2 SOBRE A MORTE E O MORRER DA PESSOA HUMANA
Esta seção apresenta a morte humana, breve abordagem sobre a relação com a religião, seus mistérios ante o desconhecido e os eufemismos utilizados na tentativa de torná-la natural. Apresenta ainda as dificuldades de enfrentamento, pois o homem é o único ser que possui consciência da própria morte, um dos fatos que o distingue dos demais viventes. Aborda ainda a morte na acepção jurídica e os critérios de determinação do fim da existência humana segundo os parâmetros da Medicina.
advento do Código de Hamurabi, no século XV a.C., as diretrizes médicas começaram a se desvincular da religião (MARREIRO, 2014).
É necessário compreender que há dois discursos em defesa da vida. Embora um defenda sua sacralidade, outro se atém à autodeterminação, conforme lição de Pessini e Barchifontaine, que formulam a seguinte indagação: “Qual é o discurso mais adequado para defender a vida em sua integralidade?” E os apresentam: “No debate hodierno a questão se polarizou em dois campos, ou seja, os que se definem pró-vida (pro life), que defendem a sacralidade da vida, e os pró-liberdade de escolha (pro choice), que empunham a bandeira da qualidade de vida” (PESSINI;
BARCHIFONTAINE, 2012, p. 444). Comentam os referidos autores que a secularização levou à dessacralização da vida e que a inviolabilidade da vida aponta para uma visão sagrada. Para eles,
O moderno pensamento teológico defende que o próprio Deus delega o governo da vida à autodeterminação do ser humano e isso não fere e muito menos se traduz numa afronta a sua soberania.
Dispor da vida humana e intervir nela não fere o senhorio de Deus, se essa ação não for arbitrária. A perspectiva é responsabilizar o ser humano de uma maneira mais forte diante da qualidade de vida.
(PESSINI; BARCHIFONTAINE, 2012, p. 444).
A seguir, apresenta-se uma breve análise sobre como as maiores religiões reconhecidas no mundo entendem a supressão do excesso terapêutico.
Sob a ótica dos cristãos, a vida é sagrada e não pode ter fim a não ser pelo próprio Deus, mas sob certas condições, pode-se aceitar a supressão de recursos médicos aos doentes em irreversível processo de morte se o prolongamento da vida causar mais danos que benefícios a ele, à família e à comunidade (HURTADO OLIVER citado por VIEIRA, 2012).
Sendo o Cristianismo a doutrina mais difundida no mundo, possui o maior número de documentos sobre a Ortotanásia. A posição da Igreja Católica, com base na Declaração da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, condena todos os crimes contra a vida, que é um dom divino: “A Declaração se mostra favorável ao uso de medicamentos capazes de aliviar ou suprimir a dor, mesmo se estes puderem ter como efeito colateral um estado de semiconsciência ou a redução da lucidez” (VIEIRA, 2012, p. 154). Em 1980, a Declaração conceituou a eutanásia e a condenou por ser uma violação à Lei Divina, salientando a proteção à dignidade da
pessoa e o conceito cristão de vida contra a denominada “atitude tecnológica que pode se tornar um abuso” (manifestando-se contra a prática da distanásia). Defende
“o direito a morrer em paz, preservando a dignidade humana e cristã” (VIEIRA, 2012, p. 154), não o direito de procurar a morte, por meio de atitude própria ou de terceiro.
Em 1995, o Papa João Paulo II, através da Carta Encíclica Evangelium Vitae, condenou a distanásia, afirmando ser o excesso terapêutico inadequado à situação prática e real do paciente. Afirma-se, portanto, que a Igreja Católica condena a prática da eutanásia e da distanásia, todavia, pressupõe-se a admissão da ortotanásia.
Citando outras religiões cristãs, Leo Pessini explicita a posição da Igreja Batista, que condena a eutanásia ativa por violar a santidade da vida e defende “o direito de o indivíduo tomar suas próprias decisões em relação às medidas ou tratamentos que prolongam a vida” (PESSINI citado por VIEIRA, 2012, p. 156). Já as Testemunhas de Jeová entendem que, em face de morte inevitável, não se deve usar meios extraordinários que retardem o processo de morte e que a eutanásia é assassinato, que viola a santidade da vida (PESSINI citado por VIEIRA, 2012, p.
157).
O Judaísmo, por seu turno, enfrenta a morte, no sentido de que o último período da doença deve ser encarado como o momento em que paciente deve ser assistido, consolado e encorajado (SÁ, 2005). Enquanto a eutanásia é ilícita segundo o ordenamento jurídico dos judeus, a ortotanásia não é considerada prática ilícita. O Judaísmo permite suspender terapia inútil para que ocorra a morte, admitindo uso de drogas capazes de controlar o sofrimento, ainda que desse tratamento resulte abreviação da vida. Já para o Budismo, que não concebe um ser supremo, criador, a vida não é considerada divina e
[...] a religião não vê a morte como o fim da vida, mas como transição. O Budismo reconhece o direito das pessoas de determinar quando deveriam passar desta existência para a seguinte. O importante não é se o corpo vive ou morre, mas se a mente pode permanecer em paz e em harmonia consigo mesma (PESSINI, 2002, p. 266).
O Islamismo, por sua vez, acredita que os direitos humanos emanam de Alá, e com base no Corão a pessoa humana é o ser mais nobre e digno de honra; proíbe o homicídio, o suicídio e a eutanásia; entretanto o médico pode obedecer aos limites
da vida, sendo injustificável manter o paciente em estado vegetativo ou manter a vida artificialmente (PESSINI citado por VIEIRA, 2012). Para o Islamismo, no que tange à ética médica, o Código Islâmico de Ética Médica dispõe que o médico jura proteger a vida humana em todos os estágios e sob quaisquer circunstâncias, fazendo o máximo para libertá-la da morte, doença, dor e ansiedade. Depreende-se que a ortotanásia seja admitida pela religião islâmica. Para Maria de Fátima Freire de Sá,
[...] torna-se imperioso concluir que o islamismo condena o suicídio e a eutanásia ativa. Contudo, traz certa simpatia em relação à ortotanásia, uma vez que condena a adoção de medidas heroicas para manter, a todo custo, a vida de alguém com morte iminente (SÁ, 2005, p. 70).
Exceto o Budismo, as demais religiões mundialmente reconhecidas são unânimes em considerar a vida humana como preciosa e sagrada e não adotam a Eutanásia como uma conduta legítima. Antes a condenam, atribuindo-lhe o mesmo tratamento dos demais atos cometidos contra a vida, como o homicídio, o suicídio e o aborto. Entretanto, todas as que foram mencionadas possuem um entendimento que lhes é comum: a preservação da dignidade e o entendimento de que, quando a morte se mostra inevitável, não se deve prolongar a vida por meio da utilização de tratamentos inúteis e de recursos artificiais.
Assim, muitas são as religiões que discutem a vida e a morte, que são inerentes a todo ser humano, prestigiando a autodeterminação, o que justifica a reivindicação pela legalidade da prática da Ortotanásia, com fundamento no direito de morrer dignamente, como extensão do princípio da dignidade da pessoa humana, que é respeitado unanimemente pelas diferentes religiões.