corroborados no item 19, onde cotistas e não cotistas rejeitam mais uma vez as vagas reservadas para essa minoria, preferindo que a vaga seja de um aluno que obteve a melhor nota no vestibular. Mais uma vez o maior escore é dos não cotistas (-1,24), que a rejeitam mais do que os cotistas (-0,30).
Os dados dos itens 18 e 20 também são confirmados ao observar o item 32, onde ambos os grupos são favoráveis às cotas para deficientes, sendo, mais uma vez, o número maior nos cotistas (2,25) do que nos não cotistas (1,29).
O item 21 mostra que os cotistas (2,20) apoiam muito mais as cotas nas Universidades do que não cotistas (0,74). Esse número passa do dobro nos resultados dos cotistas (2,36) em relação aos não cotistas (1,26) quando as cotas surgem atreladas às condições de renda e de baixa escolaridade dos candidatos às reservas de vagas (item 23).
Resultados distintos entre os grupos são passíveis de observação nos itens 24, 30 e 31.
Enquanto os cotistas defendem cotas para alunos de escola pública (0,34) e indígenas (0,38), ambas sem levar em conta a renda e também para alunos de escolas públicas de excelência (0,72), os não cotistas discordam das reservas de vagas para os três grupos: alunos de escola pública (-0,71) e indígenas (-0,67) sem levar em conta renda e alunos de escolas públicas excelentes (-0,60).
Portadores de HIV 2 4
Homossexuais 3 3
Outro (órfãos e imigrantes) 0 2
Não sei 2 1
Total 213 173
Na Tabela 9 mais de uma resposta era permitida. Os participantes favoráveis às cotas se aproximam no que se refere à concordância de cotas para pessoas de baixa renda e PNE.
Há concordância de ambos os grupos, cotistas e não cotistas, também nas medidas voltadas para raças, como negros e indígenas.
Contudo, o grau de concordância dos universitários é maior quando a renda é levada em consideração e também no caso das medidas voltadas aos portadores de necessidades especiais se comparado ao grau de concordância no caso da questão racial.
Tabela 10: Resultados relativos a opinião dos estudantes quanto ao benefício próprio das cotas ou não. N=134. Rio de Janeiro, 2016.
35 – Acha que você mesmo deveria ter direito a algum tipo de cota?
Cotista % Não
cotista %
Não 5 7,81% 57 81,43%
Sim 55 85,94% 4 5,71%
Não sei 4 6,25% 9 12,86%
Total 64 100,00% 70 100,00%
Enquanto os cotistas, em sua maioria, são favoráveis (85%) a participação enquanto integrantes no sistema de cotas, os não cotistas discordam (81%) que poderiam se beneficiar das medidas. Festinger (1962) em sua teoria acerca da dissonância cognitiva afirma que quando há incompatibilidade entre cognições e comportamentos gera-se uma tensão e necessidade de restabelecer o equilíbrio.
Quando há dissonância, para que esta se desfaça é necessário que um dos dois, atitude ou comportamento, mude para que se restabeleça a consonância cognitiva (FESTINGER, 1962). Usualmente é mais cômodo que o sujeito modifique sua atitude frente à situação ou objeto do que seu comportamento.
No caso das cotas pode-se conceber que uma pessoa que possui atitude negativa frente ao sistema de reserva de vagas, mas constata que é possível se beneficiar desta política pública possivelmente modificará sua avaliação. O mesmo sucede ao sujeito que, favorável, por algum motivo não possa se beneficiar, resultando, assim, na mudança de atitude para
negativa. Assim, não é comum que alguém que se beneficie das cotas seja contrário a estas ou alguém que não tenha direito ao benefício seja favorável à medida.
Tabela 11: Resultados relativos a opinião dos estudantes quanto aos tipos de cotas que deveriam ter direito. N=59. Rio de Janeiro, 2016.
35.1 – Acha que você mesmo deveria ter direito a algum tipo de cota, qual seria?
Cotista Não cotista
Escola pública 28 0
Negro 10 0
Renda 16 2
Deficiência auditiva 0 1
Filhos de policiais e bombeiros mortos em razão do serviço... 1 0
Mulher no Congresso Nacional 0 1
Total 55 4
Na Tabela 11 mais de uma resposta era permitida, e quando indagados sobre o tipo de cotas que deveriam ter direito, os cotistas abarcam em suas respostas tipos de cotas já existentes, como cotas para estudantes oriundos de escola pública, negros, baixa renda e cotas para filhos de policiais civis e militares e bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço. Já os não cotistas mencionam a representatividade da feminina no congresso nacional, renda e deficiência auditiva.
Tabela 12: Resultados relativos à orientação política dos estudantes.
N=134. Rio de Janeiro, 2016.
37 - Você classificaria a sua atual orientação política como...
Cotista % Não cotista %
Direita 0 0,00% 5 7,14%
Centro-direita 2 3,13% 4 5,71%
Esquerda 17 26,56% 16 22,86%
Centro-esquerda 12 18,75% 10 14,29%
Outra 2 3,13% 4 5,71%
Não tem 31 48,44% 31 44,29%
Total 64 100,00% 70 100,00%
Grande parte dos universitários da UERJ não possui orientação política, e dentre aqueles que possuem, tanto cotistas quanto não cotistas obtiveram as maiores frequências nas orientações de esquerda e centro-esquerda. Cabe ressaltar que não foram contabilizados cotistas de direita, mas somente não cotistas. O que faz sentido quando vemos a reserva de vagas enquanto uma medida defendida por partidos ditos de esquerda e movimentos étnicos em geral.
Tabela 13: Resultados relativos à média de anual de leitura de livros não didáticos dos estudantes. N=134. Rio de Janeiro, 2016.
38 - Quantos livros, em média, você lê por ano, excetuando-se os livros didáticos?
Cotista % Não cotista %
Menos de 5 20 31,25% 22 31,43%
De 5 a 10 27 42,19% 29 41,43%
Mais de 10 17 26,56% 19 27,14%
Total 64 100,00% 70 100,00%
A questão 38 do questionário é voltada para o conceito de capital cultural, relacionado aos saberes adquiridos. Cabe ressaltar que não houve grande diferença entre os grupos de estudantes universitários da UERJ já que, em sua maioria, ambos possuem maior frequência na mesma média de quantidade de livros lidos ao ano, ou seja, de 5 a 10 livros.
Tabela 14: Resultados relativos à média de renda mensal dos estudantes. N=134. Rio de Janeiro, 2016.
42 - Qual é a renda mensal média de sua família hoje?
Cotista % Não cotista %
Até R$ 724,00 5 7,81% 1 1,43%
De R$ 724,00 até R$ 1.500,00 27 42,19% 7 10,00%
De R$ 1.500,00 até R$ 3.000,00 21 32,81% 13 18,57%
Acima de R$ 3.000,00 5 7,81% 38 54,29%
Não sei / Não desejo informar 6 9,38% 11 15,71%
Total 64 100,00% 70 100,00%
O capital econômico, relativo à renda, salários e bens, foi avaliado na questão 42 do questionário e revelou que cotistas possuem renda média de R$ 724,00 até R$ 1.500,00, enquanto não cotistas possuem média de renda dobrada, ou seja, acima de R$ 3.000,00. Além disso, apenas um dos 70 não cotistas possui renda de até 724,00; enquanto a frequência mínima dos cotistas está justamente na alternativa de renda máxima, já que apenas cinco cotistas possuem renda média acima de R$ 3.000,00.
Tabela 15: Resultados relativos à opinião dos estudantes acerca do casamento gay. N=134. Rio de Janeiro, 2016.
43 - Você é a favor do casamento gay?
Cotista % Não cotista %
Não 23 35,94% 5 7,14%
Sim 32 50,00% 60 85,71%
Não sei 9 14,06% 5 7,14%
Total 64 100,00% 70 100,00%
Grande parte dos estudantes é favorável ao casamento gay, contudo o número é mais expressivo nos não cotistas (85%), enquanto nos cotistas o número cai para 50%. O segundo maior número de respostas demonstra maior contrariedade (35%) do que incerteza (14%) nos cotistas.
Tabela 16: Resultados relativos à opinião dos estudantes acerca da legalização do aborto. N=134. Rio de Janeiro, 2016.
44 - Você é a favor da legalização do aborto?
Cotista % Não cotista %
Não 26 40,63% 11 15,71%
Sim 26 40,63% 45 64,29%
Não sei 12 18,75% 14 20,00%
Total 64 100,00% 70 100,00%
A legalização do aborto abordada na questão 44 é bem vista por grande parte dos estudantes não cotistas (64%), enquanto os cotistas apresentam frequências iguais em ambas as alternativas de resposta polarizadas.
Tabela 17: Resultados relativos à opinião dos estudantes acerca da pena de morte. N=134. Rio de Janeiro, 2016.
45 - Você é a favor da pena de morte?
Cotista % Não cotista %
Não 45 70,31% 43 61,43%
Sim 10 15,63% 17 24,29%
Não sei 9 14,06% 10 14,29%
Total 64 100,00% 70 100,00%
As opiniões relativas à pena de morte demonstram frequências próximas entre ambos os grupos de estudantes universitários da UERJ que indicam, em sua maioria, contrariedade à medida. Contudo, nas demais alternativas os não cotistas parecem mais favoráveis (24%) do que indecisos (14%).
Tabela 18: Rede de conhecidos dos estudantes de acordo com áreas de atuação profissional na sociedade.
N=134. Rio de Janeiro, 2016.
46 – Na sua rede de conhecidos você tem proximidade com alguém de(a):
Cotista Não cotista
Empresa: Diretor, Gerente, Coordenador, Dono de Empresa... 67 156
Legislativo: Deputado, Vereador... 31 31
Judiciário: Delegado, Juiz, Promotor... 14 55 Executivo: Secretária de Estado, Detran, Ministérios... 11 27
Educação: Cargos de chefia ou influência em Universidades,
em Escolas... 64 278
Saúde: Cargos de chefia ou influência em Hospitais,
Clínicas de Saúde, UPA... 27 41
Não possuo proximidade com ninguém dos grupos sociais citados acima 18 21
Total 232 609
O capital social é relacionado à rede de relações interpessoais que podem implicar em benefícios ou malefícios na sociedade, e é abarcado na questão 46 do questionário de pesquisa. Os resultados demonstram que estudantes não cotistas conhecem, no total, quase o triplo de pessoas com algum tipo inserção em grupos sociais de relevância.
Sobretudo, no que se refere a educação, os não cotistas conhecem cerca de quatro vezes mais pessoas em cargos de chefias de escolas e universidades do que cotistas;
frequências altas e discrepantes também foram encontradas na alternativa relativa às empresas, onde não cotistas conhecem o triplo de diretores, gerentes, donos e coordenadores.
DISCUSSÃO
A presente pesquisa se propôs a investigar o pensamento social de jovens universitários acerca do sistema de cotas associado ao conceito de justiça. Os resultados mostraram que cotistas e não cotistas partilham metade (50%) das ideias acerca das cotas e mais da metade (65%) das ideias acerca do conceito de Justiça. Isso significa que ambas as representações dos objetos justiça e cotas possuem elementos e conteúdos semelhantes tanto para cotistas quanto para não cotistas.
Um aspecto fundamental é que o conceito de igualdade surge em ambos os grupos associado à Justiça e Cotas. O que é comum já que essa ligação entre os conceitos existe desde Aristóteles, que afirmava que ser justo é avaliar de forma igual (VELASCO, 2009).
Apesar das distintas concepções de igualdade teorias contemporâneas concordam que para haver justiça é necessário igualdade (NEVES; LIMA, 2007), o que parece estar presente também no pensamento social dos estudantes da UERJ.
Ideias comuns a cotistas e não cotistas acerca do objeto Justiça, como “igualdade”,
“leis” e “direito”, acompanham em parte o resultado do estudo de Percheron (1991) com jovens franceses, já que o conteúdo da pesquisa do autor também revelou uma articulação existe entre as representações de justiça e lei.
Embora os mesmos termos sejam compartilhados pelos sujeitos Marques e Kappel (2015) indicam o compartilhamento do conceito de igualdade focalizado sob aspectos distintos para um mesmo grupo de estudantes universitários, pois enquanto uma parte defende as cotas como um meio de promoção de igualdade outra parte a tem como uma medida que fere esse mesmo princípio.
Deste modo, a articulação comum a cotistas e não cotistas desses três termos (igualdade, leis e direito) não parece viável, pois apesar de comuns a ambos os grupos suas relações soam de forma distinta porquanto cada grupo associa e relaciona os termos de forma particular ao objeto. Assim, duas representações podem apresentar o mesmo conteúdo, todavia poderiam ser completamente distintas de acordo com a relação entre os elementos presentes no núcleo central (ABRIC, 2003). Seria interessante, para verificar esta hipótese, o uso de alguma técnica associativa, como os esquemas cognitivos de base ou a análise de similitude.
O modelo dos esquemas cognitivos de base (Schemes Cognitifs de Base) criado por Christian Guimelli e Michel-Louis Rouquette (1992) funciona como uma tentativa de ir além
da conexidade quantitativa verificada por outros instrumentos. O método associado a este modelo busca verificar quais os tipos de relações existem entre os elementos de uma representação em vez de se limitar ao estudo de conteúdos.
A análise de similitude (FLAMENT, 1985; VÉRGES, 1992) também propõe explicitar a organização relacional entre os termos centrais confirmando-os, ou seja, essa técnica permite identificar e confirmar a estrutura da representação, através do sistema central e periférico, colocando em evidência a organização dos dados.
No caso dos não cotistas as demais ideias associadas à Justiça são os termos “certo” e
“juiz” que aparecem na pesquisa de Marques e Kappel (2015) como temas das categorias
“justiça é a lei” e “justiça como algo absoluto”. Além disso, essas categorias estão presentes somente nas respostas de neutros e desfavoráveis às cotas raciais, o que se refere a um posicionamento próximo a presente pesquisa já que os estudantes deram respostas, em sua maioria, com tendências neutras e contrárias às cotas.
No caso dos cotistas surgem atreladas à Justiça as noções de “equidade”, “liberdade” e
“para todos” que parece tratar de uma concepção de equidade horizontal (WEST; CULLIS, 1979), o que justificaria os outros dois termos, onde a noção de equidade envolve tratamento desigual para desiguais traz consigo as noções de tratamento igual para necessidades desiguais e igualdade de acesso.
Além disso, esses conceitos estão presentes na teoria da Justiça de Rawls (2000), onde todos devem ter direitos iguais ao sistema mais amplo possível de liberdades básicas e todos devem ter direitos a liberdade compatível com a liberdade dos demais.
Assim, as concepções de Justiça de Cotistas e não cotistas divergem bastante.
Enquanto a concepção dos cotistas parece fundamentada na concepção de Justiça Distributiva, ênfase na vertente igualitária de Rawls (2000), os não cotistas soam favoráveis à Teoria da Justiça denominada Utilitarismo, já que esta doutrina fundada por Bentham tem por premissa básica que o certo a fazer é o que produz bem-estar ou felicidade e evite sofrimento.
O utilitarismo pouco ou nada tem de equidade, já o pensamento e a teoria da Justiça de Rawls é sustentada pelo conceito e permite que haja discriminação positiva. Ademais, o utilitarismo prioriza que prevaleça a satisfação que for preferencial a muitos, ainda que para tanto minorias tenham que ser desrespeitadas (OLIVEIRA; SOUZA, 2003).
Essa premissa soa comum aos resultados dos não cotistas que em grande parte das respostas reconhece a diferença presente na situação social das minorias, mas se mantém ora neutros ora contrários a essas.
Já as ideias comuns a cotistas e não cotistas acerca do objeto Cotas, como “igualdade”
e “oportunidade”, podem sugerir uma representação social calcada na formalização em lei de conquistas sociais por conta de constrangimentos herdados que ainda permanecem presentes na sociedade e, sendo assim, tornam-se um direito efetivo para promoção de igualdade de oportunidades.
Entretanto apesar dos termos comuns, os cotistas se diferem dos não cotistas pela possibilidade de compreensão do sistema de cotas como um meio de “reparação” das desigualdades sociais. Essa leitura dos resultados dos cotistas também aparece nos estudos de Moehlecke (2002) e Oliven (2007), onde as cotas estão vinculadas à ideia de oportunidade, sendo um meio possível para equiparar as desigualdades sociais.
Essa conexão entre cotas e reparação observada nos estudantes cotistas da UERJ está presente nos trabalhos de Gomes (2001), onde as ações afirmativas são políticas de compensação/reparação de grupos sociais historicamente marginalizados; e Moehlecke (2002), onde ações afirmativas são medidas reparatórias ou compensatórias e preventivas, com finalidade de correção de procedimentos discriminatórios e desiguais realizados com determinados grupos sociais, independente do tempo, ou seja, no passado, presente ou futuro.
Cabe salientar que as considerações de West e Cullis (1979), Rawls (2000), Gomes (2001), Moehlecke (2002), Oliveira e Souza (2003) e Oliven (2007) abordam conceitos de Justiça e Cotas presentes no universo reificado, enquanto os dados coletados nesta dissertação pertencem ao universo consensual dos estudantes universitários. Contudo, é possível observar no universo consensual dos estudantes argumentos que também são citados por autores do universo reificado, o que é típico das representações sociais, já que elas vêm do senso comum, sendo conhecimentos construídos e elaborados nos universos consensuais que, na maioria das vezes, são versões dos universos reificados (SÁ, 2007).
Os dados de estudantes não cotistas parecem ressaltar mais a questão da
“desigualdade” associada ao “negro”, ou seja, há um reconhecimento por parte deles que houve no passado um período de opressão frente à população negra que interfere atualmente em seu acesso a melhores condições de vida, e em consequência, as cotas visam diminuir essa desigualdade. Essa visão implica na noção que ser branco é mais fácil que ser negro no país e Neves e Lima (2007) apontam que de fato há um consenso entre os universitários de sua pesquisa que a situação econômica dos negros é pior do que a dos brancos.
O pensamento dos cotistas acerca das cotas em geral nas Universidades apresenta ideias de concordância com tais medidas, enquanto os não cotistas soam neutros. Ao mesmo
tempo em que os não cotistas afirmam que as cotas são medidas politiqueiras, concordam que possuem a finalidade de diminuir desigualdades.
Paralelamente, o grupo de não cotistas defende a inserção na Universidade levando em consideração a maior nota do candidato, também defende que o tipo de escola deve ser levado em conta. Embora o posicionamento dos não cotistas referente às cotas nas Universidades soe como ambíguo e contraditório, cabe ressaltar que os resultados dos itens de likert foram próximos à neutralidade, enquanto as respostas dos cotistas eram mais polarizadas, o que pode indicar mascaramento das respostas dos não cotistas. Também pode haver mais variabilidade, com muitos favoráveis e muitos contra o que deixa o escore no meio.
No que se refere às cotas para estudantes de escola pública, enquanto cotistas concordam integralmente os não cotistas só concordam caso a renda seja levada em consideração. Contudo, os não cotistas são contrários a outros tipos de cotas em Universidades e outros locais, como as cotas para alunos de escola pública de excelência, concursos públicos e programas de pós-graduação, o que não ocorre com os cotistas, já que são favoráveis a estas.
Os resultados relativos às cotas raciais e sociais nas Universidades mostram que os posicionamentos de cotistas e não cotistas são semelhantes em alguns pontos e divergem em relação a outros: quanto às cotas destinadas a negros, índios e estudantes de escola pública levando em conta a renda, ambos são favoráveis; já a diferença entre os grupos está no fato dos não cotistas serem contrários às cotas destinadas a negros, índios e estudantes de escola pública sem levar em conta a renda, enquanto os cotistas são favoráveis às cotas para índios e estudantes de escola pública com ou sem renda, apesar de concordarem com os não cotistas que cotas para negros só são aceitáveis com a ponderação da renda.
Os resultados da pesquisa são distintos dos estudos de Neves e Lima (2007), Naiff, Naiff e Souza (2009), Costa (2010), e Lima, Neves e Silva (2014), já que nestes os estudantes universitários são majoritariamente desfavoráveis às cotas raciais.
Com relação aos argumentos comuns de isonomia e miscigenação abarcados pela literatura (BENTO, 2005; OLIVEN, 2007; ALMEIDA, 2007; GOMES, 2008; PEREIRA, 2008; LIMA ET AL., 2014), os resultados deste estudo mostram que cotistas e não cotistas discordam tanto que a mistura de raças seja um problema para avaliação das cotas raciais quanto que as cotas ferem o princípio de igualdade garantido na Constituição Brasileira.
Argumentos como perda do mérito, desempenho inferior de estudantes que ingressam pelo sistema de cotas e reserva de vagas como medida que prejudica a imagem do profissional
negro estão presentes na literatura (MUNANGA, 2001; GUIMARÃES, 2003; QUEIROZ E SANTOS, 2006) e também são refutados pelos estudantes, que discordam de todos eles.
Contudo, cotistas e não cotistas concordam com os argumentos (MOEHLECKE, 2002;
DA ROCHA PINTO, 2006; ALMEIDA, 2007; OLIVEN, 2007) que afirmam que é preciso melhorar o ensino ao invés de criar cotas; que a auto-declaração de cor pode levar a benefícios impróprios, ou seja, fraudes do sistema de cotas; e que o passado de repressão das raças interfere no presente.
Outro ponto a ser comentado é o resultado relativo ao capital econômico e capital social (BOURDIEU, 1984). De fato os dados de renda, ou seja, salários e também da rede de relações interpessoais dos sujeitos da pesquisa revelaram duas classes distintas de universitários.
Apesar das semelhanças de capital cultural, postula-se que o nível de saber mensurado pela quantidade de livros lidos anualmente seja próximo por conta do ambiente em que os estudantes estão inseridos, ou seja, o meio acadêmico exige constantes leituras e atualizações do saber que proporcionam a grupos distintos uma interface comum.
Entre as principais contribuições da pesquisa sem dúvida está o resultado geral relativo ao pensamento social de cotistas e não cotistas que não foi tão polarizado quanto se esperava, já que abarcou muitas ideias semelhantes. Outro ponto é que os universitários, em geral, não foram tão desfavoráveis às cotas raciais quando estas levam em conta a renda dos indivíduos, como presente outros em estudos (NAIFF et al., 2009; NEVES; LIMA, 2007; SILVA, SILVA, 2012).
Assim, a mudança de conceitos referentes às cotas e às atitudes referentes a elas são distintas das constatadas na literatura, o que aponta uma possível transformação no pensamento dos estudantes. As mudanças representacionais são decorrentes da relação entre grupos, do grupo com o objeto ou de mudanças do contexto social (WACHELKE, CAMARGO, 2007). No caso das cotas é possível que a relação dos estudantes com o objeto esteja se transformando por conta da mudança social referente à Lei de Cotas que ocasiona inserção de um número maior de cotistas em Universidades.
Portanto, nessa hipótese, as práticas modificaram a representação, ou seja, essa mudança externa que é extra individual e extra representacional, impôs mudanças na prática dos estudantes e, consequentemente, na sua forma de pensar o objeto Cotas. Flament (1994) aponta essa dinâmica em seu esquema da mudança representacional, onde: a modificação das circunstâncias externas gera mudança das práticas sociais, que por sua vez alteram os prescritores condicionais que mudam dos prescritores absolutos.