpabilização (MERLO et al., 2001).

A participante P5 demonstrou interesse pela situação vivenciada por P4 ao questioná- la sobre a sua intenção em relação ao futuro:

— “Bem o meu papel diz: tristeza, perseguição, pressão, concordo porque o meu é uma mistura de alegria e tristeza, e entendo porque tem dias que não tenho vontade de ir...”

(P4).

— “Onde você trabalha mesmo?” (P5).

— “Cuido dum velhinho, lembra? Adoro ele e o que faço, o problema é a filha dele, eu fico lá enquanto ele tivé , depois...” (P4).

— “Você já pensou no que vai faze depois?” (P5).

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— “Sim, eu preciso deste trabalho, ajuda muito, depois eu penso de abri o meu próprio negócio, nos trazemo queijo e requeijão da chacra e vendemo muito bem ...” (P4).

Foi possível perceber a demonstração de afeto da participante P1 em relação a P3, motivando-a a procurar soluções e seguir em frente:

— “O meu papel fala que o trabalho faz parte da vida, não saberia viver sem fazer nada, gosto de tudo o que faço concordo com tudo que tá aqui” (P3).

— “O trabalho é minha única alegria, pra fugi dos pensamento ruim, da tristeza e gosto muito de limpa e vê a minha casa cheirosa... isso me acalma muito” (P3).

— “Lembra que a gente comentou na última reunião a respeito de você ter uma atividade com artesanato, parece que você gostou da ideia” (P1).

— “Sim, vou procura, mas agora com os feriado de final de ano, nada funciona...” (P3).

— “Sei como você ta se sentindo, essa dor é terrível, mas tenha fé, que você vai vence” (P1).

A participante P2 expôs ao grupo a sua indignação em relação ao que sofreu no seu trabalho:

— “Tá escrito aqui que o trabalho é um pouco de alegria e estressante ao mesmo tempo, e entendo porque é o que eu mais sentia quando tava trabalhando” (P2).

— “É você que ta afastada, né?” (P4).

— “Sim, eu trabalhava com dor, reclamava e o patrão dizia que tava fazendo corpo mole, não gosto nem de lembra. Antes eu trabalhava feliz, alegre, gostava do que fazia, mas, depois que entrou uma chefe nova, virô um pesadelo” (P2),

— “Você nunca reclamou, por que não gravou ela te desacatando?” (P5),

— “Na época não tive ideia e mesmo que tivesse eu não tenho muito estudo, tinha medo de perde o meu emprego, trabalhava e fazia de tudo que me mandavam, até que estouro meu braço de tanto trabalha...” (P2).

A culpabilização dos trabalhadores se dá também porque a expressão de dor é entendida pelas pessoas como fraqueza individual, desculpa para não trabalhar ou até mesmo

41 fingimento, descaracterizando o que os achados epidemiológicos apontam sobre a etiologia ocupacional associada a fatores psíquicos, biomecânicos e organizacionais da atividade de trabalho (SATO et al., 1993).

Foram muito interessantes e surpreendentes os relatos que surgiram espontaneamente em torno do tema proposto:

— “[...] bem o que peguei diz que trabalho é alegria e concordo porque sempre gostei e gosto muito do meu trabalho, trabalhei muito na minha vida, hoje sou aposentada, trabalhava com artesanato, cuidava da casa, dos filhos, do marido e sempre com grande satisfação...” (P1).

— “[...] então o trabalho pra mim é satisfação, e gosto de cuidar dos meus netos, ajudar eles, preparar uma comidinha gostosa, não custa nada e dá alegria na gente” (P1).

Apareceram, durante as falas, exemplos de situações vividas por algumas participantes, que traduziram seus sentimentos de tristeza, opressão e de culpa e também muita dificuldade em saber lidar com esses conflitos por encontrarem dificuldade em ter uma visão crítica da sua história pessoal. Em contrapartida, também surgiram algumas falas que refletiram satisfação com seu trabalho dentro e fora de casa e ao sentir-se útil na vida de alguém.

Através dessa dinâmica foi possível resgatar nas falas as concepções do grupo sobre o que o trabalho representa para cada participante.

Essa dinâmica possibilitou às participantes refletirem sobre suas vidas, pois, ao colocar no papel características próprias e analisá-las, puderam visualizar e identificar os problemas e, observando as dificuldades, entenderam ser possível partir para mudanças. A visualização das características negativas e positivas possibilitou o refazer suas vidas, através do reconhecimento que a mudança deve partir delas e não do outro.

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