• Nenhum resultado encontrado

Rawls: liberalismo exacerbado?

Já o liberalismo tradicional, segundo o qual cada um tem a responsabilidade pessoal por sua própria vida, nem sequer toca no assunto da igualdade de forma real. A necessidade da época, por parte da classe dominante (a burguesia), determinava a liberdade. Segundo Bonavides e Andrade (1991, p.92), “Define-se o liberalismo no plano teórico como uma filosofia de liberdade”.

O liberalismo advoga a ideia de autodeterminação. Os liberais entendem que uma pessoa deve viver a sua vida conforme suas convicções pessoais, bem como, se bem entender, criticá-las e modificá-las. Segundo Lois (2005, p. 25), “[...] no plano da promoção, o liberalismo vai propugnar uma separação entre o âmbito público e o privado além de um espaço político neutro e regido por princípio de justiça acordados de forma imparcial”. E, completando, assevera que, nesse regime, há limites para a esfera pública e autonomia privada do indivíduo (e por que não falar para as pessoas jurídicas?).

Nos dias atuais, vivencia-se um neoliberalismo, doutrina que novamente prega a não intervenção estatal nos negócios, mas que teve, no ano anterior, uma quebra em sua evolução, dada a crise financeira mundial, que levou os governos a atuar de forma acirrada na economia, tentando salvar empresas em crise e, com elas, o próprio país.

Como uma vertente mais radical do liberalismo, há também o libertarismo. Segundo Nay (2007, p. 532), ele tem “[...] uma palavra de ordem: combater o despotismo do Estado e

aplicar as regras do mercado ao conjunto da vida social”. Os partidários dessa doutrina criticam o liberalismo puro e simples, que entendem como contendo ideias de igualdade e equidade irrealizáveis e perigosas. Isso porque criticam a sua busca por justiça social, abafando a liberdade dos indivíduos. Ao contrário, entendem que “A sociedade ‘justa’ é naturalmente resultado da ‘liberdade máxima’ e do pleno gozo dos direitos individuais”

(NAY, 2007, p.532). Um representante dessa vertente é Robert Nozick, crítico fervoroso de Rawls e Dworkin.

Mas é exatamente a defesa da justiça social e uma forma de coexistência do liberalismo com a igualdade que John Rawls (este de forma precária e enganosa, conforme será demonstrado) e Ronald Dworkin, chamados de novos liberais, defendem. Decerto, quando o liberalismo foi criado, seu rosto perpassava pelas pessoas de Locke e Hobbes. Esses são liberais clássicos, defendendo o liberalismo total, sem qualquer intervenção do Estado, fazendo com que a igualdade ficasse em segundo plano. Naquela época, isso era mesmo justificado: migração de pessoas para a cidade, começo de produção industrial, queda do absolutismo e temor pela sua volta.

Hoje, o liberalismo perpassa por novas vertentes. No entanto, mesmo estando Rawls e Dworkin classificados como liberais igualitários, há diferenças em suas obras, as quais levam à divisão dos dois em categorias distintas no presente estudo.

Rawls, em sua obra Teoria da justiça, revolucionou o liberalismo moderno e, até hoje, coleciona seguidores e críticas. Seguindo, de certa forma, a teoria de Kant e seu imperativo categórico, o que Rawls propõe, em suma, é que cada pessoa tem direito à liberdade, que é igual para todos e não há problema nas desigualdades econômicas e sociais, desde que haja vantagem para os menos favorecidos e oportunidade para todos.

Também Rawls, de forma semelhante a Dworkin, tenta encontrar uma alternativa ao utilitarismo. Nos dizeres de Rabenhorst (2008, p. 96), “[...] podemos dizer que o principal escopo de Rawls é desenvolver uma alternativa ao modelo utilitarista da justiça que pensa esse conceito tão somente como maximização do bem-estar coletivo”.

Rawls é crítico ferrenho da visão utilitarista porque, segundo Rabenhorst (2008, p. 96), “[...]

(1) ela pode, ao menos em princípio, justificar o sacrifício das minorias em favor do bem-estar de todos; (2) ela é insensível aos aspectos distributivos da justiça, como também à idéia [sic]

de que os indivíduos possuem um valor não instrumental”.

Segundo Oliveira (2003, p. 11), falando da teoria de Rawls, “A questão do igualitarismo e o desafio de resolver as crescentes desigualdades sociais no seio do capitalismo tardio permeiam, decerto, o desenvolvimento de sua filosofia”.

Rawls apresenta dois grandes princípios-bases de sua teoria: princípio da igualdade e princípio da diferença. Com relação ao primeiro, quer dizer que todos têm direito a igual liberdade, ou seja, iguais direitos civis e políticos. Já o segundo afirma que as desigualdades sociais e econômicas devem privilegiar os mais pobres. Mas como? Garantindo que eles estejam em condições melhores para se chegar à igualdade de oportunidades com os mais favorecidos (RABENHORST, 2008, p. 97). Rawls argumenta uma posição original, que é

“[...] a situação hipotética na qual as partes contratantes (representando pessoas racionais e morais, isto é, livres e iguais) escolhem, sob um ‘véu da ignorância’ (veil of ignorance), os princípios de justiça que devem governar a ‘estrutura básica da sociedade’ (basic structure of society). Afirma que essa estrutura determina atuação das instituições” (OLIVEIRA, 2003, p. 14).

Para ele, da mesma forma que Dworkin, criando-se uma situação hipotética de igualdade inicial, as pessoas cooperariam em relação às decisões da sociedade e do governo. Nas palavras de Rabenhorst (2008, p. 97), com isso Rawls pretendia demonstrar que “[...] a justiça se refere, antes de tudo, às instituições que são responsáveis pela distribuição dos bens sociais”.

Rawls “apresenta a possibilidade da existência de bens primários sociais que seriam direitos e liberdade, oportunidades e poderes, rendimento e riqueza que todos os integrantes de uma mesma sociedade desejariam”. Para ele, o acesso a esses bens primários ensejaria a igualdade de oportunidades para que cada pessoa, na sua esfera de liberdade, realizasse os seus desejos (FRISCHEISEN, 2007, p. 31).

Os estudos de Rawls, entretanto, lhe geraram as mais variadas críticas, talvez por estar, assim como Dworkin, apontando para uma terceira via. As críticas a Rawls provêm de todos os

lados. Os comunitaristas e os utilitaristas o criticam, os libertários e os liberais nas bases antigas também, bem como o próprio Dworkin.

Segundo Rabenhorst (2008, p. 97), “Liberais ortodoxos estimam que a visão rawlsiana seria incompatível com a tradição liberal à qual ela diz pertencer”. Já os comunitaristas, conforme já explicado acima, “[...] acreditam que a justiça só pode ser pensada no âmbito específico de cada cultura, e que a prioridade acordada por Rawls aos direitos individuais seria exercida às custas de outras virtudes importantes de cada comunidade moral ou política”

(RABENHORST, 2008, p.97).

Nas palavras de Barcellos, Walzer critica Rawls, dizendo da “[...] supervalorização do elemento individualista do homem [...], bem como seus corolários: a visão do indivíduo desenraizado e só, sem consideração de que, boa parte do que ele é decorre do perfil da comunidade na qual se insere” (2007, p. 119).

Nozick, representante dos libertaristas, rebate ferrenhamente as ideias de Rawls. Segundo ele, elas são “ilusões perigosas”, não sendo capazes “[...] nem de promover o bem-estar coletivo, nem de proteger eficazmente os mais desfavorecidos” (NAY, 2007, p.533). E complementa, nas palavras de Nay (2007, p. 533):

[...] ele só faz tornar aceitável um sistema profundamente inigualitário onde os interesses dos abastados são de qualquer maneira protegidos e onde são as classes

‘médias’ que se aproveitam mais das redistribuições. Pior, ele convida aqueles que estão embaixo da escala social a cooperar ativamente com um sistema que os mantenha na precariedade.

Kuntz (2005, p. 144) faz críticas a Rawls, de forma indireta, pois se dirige aos liberais posteriores a Locke, dizendo que “A maioria de seus herdeiros (do liberalismo clássico de Locke) não foi tão refinada. Cada um a seu modo, porém, os grandes pensadores liberais deram um jeito de livrar-se da carga incômoda ou, senão, de ajeitá-la sem atrapalhar muito os valores do capitalismo”. O autor afirma que essa preocupação passou, pois veio o neoliberalismo, sendo o triunfo do “mais bronco darwinismo econômico”. Rawls responde, dizendo que sua teoria é neutra às já existentes e que é apenas razoável, não criticando, nem aceitando outras teorias (BITTAR, 2008, p. 98).

No entanto uma coisa é certa: apesar de parecer que Rawls defende a igualdade acima de tudo, em um certo utilitarismo abrandado, não é bem assim. Segundo Rabenhorst (2008, p.

97), em havendo conflito entre os direitos civis e políticos e o princípio da diferença, o primeiro prevalece, ou seja, “[...] as liberdades fundamentais têm prioridade absoluta e elas não podem ser sacrificadas ou negociadas em proveito de benefícios sociais ou econômicos”.

Nas palavras do próprio Rawls (2003, p.61), devemos nos lembra que o princípio da diferença está subordinado aos princípios da justiça, quais sejam garantia da igualdade nas liberdades básicas e ao princípio da justa igualdade de oportunidades.5 Então, quer dizer que Rawls defende a liberdade como primeiro direito, ou seja, é um liberal exacerbado, ao contrário do que se pretende defender no presente trabalho e ao contrário do que se vislumbra do ordenamento constitucional brasileiro.

Assim, percebe-se que Rawls tenta criar uma teoria da justiça, no intuito de sopesar liberdade com igualdade, mas acaba se inclinando para o mais puro liberalismo, não dando a entender o que seria feito em sua sociedade, se a capacidade de cada um não lhe permitisse chegar à melhor oportunidade, que lhe igualaria com os mais ricos.

Ao que parece, a teoria de Dworkin responde tal pergunta, sendo a mais acertada e a que contém menos falhas, ou inclinações ao liberalismo exacerbado, levando a uma ideia igualitarista não utópica, mas factível, perfeitamente condizente com a solidariedade social e a igualdade buscada para a saúde, com o ressarcimento.