comum “não apenas os bens adquiridos na constância do matrimônio, mas também os pertencentes a cada qual no momento da celebração do casamento.
Estabelecida a comunhão, os bens dos cônjuges passam a formar um só patrimônio”.
Adiciona ainda Gomes129 :
a posição jurídica dos cônjuges é peculiar. Não são proprietários das coisas individualizadas que o integram, mas do conjunto desses bens. Não se trata de condomínio propriamente dito, porquanto nenhum dos cônjuges pode dispor de sua parte nem exigir a divisão dos bens comuns. Tais bens são objeto de propriedade coletiva, a propriedade de mão comum dos alemães, cujos titulares são ambos os cônjuges.
Não obstante a regra geral da Comunhão Universal de Bens ser a comunicação dos mesmos, o ordenamento jurídico elenca algumas exceções no artigo 1.668 do Código Civil, a saber:
Art. 1.668. São excluídos da comunhão:
I - os bens doados ou herdados com a cláusula de incomunicabilidade e os sub-rogados em seu lugar;
II - os bens gravados de fideicomisso e o direito do herdeiro fideicomissário, antes de realizada a condição suspensiva;
III - as dívidas anteriores ao casamento, salvo se provierem de despesas com seus aprestos, ou reverterem em proveito comum;
IV - as doações antenupciais feitas por um dos cônjuges ao outro com a cláusula de incomunicabilidade;
V - Os bens referidos nos incisos V a VII do art. 1.659.
No que concerne ao inciso I do artigo supracitado, elucida Diniz130 que se um imóvel doado com cláusula de incomunicabilidade vier a ser desapropriado, “a indenização é paga pelo poder público (Dec.-lei n. 3.365/41, art.
129 GOMES, Orlando. Direito de família. 14. ed. rev. e atual. por Humberto Theodoro Junior.– Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 196.
130 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 5º volume: direito de família – 20ª ed.
rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil (Lei n. 10.406, de 10-1-2002) e Projeto de Lei n. 6.960/2002. – São Paulo: Saraiva, 2005. p. 173.
31) ao donatário, em razão de sub-rogação real, não se comunicando ao seu cônjuge”.
Quanto ao inciso II do referido dispositivo legal, Diniz131 explica que tais bens são incomunicáveis tendo em vista que a propriedade do fiduciário é resolúvel, de forma a contrariar o princípio da imutabilidade do regime matrimonial. “Com o implemento da condição cessa a resolubilidade, operando sua entrada na comunhão, logo, esses bens não podem comunicar-se antes da condição suspensiva”.
Leciona ainda Diniz132:
O fideicomisso é, portanto, uma situação em que o testador (fideicomitente) determina que o fiduciário deve, por sua morte ou a certo tempo, ou condição, transmitir o bem ao fideicomissário.
Claro está que essa propriedade tem de ser incomunicável para que o fiduciário possa cumprir a fidúcia, ou seja, a obrigação de transmitir a coisa.
O inciso III do artigo em análise, por sua vez, exclui da comunhão as dívidas anteriores ao Casamento, salvo se provierem de despesas com seus aprestos ou reverterem em proveito comum. Ministra Pereira133 acerca desta exclusão:
Pelas dívidas que não se comunicam será demandado o devedor e, se na sua liquidação forem alcançados os bens comuns, o valor deverá imputar-se na meação do responsável, e excluído da do outro. Responde, entretanto, o acervo conjugal pelas que o nubente houver contraído para os aprestos do casamento ou reverterem em proveito comum, tais como, as despesas com a habilitação, as efetuadas com a instalação da casa, as que provierem de imóvel para residência do casal, as que ambos
131 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 5º volume: direito de família – 20ª ed.
rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil (Lei n. 10.406, de 10-1-2002) e Projeto de Lei n. 6.960/2002. – São Paulo: Saraiva, 2005. p. 174.
132 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 5º volume: direito de família – 20ª ed.
rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil (Lei n. 10.406, de 10-1-2002) e Projeto de Lei n. 6.960/2002. – São Paulo: Saraiva, 2005. p. 174.
133 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. Rio de Janeiro: Forense, 2004. p.
226.
beneficiarem. Entram, também, no patrimônio do casal as dívidas anteriores se o outro cônjuge participar das vantagens delas.
Excluem-se também deste regime as doações antenupciais feitas por um dos cônjuges ao outro com a cláusula de incomunicabilidade, exatamente por conter esta condição, conforme dispõe o inciso IV do artigo retro- exposto.
Tal artigo elenca ainda como excluídos da comunhão, em seu inciso V, os bens de uso pessoal, livros e instrumentos de profissão, proventos do trabalho pessoal de cada consorte e pensões, meio-soldos e montepios .
Por óbvio, os bens de uso pessoal e livros e instrumentos profissionais restam incomunicáveis, vez que seu caráter é personalíssimo. Assim também ocorre com as pensões, meio-soldos e montepios.
No entanto, no que tange aos rendimentos do trabalho de cada cônjuge, traz à tona Diniz134 que o Projeto de Lei nº 6.960/2002 pretende modificar tal inciso, retirando do rol de bens incomunicáveis os referidos proventos, acatando a lição de Alexandre Guedes de Alcoforado Assunção, que assevera possuir a Comunhão Universal de Bens a característica da comunhão dos bens presentes e futuros dos consortes. Não faria sentido, por este motivo, a exclusão dos referidos rendimentos, haja vista que tão exclusão implicaria a exclusão dos bens adquiridos com tais proventos ante a sub-rogação.
Subseqüente ao artigo que determina os bens excluídos da comunhão neste regime, reza o artigo 1.669 do Código Civil que tal incomunicabilidade não se estende aos frutos dos mesmos, quando percebidos ou vencidos na constância do Casamento.
Nesta seara, exemplifica Diniz135:
134 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 5º volume: direito de família – 20ª ed.
rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil (Lei n. 10.406, de 10-1-2002) e Projeto de Lei n. 6.960/2002. – São Paulo: Saraiva, 2005. p. 175.
135 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 5º volume: direito de família – 20ª ed.
se um dos nubentes, antes de se casar, tinha direito a uma pensão, esse direito não se comunica pelo casamento. Porém, o dinheiro que receber, após as núpcias, se comunica, a partir do vencimento de prestação, isto é, recebida a pensão, o valor assim obtido entra no patrimônio do casal, bem como os bens adquiridos com ela. Faltando estipulação em contrário, comunicam-se esses frutos auferidos na constância do matrimônio, tendo cada cônjuge direito à metade ideal deles.
No que se refere à administração dos bens, vigoram as normas da Comunhão Parcial de Bens, preceituadas nos artigos 1.663 e 1.664 do Código Civil. A respeito, pronuncia-se Dias136:
Os arts. 1.665 e 1.666, como dizem com a administração e dívidas dos bens particulares, não se encaixam quando o regime é da comunhão universal, sede em que descabe falar em acervo particular. E, falando em administração, não se pode olvidar o que dizem os arts. 1.642 a 1.650, que regulamentam a gerência dos bens em todo e qualquer regime. A alienação ou oneração dos bens comuns depende da manifestação de ambos os cônjuges, não podendo ser afastada essa exigência nem por pacto antenupcial. A ressalva do art. 1.665 diz com os bens particulares, podendo servir aos regimes da comunhão parcial e da participação final dos aquestos, mas não serve para a comunhão universal, onde inexiste tal espécie de bens. No máximo se pode cogitar tal possibilidade quanto aos bens excluídos da comunhão (CC 1.668). Igualmente, pelas dívidas assumidas por um dos consortes, não responde o outro nem sua meação (EMC 3º).
Por derradeiro, no que respeita à extinção da vida em comum, Dias137 acentua que a comunhão resta dissolvida e, conseqüentemente, a responsabilidade de cada um dos cônjuges para com os credores do outro deixa de existir. Adiciona Dias138
rev. e atual. de acordo com o novo Código Civil (Lei n. 10.406, de 10-1-2002) e Projeto de Lei n. 6.960/2002. – São Paulo: Saraiva, 2005. p. 176.
136 DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias – 3 ed. rev. e atual. e ampl. – São Paulo:Editora Revista dos Tribunais, 2006. p. 210.
137 DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias – 3 ed. rev. e atual. e ampl. – São Paulo:Editora Revista dos Tribunais, 2006. p. 209.
138 DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias – 3 ed. rev. e atual. e ampl. – São Paulo:Editora Revista dos Tribunais, 2006. p. 209.
Pacificado em sede jurisprudencial que a separação de fato rompe o estado condominial dos bens e dívidas. Assim, a responsabilidade de um dos cônjuges para com credores do outro persiste somente com relação às dívidas contraídas durante a convivência do casal. Mesmo antes da partição dos bens, descabido impor a um o ônus por dívidas contraídas pelo outro depois de findo o convívio. Sob pena de chancelar-se o enriquecimento ilícito, não pode ser outra a leitura do texto legal (CC 1.671): extinta a comunhão, e efetuada a divisão do ativo e do passivo, cessará a responsabilidade de cada um dos cônjuges para com os credores do outro. ‘Extinta a comunhão’ só pode significar fim da comunhão de vidas, e não extinção do casamento, que só ocorre quando do trânsito em julgado da sentença do divórcio, pela morte de um dos consortes ou com a decretação da invalidade do matrimônio. Também não se faz necessária, em conseqüência, a partilha de bens para que cesse a responsabilidade patrimonial.
Evidente, pois, a preocupação em finalizar a comunhão dos bens e dívidas quando da dissolução dos vínculos conjugais, tendo em vista que, não mais comungando os cônjuges de vida a dois, não há motivo, por óbvio, de perdurar a comunhão em relação a bens e obrigações.