ALFABETIZAÇÃO NA ESCOLA RURAL DO ASSENTAMENTO I DA CIDADE DE SUMARÉ-SP
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES 1 O Assentamento Rural
Segundo Bergamasco e Norder (1999, p.3), no período de 1958 a 1962, foram registradas as primeiras iniciativas de assentamentos rurais no estado de São Paulo, na administração do então governador do Estado, Carvalho Pinto. O Programa de Revisão Agrária tinha como objetivo assentar 1.000 famílias, mas foram criados apenas dois projetos-pilotos, dos quais um se localizava em Campinas com 72 famílias e o outro na cidade de Marília com 103 famílias.
Os mesmos autores afirmam que, durante o governo militar, não foi feito muita coisa em prol da reforma agrária no Brasil. Apenas após a redemocratização, nos anos 80, as lutas sindicais incorporaram a reforma no debate político, com lutas dos trabalhadores rurais marcadas por conflitos, violência e embate físico entre posseiros, arrendatários e sitiantes. Através de movimentos sociais mais organizados, algum deles provenientes
dos sindicatos dos cortadores de cana, iniciou-se um novo trabalho para a reforma e ocupação de terras improdutivas.
A partir daí começaram a surgir vários assentamentos no estado de São Paulo, que possui uma forte política voltada para o agronegócio, que, segundo Bergamasco et al.
(2003, p.3), conta hoje com 141 núcleos de assentamentos rurais, com 9.624 famílias em uma área total de 214.104,58 ha. Com isso, a produção agrícola no Estado passa a ter dois importantes modelos. Por um lado, a produção agrícola industrializada, com alta tecnologia, predominantemente monocultura. E, por outro, a base de trabalho familiar no contexto em que os assentamentos rurais estão inseridos.
Segundo ainda Bergamasco e Norder (1999, p.3), os assentamentos representam uma maneira concisa de reforma agrária, através de um espaço físico onde as famílias se instalam, transformando-o em objeto de exploração agrícola.
De maneira genérica, os assentamentos rurais podem ser definidos como a criação de novas unidades de produção agrícola, por meio de políticas governamentais visando ao reordenamento do uso da terra, em benefício de trabalhadores rurais sem terra ou com pouca terra . (BERGAMASCO; NORDER, 1999, p. 5)
Diante disso, o estudo dos assentamentos rurais surge num contexto de ocupação de terras através de pessoas que perderam o acesso a este recurso no decorrer de uma longa história de migração nas várias regiões do país. A relação com o espaço é captada no movimento que caracteriza a história dessas pessoas, sendo que parte delas instalou-se na cidade, há algum tempo, mas com um passado rural que as marcou profundamente e que constitui sua identidade.
4.1.1 O Assentamento Rural I Em Sumaré-SP
Segundo o site do Movimento (MST), a história dos Trabalhadores Sem Terra é marcada por muitas lutas e reinvidicações, quando o Brasil vivia uma conjuntura de duras lutas pela abertura política e pelo fim da ditadura, além das mobilizações operárias nas cidades. Nesse contexto, em 1984, foi realizado o 1º encontro Nacional dos Sem Terra, em Cascavel, no Paraná, reunião que marca o ponto de partida da sua construção, quando houve 80 trabalhadores rurais que ajudavam a organizar as ocupações de terra em 12 estados, além de representantes da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária), da CUT (Central Única dos trabalhadores), do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e da Pastoral Operária de São Paulo.
Os participantes concluíram que a ocupação de terra era uma ferramenta fundamental e legítima dos trabalhadores rurais em luta pela democratização da terra. A partir desse encontro, saíram com a tarefa de construir um movimento orgânico nacional. Os objetivos foram definidos com a luta pela terra, pela reforma Agrária e por um novo modelo agrícola, além das lutas por transformações na estrutura da sociedade brasileira e um projeto de desenvolvimento nacional com justiça social.
De acordo com Bergamasco, Chaves, Elias e Souza (2002, p.2), em Sumaré, os assentamentos I e II foram criados a partir do Programa de Valorização de Terras Públicas (Lei Estadual nº 4957 de 30 de dezembro de 1985), ainda no governo de Franco Montoro. A participação de setores progressistas da Igreja Católica foi bastante importante para a organização das famílias que, posteriormente, lutariam pela terra.
Ainda segundo as autoras, o grupo de Sumaré, formado por 50 famílias, que há um ano participavam das discussões, decidiu ocupar a Fazenda Tamoyo, em Araraquara-SP, cuja área já se encontrava em processo de desapropriação. Após três dias de pressão da polícia e jagunços, algumas famílias desistiram e as que continuaram partiram para uma nova ocupação, no Horto Florestal de Araras, de propriedade da FEPASA (Ferrovias Paulista S/A), onde já haviam outras famílias instaladas em barracos de lona. Em seis dias, a FEPASA consegue reintegração de posse e essas famílias, sem terem para onde ir e para pressionar o Estado, acamparam nas margens da Rodovia Anhaguera, na entrada da cidade de Campinas. Alguns meses depois, o Estado, através do Instituto de
Assuntos Fundiários (IAF), viabiliza um assentamento no Horto Florestal da Boa Vista, também sob o controle da FEPASA, no município de Sumaré. No final do processo, 26 das 50 famílias são assentadas.
Sob a forma jurídica de concessão de uso, foi criado, com 237,59 ha., o núcleo de assentamento Sumaré I. Deste total, cerca de 1 ha era inaproveitável, 18,40 foram destinados à infraestrutura, 31,47 ha. mantidos como área de reserva/preservação ambiental. Assim, coube às 26 famílias cerca de 187 ha. Nessa cidade, a área disponibilizada tornou-se modelo em cultivo de alimentos por pequenos produtores para os assentamentos do MST no país, de modo que as famílias assentadas provêm o seu próprio sustento vindo da terra, Bergamasco, Chaves, Elias e Souza (2002, p.3).
4.1.2 Localização
Segundo o site do Movimento (MST), o Assentamento I da cidade de Sumaré está localizado no Horto Florestal de Sumaré às margens da Rodovia Teodor Cundiev, na altura do Km 2,5, que, juntamente com os Assentamentos II e III, possui 26 famílias e foi fundado em janeiro 1985, o Assentamento II possui 27 famílias e o Assentamento III tem 12 famílias, fundado em outubro de 2000.
4.1.3 Infraestrutura Social
O modelo de moradia é o sistema de Agrovila, cada família tem 0,5 ha para moradia.
Modelo de exploração dos lotes é de regime de economia familiar, ali não se pratica- mais o trabalho coletivo, os lotes agrícolas são de tamanho igual para todos. As decisões de interesse coletivo são tomadas em assembleias.
O Assentamento possui dois Centros Comunitários, Luz elétrica nas casas e na rua, telefones particulares e públicos. A Coleta de lixo é feita uma vez por semana realizada pelo Município. Há água encanada para todos e um poço artesiano administrado pela própria comunidade.
A educação fica por conta de uma escola de primeira a quarta série, pré-escola e jardim 1 e 2, alfabetização de Adultos. Os alunos do ensino fundamental de 5ª a 8ª série e os alunos do ensino médio e superior estudam em escolas do Município. O atendimento de saúde é feito pelo Programa de Saúde da Família. O serviço de segurança é o mesmo que atende os moradores da cidade.
O Lazer é realizado de várias formas, o esporte é praticado em áreas comunitárias, há lazer para a juventude, tais como música, teatro e cinema, é comum as pessoas procurarem atividades na cidade, ou na região. As Festas Comemorativas de Fundação do Assentamento e festas folclóricas como Juninas e Folia de Reis sempre são lembradas e comemoradas pela comunidade. E há também, os serviços de Correio, como, por exemplo, os de Caixa Postal.
4.1.4 Legislação
O Assentamento conta com o apoio institucional da Secretaria da Justiça e Cidadania, Fundação ITESP com o acompanhamento técnico, Escritório Regional do ITESP (Instituto de Terra de São Paulo) Araras-SP (19) 35511508/35511542 – Técnico atual Marcos Paladini.
A representação dos assentados é feita através da AMAAS (Associação dos Moradores e Agricultores Familiares do Assentamento Sumaré I e Adjacências) através do telefone (19) 3873-0951 e dos emails: [email protected] ou [email protected].
A Associação AMAS representa o assentamento de moradores da redondeza, é uma associação sem fins lucrativos e Organização não Governamental (ONG) que procura trabalhar com a população local, procurando ajudar a melhorar a qualidade de vida dos assentados. Nesse sentido, ela tem atuação junto aos órgãos públicos, que capta recursos para ajudar a população. No momento, os assentamentos têm um convênio com o setor de Saúde de Sumaré, que procura ajudar a administrar alguns Programas de Saúde da
Família. A AMAS organiza o esporte no Assentamento, possuindo um campo profissional de futebol, um campo de futebol de areia, um barracão para as festas do assentamento, um ótimo escritório para atender os funcionários que atuam na área da saúde e também desenvolveram, juntamente com a Prefeitura, a compra direta de produtos agro-pecuários que são destinados às entidades assistenciais de nosso município. Toda a infraestrutura do assentamento foi conseguida através da luta do povo, organizado pela ONG.
Os assentados, em geral, possuem várias formas de associativismo dos quais os mais comuns são:
Núcleo de produção: a cooperação entre famílias vizinhas, famílias com afinidade ou com relações de consanguinidade;
Centrais de associações: são sociedades, sem fins lucrativos, cujo objetivo principal é coordenar as associações de produtores rurais;
Grupos: quando se refere às atividades de parte dos assentados:
Coletiva: quando se refere a atividades de todos os assentados;
Condomínio: é a forma de apropriação da terra;
Caixa agrícola: também conhecida como uma pré-cooperativa;
Mutirão: forma de associação coletiva para realização de algum tipo de trabalho;
Troca de serviço: forma simples de potencializar determinados serviços realizados por uma família (muitas vezes, há troca de produtos agrícolas no assentamento, ou seja, quem planta mandioca, pode trocar com feijão do vizinho que o sustente ou frutas por legumes, e assim por diante).
Fortalecer as forças produtivas da família;
Incentivar a divisão técnica do trabalho para que as famílias possam utilizar de maneira adequada sua força de trabalho, seus meios de produção, aumentar a escala de comercialização (compra e venda dos produtos) para com isso conseguir um maior poder de barganha comercial;
Agregar maior valor à produção agrícola primária através do beneficiamento e da agroindustrialização (um exemplo disso é que, no Assentamento I, já foi construída uma estufa para os produtores de bananas estocarem sua produção);
Ampliar o grau de organização política e social das famílias assentadas para que possam se relacionar satisfatoriamente com o Estado (Ulisses Nunes, um dos líderes do Assentamento, é Secretário de agricultura da Prefeitura de Sumaré, enquanto Antonio Segura Filho, outro líder, é o gerente contábil do Departamento de Água e Esgotos);
Desenvolver mais solidariedade entre as pessoas (o Núcleo do Assentamento I possui uma Igreja católica dedicada a São João Batista, realizando atividades religiosas e festivas em louvor aos santos de devoção dos assentados).
4.1.5 Análise de dados
Entrevistamos seis professores a respeito de sua metodologia, didática, dificuldades e facilidades encontradas ao ministrar as aulas e, especificamente, alfabetizar no Assentamento.
Através dessa entrevista, constatamos que os professores têm como motivação em suas aulas o desafio de integrar essas crianças na sociedade. Para tanto, o método sociointeracionista é o utilizado, assim, o diálogo é o principal recurso didático, além da utilização de textos, brincadeiras e leitura compartilhada, recursos visuais, como utilização de fantoches. Com a roda da conversa, os professores diagnosticam os conhecimentos prévios dos alunos, assim, segundo eles, há a valorização do conhecimento que o aluno tem, e assim preparam seu plano de aula.
O trabalho de alfabetização é desenvolvido através de livros, músicas, desenhos, apresentações e principalmente da cultura do assentamento (o plantio feito de árvores frutíferas e hortaliças); os professores aproveitam esses momentos para desenvolverem a prática de leitura, através do conhecimento dos nomes de hortaliças e frutas.
Mesmo assim há, ainda, muitas dificuldades a serem transpostas, as principais são a não participação e colaboração dos pais, ou responsáveis, falta de material didático e o transporte para os professores. Mas essas dificuldades não os impedem de continuarem aprimorando-se, para fazer o melhor possível a essas crianças.
Para complementar esses dados, temos alguns gráficos montados a partir do questionário aplicados aos alunos observados.