41 fingimento, descaracterizando o que os achados epidemiológicos apontam sobre a etiologia ocupacional associada a fatores psíquicos, biomecânicos e organizacionais da atividade de trabalho (SATO et al., 1993).
Foram muito interessantes e surpreendentes os relatos que surgiram espontaneamente em torno do tema proposto:
— “[...] bem o que peguei diz que trabalho é alegria e concordo porque sempre gostei e gosto muito do meu trabalho, trabalhei muito na minha vida, hoje sou aposentada, trabalhava com artesanato, cuidava da casa, dos filhos, do marido e sempre com grande satisfação...” (P1).
— “[...] então o trabalho pra mim é satisfação, e gosto de cuidar dos meus netos, ajudar eles, preparar uma comidinha gostosa, não custa nada e dá alegria na gente” (P1).
Apareceram, durante as falas, exemplos de situações vividas por algumas participantes, que traduziram seus sentimentos de tristeza, opressão e de culpa e também muita dificuldade em saber lidar com esses conflitos por encontrarem dificuldade em ter uma visão crítica da sua história pessoal. Em contrapartida, também surgiram algumas falas que refletiram satisfação com seu trabalho dentro e fora de casa e ao sentir-se útil na vida de alguém.
Através dessa dinâmica foi possível resgatar nas falas as concepções do grupo sobre o que o trabalho representa para cada participante.
Essa dinâmica possibilitou às participantes refletirem sobre suas vidas, pois, ao colocar no papel características próprias e analisá-las, puderam visualizar e identificar os problemas e, observando as dificuldades, entenderam ser possível partir para mudanças. A visualização das características negativas e positivas possibilitou o refazer suas vidas, através do reconhecimento que a mudança deve partir delas e não do outro.
42 autor "[...] o cuidado de si é um privilégio-dever, um dom-obrigação que nos assegura a liberdade obrigando-nos a tomar-nos nós próprios como objeto de toda a nossa aplicação",(FOULCAULT,1985, p.53).
A quinta oficina foi participativa e descontraída. Aconteceu em fevereiro de 2013 e somente uma das participantes não pôde comparecer por problemas de saúde. Tudo fluiu com muita naturalidade. Elas chegaram alegres, conversando, e estavam muito à vontade, como se fosse uma reunião de amigas que não se viam há muito tempo, um caloroso reencontro.
Por tudo o que foi compartilhado até esse momento, sentiu-se a necessidade de se trabalhar com essas mulheres a autoestima e o cuidado de si. Para que realizassem uma reflexão sobre o tema, foi proposta uma dinâmica que consistia no seguinte:
Iniciou-se com a solicitação de que as participantes fizessem um autorretrato, trabalhando em duplas, quando foi colado na parede um papel pardo grande na altura de cada componente do grupo. Em seguida deveriam desenhar o contorno do corpo da parceira com giz de cera, na forma que considerassem melhor para defini-la como pessoa, e depois preencher o contorno do seu próprio corpo utilizando canetas coloridas e pincel atômico.
Tiveram o tempo necessário para deixar fluir sua criatividade e, como era esperado, houve bom entrosamento entre as participantes com troca de material, descontração, sorrisos e comparações entre os desenhos. Todas se divertiram muito com essa atividade.
Depois de um bom tempo, todas tinham acabado sua “obra de arte” e é incrível como elas se superaram e demonstraram muita satisfação ao concluir a tarefa. A seguir fizemos um círculo e foi solicitado que comentassem o seu desenho e falassem do cuidado de si, sobre o que elas faziam em seu próprio benefício.
Para haver uma reflexão maior sobre o cuidar de si, a atividade dessa oficina oportunizou às participantes reproduzirem de forma lúdica o seu próprio corpo.
Inicialmente discutiram-se as justificativas para o não cuidado, diretamente ligadas à família e à falta de tempo, e o movimento existente entre elas compartilhando suas relações.
A participante P1 relatou ter consciência de que precisa mudar sua atitude em relação à família e dedicar mais tempo ao cuidar de si:
— “[...] tenho pensado muito nisso, porque ultimamente tem sido complicado, a gente se preocupa muito, e preciso de ter um tempinho pra mim” (P1).
— “[...] a gente vai se envolvendo, se envolvendo e esquece da gente, mas eu sinto que preciso faze mais por mim” (P1).
43 Nesta perspectiva, da importância do cuidar do outro, adverte Foucault: "não se deve fazer passar o cuidado dos outros na frente do cuidado de si; o cuidado de si vem eticamente em primeiro lugar, na medida em que a relação consigo mesmo é ontologicamente primária"(FOUCAULT,2006,p. 271).
A participante P2, num desabafo, relatou o seu cotidiano, comentando que a maior parte do seu tempo é dedicada à família. Foi apoiada pelo grupo, que demonstrou interesse em buscar soluções:
— “[...] penso que eu não tiro um tempo pra mim, chega a noite eu tenho que dá banho e faze exercício no neto, e a mãe dele bem folgada, vê se ela não podia faze, é importante pra ele, ele tá muito agressivo” (P2).
— “Mas ela não pode tá com depressão pós-parto?” (P1).
— “Ela não trabalha, não?” (P4).
— “Ela trabalha e vai pega mais um mês e depressão, tá não...” (P2).
— “Esses dia eu disse: você não pode deixa tudo comigo...” (P2).
— “Você tem que pedi ajuda pra alguém, você não vai aguenta desse jeito” (P4).
— “Talvez ela pense que está certa no ponto de vista dela, e precisa alguém abrir o olho dela...” (P1).
A participante P3 compartilhou com as demais a preocupação em relação ao seu futuro, pois sempre cuidou dos outros, mas nunca teve tempo para cuidar de si:
— “[...] mas desde que casei sempre cuidando de casa, dos filho, do marido mas nunca tirei aquele tempo pra mim, penso, se eu fica doente será que elas vão cuida de mim?” (P3).
Nessa oficina se percebeu a preocupação das participantes em relação aos seus próprios corpos, com questões de saúde, estética, informação e o que elas fazem a respeito.
O modo pelo qual sentimos o nosso corpo tem um impacto em todo o nosso ser, e essa abordagem sobre o corpo se destacou por propiciar um maior conhecimento sobre elas mesmas, interferindo na maneira em que atuam em seu cotidiano. O corpo de cada ser é seu
44 bem mais precioso, requer cuidado em todos os sentidos, através da conscientização do que ele significa e de como é visto. Com isso é possível despertar questões de atitude, de comprometimento e estruturar possíveis objetivos que possam influenciar de maneira positiva a qualidade de vida dessas mulheres.
Para Foucault, o mais importante dos cuidados que se deve ter consigo próprio é um olhar atencioso sobre o corpo e a alma, para isso é preciso manter atitudes constantes sobre o seu próprio ser: " o fim principal a ser proposto para si próprio deve ser buscado no próprio sujeito, na relação de si para consigo" (FOUCAULT,1985,p.69).
Num segundo momento, visualizou-se a atitude em relação ao cuidar de si, o que elas realmente têm feito a esse respeito e a reflexão que o tema gerou. A participante P4 relatou ter-se permitido ser cuidada e como ficou satisfeita:
— “[...] esses dias eu fui no salão e fiz tudo o que tinha direito, a gente relaxa, e agora comprei tudo e vou faze uma vez por semana em casa” (P4).
As participantes P1 e P2 compartilharam do mesmo conflito em relação ao cuidado da família, a dificuldade em mudar e o sentimento de culpa:
— “[...] sinto que preciso deixa um pouco dos filho, dos neto, preciso ler mais, preciso sair mais, a gente abandona tudo e fica em função de filho e isso é errado, é muita doação, mas por outro lado a gente se sente culpada de não fazer” (P1).
— “[...] eu entendo, e se não fizé a gente se sente culpada” (P2).
— “[...] eu precisava de um dia só pra mim, não com as costas doendo, empurrando cadeira de rodas, não que eu não goste dele, se entende...” (P2).
A participante P3 demonstrou intenção de buscar soluções para seguir a sua vida e compartilhar com o grupo o seu desejo de mudança:
— “[...] agora eu tô costurando...” (P3).
— “E você gosta de costura?” (P2).
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— “Eu gosto, fiz dois curso de costura, mas nunca pus em prática. Mas tem uma oficina perto de casa e a dona vai me ensinando, tem dia que eu fico o dia todo com ela, vou aprende a mexe com as máquina” (P3).
Essa dinâmica possibilitou um trabalho inter e intrapessoal, pois envolveu a confiança e a cumplicidade do grupo e propiciou que as participantes visualizassem a importância do cuidado e do permitir ser cuidada.
— “[...] vai se bom pra mim, conhece pessoas, e oficina de costura, é assim mesmo, sempre uma conversa diferente a gente tá ouvindo” (P3).
— “[...] mês que vem eu vou faze inscrição na hidroginástica porque eu não tô podendo fica parada dentro de casa, não quero fica pensando...” (P3).
É fato que a mulher, ao longo do tempo, adquiriu culturalmente a incumbência do cuidar. O cuidar dos filhos, da casa, do marido, porém, ao mesmo tempo se excluiu desse cuidado, do cuidado dela mesma e do deixar ser cuidada pelos outros.
Segundo Costa (2006, p. 6), “geralmente as mulheres são vistas e tratadas apenas como provedoras do bem-estar da família ou como meio de bem-estar de outros, como mães e esposas, nunca como sujeitos autônomos com demandas próprias”.
Em suas falas, as participantes relataram que nunca ou raramente se cuidaram, pois o seu tempo é dedicado aos outros componentes da família. Acompanhando essa reflexão, Oliveira (2003) coloca que, na lista de emprego do tempo da mulher, vem o cuidar dos filhos, dos idosos, do companheiro, só não vem tempo para cuidar dela mesma, personagem secundária, última coadjuvante de sua própria vida.
A descodificação e o desvelamento crítico propostos por Freire (2001) apareceram nessa dinâmica. Nas falas das participantes ficou explícita a visualização de suas atitudes, a percepção delas e a intenção em mudar o seu cotidiano, envolvido em alguns momentos por sentimentos de desvalorização, falta de atenção, doação e abdicação.