Ainda conforme Baracho Júnior84, o prejuízo deve ocorrer para incidir a responsabilidade objetiva sobre quem originou o dano. Esse prejuízo, obrigatoriamente, deve ser reparado, mas, para tanto, é necessário que ele seja grave e periódico para que os seus efeitos nocivos sejam, realmente, verificados no ambiente.
Costa Neto85 leciona que a responsabilidade civil em matéria de dano ambiental é de natureza objetiva, conforme evidencia a regra do art. 14, parágrafo 1º, da Lei n.º 6.938/81, ou seja, independe do elemento culpa. A abdicação do pressuposto subjetivo (culpa) decorre da tendência contemporânea de alargamento dos mecanismos de tutela ambiental, levando ao abandono, nesse campo, da clássica, concepção de responsabilidade subjetiva (CC, art. 159), insuficiente à eficaz proteção do meio ambiente no campo civil.
Conforme reza a Lei 6.938/81, a saber:
“Art. 14. Sem prejuízo das penalidades definidas pela legislação federal, estadual e municipal, o não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes e danos causados pela degradação da qualidade ambiental sujeitará os transgressores”:
§ 1º Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente de existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. O Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal por danos causados ao meio ambiente.".
Consoante Machado86, o prejuízo ainda deve ser anormal, e não necessariamente a atividade que lhe dá causa. Isso quer dizer que a licitude da atividade degradadora do ambiente é irrelevante. Portanto, a
84 BARACHO JÚNIOR, José Alfredo de Oliveira. Responsabilidade Civil por Dano ao Meio Ambiente. Belo Horizonte: Del Rey, 2000, p. 88.
85 COSTA NETO, Nicolao Dino de Castro. Proteção jurídica do meio ambiente. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 132.
86 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental brasileiro. 7ª ed. São Paulo: Editora Malheiros, 1998, p. 96.
responsabilidade civil independe de ofensa ao ordenamento jurídico pois ela não é típica.
Para Costa Neto87 a responsabilidade civil objetiva é, fundada no risco, bastando, para sua configuração, o nexo de causalidade entre o comportamento e o resultado danoso. Abstraindo o elemento culpa, o sistema jus-ambiental distancia-se de uma ótica privada, aproximando-se da matriz publicista da responsabilidade civil estatal, como forma de assegurar espectro de proteção.
Uma conseqüência da adoção da responsabilidade objetiva é a irrelevância do caso fortuito como causa excludente da responsabilidade, bem como a aplicação de caráter excepcional da força maior. Endossando a questão, Baracho Júnior88 aponta:
Estando a responsabilidade objetiva por dano causado ao meio ambiente fundamentada na teoria do risco integral, a culpa ou o proveito de terceiro que invoca a proteção jurisdicional, duas excludentes da responsabilidade objetiva, não poderiam ser suscitadas. No mesmo sentido, a força maior teria aplicação excepcional.
Pela teoria do risco integral, o dever de reparar o dano independe da análise da subjetividade do agente, fundamentando-se pelo só fato de existir a atividade da qual adveio o prejuízo. Essa idéia procura sugerir a inexistência de excludentes de responsabilidade, expressando a forma mais rigorosa de imputação de responsabilidade por dano ao meio ambiente. A obrigação de reparação decorreria somente do fato danoso, excluindo-se qualquer outra determinante externa a ele. Entende-se, por outro lado, ser mais adequado o uso simplesmente da terminologia risco (teoria do risco) haja vista a complexidade e o dinamismo da vida em sociedade, capaz de engendrar novas realidades conjunturais a respeito das quais a teoria do risco integral poderia não abranger. Corrobora-se, assim, com o pensamento de Baracho Júnior89 ao externar que:
87 COSTA NETO, Nicolao Dino de Castro. Proteção jurídica do meio ambiente. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 265.
88 BARACHO JÚNIOR, José Alfredo de Oliveira. Responsabilidade Civil por Dano ao Meio Ambiente. Belo Horizonte: Del Rey, 2000, p. 320.
Admitir as excludentes de responsabilidade seria fundamental. Isso porque o instituto da responsabilidade civil por dano ao meio ambiente não pode pretender absorver o mundo da vida, dinâmico e sempre mais rico do que o mundo do discurso por definição.
Leite90 destaca que o novo Código Civil, sem prejuízo da responsabilidade subjetiva, acresceu, de forma expressa, em seu art.927, parágrafo único, a obrigação de reparar o dano independentemente de culpa,
“Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente da culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, riscos para os direitos de outrem”.
Dessa forma, a responsabilidade objetiva ambiental significa que quem danificar o ambiente tem o dever jurídico de repará-lo, bastando, tão somente, o binômio dano/reparação. Não se pergunta a razão da degradação para que haja o dever de reparar, incumbindo ao acusado provar que a degradação era necessária, natural ou impossível de se evitar.
Para Leite91 basta haver o dano ambiental atribuível a determinado sujeito, para nascer a obrigação de restaurar o status quo ante – quase sempre impossível no caso de danos ambientais – ou de indenizar.
Do ponto de vista da aplicação da lei, a mudança é bastante significativa, pois muitas vezes é difícil apurar e provar a culpa, especialmente nos casos de omissão. Igual tendência é observada nos países industrializados. A responsabilidade objetiva não tem a culpa como fundamento do dever de indenizar, mas sim a previsibilidade da ocorrência do dano. Todo negócio comporta um risco aceito pelo empreendedor. O risco de dano ao meio ambiente não é diferente. Por essa razão é abarcado pelo risco do empreendimento.
89 BARACHO JÚNIOR, José Alfredo de Oliveira. Responsabilidade Civil por Dano ao Meio Ambiente. Belo Horizonte: Del Rey, 2000, p. 322.
90 LEITE, José Rubens Morato. Dano Ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial.
4 ed, São Paulo: LTr, 2003, p. 142.
91 LEITE, José Rubens Morato. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial.
São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2000, p. 78.