O direito à Ortotanásia chega ao Tribunal do Estado do Rio Grande do Sul, não havendo até o momento julgados submetidos aos tribunais superiores – Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Supremo Tribunal Federal (STF) –; entretanto, pode-se afirmar que há tendência dos Tribunais em legitimar a prática da Ortotanásia, pelo que se constata da observação e atenta leitura dos julgados que seguem.
Apresenta-se em primeiro lugar o seguinte julgado (Cf. íntegra no ANEXO 4):
AJALR Nº 70042509562 2011/CÍVEL
CONSTITUCIONAL. MANTENÇA ARTIFICIAL DE VIDA.
DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. PACIENTE, ATUALMENTE, SEM CONDIÇÕES DE MANIFESTAR SUA VONTADE. RESPEITO AO DESEJO ANTES MANIFESTADO. Há de se dar valor ao enunciado constitucional da dignidade humana, que, aliás, sobrepõe- se, até, aos textos normativos, seja qual for sua hierarquia. O desejo de ter a “morte no seu tempo certo”, evitados sofrimentos inúteis, não pode ser ignorado, notadamente em face de meros interesses econômicos atrelados a eventual responsabilidade indenizatória. No caso dos autos, a vontade da paciente em não se submeter à hemodiálise, de resultados altamente duvidosos, afora o sofrimento que impõe, traduzida na declaração do filho, há de ser respeitada, notadamente quando a ela se contrapõe a já referida preocupação patrimonial da entidade hospitalar que, assim se colocando, não dispõe nem de legitimação, muito menos de interesse de agir.
O desembargador relator do recurso, em seu voto, declara sobre a petição:
[...] reflete a disputa entre a ortotanásia e a distanásia, corresponde a primeira o assegurar às pessoas uma morte natural, sem interferência da ciência, evitando sofrimentos inúteis, assim como dando respaldo à dignidade do ser humano, ao passo que a segunda implica prolongamento da vida, mediante meios artificiais e desproporcionais, adjetivando-a de “obstinação terapêutica”, na Europa, senão de “futilidade médica”, nos Estados Unidos.
Decide, então pelo atendimento à vontade da paciente, pela não realização do procedimento com risco de vida e pelo direito ao não sofrimento – direito a ter suas dores minoradas, bem como resguarda o direito pela “morte no tempo certo”:
Ortotanásia.
Outro importante julgado é a Apelação Cível Nº 70054988266 do TJRS, em que os desembargadores, por unanimidade, não acataram a petição do promotor de justiça de amputar o pé do paciente sujeito à gangrena contra sua vontade. Em recente decisão, de 20.11.2013, o relator, Des. Irineu Mariani, entendeu pela prevalência da vontade do enfermo quanto à decisão de não amputar o membro ainda que com objetivo de salvar-lhe a vida (Cf. íntegra no ANEXO 5).
APELAÇÃO CÍVEL. ASSISTÊNCIA À SAÚDE. BIODIREITO.
ORTOTANÁSIA. TESTAMENTO VITAL.
1. Se o paciente, com o pé esquerdo necrosado, se nega à amputação, preferindo, conforme laudo psicológico, morrer para
“aliviar o sofrimento”; e, conforme laudo psiquiátrico, se encontra em pleno gozo das faculdades mentais, o Estado não pode invadir seu corpo e realizar a cirurgia mutilatória contra a sua vontade, mesmo que seja pelo motivo nobre de salvar sua vida.
2. O caso se insere no denominado biodireito, na dimensão da ortotanásia, que vem a ser a morte no seu devido tempo, sem prolongar a vida por meios artificiais, ou além do que seria o processo natural.
3. O direito à vida garantido no art. 5º, caput, deve ser combinado com o princípio da dignidade da pessoa, previsto no art. 2º, III, ambos da CF, isto é, vida com dignidade ou razoável qualidade. A Constituição institui o direito à vida, não o dever à vida, razão pela qual não se admite que o paciente seja obrigado a se submeter a tratamento ou cirurgia, máxime quando mutilatória. Ademais, na esfera infraconstitucional, o fato de o art. 15 do CC proibir tratamento médico ou intervenção cirúrgica quando há risco de vida, não quer dizer que, não havendo risco, ou mesmo quando para salvar a vida, a pessoa pode ser constrangida a tal.
4. Nas circunstâncias, a fim de preservar o médico de eventual acusação de terceiros, tem-se que o paciente, pelo quanto consta nos autos, fez o denominado testamento vital, que figura na Resolução nº 1995/2012, do Conselho Federal de Medicina.
5. Apelação desprovida.
O relator destaca que o paciente idoso estava lúcido, vendo a morte como alívio do sofrimento. Salientou se tratar de um caso que se insere na dimensão da Ortotanásia. E se o paciente se recusa ao ato cirúrgico mutilatório, conclui o relator, invocando o princípio da dignidade da pessoa humana: em relação ao seu titular, o
direito à vida não é absoluto e nem pode ele ser obrigado a se submeter à cirurgia com risco (art. 15 CCB). Não acatou o pedido do promotor de justiça para que fosse realizada a cirurgia mutilatória sem consentimento do enfermo.
Com base na doutrina e nas jurisprudências supramencionadas, a Ortotanásia parece caminhar no sentido de assumir seu papel precípuo, qual seja, tutelar a autodeterminação da pessoa enferma, bastando para isso que tenha ela capacidade, apresente estado de terminalidade e manifeste vontade de forma livre (consentimento). A orientação dessa decisão poderá se tornar referência e precedente para julgamentos de muitas outras situações concretas para a consecução de efetividade da autodeterminação da pessoa enferma.
6 ORTOTANÁSIA NA PERSPECTIVA DA CIÊNCIA MÉDICA
Pela leitura realizada em Eduardo Luiz Santos Cabette (2013, p. 13), infere-se que o Conselho Federal de Medicina tenha consagrado a aprovação deontológica em relação à prática da Ortotanásia, ao aprovar a Resolução nº 1.805/06, que permite aos médicos a interrupção de tratamentos que visam prolongar inutilmente a vida de pessoas em estado terminal, irreversível e sem possibilidade de cura, que disciplina:
Art. 1º. Na fase terminal de enfermidades graves e incuráveis é permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos ou tratamentos que prolonguem a vida do doente, garantindo-lhe os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, na perspectiva de uma assistência integral, respeitada a vontade do paciente ou de seu representante legal (BRASIL.
RESOLUÇÃO No 1805/06, CFM – Cf. ANEXO 6).
Em análise à referida Resolução do CFM, declara Cabette:
O Conselho Federal de Medicina tem procurado deixar claro que não está convalidando a prática da eutanásia, mas sim da ortotanásia, de modo a apenas antecipar uma morte inevitável, sem nem mesmo causá-la por ação ou omissão. Ademais, a decisão sobre a adoção do procedimento não é arbitrariamente conferida ao profissional da medicina. As responsabilidades pela decisão são compartilhadas entre o médico e o doente ou seus representantes legais (CABETTE, 2013, p. 35).