social, torna-o associável a espaços de dimensões variáveis que vão desde extensões territoriais pequenas até a supranacional (AMARAL, 2005).
As regiões são subdivisões do espaço: do espaço total, do espaço nacional e mesmo do espaço local. Um espaço de conveniência, meros lugares funcionais de todo contexto.
A região foi, no passado, um sinônimo de territorialidade absoluta de um grupo por meio das suas características de exclusividade, de identidade e de limites. Hoje, o número de mediações é muito grande, levando até a crer que dessa forma tradicional não existe mais (AMARAL, 2005).
A abordagem do conceito de região2 enfrenta problemas epistemológicos e metodológicos semelhantes aos confrontados pelas noções de espaço e território, pois são conceitos elaborados envolvendo várias disciplinas, sendo difícil encontrar ou estabelecer a predominância de alguma. Como aponta Haesbaert (1999, p. 18), “trata-se de uma palavra das mais imprecisas, devido as suas características polissêmicas, de polivalência e de multiescolaridade”.
Visando reforçar a discussão conceitual, é importante rever algumas definições da região.
Na aceitação mais geral, a região é caracterizada como uma construção social localizada dentro de fronteiras territoriais, remetendo à associação com questões econômicas.
Assim, região se refere a um conceito que abrange uma variedade de escalas espaciais, com variados conteúdos políticos, econômicos e sociais.
De acordo com Ramirez (2001, p. 11), em sua definição mínima e mais difundida, “a região é entendida como um nível territorial intermediário entre o estado e os municípios, apesar de que, no processo de criação de blocos econômicos entre países, existem regiões que superam em tamanho os estados nacionais”.
A região, também, é identificada em função de critérios geográficos, como espaços físicos mais ou menos homogêneos em termos topográficos, climáticos etc., sendo definida por um ponto central comum existente dentro de um território, como pode ser uma cidade ou um acidente geográfico.
2Para o entendimento atual do conceito de região, deve-se ater às características que assume a divisão do trabalho nos tempos atuais, em que existem várias superposições de diferentes níveis de divisão do trabalho (internacional, nacional e local) redefinindo a reorganização espacial de forma deliberada e planejada.
As regiões também podem ser definidas em funções de variáveis culturais, tais como:
tradições compartilhadas, padrões de socialização, linguagem / dialeto ou de acordo com uma identidade compartilhada por cidadãos e atores políticos do território.
Algumas regiões são definidas em função de divisões institucionais, constituídas historicamente ou de criação mais recente estabelecida como resultado da ação pública, privada ou intermediária.
A região também pode ser pensada em função de fatores econômicos (KEATING, 1998, p. 8), em que “a definição tem como base, padrões comuns de produção, interdependência real ou potenciais, problemas e projetos comuns, mercado de trabalho entre outros.”
A concepção é de que a forma espacial é expressão da combinação entre uma porção de território e um modo de produção que sobre ele se concretiza em um dado momento histórico, portanto, o ato de definir regiões é, por natureza, político, embora apoiado por critérios de natureza técnica. Essa decisão implica numa pré-definição de objetivos, isto é, ligada a uma política estabelecida.
O tipo de região adequada aos propósitos de quem regionaliza está sempre associada aos objetivos. Por exemplo, nos estudos de regionalização do IBGE, as mesorregiões das unidades da federação foram definidas pelas seguintes dimensões: o processo social como determinante, o quadro social como condicionante e a rede de comunicação e de lugares como elementos da articulação espacial, assegurando-lhes uma identidade regional. Posteriormente, elas sofreram uma sub-regionalização (microrregiões) face às especificidades, quanto à organização do espaço, possibilitando visualizar melhor a diferenciação territorial (estruturas de produção diferenciadas) (AMARAL, 2005).
Apesar da diversidade de conceitos de região, da qual decorre a multiplicidade de critérios de regionalização, bem diferenciados em sua natureza e que resultam na delimitação de diferentes áreas territoriais, compreende-se que existe um conceito restrito de região que implica na concepção de região organizada, isto é, de espaço estruturado, caracterizado não pela homogeneidade de estado de uma ou algumas variáveis ou pela morfologia, mas definida por relações entre cidades dentro de um sistema de organização hierárquica e de distribuição espacial de funções que permitam identificar uma unidade espacial com evidência de coesão interna. É a região funcional.
De qualquer forma, independente de maior ou menor conteúdo político, o importante para a prática do desenvolvimento regional é conhecer a estrutura e a dinâmica regional, que é
o ponto de partida para a tomada de decisões quanto às intervenções (ação regionalizada) ou para o processo de regionalização e do processo de planejamento regional.
Na evolução do conceito de região no contexto de disciplinas da economia e da geografia ao longo do século XX, cabe destacar, nos princípios dos anos 1980, o tratamento dado à região, entendida como um processo motriz da vida social, e não apenas como resultado de um processo econômico político, ressurgindo como centro do pós-fordismo, da flexibilidade da produção e dos sistemas baseados na aprendizagem.
Uma das concepções mais importantes sobre região é aquela baseada na teoria dos sistemas, como insiste Keating (1998, p. 10):
As regiões devem ser entendidas como sistemas abertos em constante processo de definição, onde as estratégias, os interesses, a identidade regional não devem ser expressão de fatores causais e deterministas, nem a expressão de desejos, interesses e estratégias específicas, mais sim surgir e ser propriedade dos atores da mesma, onde a manifestação do interesse regional deve ser entendida como um processo político complexo.
A região é uma realidade complexa e dinâmica. É dinâmica tanto no sentido de ser teatro de contínuas interações entre seus componentes, ao mesmo tempo em que interage com outras regiões, como sentido de que é passível de mudanças ao correr do tempo, quer em suas características, que em seus limites. Sua complexidade decorre da multiplicidade de aspectos que constituem a realidade total e que se manifestam através de fenômenos de natureza e amplitude diversas que se inter-relacionam.
Como se vê, o conceito de região pode ser expresso de formas diversas através das dimensões política, econômica, social, cultural, sem que necessariamente haja uma articulação entre diferentes manifestações.
Trata-se, pois, de um conceito dinâmico, cujo conteúdo é instável e mutável, variando de acordo com os resultados do processo político e as tendências dominantes no terreno econômico.
Outro conceito a esclarecer é o de “Regionalismo” referente à organização política da demanda regional e a mobilização do interesse regional.
Existe um consenso em torno da ideia de que, na medida em que as dimensões, tais como identidade cultural, coesão política, econômica etc., coincidem dentro de um mesmo espaço territorial dando lugar a um grau de demanda e mobilização do interesse regional impulsionada a partir da região, tem-se o que se denomina de “Regionalismo”.
Portanto, o regionalismo é gerado no contexto dos estados modernos: os estados- nacionais hoje conhecidos foram consolidados, em sua maior parte, a partir do domínio hegemônico de uma região que impôs cultura, língua, religião e sistema produtivo sobre outras regiões (CASTRO, 1997).
Em suma a natureza do regionalismo foi inserida através de lutas por recursos, poder simbólico, afirmação de uma identidade, caracterizando um desejo de soberania, embora identidades culturais fortes como a língua, religião e etnia sejam símbolos eficientes nas disputas regionalistas. O regionalismo não se esgota neste tipo de viés cultural (CASTRO, 1997).
No período em que se formou o Estado sem que existisse ainda a nação, as pessoas se julgavam primeiro pernambucanas, paraibanas, paulistas, mineiras, fluminenses, gauchas etc.
e depois brasileiras. A condição de brasileiro, da nacionalidade, vinha depois da naturalidade (ANDRADE, 2004). Nesta vertente podemos citar alguns exemplos de regionalismo no Brasil: Revolução Pernambucana e independência; a adesão da Amazônia ao Brasil (1823);
Confederação do Equador (1824); Sabinada (proclamação da República Baiense, 1837-1838).
Fatos importantes que de certa forma deixaram contribuições sobre a formação do contexto regional brasileiro.
Se considerar que as regiões constituem arenas para a negociação de sistemas funcionais de ação em suas dimensões políticas, econômicas e sociais, o regionalismo pode prover as bases para propósitos convergentes.
Uma região onde o regionalismo se faz presente geralmente possui um ambiente favorável para uma cooperação desenvolvimentista, ou seja, uma aliança de base territorial conformada por atores políticos e sociais pertencentes a distintos setores sociais, cujo objetivo é o de impulsionar o desenvolvimento econômico de um determinado território.
Pode-se refletir o regionalismo como um movimento político-administrativo que visa à criação de uma estrutura governamental para coordenar e implementar um conjunto de funções públicas, intermediário entre os órgãos centrais e os governos locais. O importante a destacar é de que a região e o regionalismo podem dar sustento à constituição de atores da base regional, com algum nível de representação regional frente ao nível superior da hierarquia funcional (nacional ou estadual), formulando projeto próprio de interesse regional.
Assim, o regionalismo pode ser encarado como atividades de um moderno processo de planejamento governamental, como forma de democratizar e integrar as atividades do
governo de assegurar maior eficácia aos objetivos regionalizados das políticas públicas (AMARAL, 2005).
Conforme aponta Araújo (1999), no contexto atual da questão regional brasileira, a saída seria a criação de um Conselho Nacional de Políticas Públicas, ligado diretamente presidido pelo Presidente da República, no qual seria discutido e consequentemente onde seriam tomadas as decisões mais relevantes que digam respeito ao tratamento da questão regional brasileira contemporânea, considerando-se tanto propostas voltadas para a desconcentração da atividade produtiva no território nacional, quanto uma melhor distribuição das oportunidades de empregos produtivos e o desencadeamento de um processo de redução dos níveis de vida entre os habitantes das diferentes regiões do país.
Ainda conforme análise da autora, um país continental e heterogêneo como o Brasil não pode ser entregue apenas às decisões ditadas pelas regras do mercado. Pode e deve ter uma política pública ativa de desenvolvimento regional. Como têm os principais países. Ela faz parte de uma opção por compatibilizar interesses nacionais importantes com a inserção num mundo cada vez mais competitivo e interconectado. Interesse como o de evitar uma fragmentação indesejada da dinâmica econômica que solidarize o destino do país e faça emergir regionalismos.
Em síntese, ao longo dos últimos 60 anos, e conduzido por um projeto capitalista, o Estado brasileiro sedimentou, em todas as esferas do poder público, um ideário permeado por teorias desenvolvimentistas e integracionistas que, por sua vez, nortearam a criação de órgãos regionais de planejamento como, por exemplo, a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). Com posturas notadamente geopolíticas, apregoando a necessidade da ocupação territorial para a defesa das fronteiras nacionais e para a ampliação da utilização das riquezas naturais, o que se viu foi à efetivação do controle, por parte do Estado, de todo o território nacional, sem, no entanto, refletir em mudanças qualitativas no nível de vida da grande maioria da população do país.
O fortalecimento do Estado Nacional, desse modo, decorreu de uma política territorial voltada para a articulação e integração das diferentes parcelas ao contexto nacional,
‘produzindo’, no entanto, mais elementos para a diferenciação do espaço brasileiro. Em se tratando das áreas menos desenvolvidas, tal política se materializou através de duas estratégias principais: a articulação comercial (inicialmente) e a integração produtiva (em seguida), ambas sob a hegemonia da região Sudeste (GUIMARÃES NETO, 1997),
cristalizando, por sobre o território, padrões distintos de produção e desenvolvimento capitalistas.
A história nacional é marcada por uma dinâmica econômica regionalmente diferenciada, produzindo desigualdades e disparidades regionais. A economia brasileira, até a primeira metade dos anos 1960, passou de uma fase de fraca articulação regional (comercial) para uma fase de maior integração (produtiva), principalmente durante o período de industrialização via substituição de importações, realizando a constituição do mercado interno via articulação comercial, sob a hegemonia do Sudeste, particularmente do estado de São Paulo, cristalizando uma dinâmica econômica desigual entre as regiões do país. O Estado Nacional, por sua vez, vê-se fortalecido, dado o alto grau de controle e centralização que marca o fim do isolamento entre os vários subespaços nacionais, através de políticas territoriais ostensivamente direcionadas pela conquista e interiorização.
O caso de Mato grosso também foi marcado pela desigualdade regional, conforme apresentado anteriormente, isso representou particularmente impactos negativos na economia e desenvolvimento do estado. A proposta a seguir, é apresentar o cenário econômico de desenvolvimento em Mato Grosso, sobretudo identificar as políticas públicas voltadas para o desenvolvimento regional, potenciais econômicos e alternativas vivenciadas pelo Estado nos últimos anos.